Lista de Poemas

Assim sussurrou Assunção

É claro que eu quero o clarão da lua
É claro que eu quero o branco no preto

Assim falou Assunção.

Assim Assunção cessou sua sátira sã.
Ó, sã sátira, batuque um canto concreto
pra balançar o coreto correto
d'onde vens a tua inspiração, ó doce manhã.

Assim sussurrou Assunção:

A lança que não cansa da dança
a pança da panda que não quer mudança
como se fosse pecado, como se fosse mortal
tecendo a hora, em que a aurora for geral.
389

Soneto de Bordel, de Gabriel para Bel

O pecado nativo é simplesmente estar vivo
É querer respirar, o remanso do poeta agora
Traz-se um crime atroz, cruel e negativo 
Se se pudesse, o espírito que chora

Que a terra te seja leve, Bel fugitivo
Tu que pesaste tão pouco sobre ela outrora
Deveras pesar, assim, tão parado e ativo
Uruguai, minas não há mais, mundo afora

Perfídia és, tu, ó Coração Selvagem venusto
No Exílio duradouro, vulto oculto no culto
Bel, se tu te vais, como ficam os carnavais?

Sujeito de Sorte, vede o que lhe é justo e adusto
Tu, Bel, deixa-nos teu galardão mediante ao tumulto
Mas não vos acanhes, jovens, seus versos são atemporais.
350

Luz no luar da Lu

No Mar de Malibu
paira uma lua azul
a mesma praia blue
para ir ao luar da Lu

Sob a palmeira neon
Danço nu, ah, como é bom
No litoral tropical
além do bem e do mal

Sei que gostas do bigodudo
Belchior, Nietzsche, diz tudo
por que eu existo?
será eu o anticristo?

Mas Ele está morto
como no torno do meu canto torto

E blues lamente comigo
sentindo o sinal terminal
ainda falta o artigo
da genealogia da moral

Do romano, ufano, de ano em ano
anos medianos por baixo dos panos
puritanos, ciganos que vem do oceano
todos humanos, demasiado humano.

Todo mundo sabe, todo mundo vê
Que os homens vão dizer
que a vida é dura, incompleta, Claude Monet
na dureza do proceder do alvorecer

pra quem não fez a guerra
e nem quer vestibular
pra quem tem a carteira de terceira, me erra
ou pra quem não fez o serviço militar!
(contra o lixo nuclear!)

pra quem amasse a mão da alegria
pra quem amassa o pão da poesia
na tristeza, na alegria; na noite, no dia

e eu vou rimando, buscando destaque
distante do inferno eterno
inspirações de Olavo Bilac
Babilônia, Dante, terno, Erno.

será que um dia serei encontrado
ou quem sabe abandonado? no medo nado
e nadando eu vou vendo, meia volta volver
medo, medo, medo, medo, medo, medo vou ver.
(doze medos Alexandrinos, finos!)

pra quê rimar?
se o que eu quero é falar:
do Anil e do Grená

Je veux parler!
escrever pra viver!
Ideo adolescentulæ dilexerunt te!

(come with me, and be my love!)
(be cause, because)
(tomorrow is another day!)
(everyday!)
(i need you, and you need me)


Ego flos campi
Et ilium convalium
Veni, dilecte mi egrediamur in agrum
Commoremur in villis

Umbilicus tuus crater tornalitis,
Numquam indigens poculis!
Venter tuus sicut acervus tritici

Non te occidere.
volo enim vos vivere
sic non possum tecum vivere
eu te amo, me considere.

Tenho medo: pai, filho, Espírito Santo
Santa Teresa, quem me rói tanto!
por ti eu danço e canto!

um dia vou pra aí
curtir o teu Havaí
comer um açaí
pra rir
e ir.
a ti

desejo
meu
carinho.

manda buscar outro, linho ninho
no Piauí.
369

ENEM: O mártir da juventude

O mártir juvenil, da terra roxa e anil
Necessidade de ser um alguém
Fulguras e vergonha à Mãe Gentil
Ó, brilho cruel do trilho, do trem

que sai pro ENEM

Guardei meus belos versos a mil
Embaixo da mesa azul vintém
Engavetei-me de conceito vil
tudo isso pra ir bem, hein?

Bhaskara, Logaritmos, trigonometria
pra que tudo isso?
se o que quero é filosofia?
pra que ser submisso?
maquinizo-me, logo existo?

Ceguei meu horizonte, descolori o amanhecer
saquei minha caneta preta transparente
tudo isso pra me promover! 
exame bestial, amargamente sulamericanamente

tudo isso pra quê?
pra ser o que eles querem vê!
355

Com Muito Escárnio e Maldizer

Comédia Humana, Divina Comédia
Balzac bravo breve, Dante cante eterno
como cavalheiros de idade média
Humano, cravo e ferve; Divino, traficante do inferno.

Como dar um Ciao
sem lhe fazer mal?
cem mil fazeres um animal
tem me feito normal, informal.

kit man, que te mente elegantemente
na nossa mente tudo é quente
sorridente, sorri de dente
sempre sente paciente, sulamericanamente

Só eu na vida, ganho dinheiro, pego mulheres, faço sucesso!
Cristão como eu, devo manter os bons costumes, confesso

Eles não vão para a glória sem passar pela cama
ou Jesus me ama ou entendo nada de Melodrama

Maldita profissão!
Ganhar com o suor do meu rosto cansa
o bendito pão
e o gim da criança
ungido rugido da dança
Escárnio: carne de leão no leilão.

Mas não faz mal. Deixo os louros ao poeta
Lauras da Laura é o que me importa
ouça o som da comporta
que abre o anormal homem beta.








367

Rima da prosa do latim

"miserere mei, deus: secundum magnam misericordiam tuam

et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam

benditus lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me

asperges me hysopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor"

Rapaz latino-americano, sujeito de sorte é
meu cordial brasileiro, sujeito, um sujeito não tem jeito
me conta quanto é contente e quente que mente
sorri sorridente de dentro pra fora, no leito
sulamericanamente!

Frente a essa gente indecente
que come, drome e consente

Dante, Gandhi Dandy
a estrela vermelha nem saiu do lugar
Falante, a gente mente na nossa mente
Alighieri, Assum Preto, sertão não virou mar
na nossa mente a gente mente 'agentemente'.

me perdoe eu não entrar numa boa e perder sempre a esportiva!
vida, viva-a, a viva.
342

Lira dos 17 anos

Mamãe, como isso pôde acontecer?

Meu pai não aprova o que eu faço
Tampouco eu aprovo o filho que ele fez
Sem sangue nas veias, com nervos de aço
Aos 17, encontro-me morto de vez.

Ó, mãezinha, como isso aconteceu?

Todo mundo sabe, todo mundo vê
Que vou ao bar, beber e esquecer
que a gente é pobre, é fraco, é vil,
desprezados dentre as grandezas do Brasil.

Ora, minha mãe, como tu lidas com isso?

Penso em voltar pro sertão
Pois é lá que tá minha galera
Como as bombas do Afeganistão
Que marcam minha era.

Ore, mãe, pois não quero voltar pro Norte.

Nordeste é uma ficção, nordeste nunca houve
Quem haverá que aguente? Tanta nudez e aguardente
Ressuscitarei o pior de mim, para que o louve.
Das piores noites boêmias da minha gente.


Mãe? Mãe? Onde estás mãe? Mãe!? Ó, mãe!?

Mata, mato, moto, morte, Norte, forte, Fortaleza.

E agora? O que farei aos 17, no auge da beleza?
Sem ela, sou sem, sou sempre sem ninguém.
Ó, mãezinha, triste estou. Tu eras a pureza
Mas não te preocupes! Estou indo te buscar:

No além.

355

Mais um novo dia

Qualquer beleza é inventar
o que ainda não há.
Qualquer leveza é sentir
o sol a porvir.
349

Romance pra Ana

Na Savana Africana, a dança da Ana, a cigana
O luar-luz no capim, o luar-nos enfim.
Lamento do hino de um marginal babuíno pra Ana
bem sucedido, um pouco perdido, no fim do marfim
(do branco de sua skin!)

José de Alencar, elenca a lista torta em prosa
como no romance que fiz pra Ana
senhora Iracema, Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas! Sagarana!

(bis)
oh, amor, oh, iê iê iê iê iê iê
cantigas de trovador eletrônico:
que eu ganhei na matinê
no belo dia ao te conhecer. (2x)

O teu olho azul, tu'alma blue
como no mar de Malibu
De Honolulu, de Norte a Sul ela sai
minha querida madame Butterfly

Ana, gozo do efeito
os teus peitos no jeito
e eu pego e me deleito
e admiro o teu nenhum defeito.

ó, que cena obscena, não peça pedir
pedir por favor, nada de amor: attraction!
– because, i can't get no satisfaction!
sentir o ruir, do puro elixir, dos dizeres do porvir.
409

Monólogo sobre Ernesto

Parte 1: "Das loucuras profanas da mente jovem e revolucionária"

Minha vida revolucionária conduz meus caminhos tortos
Honra pela honra, a justiça ufana prefere os mortos
Já que estás em mim, ó brilho cruel dos portos
Que se abre aos rebelados e mostra-te pelas fotos

Já que o tempo fez-te a graça de visitares os rebeldes, leve notícias de mim
Diga àqueles da terra branca e vermelha que veste perigo: o explorador grande enfim
Conte aos patrões, senhores, doutores, bandolins que abandonei a escola pra servir ao Terceiro Mundo tão afim
Por amor inerte à minh'alma, dar-lhe-ei o sangue carmesim.

Com a mesma dura ternura em nunca ter
que aprendi na estrada e em Che!

Ah, ódio sinto à metrópole, paraíso, violenta
que extermina os miseráveis, negros, teus meninos!
E lá vem mais uma estação do inferno, polenta,
ó Dante eterno, pois será de haver outros destinos?

E, no tangente à família, dá-lhe um abraço apertado
que a todos possa abarcar
fora-da-lei, procurado me convém família unida contra quem me rebelar!

Com contra quem me dá dura, com dedo na cara
me mandando calar!
Com contra quem me dá dura, com dedo na cara
me mandando calar!

Ah, Carlos Máximo, tu sabias do sabiá grená.

Cai o muro de Berlim, cai sobre ti, sobre mim, ó comuna Internacional
Chamam-no de assassino, para quem conhece, ao menos, o velho gozo animal.

Dê flores ao comandante que, um dia, dispensou-me do serviço militar
Ah, quem precisa de heróis? Com dura ternura: feras que fuzilam na guerra e choram na volta ao lar.

Gênios do mal tropicais, poderosos vestigiais: a vergonha da Mãe Gentil
Ah, quem dera fosse eu um Bel, um Gil, um Chico, um Caetano, e dançaria todo ufano, passando pela Guerra Civil.

Como o nosso pai, que se pergunta: "onde errei?"
É elogiando o meu espírito revolucionário
e pondo-me entre os sonhadores do vestiário
que direi-voz em alto: "Capitalismo, morrei, pois o show já comecei!"

Minha voz será ouvida a toda Cuba:

"Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes: barbárie, devastação
Até um rinoceronte é mais decente do que essa gente demente
do Ocidente tão tão cristão!"

Avante, vítimas da fome!
firme a cobrir, famélicos da pública terra!
A chama vermelha de ideia consome
A crosta bruta que a soterra

Apartai-vos do mundo explorador profundo
agora de pé, de pé, não mais os senhores!
Se nada produzem deste mundo
sejamos nós, ó produtores!

Sejamos nós que consquistemos
pois nada esperamos de nenhum
senhores, patrões, chefes supremos
À terra Mãe Gentil, livre e comum
não me vendo pelo rum, uhum!

Nós destruiremos toda a violência do fundo
inteiramente, e, em seguida, contudo
construiremos um admirável novo mundo
e, quem não era nada, tornar-se-á tudo.

Sobre os frutos do gozo do capital:

Como filhote de Bob Dylan faço, e
como o patrão da Coca-Cola fez,
sem sangue nas veias, com nervos de aço
rejeito a esmola que ele me dá por mês.

Socorro, Socorro, socorre-me, soviete.

É como o meu velho amigo Assunção:

Que vai pro seu trabalho todo dia
sem saber se é bom ou se é ruim.
Quando quer chorar vai ao banheiro, na pia
Assuncao, as coisas não são assim!

Toda vez que eu sinto o paraíso (Ah, Alighieri)
Ou me queimo torto no torno do contorno do inferno
Eu penso ti, pobre Assunção milionário
Que usa sempre o caro terno

Ó, Assunção, ensine-me tuas coisas:
que a vida é séria, fria e a guerra é utópica e dura
Mas se não puder, cale essa boca!
E deixe-me viver a loucura.

Lembro-me, pois, Assunção, daqueles dias
quando filosofávamos sobre o mundo
e hoje eu te chamo de careta e simpatia;
e você, de vagabundo.


368

Comentários (3)

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rebeca

Gabriel, parabéns pelo poema. Abraços campônios.

manuela
manuela

legal

nathanael

Demais!