Lista de Poemas

NOITE EM CLARO

A noite é longa

Quando a torneira

Fica pingando
173

NÓS

Nós, que olhamos a vida torta
Olhamos o mundo envergado
Julgamos a todo momento
Jogamos a merda no vento
Somos cegos em nós mesmos

Nós, que culpamos os outros
Culpamos a Deus
Mas não damos esmolas
Somos homens vazios
Homens tortos
Secos na criação dos laços
Laços feitos ocos e doídos
De doídas picadas tóxicas

Nós, que não enxergamos
O caminho do sol
A morada do bem
A luz do farol
Somos homens empedrados
Crias de um solo árido
Bebemos fel e cuspimos 
O sangue inocente desprezado

Nós somos homens reais
Esperando a bomba atômica
Cheios de pelancas
Ressecadas pelo sal da amargura
Curtidas no sol do deserto
Coladas na carne pela inveja

Ai de nós, impiedosos!
Corações descarnados
Humanos sem humanidade
Um leito sombrio nos abraça 

                      'Porque és pó e em pó hás de tornar-se' 

Um sono imerecido nos espera, nos espera

                      'Porque és pó e em pó hás de tornar-se'

Por a palavra ser verdadeira
Por a vida ser uma ladeira
E a quarta-feira ser de cinzas

 
180

BARRACO

Aqui tem poesia
Porão de tábuas
Sol inabitável
Com musgos verticais
Detestável aos mortais

Tem poesia
Sete num cômodo
Mais bichos de estimação
Passeando nos pratos
Empilhados no canto

Aqui a boneca fala
Brinca consigo mesmo
Faltando um braço
Recita poemas e vaga
Na inocência amarga

Em preto e branco
A poesia faz chama
Sacia com um verso no prato
De sete sentados sem cadeira
Na mesa posta sem mesa
Sobram espíritos e vozes
Declamarem em cada olhar

Aqui a poesia é nua
Brinca no beco, flutua
Aqui a poesia sonha:
Atriz, professora
Modelo, cantora...
Aqui a poesia acorda para sobreviver
161

MINAS GERAIS

Capelas
Fuscas
La
     dei
           ras
Queijos
Beijos
191

MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO

Enquanto ouço o silêncio aportado
Um grito ecoa no mundo
Tão persistente que ensurdece
Tão loucamente, e padece
Na utopia desprezada
O silêncio arregalado vela
A insuportável dor da perfeição

Ah! Se essa fábula existisse
As lágrimas seriam de amor
A criança não sentiria dor...
Ah! Se o mundo soubesse
O que fazemos escondidos
Não haveriam feridos
Nem as matas queimariam...

Com o silêncio aportado
Da janela, vejo o sombrio
Um passado que não se apaga:
Ossos andando pelos campos

O passado, às vezes, são como galhos secos
Numa memória contida por baques
É como uma rua com vários becos
Como uma pena sofrendo ataques

Uma vida nova no mundo
Não faz o passado morrer

Porque no mundo está a ruína
Do sangue que traz a herança
A mim só resta a morfina
E não perder a esperança
174

ÉGIDE

Das torres do mundo
Do alto vejo longe
Longe de todos os olhos
O mundo dos outros

No meu mundo — ais
Não vejo das torres
Preciso dos olhos teus
Para decifrar meu mundo

Das torres do mundo 
Longe de todos os olhos
O que me importa
Os ais que vê em mim     

Em súplica recorro
Porque não vejo e sinto
Preciso dos olhos teus
Saber porque sinto

Que seja num corcel
Que venhas galopante
Decifrar o que vês
Das torres do mundo

         
200

NÃO ME ABANDONE

Céus, esperança!
Não aprontes comigo
Se fores embora
Deixares minha vida
Quem de mim cuidará?
209

TODOS OS DIAS SÃO DIAS

Tão logo aponta o dia, o cantar do pardal
Escolho o destino deste mundo, que me vem em retalhos 
E me diz a rotina dos dias, do levantar-se e cursar

Começo a remendar uma estrada
Para caminhar do bocejo ao sono
Um tapete vermelho
Quero um tapete vermelho sobre os remendos
Um sossego, sossego de rei
Ao saborear a alegria do povo
Um banquete diário quero
Um caminho notável
Aconchego da igualdade

Remendo meus dias, uso linha forte…
São dias de renovo, dias de arrepender-se 
Dias de perdoar, sim, de esquecer 

   BOM DIA!

Dias de acolher e descansar
   De dizer palavras mágicas
Dias de acalentos
   Incansáveis dias
Diariamente  
   Dias de criança
Inesgotáveis
   Afáveis
Inefáveis, escolho

 
196

MEDO DE TE AMAR

Quanto medo tive de te amar
Quantos perigos despertaste em mim
Tive medo de ser teu
Medo da recusa
Medo de ter medo de te amar
Ainda assim
Amei-te muito
Amei-te mais que eu

De tanto medo de te amar
Amei-te com medo de tudo
Por isso, em tudo falhei

Por ter te amado tanto
Esqueci da vida
Esqueci de mim...

160

AMOR ANALFABETO

Se eu pudesse em uma palavra abrandar seu dia
Se num pequeno gesto eu fizesse você sorrir
Sentiria sua ternura e meu prazer conseguiria
Ser maior que minha tristeza no porvir 

Porque desejo a suavidade de um momento
Paz no coração ao suspirar sua beleza
A leveza de andar em contentamento
Vencendo a real vida com destreza

Desejo a plenitude da sua serenidade
Impelir o dia ruim a sair do meu caminho
Desejo os ares livres da maldade
Vendo o sol realçar-te de puro linho

Tão delicada! Suas mãos me tocando como veludo
Tão amada! Sua inocência me conquistando por completo
Pois, que ao conseguir abrandar seu dia transmudo
Ao fazer você sorrir, sinto o meu amor analfabeto 

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