Lista de Poemas

Bala perdida

Temos a consciência anêmica

Que desconhece a proteína da verdade

É na insônia que se prolongam as horas e

as buscas

É no silêncio da madrugada

Que as palavras se encontram em sintonia

Regem a realidade do alto de suas semânticas

E bailam pelas ironias sutis das mentiras,

Dos contos, das novelas

E das poesias.Temos a consciência anêmica

Não vemos a luz, somente a imaginamos.

Na verdade, não vemos nada.

É a luz que traz à retina o objeto.

O mesmo objeto que descansa sozinho nas trevas

Feudais quimeras onde

há um deus que sabe de tudoAs anemias escorrem entre veias,

almas e sombras

Projetam o pôr-do-sol

Bem em cima da camisa manchada

de sangue e estória

Na tragédia cotidiana

Das flácidas violências...

Estopim da miséria

ou da indiferençaNo ângulo certo, uma bala

Ou, talvez um fuzil podem mirar

o alvo, o ponto exato

E, então diminuir a população,

Majorar estatísticas

Preencher cemitérios...Mas, não responderão as

inquietações...

Como podemos querer viver efetivamente...

Se já estamos mortos?

Mortos pela anemia

Pela apatia e

Pelo esquecimento.

393

Xote ateu



Sou ateu convicto



Não acredito em nada



Nem em mim mesma



Duvido da claridade do sol



Do poder dos anéis de saturno



Da maravilha da tecnologia







Sou ateu profundamente



E, na insólita solidão de não crer



Duvido da própria presença ante ao espelho



Duvido de seu existir no meu caminho.



Aliás, não existe caminho.



Existem passos aleatórios e bêbados



Que rumam em direção ao nada



ou será ao abismo...







O motivo de eu ser tão fielmente ateu



É minha mãe, uma católica fervorosa.



Depois passou a ser espiritualista



Acreditava na vida após a morte



Em Allan Kardec, e ao final ,



ou melhor, sem final...



Quando tomada de Alzheimer



Acreditava estar vivendo em 1971



E, nunca mais saiu mentalmente desse ano.







Seus santos no altar de casa



Olhavam-na estarrecidos a triste figura



a se definhar cada dia mais.







Até que chegou enfim



a misericórdia da

morte.







Também não acredito na morte.



Apenas a matéria se transmuda de forma



E passa a ocupar outras energias...







Então, minha mãe pode estar agora



secretamente no vento, na chuva, no rio



Ou quem sabe,



até em algum animal

doméstico.







Acredito numa única coisa:



O ateísmo...



E, nesse momento me deparo com o paradoxo...



Em duvidar de tudo...



a dúvida é minha única certeza...



É minha crença,



de questionar o inquestionável...



Em fazer perguntas quando



as respostas são múltiplas ou



Simplesmente não há...







Na verdade da humildade presumida



em ajoelhar-se no altar



Existe uma enorme desconfiança.







No tribunal da consciência



Onde a condenação é pretérita



Prescrita pela lembrança e



Banida pelo inconsciente



Inconstante e indomável...







Eu me absolvo o pecado de não ter fé.



Absolvo por ter sido infeliz.



E condeno minha esperança



a uma morte eterna e suprema



Apesar de sorrir aos passarinhos nessa manhã



Enquanto danço



o xote do ateu.







352

Morte anunciada













Morrer secretamente.



Silenciosamente.



De forma frígida e sem dor







O corpo guarda a obturação



do destino



As amálgamas de prata ou de medo



Encobrindo o espasmo da vida.







Estou aprendendo a morrer



Como se tivesse vivido



Passo as folhas do álbum



Da memória



E as imagens parecem rotas



Ou inverídicas







Quem é aquela que vejo?



De quem é o semblante triste?



Os olhos que não sorriem



E plasmados contemplo o horizonte



Como se fosse abismo...







Morrer assim secretamente



Por entre florestas virgens



Por entre metáforas indecifráveis



Por entre os últimos fonemas



De dor ou melancolia



Morrer no passadiço da escada



Entre um degrau e outro...



Morrer no alto da torre



A esperar a simbólica redenção







Morrer, silenciar



E cair horizontalmente no berço



Das emoções



Sufocadas por culpa ou vergonha.







Depois de minha morte.



A missa...



O silêncio ritual das preces



Sob olhares dos

sobreviventes



A nau emborcada da igreja,



o átrio e a claraboia



conspiram avaliando meu pleito.



E, afinal a despedida dita



em coro: amém .







344

Desatino



Minhas elipses mentais



Tangenciam o impossível



Brincam de ser trapezistas



De se lançarem ao nada,



Só para encontrar tudo no chão.







Minhas elipses mentais



Abarcam o mundo visível e invisível.



Imaginável e subterrâneo



Entram em frestas, trincas,



Arestas, cavernas e umbrais







Penetram no sólido momento



Da solidão vulgar



Do tempo presente e







As órbitas dessas elipses



Atraem todo tipo de poesia



Poesia de amor,



De tristeza...



A melancolia métrica dos suicidas



A dose extra



de sonífero e veneno







A espoleta,



O gatilho e



Enfim, o desatino.



373

Cárcere

Havia sofrimento impresso nas paredes
Nas frestas exalando solidão e tristeza
Havia mistério desenhado nas sombras
E medo estampado nos olhos


A porta era um umbral inatingível
A chave era milagrosa
sorvia o abismo e o instante
Engolia toda minha esperança


E me sorria ao som do tilintar
Havia apenas penumbras e escaras
na pele, na alma e nos sapatos


O desconforto não era sentir,
perceber e esconder
sob o silêncio dos olhos
o tom hepático e amargo da dor.


A compulsiva dor corrosiva
a dilacerar tudo, boas lembranças,
esperanças e até mesmo o amanhã...


No cárcere os dias não passam
Apenas falecem num monastério oculto
O sol é negro e está de luto.


No cárcere as noites não terminam
Apenas se tornam latentes
e são estranhamente esculpidas
na escuridão da sala.


As janelas, as grades e a impossibilidade de fugir
É apenas mais uma estratégia da loucura,
embalsamada na angústia de perder
a capacidade de amar,


De perder um tempo vivido
e que nunca voltará


No cárcere, o tempo é castigo.
O espaço é inútil
E as palavras azedam bolorentas
Pois foram guardadas dentro do livro
do ressentimento.


No cárcere, a chave não é solução
É a pequena ponta do abismo
a desafiar nossa imaginação e permitir
alguns instantes de ilusão de liberdade...

Por onde a alma vagueia...
Por onde entranham os ventos
Por onde se esfregam
até largar o cheiro...


O cheiro de cárcere
Preso às vestes
e atado aos destinos.


No cárcere o número é
a fantasia do finito.


454

Civilidade

Matamos o mosquito
Eliminamos matas e florestas
Diminuímos a vida do planeta
Desarticulamos ecossistemas

Crueldades e tragédias tornam-se banais
Como o bater de portas ou janelas,
Vulcões em erupção, terremotos e
tsunamis

O mundo se revolta com o poder humano
E força da natureza lhe sussurra a sentença
animal,,,

Matamos insetos e o vizinho
Providenciamos guerras santas
Por razões bastardas
Entramos nas cabeças humanas
como trepanação
Lavamos suas idéias, opiniões e
olhos

E, diante da mais absoluta cegueira
Poupamos a luz, como se tudo
já não fosse treva ou ilusão

Poupamos o caminho, como se tudo não
já fosse vácuo
Poupamos afeto
Como se tudo não fosse indiferença.
Desumanizamo-nos.
Trancados no mais caro patamar da
civilidade.
O veneno intragável de não poder ser
apenas natural.
543

Esses Versos

Há nesses versos muito de mim
De meu hálito, suor e sangue
Mas principalmente
lágrimas

Em especial,
as que não derramei
Há um cais vazio e repleto
Mutilado por navios perdidos

Há luz e escuridão
Há pausa e o dínamo
Veloz e eloqüente

Do pensamento poético
A percorrer os perímetros possíveis
E irrazoáveis da paixão humana.

Há o alvorecer silente do outono
Há uma Guernica em chamas
Gritando por misericórdia
Que ninguém entende.

E, pior que ninguém atende.
Há uma soleira branca
A espera do primeiro passo

Há uma janela entreaberta
A espera do primeiro raio de sol
E mesmo que não haja sol

Há nesses versos
Miríades de estrelas cadentes
Pontuando segredos,
publicando idéias inconfessáveis

Há na chuva a redenção da água
Lavando tudo, enxaguando tudo
E ainda assim, resta o resíduo de mim

Nesses versos sem rima e com algum lirismo
Suicidas compulsivos
Se jogam numa rede e sem serem
pescados

São garimpados dormentes e permanecem
Vivos pelos suspiros e reticências de quem
Os lê...

427

intertício

A palavra

A eterna prisão de signos

e semântica



As cordas presas do consciente

Os labirintos incompletos do inconsciente

A fonética diafragmática

A corruptela da dor e lágrima

O silêncio nostálgico dos corredores



O alarido das folhas ao vento

O rufar dos tambores

A prenunciar a sentença

Cabeças rolando junto com os pensamentos



E, o perdão surgiu como um tropeção

Como um cadafalso a espreita de sua vítima

Nada faz mais sentido

A dor, a palavra ou sentimento.



Só essa pausa.

Essa única pausa.

Intertício de passado e futuro.

524

Refém

Capturei sua alma
dentro da essência deste perfume
nesse vidro minúsculo
Embora soubesse que sua alma é imensa

Capturei sua alma
Nos quadros que retratam sóis, chuvas, mar e
embarcações vazias a deriva no horizonte
Sinaletes de sua presença
Atentos a denunciar-lhe na sala
Capturei sua alma
Na trama dos tecidos,
Na teia emboscada das esquinas
No texto de sua lavra
Que vai esgotando tudo,
Sorvendo tudo,
E com seu toque
Humanizando os impossíveis limites
da realidade.
Capture sua alma
Contemporânea
Em cena medieval e romântica
rompendo preconceitos,
rituais e mitos
Por amor à causa.
Ou por causa do amor.
Sua alma é refém de minha poesia,
de meu coração
Somente eu literalmente a possuo
Pois você, não a reconhece
Pois você, não se libertou de seu ego
Dos excessos risíveis...
Somente eu, após libertar sua alma
Poderei fazer com que conheça a liberdade ou
então, a vaga sensação de tontura
Pois a altura lhe dá vertigem
ou será o desconhecido?
E nada é, o que apenas parece ser
Ir além, é um sequestro
Ir além, é livrar-se de ser refém
Correndo todos os riscos e assumindo o visgo
de viver impunemente.
de viver o viés da vida.
552

ser o outro

Não se apressem a responder

as perguntas

Não se apressem a sanar

as dúvidas

Pois estas permanecerão

São mais eternas que os homens

Mais perenes que os sentimentos,

Que todas as lembranças ou memórias

Diante das perguntas

Há um segundo de silêncio e de inquietação

Há angústia plasmada na saliva

Que lubrifica a palavra

Que recheia a boca e a digestão

Não se apressem a ter o que dizer

O que sentir,

O que fazer ...

Pois os discursos, as emoções e os atos

São finitos, limitados, circunstanciados,

Paridos e premidos pelo momento,

Pela genética, pelo inconsciente

Que traiçoeiro

Deixa você responder

Aquilo que jamais pensou

Cogitou, ou revelou diante do imenso

abismo que existe entre dois seres.

O intransponível lugar do outro.

Ser o outro é a única maneira

de dar a resposta

exata.

Na proporção e na ótica correta...

Ser o outro, sem abandonar-se ou renegar-se

Ser o outro por alteridade e compaixão.

Ser o outro apenas para impedir que o silêncio

Mumifique o eterno.

Ou que transforme toda consciência em pó.
569

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Professora universitária, pedagoga, advogada, mestre em Direito, mestre em Filosofia, Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.
Articulista e colunista das principais revistas jurídicas e sites jurídicos.