Guilherme Coutinho

Guilherme Coutinho

n. 1972 BR BR

"(...) Não tenho ambições nem desejos Ser poeta não é uma ambição minha É a minha maneira de estar sozinho. (...)" (Alberto Caeiro)

n. 1972-03-28, Campinas - SP

Perfil
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você

você?

não é um pronome do caso reto.
é uma segunda pessoa,
com certeza indireta.

tuas, melhor dizendo, suas ações
são sempre através de terceiros
mas do caso reto.

se você é uma pessoa?
não...
não, com certeza não

mas substitui uma
pelo nome
pronome
que poderia ser tu

ai sim tu te tornarias uma pessoa
não agindo como uma terceira
e não nos deixando a vossa mercê.

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Biografia

Minha biografia

Será um livro de capa dura,
Dura de abrir.
Para que ninguém tenha vontade de ler
As folhas todas em branco
As páginas numeradas
De acordo com os anos de vida
Nelas escrito nada
Quem quiser saber-me
Leia-me!
E não minha vida contada.
Não terá utilidade,
Só matar curiosidade.

Não sou santo de ninguém
Não faço bem a todo o mundo
Não quero bem a quem me quer mal
Vivo insatisfeito com o exterior
Plenamente confuso em olhar
Inconformado com os valores alheios

Imperfeito sujeito
Predicando sem verbo
Transitando na indecisão
De ser ou não ser
Seja lá o que quer que seja.

Umas dúvidas não tenho.
Eu sou eu e pretendo ser mesmo,
E não sou Deus!

Melhor!
Minha biografia terá um nome
“Sinto muito”
Sem páginas em branco
Uma única escrita
Dito isto:

“Vivi por que não quis existir.
Quem existe é Deus
O que fiz de bom não fui eu
O amor que dei não era meu
O que falei de bom não era meu
Fiz o que quis sempre (escrever)
Tive o que me dei
Quando fui eu mesmo
Deixando de lado o querer entender
O significado ou sentido da vida.
Nada disso existe.
Não me entreguei à sorte
Do desejo, do saber, do conhecer.
Senti muito, demais, coisas ruins e boas.
E tive vida em meu ápice.
Entender-me com Deus”

Mas por enquanto sou vivo
E essa é biografia nenhuma.
Sim ficção criada,
Pelo personagem que ainda sou
E só terei vida vivida depois de morrida.

Poemas

36

você

você?

não é um pronome do caso reto.
é uma segunda pessoa,
com certeza indireta.

tuas, melhor dizendo, suas ações
são sempre através de terceiros
mas do caso reto.

se você é uma pessoa?
não...
não, com certeza não

mas substitui uma
pelo nome
pronome
que poderia ser tu

ai sim tu te tornarias uma pessoa
não agindo como uma terceira
e não nos deixando a vossa mercê.

735

labor ou ofício

se fosse poeta por ofício
escreveria ofícios e despachos
ou outra coisa que não precisasse escrever

se tivesse por labor ser poeta
com certeza faria versos
livres de qualquer compromisso

eu e eles!

694

O corvo do abismo

















Esta noite deparei-me novamente
Com afronteira, com o abismo.
O lugaronde perambulam fadas,
Garotaspálidas de aparência fantasmagórica.
Não haviamaritacas barulhentas,
Aquelasque nunca se calam..
Mas umaave dita de mau agouro assentou-se próximo
E emsilêncio me olhou como se fizesse um convite
'Umsobrevoo por sobre o abismo?'

Seus olhosproferiam palavras mudas,
Ecoavam emmeu interior.
Umsentimento de negação,
Do saberque não deveria, conteve-me
Numinstante se formou nítida a imagem
A avenegra finalmente me encarou e disse :

'A ti nãohouve Lenora
E hojeaprecias a aurora
Levanta-telogo cedo
Em precesque te abafam o medo

Não tehouve Lenora
Porémsentiste e choraste a partida
Buscandoinutilmente a calma
Tentaste acura lambendo a própria ferida
Mas asaliva não lava a alma

Não teestendo as mãos porque não tenho
Não teofereço uma asa pois ambas me são necessárias



Aproxima-teentão e pula comigo
Abandonatudo e encara o abismo
Maste lembres que não tens asas
E que nãovoltarás para casa
E tampoucoverás aquela que para ti
Foi comoLenora

Não terásmais a dor da lembrança
Osentimento de vazio da desesperança
Conceda-meesta última dança
Maslembra-te: logo após, nada mais, nunca mais.'



E a ave prostrou-se diante do abismo

Virou-se para trás e fitou-me brevemente
Seminsistir, emudeceu e alçou voo sozinha

Virei-mepara os lados
Percebique não mais havia ali
Fadas ougarotas pálidas

Quando mevoltei para ver o corvo
Não haviaali nem corvo ou abismo
Apenas umhorizonte árido e um fio d'água
Acompanhadosde um gralhar constante em meus ouvidos:
'Nuncamais!
Nuncamais!'
647

Pérolas

Estas pérolas

Que circundam a delicada

Existência do que quero tocar

Com minhas brutas mãos

Que um dia estapearam alguém

Que me deu pérolas, das profundezas

Do nobre sentimento da alma,

E eu não soube valoriza-las



Estas que te circundam

São muitas, e nem as quero.

Você, pobrezinha...

Carrega este apanhado delas

Querendo ser uma grande ostra

Vivente nas profundezas

E possuidora de tudo,

Tudo que guardas em segredo

Ensimesmada

Em si escondida.



Enquanto mostras um enfeite

Ao redor de teu pescoço,

Eu vampiro sedento ti

Quero mais é desmontá-lo todo

Morder-te, beijar-te

E mostrar-te quão preciosa

Simples e única é

A pérola que guardas por dentro

E não a revelas...

E não percebes que és

A Verdadeira Pérola

E não a ostra que a esconde.
653

Contentamento



Eeu que ando triste estando contente.
Contentepor estar aguentando sozinho
Etriste por estar acontecendo sozinho

Eué que ando triste
Porque estou contente
Emestar sozinho

Etão contente
Emestar sozinho
Quepreciso de alguém
Paradividir este contentamento.
669

Ajuda de Neruda

Peço-te licença,
Caro Neruda
Empresta-me versos
Preciso de ajuda
Os meus são dispersos
Na penumbra surgida
Em um crepúsculo
O sol tornado
Menos que inteiro
Metade
Menor
Ausente

Meu coração tomado, espremido
Por entre os dedos
Desta penumbra
Restada
Sobrada
Pós-beleza

Empresta-me este verso
Que pôs cheiro nas letras
Cores nas dores
E nomes nas penas
Resta-me o socorro em ti
Meu caro, agora ausente
Grato pela ajuda
Fez-me crepúsculo insistente
Na penumbra gélida e muda.
631

Caleidoscópio

Cacos coloridos
Caídos de corpos doloridos
De toda sorte de dores
Sentimentos e cores

De amores roxos
Decepções amarelas
Alegrias azuis

Recolhidos aos montes
Acondicionados com cuidado
Na memória, minha história
De fantasia, linda sinfonia

Choro bom de alívio
De lágrimas opacas
Fracas, tão fracas,
Quase de força escassa
Insistentes em não se derramarem
Por saberem que estavam negras
Com medo de assustar quem as queria fora

Lágrimas de sangue...
Antes assim fossem
Sangue vivo e lavado
Mas assim escuras, levaram todas as cores
Mesmo as tristes que coloriam as dores.
555

Não pertenço

"Quando escrevo visito-me solenemente" (Fernando Pessoa)

Quando leio me descubro não ser eu
Dou-me por completo a uns poucos versos
Que mal compreendo,
Nem sei bem se dizem o que estou a entender.

Mas e daí?
Tanto faz, quando leio abandono-me solenemente
Ponho-me no esquecimento de que não pertenço a meu corpo
E nem sei mesmo se o sinto,
Versos me possuem, me arrancam de dentro não sentimentos
Arrancam-me sutilmente da quietude fingida
Nos momentos de sobrevivência.

Adoro comida, comer, dormir e não ler nada.
Um absurdo paradoxal, quando digo que leio e gosto
Gosto sim, não gosto é da preguiça que sinto
Em abrir um livro e mover os olhos
Cansam-me os músculos, esta perseguição insólita
Correndo e correndo atrás de letrinhas paradas
Que não se movem, que não falam e não exalam

Quando leio, não sou eu quem lê
É a minha vontade em fazer de conta que gosto de não fazer o que faço sempre.

Escrever o que leio e ler o que escrevo e imitar quem leio e aprender a ler e entender
Que um verso escrito já não pertence mais a quem o escreveu

Eu sou eu e não me pertenço
Minha poesia é minha somente nos instantes em que está em mim
Após escrita eu sou mais dela e ela a dona
Porque não sei uma delas sequer em memória

Mas elas são certas de si
E existem sozinhas
E saídas de mim
A elas não sou mais ninguém e nada

Não me pertenço
Elas não me pertencem
Mas elas são a minha maneira
De ser eu mesmo sem sentir-me dono
Nem delas, nem de mim, sendo assim
Não pertenço.
Mas estou vivo dentro delas
E elas já não mais em mim.
1 046

Entrelinhas

Entrelinhas

Entre as linhas

Não há nada!



Somente um espaço em branco,

Ou se estiver escrito, entre as linhas existem letras,

Aglutinadas.

Palavras.

Pontuação.



Entre elas não há significado.

Há sobre elas.

No que está escrito em cima delas.



Entrelinhas

Retas ou tortas

Só existe o que

Supostamente existe.



Existe o que não escrevi

O que não pensei

E o que ninguém vai encontrar.
593

Completamente livre

Vivo preso num hospício
Chamado 'meu corpo'
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas


Vivo preso num manicômio
Que se chama 'minha mente'
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas


Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas idéias


Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre
530

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