Articulista e colunista das principais revistas jurídicas e sites jurídicos.
Lista de Poemas
Lágrima de cristal
percorrendo
um rosto esculpido em pedra-sabão
perfeita então
quero descubrir esses monumentos
que hoje, somente hoje,
me comoveram tanto...
o belisco,
a Praça Paris,
o teatro municipal plagiado do francês
a marselhesa da Piaf...
tudo hoje me comove tanto
que chega me
sufocar...
aonde entro, em qualquer lugar
as emoções transbordam e,
jorram em meus olhos
contínua e lentamente...
de repente me ocorre
uma estúpida lucidez de tudo
mais tão nítida que me assusta...
fico
perto da morte,
e me imagino no meu próprio velório
vejo a montanha de
artigos que escrevi,
as poesias que desenhei,
os quadros que pintei
todo meu legado é exatamente o quê?
uma lágrima de cristal esculpida num
rosto de pedra-sabão
Palavra
Minha serva cega e surda
A perseguir laboriosamente
O que devo dizer,
O que devo sentir,
O que devo verbalizar.
Mas há coisas indizíveis
Coisas de silêncio ritual,
Coisas que são substanciais
Absolutas
E condensadas em si.
Como oxigênio
Como suspiro
E poesia
espalhada
no pólen
E levada pelos passarinhos
pelos descaminhos da
vida.
A palavra é minha aia
Nasce com alvorecer
E, mesmo quando
estou rouca
Lá está a palavra incrustada no corpo,
Cristalizada na alma
Como amálgama
Como véu que deixa ver e esconde
Como o vento que
sussurra
Estranhos segredos em silêncio.
Observa a aia.
Reverencie a aia
Seu labor, seu som, sua cor
E sobretudo sua
história.
Conte as palavras mais importantes de
Sua vida.
Serão
crenças,
Serão valores
Será você mesmo picado entre fonemas,
E
disperso no vento.
Pássaros
Os pássaros estão presos
na gaiola do tempo
Eles voam no presente
pensando no passado
As nuvens fazem parte
do passado
São gasosas e
espessas
Esperam as lágrimas
para inundar de tristeza
a reflexão
Os pássaros cantam
E mentem sobre o dia, pois de manhã
Com o horizonte ainda em chamas
Anunciam um dia que
mesmo assim poderá ser chuvoso.
As vezes podemos esquecer....
As vezes podemos lembrar
É tudo é em flash,
É um átimo
Segundos mágicos que
Trazem à memória
a imagem do que
foi...
Das lembranças restam apenas
Fagulhas,
Cinzas,
Resquícios
embriagados de lirismo
ou nostalgia.
A ciranda,
A rosa no jardim,
O sino da igreja
O sapato novo
A bicicleta e a conquista
E a velha angústia no peito
De saber que os caminhos
Já foram traçados...
Vou rasgar o rascunho da verdade
E criar a ficção com a fantasia
Recolhida
de um baile de máscara.
Estações
Sobram as reticências
Quando os ventos
faltam
Sobra um imenso horizonte
Uma nesga de sol a refletir
o final da tarde
Quando os homens faltam,
Sobram desertos quentes ou gelados
Inóspitos,
Repletos de vidas mortas
ou moribundas
Quando as
palavras falham
Os sentidos completam e
Furtam dos gestos a vontade
De ser sutil.
Quando os segredos se esgotam
Os mistérios das mil veredas
Abertas ao mundo,
Abertas nas veias
Abertas em feridas
Esgotadas as lágrimas
Ainda restam as dores
E como posso parar,
Parar,
Estancar o que nem sabe sangrar
Quando as flores murcham
num última primavera
quando as folhas vagam
num último outono
Quando os amores falham
num último verão.
Saudades
Saudade daquele sol de manhã.
Da brisa e do orvalho na roseira
Do despertador barulhento.
De ter fé terçã.
Saudade do uniforme.
Da saia plissada e o cinto forrado.
Da estrela em forma de broche.
Colocada na blusa.
Deixando-me condecorado.
Adorava ser normalista.
Aliás, a escola era o segundo lar.
A bibliotecca um pequena paraíso.
Na conturbada vida lá fora.
Nos livros, tudo era possível.
Inclusive o direito de ser ímpar.
No trânsito barulhento.
No ônibus lotado.
No suor amaldiçoado.
E. na pressa infinita.
Num viver açodado.
Minha memória arquiva
saudades infinitas
e se esquiva
das dores de crescer.
Saudades do apontador de lápis.
De escrever alinhadamente.
Minhas pobres poesias
Que rimavam com alegrias
ínfimas.
Saudades de ter saudade.
De suspirar em reticências
De observar as essências
se misturarem, evoluírem
e, deixar tudo em plena liberdade
Para nascer, crescer e morrer.
E, ter dignidade.
Porque somos finitos.
Porque somos incompletos.
Principalmente, os prematuros
Que nasceram e expulsaram-se
do ventre materno
na sede de vida,
na sede infinita
de sobreviver.
Proibido
Proibido.
Devia ser proibido ser pobre.
Devia ser proibido ser miserável.
Devia ser proibido ser gordo mórbido.
Devia ser proibido ser magro esquelético.
Devia ser proibido ser feio.
Devia ser proibido ser inadequado.
Mal-educado ou grosseiro.
Só que não é.
Então, aprenda viver com as diversidades.
Aprenda montar o mosaico durante a sobrevivência.
Deixe de ser patético,
preconceituoso ou elitista.
Deixe de ser instável
e sórdido.
Procure aceitar para ser aceito.
Procure entender para ser entendido.
Procure perdoar para ser perdoado.
Procure dar para receber.
Devia ser proibido discriminar.
Racismo é crime.
Homofobia é crime.
Lesar a honra alheia é crime.
Procure não ser criminoso
e respeitar a dignidade humana.
Respeitar o outro.
Não saber
Nossa ignorância
Procuramos definições nas sombras
Nas esquinas
Nossa ignorância
diante da noite estrelada.
Ínsita em estranhas químicas.
Lá atrás, houve um caminho.
Existiram dias, anos e séculos...
Quanto tempo ainda há para percorrer?
E, quando o punho se fechar sobre você?
Ou quando da hora do soco surgir,
tenha se agachado.
Numa covardia íntima explícita.
Ninguém quer sofrer...
Qual palavra pronunciar se
o sono não vier...?
Quando os sonhos não flutuarem.
E, a chuva guiar-se sem chofer.
Pedimos para ficar só mais um dia.
Só mais um pouco.
Deve haver algum sentido.
No labirinto deve haver alguma alegria.
Deve haver um vetor-chave.
Um significado colado no peito.
Deve haver uma bússola movida a sinapse.
Deve haver uma resposta
Para os enigmas do silêncio.
Para os que calam e gemendo
renunciam à vida, com dor e tristeza.
Qual será a derradeira palavra?
Qual será a última sentença?
O último devaneio da alma
que o capitão da nau irá ter...
E se a carranca não sobreviver...
Quando chegar ao porto.
Um ponto perdido no infinito
Fora dos mapas e dos sentidos.
Um porto perdido onde a âncora
vai dormir na ânsia de ser erguida.
E, novamente desbravar o desconhecido.
Dentro desse perfume de cânfora...
Quando cessar seu movimento.
A Terra ainda em rotação.
Recitará poesias em sua translação.
Enquanto isso, permaneço insone.
Diante da mão que me oferta o afeto.
E, a renúncia de tudo.
A abdicação de todos os tronos.
A ideia cindir-se em sonhos imortais.
Libertando-se da verve de inseto.
Em afagos inesquecíveis.
E, a manhã infinita que traz todos os
dias novamente.
Onde há ignorâncias invencíveis...
Segundo poema dadaísta
.
Eu e você nesse enorme universo.
Multiverso cheio
de meandros e ausências.
Há silêncios semânticos.
Há ondas de demências.
Há palavras vazias.
Olhares psicografados.
Textos encriptados.
Enigmas sem esfinges.
Esfinges sem enigmas.
E, eu estupefato.
Suspiro por um lirismo acabado.
Há uma ressalva implícita.
Há uma ofensa sub-reptícia.
Há uma blasfêmia ínsita.
A culpa na sombra dos passos.
Os passos perseguindo a culpa.
Não posso adorar deuses.
E, cultuar a morte.
Não posso idolatrar mitos.
E, ofender a realidade de estar aqui.
Contundentemente aqui.
Enraizada e cheia de benesses.
Meu degredo nessa plateia.
Percebe sua solidão
e, inquieta vai plasmando gestos,
gostos e valores.
Pranteia com sofreguidão.
Destruímos a arte.
Destruímos a humanidade.
Não tenho pátria, nem matéria.
Sou etérea e abstrata.
Sou fruto do descarte.
Há significado nonsense.
Minha loucura ofende a burguesia
que só deseja lucrar.
E, eu, só desejo mandar tudo às favas...
O abismo da falta de empatia
transformará esse planeta num
enorme deserto.
E, só sobrará essa poesia dadaísta.
A gritar, sem simpatia, avisando
do apocalipse.
Ou será apenas um eclipse?
Enxergar-se
Enxergar-se.
Olho para mim, nem me enxergo.
Não há espelho nem reflexo
que me revele ou desnude.
Tenho a mania de pensar.
Repensar e sair de mim
e passear por umbrais desconhecidos.
O oxigênio que respiro está poluído.
As palavras que pronuncio está infectada
de fonética e ortoepia peculiar.
Meu modo de existir exala uma fragrância.
Ou um flagrante delito.
De existir impunemente.
Essa água sorvia por minha boca
não sacia minha sede.
Nunca hei de deixar de ser sedenta.
Por respostas, razões ou simples misericórdia.
As sensações pesam sobre os ombros como
se fossem ombreiras
Há um luto reverencial ao entardecer,
os raios sangram até morrer.
e, o horizonte empalidece até mergulhar
no breu da noite.
Ou será no silêncio da alma?
Julgo-me diariamente diante
do tribunal da consciência
que vive a me acusar e deferir culpas.
Condenada, arrasto os grilhões da existência.
Vivo a catar os cacos de coerência.
Que como qualquer mosaico é
plural, diverso e disperso.
Há uma demência poética
em querer enxergar-se...
Trapos & teias
A lágrima de cristal.
A palavra de prata.
A rima de bronze.
O silêncio de ouro.
O homem de ferro.
A mulher invisível.
A eterna criança.
O jovem idoso.
A primavera notória.
O verão abrasador.
O outono dos ventos.
O inverno da escória;
Trapos.
Tramas.
Farrapos.
Teias
Dramas
Arquitetados nos polígonos do poder.
A lágrima de cristal
arranhava a alma por dentro.
A palavra de prata brilhava no breu
A rima de bronze que premiava o brejo.
E, o silêncio de ouro dependurado na pulseira.
Oscilava em homenagem ao ateu.
E, tudo parecia apenas ser transcendental.
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