Francis Kurkievicz

Francis Kurkievicz

n. 1965 BR BR

Finalista em 2015 no Prêmio SESC de Literatura, na categoria contos. Formado em Filosofia pela UFPR, com Especialização em YOGA pela UNIBEM e com um MBA em RTVC.

n. 1965-09-27

Perfil
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O DIREITO DE NÃO DESEJAR

Temos o direito a uma vida anônima
Direito de não ter descendentes
De não deixar patrimônio.
Direito de recusar o sucesso
A fama
A infâmia
A fome.
Temos o direito a não possuir
Coisa alguma
E nem pela coisa ser possuído.
Temos o direito ao esquecimento
Ao nome oculto
Ao silêncio
Ao túmulo aberto e sem lápide.
Temos o direito
A ser o que somos - o ser de nada carece -
E ser o que se é
Já basta
Mesmo bastardo
Ou bardo.
Direito temos de não ser rebanhos
Legiões
Colegiados
Claque
Falanges
Pandilhas.
Temos o direito a prescindir dos direitos
Das leis
Da outorga
Da norma.
Apenas pela vontade de não compactuar.
 
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Biografia

Poemas

6

XXXIV - Sonhei que trabalhava pro De Niro...

XXXIV

Sonhei que trabalhava pro De Niro
e tinha no pulso esquerdo
um grande e maciço
relógio de ouro.
Também cuspi em seu banheiro
o refluxo de bílis de alguma indigestão
enquanto homens negros desconhecidos
no alto de uma escadaria
debochavam da alvura
da minha pele polonesa.
 Ri-me com eles até acordar.
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XLIX - Durmo com o desejo...

XLIX

Durmo com o desejo
incontido pelo esquecimento.
Mas sonho este mundo
por decisões adiadas
            : drenado pelo sono
            : aturdido pelo sonho
Desperto em um mundo
que vigia nossa vigília
injetando no cotidiano
exigências que a necessidade não prevê.
Sigo o fluxo da ansiedade
reprimindo em mim o suicídio
que ora ou outra
espia a consciência
que tarda em partilhar o pão
            : hesito em dormir de novo
            : evito olhar o espelho
            : êxito! é o que procuro no pensamento;
mas sei que o que me toca
é o silêncio que roça
os entremeios
– o limiar entre os seios –
deste fenômeno que anseio
não mais tocar.
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XLI - Mais uma noite insone...

XLI

Mais uma noite insone...
entre um espasmo
e outro espanto
sofro o assédio
convulsivo da ansiedade.
A lucidez da sensação
transitando incontido
na eletricidade dos nervos
pilha ainda mais os medos
do devir indevido.
O escuro do quarto
põe ruídos turvos
na imaginação expectante
mas os ouvidos olvidam
da claridade que a cortina fresta.
Vencido pela inércia
amanheço roído por quimeras:
Quisera Quitéria quitasse
esses anátemas amalgamados
em minhas células!
Mas os pássaros do parque
alvorecem o dia na janela,
e, assombrado,
vejo-me só.
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XXV - Não compreendo as ferramentas do marketing...

XXV

Não compreendo as ferramentas do marketing;
não entendo os processos corporativos;
desconheço os princípios da economia de mercado.
Não sei construir uma carreira profissional;
não me enquadro nos propósitos do consumo;
não sei lidar com dinheiro ou propriedades;
me aborreço com as requisições do imposto de renda.
O único saber que tenho
é que a vida não cabe numa planilha do Excel,
não há estratégias de comunicação para a poesia;
não há um branding para o poema.
O único que sei é que
a Arte não é rentável,
não é um produto de mercado
e nem um bem de consumo.
A poesia não é uma propriedade privada,
não é um ativo ou uma Letra de Bacen.
A ela devemos tributar apenas nossa atenção
a singela presença do espírito,
pois se há propósito na Arte e na poesia
é o seu Plus Ultra transformador
que desperta o insone de sua letargia.
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XIX - Me visto com os trajes de Mefisto...

XIX

Me visto com os trajes de Mefisto
trajes fáusticos
tragédias farsescas
misturadas ao verde do absinto –
me sinto em trajetória de colisão
coalisão, coliseu
um Eliseu coagindo
coadjuvando Elias e Profetas
conjurando leões e gladiadores
e tantas outras dores e comédias
licores, rancores –
libando em nome desta ciência
este saber cheio de reentrâncias
umbrais, tundras, tumbas
que sabe da verdade
apenas as suas quimeras
esta miséria que assola
assalta, esfola
esta fé tão esquecida
ainda úmida do Lete
ainda única no Leste
ainda unida ao ente –
esta criatura nua
desprovida de vestes
de vestais e ventos
esta criatura vestida
em carnes de Adão e Eva
vertida, invertida, indevida
individualizada
institucionalizada
esta criatura que se crê dura
concreta, material
uma alavanca sem ponto nem apoio
sem força para o movimento
deslocamentos, oscilações
alucinação divina, desmedida
quase finda –
me visto com as vestes de Mefisto
não suporto o pudor da nudez
esta nietzschidez que nos põe à prova
e a revoltas e a retornos!
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I - De frente para o leste, percebo...

I

De frente para o leste, percebo
apenas o silêncio da brisa oceânica
e esta luz que dá sombras ao olhar.
            [Ruídos roídos
            rumor de humores
            gritos de ritos
            me despertam, chamam, invocam!].
Mas tenho medo de dar as costas para este mar e este sol.
Tenho medo de volver o corpo
e encarar este horizonte em desalinho.
Nada sei de picos e aclives
de súbitas subidas
trilhas entrincheiradas
entre escarpas e fissuras rochosas.
            [A verticalidade da existência me espanta!]
O sol ao meio-dia nos iguala
            : humanos, animais, vegetais, minerais
            Substância somos da mesma natureza
            do mesmo íntimo e único espaço.
            [Ruídos e rumores!].
Mas não há mais como ignorar
: os semelhantes se convocam
a confraria se aglutina
buscam o mesmo ar rarefeito.
Giro o olhar ao norte
numa distração dissimulada.
As narinas distinguem os odores da floresta
que se insinuam
na maresia da brisa marinha.
O sol declina.
Põe coroa nos cumes.
E direção no olhar.
            [Humores e ritos!].
Giro o corpo num ásana preguiçoso
e me detenho no contrário.
E temendo não ceder mais aos meus temores
miro, de corpo inteiro, a trilha dourada
que o crepúsculo baixa.
E numa intuição serpentina e luciférica
me pergunto espantado
            : será este o meu caminho?
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Comentários (2)

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Francis Kurkievicz

Olá Jrunder, agradeço pelas palavras certeiras. Fico grato pela sua leitura.

A lucidez e a coerência funciona.m como asas neste emaranhado de letras. E fugir é preciso.