Lista de Poemas
Gotículas de fragilidade

Unem-se gotas de orvalho matinal
Impregnam a manhã com seus hálitos
Adocicados murmurando uma ladainha
De invisíveis solidões tridimensionais
As ilusões espalham-se pela madrugada
Recreando uma carícia mais que intencional
Preâmbulo de muitos desejos
Escorregadios...sensacionais
O dia chega com indomável subtileza
Reergue até o silêncio que a seus pés
Se extasia com tamanha ardileza
Sou livre como o vento e não há arrimo
Que segure meus versos irreverentes e selvagens
Cabresto que algeme este amor pelas palavras
Que me nutrem e são decerto sempre cordiais
Frederico de Castro
297
Entre os degraus da solidão

Brilham épicos gomos de luz
Despem a solidão desfolhada
Em pétalas de amor e ilusão
Saúdam a caprichosa manhã
Seduzida pelos embriagantes
Perfumes massivos...quase alucinantes
Teçe a saudade horas de melancolia
Resignada e tão alienante que nem mais refuto ao
Coração esta memória que acontece tão aglutinante
Pastando na lezíria do tempo deixo um andarilho
Pensamento pernoitar lá no sótão dos prazeres
Hidratantes, quase litúrgicos...quase litigantes
Sem mais temer a noite cada sombra desnuda-se ante
Os olhares sorrateiros da lua voyeur vasculhando todos
Os esconderijos de uma emoção tão bisbilhoteira tão tailleur
Puída e triste a noite derrama suas lágrimas e lamentos
Mais brejeiros embebedando todas as alquimias de uma
Paixão abarrotada de gemidos lisonjeiros
E agora assim desguarnecida a solidão nunca cicatrizada
Sustenta o pavio dos silêncios pungidos e suplicantes
Súmula deste verso derradeiro, foragido,insinuante
Frederico de Castro
234
No calabouço do tempo

Faço um chake-up à solidão e absorvo da manhã
Mil perfumes imperceptíveis elegantemente debruando
A janela onde pousam seduzidas palavras tão
Cúmplices...tão compatíveis
Gargalhadas graciosas temperam a noite fechada
No calabouço da escuridão
Mordiscam a luz ofegante perambulando pelas
Oitavas desta solidão indizível e divagante
No bailado felino do tempo farfalham tantas horas
Imensas e embriagantes
Coligam-se na máscula e afectuosa sedução
Dos desejos tatuados num lambuzado prazer roçagante
Cavalgam pelos ventos uivantes diminutos silêncios
Quase submissos...tão fustigantes,
Dando azo a uma permuta de beijos soletrados à
Esquadria de um bravio desejo mais retumbante
Frederico de Castro
261
Calafetando a solidão

Súbtil foi a hora amamentando o sorriso de vigia junto
Aos pátios da minha esperança irrequieta, quase uma orgia
De felicidade onde esteio as lembranças escoradas e calafetadas
Numa caricia que se traja de mil gargalhadas tão premeditadas
Ainda que adie um lamento seus ecos em silêncio
Crepitam na alma recostada às vidraças do tempo
Onde se comunga e dessemina aquela paixão que
Depois permutamos em surdina
A noite gloriosa matiza esta íngreme escuridão
Qual suspiro tão pervertido consolando uma terna ilusão
Abstracta, queixosa...anteparo destas minhas palavras escondidas
Na penumbra pacata de um silêncio correndo em cascata
Alonga-se a madrugada numa indiferença quase arrebatadora
Perpendicularizando cada gotícula de chuva caindo ladeada
De açoitantes ilusões conspirando estupefactas e tentadoras
Embebedando o ventre da terra ávida, ofegante...conciliadora
Frederico de Castro
320
Lesta hora de solidão

Granjeiam-se os desejos domiciliados ao colo
Desta esperança tão maternal onde se procriam
Ávidas ilusões multiplicando o parto das nossas alegrias
Pujantes, eternamente contagiantes
Implícito e incitante rompe-se o olhar silenciando
O pestanejar da noite que chega mendigado uma
Vaga de tristezas perdidas naquele subtil e milimétrico
Momento de solidão tão hostil
De frente para a solidão acomoda-se a tristeza vestida
De trapos esfarrapados qual andrajoso e contorcionista
Lamento chorando incrédulo perdido no labiríntica
Existência sempre mais perplexa, pesarosa e oportunista
Purga a luz suas sombras infiltradas numa negrura imensa
Tão omissa tão decadente implodindo incrédula em cada lesta e
Esmiuçante hora bulindo este silêncio ileso que desagua por entre
A solidão mais concisa coroando a noite que desvanece tão expressiva
Frederico de Castro
251
Longos dias tem este silêncio

- quando o absurdo deixou de ter limites...
Longos dias tem estes silêncios mais indescritíveis
Matam a chama da alma madrugando no pavio das solidões mais
Imedíveis...minguando como a lua nos seus quartos secretos e iludibriáveis
Morrem por fim os adjectivos mais funestos deste silêncio
Quase imperial e irreconciliável tão voláteis quanto o voo da libélula
Desaparecendo pelas sombras do dia sussurrando inflexível e inolvidável
Abstêm-se todos os surdos gritos sentidos no sigilo da madrugada
Tão irrevogável para assombro da luz que ateio à chama mortiça
Ainda que perplexa, tão ígnea, fatal, tangível...até o silêncio enfeitiça
Esvaem-se todos os silêncios no fado do tempo que me é tão imprescindível
Pecúlio da fé que ainda alimento em cada reavivante verso apetecível
Exposto à fúria de uma hora que morre lenta, lentamente irresistível
Frederico de Castro
317
Precário silêncio

Descubro o véu do silêncio banhando
O dia reverberando arguto...quase satírico
Enquanto brame faminta a solidão impotente
Perante esta audaz ilusão categórica e omnipresente
Com fogosidade o tempo esmaga cada hora
Inerte, urgente, avassaladora
Desmonta o trapézio do silêncio onde se
Equilibram solidões tão devastadoras
Enamorada a noite bamboleia-se sensual e
Dengosa neste prazer devasso e boémio tão carente
Deixando à tangente uma paixão diluir-se na dialéctica dos
Nossos beijos nunca censurados antes e sempre mais comburentes
Ostento agora a luz que a madrugada roubou ao precário
Sonho onde nos expusemos inadvertidamente
Pátria do amor feito inquisição desta fé ruindo abruptamente
Até que fine uma hora senil mergulhada num lamento
...assim indubitavelmente...
Frederico de Castro
282
A volumetria do silêncio

Atónito perdeu-se o dia embebido num pavio
De solidão ardendo, ardendo tão coibida pois
Tamanha é esta desmazelada esperança displicente e intuitiva
Redesenho nossas inquietudes lavradas num mar de lamentos
Amedrontados sempre, sempre impassíveis e contristados
Abocanhando a tristeza indiferente inamovível e manietada
Isolado numa ilha de escuridões quase perpétuas mutilo a noite
Cruel defenestrando toda a luz elegível deixando a rastejante
Solidão alimentando a volumetria deste silêncio em reclusão
O toque da luz salpicante e luminescente acorda o dia
Escaldando numa sofreguidão quase irresistível e convincente
Calando aquelas transeuntes carícias que sacio tão delinquente
E assim planam meus sossegos em cada instinto efervescente
Impregnando uma onda de beijos contagiantes, quase dementes
Gemendo, gemendo naquela gargalhada, digital, atrevida e seducente
Para lá do inalcançável horizonte acalmo os ventos rasgando
As sobrancelhas do tempo aquiescendo o pestanejar dos
Prazeres degustados nesta exilada brisa que chega pra nos cortejar
Frederico de Castro
294
A centímetros da solidão

Os dias escorrem pelo vão das longas madrugadas
Enquanto o ressequido silêncio invade os restos de
Uma solidão vagando em cada lacuna desta tristeza
Corroída, vulnerável...subjugada
Pelas sombras da noite revela-se o murmúrio despojado
Deste olhar que sustenta o divagar do silêncio acoitado entre
As silvas do tempo ausente e aviltado onde indolentes
Pernoitam os lamentos atados a nós umbilicalmente complacentes
Nutri cada ausência mais reveladora e empolgada
Deixando por indemnizar aquela solidão que em nós
Se refastelava, mais implacável...tão bem propagandeada
Tirei as medidas ao tempo alimentando cada comprimento
Da saudade com mil centímetros destas memórias carentes
Espreitando pela fresta dos inconfessáveis desejos mais latentes
Frederico de Castro
287
Ecos de um kissange

à minha áfrica...absurdamente linda
Breve como o tempo chega o dia
Trincando e alimentando a luz matutina
Incendeia os silêncios e seus subtis ecos
Ensopados de caricias tão traquinas
Sem fim reluz a manhã iluminando o diadema
Que sorri na adornada ternura dos teus olhos batucando
E namoriscando cada desejo mais complacente
é neste airoso e saboroso poente que floresce uma
Prece titânica, tão confidente consolando a alma
Com uma meiguice de afagos tão benevolentes
Revejo na madrugada todas as sombras
Adormecidas num fragmento de solidão indolente
Reportam à saudade como se ceifam as memórias
Quais ecos de um kissange sensual e irreverente
Frederico de Castro
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