Olhar-te
Olhar-te
Não cria em mim só excitação carnal.
É vontade de olhar-te novamente.
E olhar-te
Para não sentir desejo de posse.
E olhar-te até que percas o sentido
E deixes de ser humana, mulher e seja apenas maravilha.
E olhar-te
Até cegar-me para não poder
Olhar-te
Novamente.
Sentir-te somente.
Olhar-te é mistério.
Deixo de ser humano
E sinto apenas.
Um prazer,
Um bem
estar,
Um êxtase indescritível!
Parecido com frio na espinha, na barriga.
Parecido com um tremor.
Parecido com o que dizem ser amor.
É assim que te vejo
Sinto-me à vontade diante do branco
Em posse da pena e tinta
E da outra que sinto, por mim mesmo
Do medo e acanhamento em dizer-te
Sobre o que sinto e vejo
Não enrubesço, não demonstro
E nem também disfarço-me
E tampouco esforço-me
Um dia entrego-te estes eoutros
Os diversos versos que te dedico
O reverso do que oculto
E o amor que quero e ainda não sinto
Se não gostasse de escrever
Tudo seria mais simples
Fácil e objetivo, mas não tenho objetivos,
Pretensões, vontades vãs e vis
Só espero nunca ser óbvio
E nem mistério
Ser amigo sempre
Simples, sincero
Beijar-te primeiro as mãos
E inevitavelmente tudo o mais
Que me permitires, que quiseres
Simples seria olhar-te
E dizer como és talvez a mais bela
Como és talvez quem eu queira de fato
Como és talvez de quem não quero talvez
Simples sim, seria ser simples
E conseguir dizer-te o que quero
Que é só fazer com que saiba
O quanto és admirada,
Querida, desejada.
Não simplesmente só bonita
Porque se fosse apenas isso,
A mim seria apenas mais uma qualquer...
No trem
Num vago vazio
Vazio vagão
Do trem
Do trilho
Que trilha
Ao lado um vago
Assento vazio
Ao lado do lago
O trilho, o fio
Ao lado do vago
Vasto e fundo
Profundo e abismo
Do lado do trilho
Do trem que vem
Vagando
Vagando
Vagando
Caindo
Caindo
Caindo
Do lado
No lago
Fundo
Do fundo
Do abismo
Dum trem desgovernado
Descarrilado
De vida
Sofrida vivida
Dividida
No trilho da trilha
Que fica do lado
Do lago profundo
Do abismo do mundo
A novidade
A grande novidade
Trajada de deusa Afrodite
Ou mortal Psique.
Quero a novidade de novo
Que a velha do ontem
é antiguidade de hoje
A novidade de tudo novo
Nova mente
De tudo de novo
Novo de ovo
Botado, chocado
A grande novidade
é velha de novo
é nova de velha
E ideal de ser inédita
A novidade,
Nada mais!
Querer tudo
Velho novo.
Pedreiro ou poeta?
Não sou um pedreiro
Construindo um muro
Meu labor não tem hora
Nem resulta em obra
Não me sinto artista
Nem construtor ou poeta
Ajeitando palavras e rimas
Uma em cima da outra
Como se fossem tijolos
Unidos por argamassa
Produzindo um muro
Duro
Em pé!
Sou um reles engenheiro
Que inspira poesia
Respira sentimento
Inspira ar
Respira ar
Lê o que gosta
Escreve o que não gosta
Recuso-me ser
Recuso-me agir
Recuso-me não sentir
Ajeito sentimentos
Por entre as palavras
Deito pela boca o excremento verbal
Mas o desenho em letras e
Fodam-se métrica e rima
Estrofes e versos
Chuto tudo e arrebento
Esta estúpida poesia
Construída como muro.
Míssil
Eu,
Míssil teleguiado
Pelo desgoverno absoluto
Do descontrole
Do pensamento
Que explode
Quando se chocam
Ponta de caneta
Folha de caderno
Absurda explosão
Estúpida resolução
Destroços
Destroços estes
São estes mesmos
Estes versos
Heteronímia
A ideia de heterônimos seduz-me até a alma.
Mas não é minha,
Nem a alma e nem a ideia,
E não tenho inteligência para isso.
Quero ser eu mesmo
E imitar quem leio
Talvez nem queira ser nem ler
E muito não imitar.
Gostar apenas,
Intransitivamente.
Não vou repartir-me
Nem comigo mesmo
Não quero reinventar-me,
Vai que dê errado
E resulte num assombro.
Isto é um assombro,
Ser eu mesmo comigo mesmo
Aguentando-me sozinho.
Um pseudônimo,
Talvez necessário.
Um disfarce de mim
Só com um nome
Para esconder meu nome,
Mas não quem sou.
Só de pensar nisso
Já me esqueci do meu.
Do pseudônimo ou do nome próprio?
Já nem sei mais,
Confundi-me completamente.
às vezes quero ser o outro
E não outro de dentro de mim mesmo
Com outro nome
Ou com um nome
Que não é meu
E nem é de ninguém.
Melhor se anônimo!
Socorro!
Não sei quem sou
Nem meu nome
Nem se sou heterônimo
Nem se homônimo de alguém
Ou se o pseudônimo será meu próprio nome
E meu heterônimo eu mesmo do avesso
Contradizendo-me o tempo todo
Sem mudar nome, sem mudar pessoa.
Soberano
Ele nobre cavaleiro alado
Observa de um mirante
Escolhido a garras para o pouso
Um repouso sobre um monte
Edificado em um povoado
De tamanho absurdo
Observa de toda altura
Que lhe é permitida
As vielas, ruelas, avenidas
Todas elas estúpidas
Transeuntes tornados assim também
Ele todo de negro
Emplumado
Alado
Com suas fortes garra
Sublime se agarra
A espreita do que
O estúpido rejeita
Um morto
Um cadáver
De mau cheiro
Que a ele lhe é perfume
Odor incólume apetecedor
Decola de sua paciência
Soberana com insistência
Enfim...
Sublime pousa
Sobre a carcaça de um morto
Que não sou eu
Que não serei eu
Este que jaz à sarjeta
Será a garantia da força
De amanhã estar
A sobrevoar
A pousar
A espreitar em paciência
Consumir o que é rejeitado
O que não tem bom cheiro
Ser ele o herói que voa
Sublime
Sábio
Sereno
Levado pelas correntes
Do ar ascendente
Sem esforço, voa!
Sem esforço, não mata!
Com esforço, vive!
Porém tranquilo
No cimo de seu outeiro
No alto do sobrevoo
Na tranquilidade do pouso
Noturno Op 9 Nº2
Consciência limpa
Alma ímpia
Adormecida
Sentido o corpo
Suave em pena
Pluma
Apruma
Quase dorme
Quase criança
Somem em vagar
Pensamentos libertos
Corpo distante de si
Alma presente
Dor ausente
Espírito adormece
Mente esquece
Não mente
Sim, minha amada
Vou sonhar-te agora
Nosso olhar
"Quando a luz dos olhos teus e a luz dos olhos meus resolvem se encontrar..." (Vinícius de Moraes)
torno-me cego
não sou, não tenho ,não vejo
neste encontro, que dum olhar cruzado
de corpo deixado, tudo de lado
toca leve, contigo me leve
me lava e larga a alma
me alarga a vontade
do beijo que dissolve
meu ego, minha dor
de saudade de ver
ser ou ter, querer sentir ou tocar
quando teus olhos me vêm
não sei se os vejo, pois meu desejo
não se come com olhos
não se engole com boca
não digere no estômago
quando estas luzes
convergem ou divergem
este prisma chamado
encanto, que os espalha
por todos os cantos
o que nos olhos vêm
quando só nossos olhares
se encontram e é só deles
o amor que nos emprestam ao corpo