Finalista em 2015 no Prêmio SESC de Literatura, na categoria contos. Formado em Filosofia pela UFPR, com Especialização em YOGA pela UNIBEM e com um MBA em RTVC.
Temos o direito a uma vida anônima Direito de não ter descendentes De não deixar patrimônio. Direito de recusar o sucesso A fama A infâmia A fome. Temos o direito a não possuir Coisa alguma E nem pela coisa ser possuído. Temos o direito ao esquecimento Ao nome oculto Ao silêncio Ao túmulo aberto e sem lápide. Temos o direito A ser o que somos - o ser de nada carece - E ser o que se é Já basta Mesmo bastardo Ou bardo. Direito temos de não ser rebanhos Legiões Colegiados Claque Falanges Pandilhas. Temos o direito a prescindir dos direitos Das leis Da outorga Da norma. Apenas pela vontade de não compactuar.
Sonhei que trabalhava pro De Niro e tinha no pulso esquerdo um grande e maciço relógio de ouro. Também cuspi em seu banheiro o refluxo de bílis de alguma indigestão enquanto homens negros desconhecidos no alto de uma escadaria debochavam da alvura da minha pele polonesa. Ri-me com eles até acordar.
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XLIX - Durmo com o desejo...
XLIX
Durmo com o desejo incontido pelo esquecimento. Mas sonho este mundo por decisões adiadas : drenado pelo sono : aturdido pelo sonho Desperto em um mundo que vigia nossa vigília injetando no cotidiano exigências que a necessidade não prevê. Sigo o fluxo da ansiedade reprimindo em mim o suicídio que ora ou outra espia a consciência que tarda em partilhar o pão : hesito em dormir de novo : evito olhar o espelho : êxito! é o que procuro no pensamento; mas sei que o que me toca é o silêncio que roça os entremeios – o limiar entre os seios – deste fenômeno que anseio não mais tocar.
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XLI - Mais uma noite insone...
XLI
Mais uma noite insone... entre um espasmo e outro espanto sofro o assédio convulsivo da ansiedade. A lucidez da sensação transitando incontido na eletricidade dos nervos pilha ainda mais os medos do devir indevido. O escuro do quarto põe ruídos turvos na imaginação expectante mas os ouvidos olvidam da claridade que a cortina fresta. Vencido pela inércia amanheço roído por quimeras: Quisera Quitéria quitasse esses anátemas amalgamados em minhas células! Mas os pássaros do parque alvorecem o dia na janela, e, assombrado, vejo-me só.
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XXV - Não compreendo as ferramentas do marketing...
XXV
Não compreendo as ferramentas do marketing; não entendo os processos corporativos; desconheço os princípios da economia de mercado. Não sei construir uma carreira profissional; não me enquadro nos propósitos do consumo; não sei lidar com dinheiro ou propriedades; me aborreço com as requisições do imposto de renda. O único saber que tenho é que a vida não cabe numa planilha do Excel, não há estratégias de comunicação para a poesia; não há um branding para o poema. O único que sei é que a Arte não é rentável, não é um produto de mercado e nem um bem de consumo. A poesia não é uma propriedade privada, não é um ativo ou uma Letra de Bacen. A ela devemos tributar apenas nossa atenção a singela presença do espírito, pois se há propósito na Arte e na poesia é o seu Plus Ultra transformador que desperta o insone de sua letargia.
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XIX - Me visto com os trajes de Mefisto...
XIX
Me visto com os trajes de Mefisto trajes fáusticos tragédias farsescas misturadas ao verde do absinto – me sinto em trajetória de colisão coalisão, coliseu um Eliseu coagindo coadjuvando Elias e Profetas conjurando leões e gladiadores e tantas outras dores e comédias licores, rancores – libando em nome desta ciência este saber cheio de reentrâncias umbrais, tundras, tumbas que sabe da verdade apenas as suas quimeras esta miséria que assola assalta, esfola esta fé tão esquecida ainda úmida do Lete ainda única no Leste ainda unida ao ente – esta criatura nua desprovida de vestes de vestais e ventos esta criatura vestida em carnes de Adão e Eva vertida, invertida, indevida individualizada institucionalizada esta criatura que se crê dura concreta, material uma alavanca sem ponto nem apoio sem força para o movimento deslocamentos, oscilações alucinação divina, desmedida quase finda – me visto com as vestes de Mefisto não suporto o pudor da nudez esta nietzschidez que nos põe à prova e a revoltas e a retornos!
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I - De frente para o leste, percebo...
I
De frente para o leste, percebo apenas o silêncio da brisa oceânica e esta luz que dá sombras ao olhar. [Ruídos roídos rumor de humores gritos de ritos me despertam, chamam, invocam!]. Mas tenho medo de dar as costas para este mar e este sol. Tenho medo de volver o corpo e encarar este horizonte em desalinho. Nada sei de picos e aclives de súbitas subidas trilhas entrincheiradas entre escarpas e fissuras rochosas. [A verticalidade da existência me espanta!] O sol ao meio-dia nos iguala : humanos, animais, vegetais, minerais Substância somos da mesma natureza do mesmo íntimo e único espaço. [Ruídos e rumores!]. Mas não há mais como ignorar : os semelhantes se convocam a confraria se aglutina buscam o mesmo ar rarefeito. Giro o olhar ao norte numa distração dissimulada. As narinas distinguem os odores da floresta que se insinuam na maresia da brisa marinha. O sol declina. Põe coroa nos cumes. E direção no olhar. [Humores e ritos!]. Giro o corpo num ásana preguiçoso e me detenho no contrário. E temendo não ceder mais aos meus temores miro, de corpo inteiro, a trilha dourada que o crepúsculo baixa. E numa intuição serpentina e luciférica me pergunto espantado : será este o meu caminho?