A última vez que amei
Asfixiar todas as inseguranças
Nas moléculas de celulose
Com caneta preta de ponta fina
Fazer tributo às árvores
Com as palavras
Da língua mãe
Desenhadas no papel
Que irão destrinchar
Dúvidas
Dívidas
Dores
Das conversas
Que não ocorreram
O silêncio
Dos toques
A pulsação
Das vozes
O último "eu te amo"
Sem adeus
Espirro para dentro
sinto dor
e não sei se é fisiológico
ou fruto da invenção
de quem já não quer mais viver
dentro desse corpo
faço leituras profundas
dos corpos alheios
sempre os atribuindo beleza
alimento e pulverizo
mas olho para mim
e a mente ruidosa
se traduz em desacordo
pede desapropriação corporal
não resisto
ouço chamar
não temo
sorrio dizendo:
"derrube, fragmente,
me cause demolição"
sou só poeira
ATCHIM
Micorrizas são fungos associados a raízes
estou em arrepios
o corpo tocado
por formigamentos
entre extremos
causas múltiplas
a perda de algo
o desejo por alguém
a aniquilação de si mesma
micorrizas nutrem
o novo
e sustentam
o que já estava
instalado
a gestão desse espaço agricultável
frutifica o que me parece um desafio
acidificando o pH do solo
para possibilitar a fuga do tempo
com beijos incompletos
e uma história de amor
entre simbiontes
Virginiana que não acredita em astrologia
Há uma ânsia por amor
E essa se revela
Na contradição do grito
Que sai da boca da mulher
Entre o lamber do desejo
E gemidos capturados
Pelo labirinto coclear
Membranas atravessadas
Pelo chá de camomila
Acalma, desorienta, germina o ardor
Quando, na verdade
Se deve ler: o amor
Me alimento do desamor
E da descrença em amar
Transito na estrada
Do auto-ódio
E repulsa por mim
Caminho para a frustração
Tábua Prego Tábua
Prego Prego
Tábua Tábua
Prego Prego
Tábua Tábua
A ponte entre mim
E o amor, se constrói
Entre questionamentos
Inseguranças
& dilacerações
Sobra pouco espaço
Para pisar com segurança
O amor é para quem não analisa
E eu sempre fui virginiana demais
Ao pôr do sol a vida é tão sofrida
escrevo quando parece
que tudo
o enorme nada
vai ruir, desmoronar
e me fragmentar em pedacinhos
granulados de mim
passeando pela praça
entre meia dúzia
de árvores da família Fabaceae
reflito
ao pôr do sol
a vida é tão sofrida
tão saturada
mas também tão sexy
num sábado que tudo abala
até quando você insiste
em ser inabalável
quando te atingem
com tapas, tomates e tiros
você diz
"está tudo bem aqui"
você se distrai
assiste, lê, ouve
emudece o barulho
que transcende
a própria fisiologia
o som não se propaga
no vácuo desse espaço
o ambiente amarelo
vestígio do dia quente
faz querer viver
e me lembra que não tenho vida
só existo enquanto escrevo
palavras vazias
e sem sentido
dançam, se conectam
e criam narrativas
fictícias e reais
se enlaçam entre os meu dedos
formando uma sopa de letrinhas
onde se lê "eu-lírico"
engulo tudo
De ano novo vou querer um cabo de aço para me segurar
Um desafio astronômico
De mudar aquilo
Que eu queria que tivesse sido
E não foi
A Terra translacionou rápido demais
As rotações me nausearam
Todo esse movimento
Me afungentou
Para um canto de mim
Onde a gravidade é mais forte
E me puxa com força para o chão
Das lamentações e inaptidões
Meu desejo é flutuar
Ver de longe para adentrar
E descobrir tudo o que já conheço
Com outra retina, língua e pele
Experimentar a vida de fora
Ainda que eu esteja dentro
Precisamos falar sobre a raiva
Aquilo que é de mais difícil admissão
Duro, rígido, solidificado feito concreto
A raiva pelo rosto da mulher
Que se assemelha ao meu
Disputamos pequenos espaços
Pois não nos permitem coexistir
Como ousa roubar meus traços?
Por que me vende um espelho?
E por que odeio a imagem que ele reflete?
Porque sou eu
Porque sou você
Porque nós somos
Aquelas não-brancas
A negação de tudo que é belo
Por que elas não olham nos meus olhos?
Por que não me escolhem?
Por que tenho medo delas?
Porque duvido de tudo
Porque não sou escura o bastante
Porque não sou clara o suficiente
Porque não tenho chão para pisar
Porque não pertenço a grupo algum
Porque nenhum deles me quer
Porque a cor é toda errada
Carrego junto dela o privilégio
Da manhã
E as absurdas violências
Da noite
Mas eu vivo o dia todo, não vivo?
Não escolho um período para existir
Sou dia e noite
Noite o bastante para desagradar o dia
Dia demais para ser acolhida pela noite
No meio disso tudo
O que sinto é raiva
Da minha incompletude
De quem me criou incompleta
Daqueles que desenharam
O incompleto do meu corpo
E multiplicaram o meu rosto
Em tantas mil mulheres
Que me fazem lembrar
Da minha raiva
Expressa em cada linha angular
Que vem e vai
Do fio de cabelo a
Gengiva escura
Posso ler as linhas da sua mão
Marco as minhas digitais
Nas folhas de papel
Que irão tocar você
Para que assim
O [nosso] toque
Se faça
No vão das linhas
Dos meu dedos
Que vão de encontro
Aos seus
Mapa
Tinha de ser construído um mapa
Guiando o caminho de casa
Daquela casa
No meio do peito
Sem parede ou janela
Lugar onde não há pressa
Mas se ouve um "Tum-Tum"
E as linhas se combinam
Para formar o seu sorriso
Que sinaliza a passagem de casa
Seu lar, você
Úmido Desejo
Dos teus olhos alagados
Obtém-se a sede
Da tua voz
O canto feliz do pássaro engaiolado
Da tua boca
O meu desejo efervescente
De te sentir mulher
Molhada, nua
Suada, quente