Bala perdida
Temos a consciência anêmica
Que desconhece a proteína da verdade
É na insônia que se prolongam as horas e
as buscas
É no silêncio da madrugada
Que as palavras se encontram em sintonia
Regem a realidade do alto de suas semânticas
E bailam pelas ironias sutis das mentiras,
Dos contos, das novelas
E das poesias.Temos a consciência anêmica
Não vemos a luz, somente a imaginamos.
Na verdade, não vemos nada.
É a luz que traz à retina o objeto.
O mesmo objeto que descansa sozinho nas trevas
Feudais quimeras onde
há um deus que sabe de tudoAs anemias escorrem entre veias,
almas e sombras
Projetam o pôr-do-sol
Bem em cima da camisa manchada
de sangue e estória
Na tragédia cotidiana
Das flácidas violências...
Estopim da miséria
ou da indiferençaNo ângulo certo, uma bala
Ou, talvez um fuzil podem mirar
o alvo, o ponto exato
E, então diminuir a população,
Majorar estatísticas
Preencher cemitérios...Mas, não responderão as
inquietações...
Como podemos querer viver efetivamente...
Se já estamos mortos?
Mortos pela anemia
Pela apatia e
Pelo esquecimento.
Xote ateu
Sou ateu convicto
Não acredito em nada
Nem em mim mesma
Duvido da claridade do sol
Do poder dos anéis de saturno
Da maravilha da tecnologia
Sou ateu profundamente
E, na insólita solidão de não crer
Duvido da própria presença ante ao espelho
Duvido de seu existir no meu caminho.
Aliás, não existe caminho.
Existem passos aleatórios e bêbados
Que rumam em direção ao nada
ou será ao abismo...
O motivo de eu ser tão fielmente ateu
É minha mãe, uma católica fervorosa.
Depois passou a ser espiritualista
Acreditava na vida após a morte
Em Allan Kardec, e ao final ,
ou melhor, sem final...
Quando tomada de Alzheimer
Acreditava estar vivendo em 1971
E, nunca mais saiu mentalmente desse ano.
Seus santos no altar de casa
Olhavam-na estarrecidos a triste figura
a se definhar cada dia mais.
Até que chegou enfim
a misericórdia da
morte.
Também não acredito na morte.
Apenas a matéria se transmuda de forma
E passa a ocupar outras energias...
Então, minha mãe pode estar agora
secretamente no vento, na chuva, no rio
Ou quem sabe,
até em algum animal
doméstico.
Acredito numa única coisa:
O ateísmo...
E, nesse momento me deparo com o paradoxo...
Em duvidar de tudo...
a dúvida é minha única certeza...
É minha crença,
de questionar o inquestionável...
Em fazer perguntas quando
as respostas são múltiplas ou
Simplesmente não há...
Na verdade da humildade presumida
em ajoelhar-se no altar
Existe uma enorme desconfiança.
No tribunal da consciência
Onde a condenação é pretérita
Prescrita pela lembrança e
Banida pelo inconsciente
Inconstante e indomável...
Eu me absolvo o pecado de não ter fé.
Absolvo por ter sido infeliz.
E condeno minha esperança
a uma morte eterna e suprema
Apesar de sorrir aos passarinhos nessa manhã
Enquanto danço
o xote do ateu.
Morte anunciada
Morrer secretamente.
Silenciosamente.
De forma frígida e sem dor
O corpo guarda a obturação
do destino
As amálgamas de prata ou de medo
Encobrindo o espasmo da vida.
Estou aprendendo a morrer
Como se tivesse vivido
Passo as folhas do álbum
Da memória
E as imagens parecem rotas
Ou inverídicas
Quem é aquela que vejo?
De quem é o semblante triste?
Os olhos que não sorriem
E plasmados contemplo o horizonte
Como se fosse abismo...
Morrer assim secretamente
Por entre florestas virgens
Por entre metáforas indecifráveis
Por entre os últimos fonemas
De dor ou melancolia
Morrer no passadiço da escada
Entre um degrau e outro...
Morrer no alto da torre
A esperar a simbólica redenção
Morrer, silenciar
E cair horizontalmente no berço
Das emoções
Sufocadas por culpa ou vergonha.
Depois de minha morte.
A missa...
O silêncio ritual das preces
Sob olhares dos
sobreviventes
A nau emborcada da igreja,
o átrio e a claraboia
conspiram avaliando meu pleito.
E, afinal a despedida dita
em coro: amém .
Desatino
Minhas elipses mentais
Tangenciam o impossível
Brincam de ser trapezistas
De se lançarem ao nada,
Só para encontrar tudo no chão.
Minhas elipses mentais
Abarcam o mundo visível e invisível.
Imaginável e subterrâneo
Entram em frestas, trincas,
Arestas, cavernas e umbrais
Penetram no sólido momento
Da solidão vulgar
Do tempo presente e
As órbitas dessas elipses
Atraem todo tipo de poesia
Poesia de amor,
De tristeza...
A melancolia métrica dos suicidas
A dose extra
de sonífero e veneno
A espoleta,
O gatilho e
Enfim, o desatino.
Cárcere
Havia sofrimento impresso nas paredes
Nas frestas exalando solidão e tristeza
Havia mistério desenhado nas sombras
E medo estampado nos olhos
A porta era um umbral inatingível
A chave era milagrosa
sorvia o abismo e o instante
Engolia toda minha esperança
E me sorria ao som do tilintar
Havia apenas penumbras e escaras
na pele, na alma e nos sapatos
O desconforto não era sentir,
perceber e esconder
sob o silêncio dos olhos
o tom hepático e amargo da dor.
A compulsiva dor corrosiva
a dilacerar tudo, boas lembranças,
esperanças e até mesmo o amanhã...
No cárcere os dias não passam
Apenas falecem num monastério oculto
O sol é negro e está de luto.
No cárcere as noites não terminam
Apenas se tornam latentes
e são estranhamente esculpidas
na escuridão da sala.
As janelas, as grades e a impossibilidade de fugir
É apenas mais uma estratégia da loucura,
embalsamada na angústia de perder
a capacidade de amar,
De perder um tempo vivido
e que nunca voltará
No cárcere, o tempo é castigo.
O espaço é inútil
E as palavras azedam bolorentas
Pois foram guardadas dentro do livro
do ressentimento.
No cárcere, a chave não é solução
É a pequena ponta do abismo
a desafiar nossa imaginação e permitir
alguns instantes de ilusão de liberdade...
Por onde a alma vagueia...
Por onde entranham os ventos
Por onde se esfregam
até largar o cheiro...
O cheiro de cárcere
Preso às vestes
e atado aos destinos.
No cárcere o número é
a fantasia do finito.
Civilidade
Matamos o mosquito
Eliminamos matas e florestas
Diminuímos a vida do planeta
Desarticulamos ecossistemas
Crueldades e tragédias tornam-se banais
Como o bater de portas ou janelas,
Vulcões em erupção, terremotos e
tsunamis
O mundo se revolta com o poder humano
E força da natureza lhe sussurra a sentença
animal,,,
Matamos insetos e o vizinho
Providenciamos guerras santas
Por razões bastardas
Entramos nas cabeças humanas
como trepanação
Lavamos suas idéias, opiniões e
olhos
E, diante da mais absoluta cegueira
Poupamos a luz, como se tudo
já não fosse treva ou ilusão
Poupamos o caminho, como se tudo não
já fosse vácuo
Poupamos afeto
Como se tudo não fosse indiferença.
Desumanizamo-nos.
Trancados no mais caro patamar da
civilidade.
O veneno intragável de não poder ser
apenas natural.
Esses Versos
Há nesses versos muito de mim
De meu hálito, suor e sangue
Mas principalmente
lágrimas
Em especial,
as que não derramei
Há um cais vazio e repleto
Mutilado por navios perdidos
Há luz e escuridão
Há pausa e o dínamo
Veloz e eloqüente
Do pensamento poético
A percorrer os perímetros possíveis
E irrazoáveis da paixão humana.
Há o alvorecer silente do outono
Há uma Guernica em chamas
Gritando por misericórdia
Que ninguém entende.
E, pior que ninguém atende.
Há uma soleira branca
A espera do primeiro passo
Há uma janela entreaberta
A espera do primeiro raio de sol
E mesmo que não haja sol
Há nesses versos
Miríades de estrelas cadentes
Pontuando segredos,
publicando idéias inconfessáveis
Há na chuva a redenção da água
Lavando tudo, enxaguando tudo
E ainda assim, resta o resíduo de mim
Nesses versos sem rima e com algum lirismo
Suicidas compulsivos
Se jogam numa rede e sem serem
pescados
São garimpados dormentes e permanecem
Vivos pelos suspiros e reticências de quem
Os lê...
intertício
A palavra
A eterna prisão de signos
e semântica
As cordas presas do consciente
Os labirintos incompletos do inconsciente
A fonética diafragmática
A corruptela da dor e lágrima
O silêncio nostálgico dos corredores
O alarido das folhas ao vento
O rufar dos tambores
A prenunciar a sentença
Cabeças rolando junto com os pensamentos
E, o perdão surgiu como um tropeção
Como um cadafalso a espreita de sua vítima
Nada faz mais sentido
A dor, a palavra ou sentimento.
Só essa pausa.
Essa única pausa.
Intertício de passado e futuro.
Refém
Capturei sua alma
dentro da essência deste perfume
nesse vidro minúsculo
Embora soubesse que sua alma é imensa
Capturei sua alma
Nos quadros que retratam sóis, chuvas, mar e
embarcações vazias a deriva no horizonte
Sinaletes de sua presença
Atentos a denunciar-lhe na sala
Capturei sua alma
Na trama dos tecidos,
Na teia emboscada das esquinas
No texto de sua lavra
Que vai esgotando tudo,
Sorvendo tudo,
E com seu toque
Humanizando os impossíveis limites
da realidade.
Capture sua alma
Contemporânea
Em cena medieval e romântica
rompendo preconceitos,
rituais e mitos
Por amor à causa.
Ou por causa do amor.
Sua alma é refém de minha poesia,
de meu coração
Somente eu literalmente a possuo
Pois você, não a reconhece
Pois você, não se libertou de seu ego
Dos excessos risíveis...
Somente eu, após libertar sua alma
Poderei fazer com que conheça a liberdade ou
então, a vaga sensação de tontura
Pois a altura lhe dá vertigem
ou será o desconhecido?
E nada é, o que apenas parece ser
Ir além, é um sequestro
Ir além, é livrar-se de ser refém
Correndo todos os riscos e assumindo o visgo
de viver impunemente.
de viver o viés da vida.
ser o outro
Não se apressem a responder
as perguntas
Não se apressem a sanar
as dúvidas
Pois estas permanecerão
São mais eternas que os homens
Mais perenes que os sentimentos,
Que todas as lembranças ou memórias
Diante das perguntas
Há um segundo de silêncio e de inquietação
Há angústia plasmada na saliva
Que lubrifica a palavra
Que recheia a boca e a digestão
Não se apressem a ter o que dizer
O que sentir,
O que fazer ...
Pois os discursos, as emoções e os atos
São finitos, limitados, circunstanciados,
Paridos e premidos pelo momento,
Pela genética, pelo inconsciente
Que traiçoeiro
Deixa você responder
Aquilo que jamais pensou
Cogitou, ou revelou diante do imenso
abismo que existe entre dois seres.
O intransponível lugar do outro.
Ser o outro é a única maneira
de dar a resposta
exata.
Na proporção e na ótica correta...
Ser o outro, sem abandonar-se ou renegar-se
Ser o outro por alteridade e compaixão.
Ser o outro apenas para impedir que o silêncio
Mumifique o eterno.
Ou que transforme toda consciência em pó.