Gonçalo Soares

Gonçalo Soares

n. 2005

n. 2005

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“Um só sussurro”

Depois…
De tudo…

Eu acho que só te queria dar um último sussurro antes de ir,
E eu queria dizer algo muito bonito,
Algo que te fizesse gostar mais de mim,
Do que o teu gostar permite,
Mas se tu gostas.

Que poderia eu dizer,
Ou sussurrar, ou fazer,
Eu não creio que tenha de criar muitas mais imagens,
Para que te relembres de mim,
Eu tenho vivido sempre a ti.

Lembro-me de um tempo,
Em que a dor e o amor,
Não tinham grande dissociação,
Era de uma época,
Em que eu saberia aquecer o coração.

Agora…
Agora o quê?

Sou um homem,
E não creio saber o que isso significa,
Ou se alguma vez teve significado.

Então faço uma distinção,
Entrando num estado,
Em que não sei mais como tocar.

E os meus dedos,
Só podem escrever os teus arrepios.

Havia um cenário,
Uma lareira onde queimei as mãos,
O longo casaco negro,
Que se escapava entre ombros,

Umas telhas castanhas,
Onde se assentavam os pés,

No sofá o espaço era tanto,
Mesmo agarrados parecia sempre distante,
Mas eu nem fazia mais nada,
Só no teu colo,
Finalmente descansava.

Havia um cenário,
Mas era só na minha mente.

Não dei o sussurro,
O tempo passou,
E só esta carta ficou.

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Poemas

5

“A minha curiosidade é viver-te”

— E tu? O que sentes quando tocas em mim?

O meu corpo também te fala assim como o teu fala comigo?

 

— Eu vejo uma escultura viva, que não podia ter sido feita por mãos humanas, existe calor o suficiente para me aconchegar na noite e frescor o suficiente para contrastar o calor que carrego ao peito, como que se não importasse a temperatura que precisasse, tu ofereces as duas.

 

Cada linha é fluida, e eu posso me agarrar aos contornos da tua cintura como se fossem feitos para as minhas mãos, mas o que mais gosto mesmo, é percorrer as tuas costas com as palmas das minhas mãos, ainda que ela tenha limites, eu podia explorar e explorar e todos os dias seria diferente, todos os dias seria único.

 

Quando te ergo acima de mim, abraçando as tuas costas, é como erguer o mundo, e é a única vez em que o mundo não é pesado, esse mundo é leve, mas tem tudo.

 

Eu sou rígido, tu tens uma fluidez que me atrai, eu acalco e agarro e a tua pele afunda e acompanha, como na dança de cedência entre as peles, não tenho a curiosidade de querer conhecer, a minha curiosidade é o de querer viver o mesmo todos os dias, porque é sempre diferente e é sempre bom.

 

E ao tocar na tua delicadeza, eu sinto uma responsabilidade de te proteger e acompanhar, é também o momento onde os meus sonhos mais vívidos e prazerosos não só se tornam realidade, como são plenos, e sinto que não quero deixar escapar nem um centímetro teu, e quero-te por inteira — e em liberdade.

1

“Nas minhas escolhas os meus pensamentos e nas escolhas da vida os meus sentimentos”

(Então e as gajas?)

 

Já não sei se quero saber assim tanto disso

 

(Então porquê?)

 

A pessoa que eu quero não existe

E ainda que exista

Eu não estou ao alcance dela

Nem ela está ao meu alcance

 

Porque por mais que eu procure por ela

Ou espere que ela venha ao meu encontro

Por mais que eu me envolva em outras atividades

Para distrair os meus pensamentos e sentimentos

Enrolando-me na desprezível máquina social

Ainda assim

A vida não faz essa pessoa esbarrar comigo

 

Então Fred, quando me fazes uma pergunta dessas

É óbvio que eu não tenho muito mais a dizer

Senão o facto de não querer mais falar ou pensar nisso

 

Porque quando o mencionas

Sou inundado em uma tormenta de pensamentos

Que se dividem em dois géneros diferentes

Por um lado

Os meus pensamentos suicidas cada vez mais recorrentes

Pois não vejo qual seria o propósito de continuar a sobreviver a esta vida

Se eu nem o mínimo que qualquer humano deveria viver

Tenho a possibilidade de obter

 

E por outro

Manter a minha estagnação

Por muito ou pouca ação que essa envolve

Apenas na réstia de esperança de que ela há de aparecer

Mas suscita sempre outra questão

Esperança em torno de quê ao certo?

Posso viver a minha vida toda em esperança

E em esperança continuar

E se assim eu fosse acabar

Então para onde estaria a caminhar?

Para o vazio?

O vazio onde já me encontro

E continuaria a caminhar por aí

Isso faz com que mesmo essa breve esperança

Se incline mais para o conforto suicida  

 

Então eu não quero falar sobre isso

Porque agora estou a querer decidir

E é até cruel

Que eu vivi e continuo a viver tão intensamente

Tão à flor de tudo o que não é tangível

Que agora eu sinto palpitações recorrentes no coração

E como se não chegasse a dor interna que isso em mim provocava

Agora também a sinto mesmo no corpo

 

E todas as noites

Eu deito-me com o medo de não acordar mais

De certa forma

Na minha indecisão sobre o que escolher

A vida por mim já está a fazer as escolhas

 

E não deixa de ser curioso

Que apesar de querer ir

Perco a vontade quando chega a hora de deitar

E sinto que a vida me vai levar

Como se a minha escolha

Quando deliberada fizesse sentido e fosse calorosa

Mas quando por uma outra força tomada

Mais pavor em mim se instala

E por isso eu não durmo

É como matematicamente dois negativos acabam por dar um positivo

E por aqui eu fico

 

E como eu amo e odeio tudo isto

Amo tudo o que podia ser e podia ter sido

E odeio tudo o que é e que continua a ser.

1

“Uma espera é uma carta”

Bem, mas falando a sério,

Ela aparece quando, quando eu desistir?

Se a ideia for essa, então é preferível que não apareça.

 

Eu acho que estou à espera há muito tempo.

 

E parte de mim, acredita, contra vontade,

Que as possibilidades

São de que vou esperar um tempo igual ao que já esperei,

Ou até um tempo superior para que ela apareça.

 

E parte de mim, diz-me que não vou esperar assim tanto,

Porque a certa altura

Não restará nada mais senão deixar de esperar,

Ainda que certos fragmentos refiram,

Que eu não posso deixar de esperar.

 

E os últimos pedaços explicam,

Que se ela aparecer quando eu deixar de esperar,

Foi porque não estive à espera,

E que se ela aparecer enquanto eu ainda espero,

Foi porque à espera estive.

 

Mas não sei qual das duas seria a melhor.

(Pois ambas parecem iguais dado o momento atual,

E ambas carregam a sensação

De que têm de refletir algo completamente oposto uma da outra.)

Ainda que no fundo seja igual,

Mas quem sabe, diferente.

Se diferente for bom e se igual for igual.

 

O que ela pensa?

Por vezes questiono-me,

Será que enquanto a imagino ou falo dela,

Ela faz o mesmo de mim do outro lado?

 

Mas estas dores…

A cada vez que ocorrem,

Parecem ser mais um rasgo no tecido coronário.

 

E agora, a minha emoção tornou-se tal,

De ordem massificamente avassaladora e gloriosa por si mesma, como solitária.

 

Que o simples facto de ouvir as músicas que me acompanham,

As únicas vozes verdadeiras que me têm seguido,

Mais destes rasgos se originam

E cortes pungentes, trazem mais dessas dores.

Dessas palpitações.

 

A escrita igual…

E eu sinto que não só tenho morrido a cada dia, de tudo o que a vida nada traz,

Como também tenho morrido da minha própria cura escrita em papel.

 

O que se veio a tornar claro agora.

Pelo que se a minha desconexão já era parcialmente total,

Dentro de todas as totalidades reais,

Agora começo a deparar-me com algo vilmente mais cruel,

A minha desconexão é total, dentro de todas as parcialidades imaginárias.

 

E se por outrora dois palmos abaixo de terra estava

Por odiar isto tudo, isto tudo…

(Pessoas na sua maioria, por serem superfícies mais planas que o superficial polido,

Sistemas de sociedade mais falidos do que a dívida geral pode detectar,

E uma falta de compreender o que aqui estou a fazer

Juntamente com todas as respostas às perguntas que podem surgir,

Além da falta da minha dona

Do qual nunca poderia eu, ser senhor vassalo.)

 

Agora quatro palmos acima dos céus,

Por tudo aquilo que a fantasia, idealização e sonho traziam.

(Agora um abandono é necessário para coser novamente

Aquele tecido de vermelho elastano,

Que palpita mais do que outros palpitam por ele.)

 

E eu não sei até que ponto,

Se pode coser cicatrizes em cima de queimaduras.

1

“Na Terra de Santos e Pecadores”

Na terra de cadáveres encaixotados caminho,

Ao passar pelos muros do destino

Um buraco no ar surge e eu designo

Uma paz de espírito, aproximando-se sem sentido


Tudo tão mágico e sem explicação

À medida que atravesso o branco refletor da libertação

E é uma força abismal para além do coração

Como se conversasses comigo em oração


A poupança de toda uma só vida

Esbanjando-a na tua alma perdida

Em um altar por uma lei proibida,

Conversar contigo, só em memória vivida


Pote do negro pó ou caixão de um eventual cinzar

Colocando flores à vista do olhar

De pouco serve senão me agradar

Nas tuas mãos em vida as devia entregar


Mas sei que com isso não te vais importar

Minha presença consistente é de pasmar,

Estarei a querer compensar

Um tempo que em vida não soube aproveitar?


Não tenho resposta a dar

Tudo o que sei dizer, é a angústia que em minhas costelas a prensar

Me faz querer a teu lado deitar

A tua face, uma vez mais beijar


Fina é a membrana de água doce, por onde observo esse cantinho

Amanhã aqui estarei novamente a rir-me contigo

O ponteiro é rápido demais, brevemente me entregará no mesmo estilo

E outro, por mim se sentirá desconhecido.

2

“Um só sussurro”

Depois…
De tudo…

Eu acho que só te queria dar um último sussurro antes de ir,
E eu queria dizer algo muito bonito,
Algo que te fizesse gostar mais de mim,
Do que o teu gostar permite,
Mas se tu gostas.

Que poderia eu dizer,
Ou sussurrar, ou fazer,
Eu não creio que tenha de criar muitas mais imagens,
Para que te relembres de mim,
Eu tenho vivido sempre a ti.

Lembro-me de um tempo,
Em que a dor e o amor,
Não tinham grande dissociação,
Era de uma época,
Em que eu saberia aquecer o coração.

Agora…
Agora o quê?

Sou um homem,
E não creio saber o que isso significa,
Ou se alguma vez teve significado.

Então faço uma distinção,
Entrando num estado,
Em que não sei mais como tocar.

E os meus dedos,
Só podem escrever os teus arrepios.

Havia um cenário,
Uma lareira onde queimei as mãos,
O longo casaco negro,
Que se escapava entre ombros,

Umas telhas castanhas,
Onde se assentavam os pés,

No sofá o espaço era tanto,
Mesmo agarrados parecia sempre distante,
Mas eu nem fazia mais nada,
Só no teu colo,
Finalmente descansava.

Havia um cenário,
Mas era só na minha mente.

Não dei o sussurro,
O tempo passou,
E só esta carta ficou.

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