Lista de Poemas
Entre Novembro e Dezembro

Entre Novembro e Dezembro os dias fenecem ali tão tresmalhados
Emancipam um emaranhado de ecos e silêncios quase acabrunhados
Capturam da escuridão todos os felinos e voláteis breus sempre espezinhados
Entre Novembro e Dezembro o tempo sequestra todo os segundos envergonhados
Interceptam as fronteiras dos céus onde dormita um sussurro sereno e mal-amanhado
Perdura e nutre toda a eternidade da solidão acossada e arrasadoramente e amnistiada
Frederico de Castro
70
Solidão a dois

Nesta solidão a dois esbraceja o dia prenhe de uivos rudes e insensíveis
Coesos, todos os lamentos vadiam a milímetros da solidão tão horrível
Sem guarida as palavras embebedam-se no mosto dos silêncios indefiníveis
Nesta solidão a dois o tempo deixa ruborizados todos os beijos ainda impossíveis
Com destreza e valentia afaga as lágrimas caindo qual colírio das horas remíveis
Sibila com a elegância hiperproteica das palavras fluindo num etéreo segundo inaudível
Frederico de Castro
94
Êxtase intangível

Flutuando pela desordem dos silêncios esquecidos aviva-se
O pavio da escuridão e de um lamento fetichista…tão intimista
Rabisca-se com precisão aquela luminescência carente e estilística
Num êxtase quase intangível o tempo enlaça-se à solidão masoquista
Sufoca lenta e dolorosamente a bordo das palavras perniciosas e fatalistas
Suspira as assepsias da noite tão cirurgicamente aperaltada de chamas terroristas
Frederico de Castro
93
Vou conversar com o silêncio

Vou conversar com o silêncio e dizer-lhe quanto estimo o seu silêncio
Deixar que cada indisciplinado segundo além feneça sereno, senil e obstinado
Deixar indiferente um lamento que naufraga a jusante daquele breu acetinado
Vou conversar com o silêncio e aprontar-lhe o leito onde sucumbirá tão apaziguado
Deslizar por um sequioso sussurro desnudo, inquietantemente arisco e camuflado
Imobilizar o tempo que finda transladado por um sereno e tridimensional eco desatinado
Vou conversar com o silêncio e fletar-lhe a solidão chegando subtil, cortês e afável
Rastejar ao longo daquele vassalo desejo que pragueja no seio das palavras tão insaciáveis
Apascentar os gemidos incógnitos, desvendados pelas memórias absurdas e indubitáveis
Frederico de Castro
77
Onde flutua o silêncio

Onde flutua o silêncio flutua o poente ígneo, intenso e irrevogável
Hidrata a derme dos céus com um maremoto de palavras prorrogáveis
Incandesce o dia inundando cada hora com sedentos desejos vulneráveis
Onde flutua o silêncio flutua a margem de um riacho sereno, casto e domesticável
Arqueia os cílios àquele olhar vadio, miscigenando a planície com sonhos tão afáveis
Imigra mui lentamente pela diáspora dos silêncios vibrantes, balsâmicos e incomensuráveis
Frederico de Castro
143
Ressuscita-me o silêncio

para sempre Gal
Entre complacentes murmúrios o tempo crepita flamejante e altruísta
Encurva-se saudando a manhã que desperta tão saudosa e reformista
Ressuscita-me este silêncio incrustado no parapeito das preces imprevistas
Qual bálsamo transcendente duas brisas perfumam essa voz tão pacifista
Na infinita metamorfose de luz fecunda-se um adeus sereno e coreografista
Assim se apascenta cada hora esvoaçando algemada a um sussurro calculista
Cada segundo magoado ressuscita num amontoado de desejos tão enamorados
Açoitam os paramentos do silêncio ajoelhado no púlpito deste lamento calamitoso
Investem eloquentemente num flamejante e fátuo sussurro sempre auspicioso
Frederico de Castro
86
E no meio de tanta gente...

Silêncio e tanta gente, esquecida numa multidão de ecos imprecisos
Uma rima castrada apunhalada por silêncios macabros e narcisos
Ver esfumar-se na fronteira do tempo sessenta segundos tão indecisos
E no meio de tanta gente queda e muda, espatifam-se palavras moribundas
Deambulam pelo calabouço das horas impreterivelmente furibundas
Improvisam a indigência das memórias agrilhoadas às noites tão vagabundas
Frederico de Castro
100
Nas profundezas de um instante

No vasto abismo de silêncios hibernam sussurros tão prolépticos
São como latidos de um eco tão irreverentemente esquiço e epilético
O defenestrar de cada gota oceânica fluindo no algeroz dos uivos herméticos
Num instante de tempo todos os instantes colapsam incógnitos efémeros e complacentes
Açucaram a tempestade de palavras tão maviosamente intemporais e prepotentes
Desenham o periélio de cumplicidades amarando a jusante das maresias tão reverentes
Frederico de Castro
58
A transitoriedade dos silêncios

Transitoriamente o silêncio mascara a noite que além
Flutua numa metamorfose de luminescências tão enamoradas
Tediosa a escuridão idiossincrática dilui-se entre palavras mendigadas
No cancioneiro do tempo orquestram-se segundos tão espezinhados
Açambarcam das solidões, toneladas de lamentos e sussurros altercados
Desconstroem uma paródia de gargalhadas suspensas num verso volátil e asfixiado
Frederico de Castro
96
Trem cósmico

Viajando neste trem cósmico a noite ausenta-se no periélio
Da escuridão mais espampanante…mais e mais unissonante
Entre o côncavo e o convexo espelha-se todo este silêncio petulante
Depois de capitulado, cada segundo adormece lisonjeado e ofegante
Aprouve desenhar ele estes versos ardendo no archote de um eco retumbante
E nos céus, por fim, alvorecer um sussurro vindo de mil breus tão desconcertantes
Frederico de Castro
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