Gisele Leite

Gisele Leite

n. 1972 BR BR

n. 1972-10-23, Rio de Janeiro - Brasil

Perfil
8 771 Visualizações

Lágrima de cristal

quero a lágrima de cristal

percorrendo

um rosto esculpido em pedra-sabão

perfeita então



quero descubrir esses monumentos

que hoje, somente hoje,

me comoveram tanto...



o belisco,

a Praça Paris,

o teatro municipal plagiado do francês



a marselhesa da Piaf...

tudo hoje me comove tanto

que chega me

sufocar...

aonde entro, em qualquer lugar

as emoções transbordam e,



jorram em meus olhos

contínua e lentamente...

de repente me ocorre

uma estúpida lucidez de tudo

mais tão nítida que me assusta...

fico

perto da morte,

e me imagino no meu próprio velório



vejo a montanha de

artigos que escrevi,

as poesias que desenhei,

os quadros que pintei



todo meu legado é exatamente o quê?

uma lágrima de cristal esculpida num

rosto de pedra-sabão



Ler poema completo
Biografia
Professora universitária, pedagoga, advogada, mestre em Direito, mestre em Filosofia, Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.
Articulista e colunista das principais revistas jurídicas e sites jurídicos.

Poemas

23

ser o outro

Não se apressem a responder

as perguntas

Não se apressem a sanar

as dúvidas

Pois estas permanecerão

São mais eternas que os homens

Mais perenes que os sentimentos,

Que todas as lembranças ou memórias

Diante das perguntas

Há um segundo de silêncio e de inquietação

Há angústia plasmada na saliva

Que lubrifica a palavra

Que recheia a boca e a digestão

Não se apressem a ter o que dizer

O que sentir,

O que fazer ...

Pois os discursos, as emoções e os atos

São finitos, limitados, circunstanciados,

Paridos e premidos pelo momento,

Pela genética, pelo inconsciente

Que traiçoeiro

Deixa você responder

Aquilo que jamais pensou

Cogitou, ou revelou diante do imenso

abismo que existe entre dois seres.

O intransponível lugar do outro.

Ser o outro é a única maneira

de dar a resposta

exata.

Na proporção e na ótica correta...

Ser o outro, sem abandonar-se ou renegar-se

Ser o outro por alteridade e compaixão.

Ser o outro apenas para impedir que o silêncio

Mumifique o eterno.

Ou que transforme toda consciência em pó.
594

intertício

A palavra

A eterna prisão de signos

e semântica



As cordas presas do consciente

Os labirintos incompletos do inconsciente

A fonética diafragmática

A corruptela da dor e lágrima

O silêncio nostálgico dos corredores



O alarido das folhas ao vento

O rufar dos tambores

A prenunciar a sentença

Cabeças rolando junto com os pensamentos



E, o perdão surgiu como um tropeção

Como um cadafalso a espreita de sua vítima

Nada faz mais sentido

A dor, a palavra ou sentimento.



Só essa pausa.

Essa única pausa.

Intertício de passado e futuro.

541

Naufrágio











Tudo afundando



Lentamente



Num mar de enigmas e silêncios



E sumindo, perdendo a forma



Contornando sinuosas curvas



Da imaginação







Tudo afundando



Em lama, em água



Infiltrando-se em sólidos



Insólitos



Pérfuros-contundentes







Cortando, molhando



Dispersando toda a essência



No mar de inquietude e



angústia







Tudo afundando de forma vertical e



Adernada



Solene e



progressivamente apagando-se



Do limiar do horizonte



O risco do arco-íris,



a promessa do cais aberto



Os punhos em riste



E, a palavra imaculada na garganta



Encravada na madrugada



Só a luz permanecera ali



A pairar sobre o mar,



soberana perante a lua e as vagas







Tudo afundando em sangue



Em vermelho pulsante



E coagulando



Escurecendo



Às vistas perdendo imagens



Como lágrimas







As vistas perdendo imagens



Num branco absurdo e opaco



No absurdo da luz no fim das trevas.







Tudo afundando



Em solidão e se perdendo em



retilíneas vertentes



E, quando as retas chegam ao infinito



Descobrimos com saudades



da geografia,



da etnia,



da melodia



encantada do naufrágio



lirismo imaginário das sereias,



da cor improvável das areias



da realidade encoberta de máscaras



de iniqüidade.







Tudo afundando no raso da tarde



Num copo d'água



A sede, o rancor e o

porre.















519

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.