De tudo o que importa nessa vida Sua lembrança em meu último suspiro Minha Lua, doce Lua minha Em sua estrada havia atalhos Que Fizeram meus olhos caminharem em seus olhos Quando você nasceu, morri Minha vida esvaiu-se Vi seu choro me abraçando E o seu olhar me beijando. E te abracei como nunca, Te beijei como nunca, Lua Estrela! Ah, quem me dera te ver correndo A perder de vista encontrando a felicidade! Quem me dera te ver correndo Para os meus braços nesse mundo frágil… Você foi minha guerreira imortal A luta não foi em vão Linda é sua coroa! Fez-me ver o invisível E era tanta luz a te envolver! Nasceu para cumprir a eterna felicidade Para banhar-me de luz E eu estando morto, revivesse Sempre te alcançarei minha menina Até então te vejo de longe Para te encontrar sempre Sempre e sempre andaremos juntos… *(em memória)
Desejo um coração piedoso. O que não se acha orgulhoso,
o que não sabe fazer contas e que transborda em horas tantas... Ó coração, como me encantas por fazeres das tuas mãos, santas!
Com gestos de amor, tu alivias tais pobres vidas arredias...
E não te cansas, caridoso: o bebê órfão, tu acalantas no doce colo, em noites frias.
*(rima jotabé)
197
ALMA
O sono, um sonho. Desperto Corpo e espírito entrelaçados Pois, os tenho desejados Na jornada, sem ser um deserto
Um oásis esverdeia ao redor Intacto, e assim seja a vida Essencialmente enaltecida E que dela, se extraia o melhor
196
O DESNUDO
Falar do ser desnudo é insidioso Não é como um ser normal em seu viver Conquanto os dois sejam sujeitos a sofrer Por vezes, o desnudo não é maldoso
Não é como julgar o ser perverso O desnudo erra, faz careta e não esconde É enganado nas perguntas que responde Mas, sabendo o fato, sofre em seu reverso
Seus ossos são iguais aos de qualquer criatura Entretanto, totalmente decifráveis Acusam o corpo em mentiras (são instáveis) Ao serem incitados por sua mente in natura
Os ossos que mantém a mentira: os do rosto Os que sustentam o olhar em cólera serena E o ranger de dentes em sintonia plena Aos desnudos são os ossos do desgosto:
Ossos do ofício.
200
BRUMAS DE OUTONO
raia a aurora em brumas de outono um véu cobre meus olhos nesse dia, mas um vento permeia como raio de luz a dizer-me: não tens mais um coração seco como folhas amareladas caindo no chão, sem sentido no caminhar
as folhas caem e pousam mexem-se e remexem-se no chão levadas pelo vento
quando caio, pouso e me levanto não me remexo, apenas sigo, apenas sinto o sumir das brumas e o ar fresco de um dia de outono.
198
EXANIMATIONES INCIDAMOS IV
Há um chicote que fere
— Prisioneiro e carcereiro porque a tua maldade não cessa?
Há lágrimas num sorriso Quem pode ver, senão os céus!
Há solidão na multidão O que transita num mundo sem cor
Há um grito mudo Quem ouve a silenciosa dor?
Há um pedido decifrável é urgente decifremos a tempo
Há alguém para alguém E se não houver?
Há esperança
184
RETA VELHA
Deu a mim as cousas boas… E eu as tratei tão corriqueiras... Serenamente sobre a palha das esteiras Me esquecia desse mundo de pessoas
Caneca velha carregada de lembranças Pão na manteiga e aquela atenção Do seu Jacinto me falando ao coração Sábias falas, como as bem-aventuranças
Naquela roça aprendi simplicidade Com a família desfrutei da vida boa Lá vivi com dona Zeca em pessoa Uma mulher de riso fácil à liberdade
Família grande; que aperto, uma saudade Da Reta Velha tão batida e sem luz Dessa herança minha memória produz Uma vontade de voltar na minha idade
210
MEDO DE TE AMAR
Quanto medo tive de te amar Quantos perigos despertaste em mim Tive medo de ser teu Medo da recusa Medo de ter medo de te amar Ainda assim Amei-te muito Amei-te mais que eu
De tanto medo de te amar Amei-te com medo de tudo Por isso, em tudo falhei
Por ter te amado tanto Esqueci da vida Esqueci de mim...
175
JARDIM BOTÂNICO – PRELÚDIO
- Ⅰ - Há um orvalho que desce e corre em direção a carne No inverno: senti à meia-noite na praça Itália No andar apressado, na solidão da noite O vapor gélido persegue a alma e diz: — Passo manso que te alcanço, apressa-te para eu te ferir os ossos na esquina da Sabbag Ruas dizem o destino das lareiras: prédios redondos Há lembranças impregnadas do inverno curitibano Dos estrangeiros acolhidos no jardim do Éden
- ⅠⅠ - Há uma brisa suave e doce nos dias de verão Que se renovam a cada manhã: senti ao meio-dia no Botânico Deitado na relva, afagado pelo céu Ventos levitam a mente pesada, dissipa o cinzento Os olhos se abrem ante o fulgor do dia Um espelho d’água reflete o infinito E os mistérios da vida se abrem no pergaminho da esperança Há uma pequena mata com trilhas que levam para além da morte Penso ser aos andantes, o renovar da carne e o conservar dos ossos
- ⅠⅠⅠ - Retas de pedras, abertas sem ermo O sol se levanta e a relva floresce O viver da lembrança levada a bom termo Em paz, na esperança, a vida efervesce
Há uma saudade que fica na esquina da memória Olho e apenas varais se acham além da realidade
Os dias se vão e o passado implica No que foi, e o que pode ser A mente explica, mas a saudade fica Da cerejeira: a sua sombra ter
206
ÉGIDE
Das torres do mundo Do alto vejo longe Longe de todos os olhos O mundo dos outros
No meu mundo — ais Não vejo das torres Preciso dos olhos teus Para decifrar meu mundo
Das torres do mundo Longe de todos os olhos O que me importa Os ais que vê em mim
Em súplica recorro Porque não vejo e sinto Preciso dos olhos teus Saber porque sinto
Que seja num corcel Que venhas galopante Decifrar o que vês Das torres do mundo
215
O PESSIMISTA
Há um defunto sempre pronto na boca de um pessimista Ah, morte morte certa é a morte! Oh, vida vida breve é a vida que segue de forma atabalhoada!
Entre mais ou menos ou quem sabe, toca-se as horas Mas tudo é nebuloso, emperrado e incerto Nesse mundo difícil de dar certo E quem pensar o contrário é louco varrido