Finalista em 2015 no Prêmio SESC de Literatura, na categoria contos. Formado em Filosofia pela UFPR, com Especialização em YOGA pela UNIBEM e com um MBA em RTVC.
Temos o direito a uma vida anônima Direito de não ter descendentes De não deixar patrimônio. Direito de recusar o sucesso A fama A infâmia A fome. Temos o direito a não possuir Coisa alguma E nem pela coisa ser possuído. Temos o direito ao esquecimento Ao nome oculto Ao silêncio Ao túmulo aberto e sem lápide. Temos o direito A ser o que somos - o ser de nada carece - E ser o que se é Já basta Mesmo bastardo Ou bardo. Direito temos de não ser rebanhos Legiões Colegiados Claque Falanges Pandilhas. Temos o direito a prescindir dos direitos Das leis Da outorga Da norma. Apenas pela vontade de não compactuar.
Temos o direito a uma vida anônima Direito de não ter descendentes De não deixar patrimônio. Direito de recusar o sucesso A fama A infâmia A fome. Temos o direito a não possuir Coisa alguma E nem pela coisa ser possuído. Temos o direito ao esquecimento Ao nome oculto Ao silêncio Ao túmulo aberto e sem lápide. Temos o direito A ser o que somos - o ser de nada carece - E ser o que se é Já basta Mesmo bastardo Ou bardo. Direito temos de não ser rebanhos Legiões Colegiados Claque Falanges Pandilhas. Temos o direito a prescindir dos direitos Das leis Da outorga Da norma. Apenas pela vontade de não compactuar.
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XIX - Me visto com os trajes de Mefisto...
XIX
Me visto com os trajes de Mefisto trajes fáusticos tragédias farsescas misturadas ao verde do absinto – me sinto em trajetória de colisão coalisão, coliseu um Eliseu coagindo coadjuvando Elias e Profetas conjurando leões e gladiadores e tantas outras dores e comédias licores, rancores – libando em nome desta ciência este saber cheio de reentrâncias umbrais, tundras, tumbas que sabe da verdade apenas as suas quimeras esta miséria que assola assalta, esfola esta fé tão esquecida ainda úmida do Lete ainda única no Leste ainda unida ao ente – esta criatura nua desprovida de vestes de vestais e ventos esta criatura vestida em carnes de Adão e Eva vertida, invertida, indevida individualizada institucionalizada esta criatura que se crê dura concreta, material uma alavanca sem ponto nem apoio sem força para o movimento deslocamentos, oscilações alucinação divina, desmedida quase finda – me visto com as vestes de Mefisto não suporto o pudor da nudez esta nietzschidez que nos põe à prova e a revoltas e a retornos!
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XLIX - Durmo com o desejo...
XLIX
Durmo com o desejo incontido pelo esquecimento. Mas sonho este mundo por decisões adiadas : drenado pelo sono : aturdido pelo sonho Desperto em um mundo que vigia nossa vigília injetando no cotidiano exigências que a necessidade não prevê. Sigo o fluxo da ansiedade reprimindo em mim o suicídio que ora ou outra espia a consciência que tarda em partilhar o pão : hesito em dormir de novo : evito olhar o espelho : êxito! é o que procuro no pensamento; mas sei que o que me toca é o silêncio que roça os entremeios – o limiar entre os seios – deste fenômeno que anseio não mais tocar.
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XXXIV - Sonhei que trabalhava pro De Niro...
XXXIV
Sonhei que trabalhava pro De Niro e tinha no pulso esquerdo um grande e maciço relógio de ouro. Também cuspi em seu banheiro o refluxo de bílis de alguma indigestão enquanto homens negros desconhecidos no alto de uma escadaria debochavam da alvura da minha pele polonesa. Ri-me com eles até acordar.
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I - De frente para o leste, percebo...
I
De frente para o leste, percebo apenas o silêncio da brisa oceânica e esta luz que dá sombras ao olhar. [Ruídos roídos rumor de humores gritos de ritos me despertam, chamam, invocam!]. Mas tenho medo de dar as costas para este mar e este sol. Tenho medo de volver o corpo e encarar este horizonte em desalinho. Nada sei de picos e aclives de súbitas subidas trilhas entrincheiradas entre escarpas e fissuras rochosas. [A verticalidade da existência me espanta!] O sol ao meio-dia nos iguala : humanos, animais, vegetais, minerais Substância somos da mesma natureza do mesmo íntimo e único espaço. [Ruídos e rumores!]. Mas não há mais como ignorar : os semelhantes se convocam a confraria se aglutina buscam o mesmo ar rarefeito. Giro o olhar ao norte numa distração dissimulada. As narinas distinguem os odores da floresta que se insinuam na maresia da brisa marinha. O sol declina. Põe coroa nos cumes. E direção no olhar. [Humores e ritos!]. Giro o corpo num ásana preguiçoso e me detenho no contrário. E temendo não ceder mais aos meus temores miro, de corpo inteiro, a trilha dourada que o crepúsculo baixa. E numa intuição serpentina e luciférica me pergunto espantado : será este o meu caminho?
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XXV - Não compreendo as ferramentas do marketing...
XXV
Não compreendo as ferramentas do marketing; não entendo os processos corporativos; desconheço os princípios da economia de mercado. Não sei construir uma carreira profissional; não me enquadro nos propósitos do consumo; não sei lidar com dinheiro ou propriedades; me aborreço com as requisições do imposto de renda. O único saber que tenho é que a vida não cabe numa planilha do Excel, não há estratégias de comunicação para a poesia; não há um branding para o poema. O único que sei é que a Arte não é rentável, não é um produto de mercado e nem um bem de consumo. A poesia não é uma propriedade privada, não é um ativo ou uma Letra de Bacen. A ela devemos tributar apenas nossa atenção a singela presença do espírito, pois se há propósito na Arte e na poesia é o seu Plus Ultra transformador que desperta o insone de sua letargia.
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CERIMÔMIA DO CHÁ
No delicado gesto da gueixa, Nome, cujo doce aroma, exala, Vejo o ato de criação do mundo Pela oculta deusa primeva;
A cerimônia do chá é uma metáfora Onde esplende o sentido da existência.
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DEFESA PARLAMENTÁRIA DO IMAGINÁRIO
Nesta situação de pânico criado pela pandemia, Pela crise sanitária, Pela insensatez política e enfermidade ética, Geopolíticas movediças, Realidades íntimas Reféns da realidade digital; Nesta conjuntura de conspirações urdidas Nos concílios neopentecostais, De narcotráfico, de necropolíticas, de negacionismos, De incubação de sonhos diretivos Pelos estrategos do marketing comercial, Pelas ameaças dos CEO’s das multinacionais, Egrégoras invadidas e conquistadas pelo ódio irracional, Pelo estruturalismo patriarcal, Preconceitos de classe, de raça, de credo; Neste instante de monitoramento de perfis, Cancelamentos de IPs, de CPFs, de antinomias, Genocídios, ecocídios, democracídios, De hegemonias alucinadas e supremacias emasculadas; Neste culto ao caos, aos algoritmos, Aos mitos elevados e anjos caídos, As personalidades caiadas, Aos gurus virtuais e avatares binários, Às informações e repertórios falsificados, A palavra plena de lascívia, insultos, calúnias; Neste momento de efeitos relâmpagos, Guerras hibridas, Bombas semióticas, De eventos sem causa, De artistas sem obras, De poemas sem poesia, ...! Temos a sagacidade de nossa atenção Sequestrada diariamente Pelos fragmentos difusos e confusos Dos fatos circundantes; Temos sido nós poetas, Perturbados em nossa estética Pelas mensagens subliminares Dos lunares de Helheim; Constantemente convocados somos A defender o criadouro essencial da humanidade, A preservar a singularidade subjetiva e subversiva Que residem além das fronteiras dos mundos, Estimulados somos a confrontar nossas próprias crenças, Certezas, teses, ideologias, cosmovisões, projetos & projéteis; Temos sido conjurados a tomar partido, A escolher armas, empunhar bandeiras, cantar hinos próprios, A nos conduzir com diligência no discernimento radical, A agir mais avante do verbo lírico & límbico; Temos sido requeridos no parlamento da consciência humana, Exigidos como testemunhas, escribas, visionários, Na furiosa & febril pertinácia das ruas; Temos sido instados a produzir uma poética insubmissa, Poderosamente valente para romper a sinergia hipnótica Das narrativas e discursos distópicos; Não podemos permitir que o nosso imaginário cosmiquântico Quede-se cativo do fatigante ensaio melancólico, Não podemos consentir que o nosso verbo Distraia-se com amenidades domésticas & umbilicais, Não devemos conceder espaço no verso À verborragia do inconsciente coletivo; Devemos nós poetas estar um passo à frente do nosso tempo, Um passo adiante dos legisladores da liberdade, Um passo mais rápido que todos os fascistas E de todos aqueles que pretendem avassalar nossos sonhos E furtar o ânimo de nossas esperanças; É por isso que somos poetas E não jagunços de Tio Sam, Sacerdotes de Baal, servilões dos Arcontes, Ou bonifrates de qualquer estúpido mito Surgido dos intestinos do neoliberalismo.
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LENNONÓPTICON
Ezra para ser brincarreira Um berimbaú obaobaobá umbaúba InFesta gincigana caiana Encontro imbicado de umbigosamigos Abraxás sedosaudosos cardiorixás Beiçobeijos trêspracasar trêspralá. Ezra pra ser reencontrâncias Atomicostumescidos ocuolhares Romanticamantestemunhados em Fotopoéticos selfiesticados. Ezra pra ser-pentino Flamígera ilha paixão Cama-mesa-banho-de-espuma & plumas Felaciosamente r-éthos Delibelicosamente policunilíguis Hímen-so penissauro Flamingostranquídeos. Ezra pra ser tão Pimentagrestêmpero Pêra, maçaneta pêss-ego-trip chantili tim-tim, Mas deu ruim rui ruína Deu-s-nos-acudamém! Rolobombow! Um @rroubobo De ciomeira, cuzcuspidez Por 69 suttraconexões frustrafudidas Nas zonas eróvaginas lunares Lugares infrenquinstáveis Quando amaré desce-sente Rubibedo bedelho tragitrancado. Ezra para ser ABC/DC Mas quem xvídeontologicamente sabe Acexo livre ao umbráulio necas Nem pra Men-instruo esclaremanhecidos.
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XLI - Mais uma noite insone...
XLI
Mais uma noite insone... entre um espasmo e outro espanto sofro o assédio convulsivo da ansiedade. A lucidez da sensação transitando incontido na eletricidade dos nervos pilha ainda mais os medos do devir indevido. O escuro do quarto põe ruídos turvos na imaginação expectante mas os ouvidos olvidam da claridade que a cortina fresta. Vencido pela inércia amanheço roído por quimeras: Quisera Quitéria quitasse esses anátemas amalgamados em minhas células! Mas os pássaros do parque alvorecem o dia na janela, e, assombrado, vejo-me só.