Lista de Poemas

Grávida

Vejo-te e caminhas

Andar de esperança

Que sejam minhas

Tu e a bela criança.



Rebento vindouro

Surgido de momento

Dum grande estouro

De vultoso sentimento



Cuidado em ter-te

Agora, resta-me espera.

Agrado-me ao ver-te

Como flor em primavera



Surge nova formada

Teu corpo em frente e verso.

A traseira transformada

Meu olhar, nunca disperso.



Estarei contigo, presente.

Barriguda, de seios inchados.

Como mãe, meu ser não sente.

Dedicação e amor doados.



Seremos por hoje apenas

Uma família simples de dois

De almas não pequenas

Para ser de três depois.
631

Ciência Exata

Escrever é preciso
Uma ciência exata
Saber sintática
Saber gramática

Escrever é preciso.

Pingos nos is,
Vírgulas,
Rimas.

Ah! Inferno de precisão.

Dicionários
De rimas
Sinônimos
E antônimos

Escrever é preciso
é precioso
é poderoso.
Quando escrevo sou poderoso,
Liberto-me de fantasmas.

Liberto-me porra nenhuma
Apenas os aprisiono
Atrás das grades destas linhas

E volto sempre pra vê-los
Aprisionados heroicamente por mim,
Minha caneta
E meu caderno
Mas quando me olham
Por de trás das grades,
Escarnecem.
E dizem que quem está preso
Sou eu!
Do outro lado das grades
Aprisionado na precisão da escrita.
519

Clarice

Primeira



Mesmo que tente

Não serei capaz

Entender o que quiseste

Nem em esforço

Saberia jamais



Entendo

Não é preciso entender

Sinto demais

E sentir o que foi dito

É muito além de entendimento



Quero nunca entender

Cessará o sentir

O sentido

A partilha

A novidade

A beleza



Que é só tua

De corpo e rosto

De frente e verso

De fase de lua

Regendo a maré

Do sentimento

Que vai muito além

Das linhas e entrelinhas



Segunda



Paixões

Desmedidas indesejadas

Ardem, brasas infernais

Quando pela razão

Deveriam ter

Simplesmente sabor



A carne

A bela

A confusa

São dor.



Paixões

Desmedidas e desejadas

Queimam, fogo celestial

Quando pela razão

Deveriam ser

Simplesmente êxtase



A poetisa

A musa

São nirvana.



Paixões

Doem

Aliviam

Enriquecem

Empobrecem



Paixões

São infelizes

São felizes



Introspecto...



Paixão desmedida,

Prazer de ferida

Alegria de dor

Paixões

São uma.

Você todo dia,

Única!

E sempre a mesma novidade.



Terceira



Não há palavra

Para o que quero

Eu

Espero

Uma Língua

Que tenha

Outra coisa

Que não seja somente

Palavra que defina

Ou de nome

553

Noturno Op 9 Nº2

Consciência limpa

Alma ímpia

Adormecida

Sentido o corpo

Suave em pena

Pluma

Apruma

Quase dorme

Quase criança



Somem em vagar

Pensamentos libertos

Corpo distante de si

Alma presente

Dor ausente

Espírito adormece

Mente esquece

Não mente



Sim, minha amada

Vou sonhar-te agora
438

E você

Pense o que bem quiser

Não posso lhe aprisionar

Na insanidade das minhas convicções

As mesmas que te querem livre

Brincando

Nos jardins da desordem

Dos meus sentimentos
555

Olhar-te

Olhar-te

Não cria em mim só excitação carnal.

É vontade de olhar-te novamente.

E olhar-te

Para não sentir desejo de posse.

E olhar-te até que percas o sentido

E deixes de ser humana, mulher e seja apenas maravilha.

E olhar-te

Até cegar-me para não poder

Olhar-te

Novamente.

Sentir-te somente.



Olhar-te é mistério.

Deixo de ser humano

E sinto apenas.

Um prazer,

Um bem

estar,

Um êxtase indescritível!

Parecido com frio na espinha, na barriga.

Parecido com um tremor.

Parecido com o que dizem ser amor.
551

Do avesso

Eu existo é pelo avesso
Porque o que sou
Não pode ser visto
É desagradável, indesejável

Então me dou as próprias costas
Rasgo-me pela testa
Meto-me neste corte adentro
E mais um esforço
E estou pronto
Todo direitinho
Do jeitinho que querem ver
Comportadinho e direitinho

Mas por dentro mesmo
Todo do avesso

Avesso a tudo
Avesso ao direito
Avesso às normas
Avesso sempre

Vivo do avesso
Só assim vivo direito

Quer saber?
Vire-me do avesso
Que verás a mesma coisa.

577

Míssil

Eu,

Míssil teleguiado

Pelo desgoverno absoluto

Do descontrole

Do pensamento



Que explode

Quando se chocam

Ponta de caneta

Folha de caderno



Absurda explosão

Estúpida resolução

Destroços

Destroços estes

São estes mesmos

Estes versos
551

Soberano

Ele nobre cavaleiro alado

Observa de um mirante

Escolhido a garras para o pouso

Um repouso sobre um monte

Edificado em um povoado

De tamanho absurdo



Observa de toda altura

Que lhe é permitida

As vielas, ruelas, avenidas

Todas elas estúpidas

Transeuntes tornados assim também



Ele todo de negro

Emplumado

Alado

Com suas fortes garra

Sublime se agarra

A espreita do que

O estúpido rejeita



Um morto

Um cadáver

De mau cheiro



Que a ele lhe é perfume

Odor incólume apetecedor



Decola de sua paciência

Soberana com insistência

Enfim...



Sublime pousa

Sobre a carcaça de um morto

Que não sou eu

Que não serei eu

Este que jaz à sarjeta

Será a garantia da força

De amanhã estar

A sobrevoar

A pousar

A espreitar em paciência



Consumir o que é rejeitado

O que não tem bom cheiro

Ser ele o herói que voa

Sublime

Sábio

Sereno



Levado pelas correntes

Do ar ascendente



Sem esforço, voa!

Sem esforço, não mata!

Com esforço, vive!



Porém tranquilo

No cimo de seu outeiro

No alto do sobrevoo

Na tranquilidade do pouso
461

É assim que te vejo

Sinto-me à vontade diante do branco

Em posse da pena e tinta

E da outra que sinto, por mim mesmo

Do medo e acanhamento em dizer-te

Sobre o que sinto e vejo



Não enrubesço, não demonstro

E nem também disfarço-me

E tampouco esforço-me



Um dia entrego-te estes e outros

Os diversos versos que te dedico

O reverso do que oculto

E o amor que quero e ainda não sinto



Se não gostasse de escrever

Tudo seria mais simples

Fácil e objetivo, mas não tenho objetivos,

Pretensões, vontades vãs e vis



Só espero nunca ser óbvio

E nem mistério

Ser amigo sempre

Simples, sincero



Beijar-te primeiro as mãos

E inevitavelmente tudo o mais

Que me permitires, que quiseres



Simples seria olhar-te

E dizer como és talvez a mais bela

Como és talvez quem eu queira de fato

Como és talvez de quem não quero talvez



Simples sim, seria ser simples

E conseguir dizer-te o que quero

Que é só fazer com que saiba

O quanto és admirada,

Querida, desejada.



Não simplesmente só bonita

Porque se fosse apenas isso,

A mim seria apenas mais uma qualquer...
578

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Martiniano
Martiniano

Este (desejo primeiro) é um texto do poeta Victor Hugo.

Minha biografia

Será um livro de capa dura,
Dura de abrir.
Para que ninguém tenha vontade de ler
As folhas todas em branco
As páginas numeradas
De acordo com os anos de vida
Nelas escrito nada
Quem quiser saber-me
Leia-me!
E não minha vida contada.
Não terá utilidade,
Só matar curiosidade.

Não sou santo de ninguém
Não faço bem a todo o mundo
Não quero bem a quem me quer mal
Vivo insatisfeito com o exterior
Plenamente confuso em olhar
Inconformado com os valores alheios

Imperfeito sujeito
Predicando sem verbo
Transitando na indecisão
De ser ou não ser
Seja lá o que quer que seja.

Umas dúvidas não tenho.
Eu sou eu e pretendo ser mesmo,
E não sou Deus!

Melhor!
Minha biografia terá um nome
“Sinto muito”
Sem páginas em branco
Uma única escrita
Dito isto:

“Vivi por que não quis existir.
Quem existe é Deus
O que fiz de bom não fui eu
O amor que dei não era meu
O que falei de bom não era meu
Fiz o que quis sempre (escrever)
Tive o que me dei
Quando fui eu mesmo
Deixando de lado o querer entender
O significado ou sentido da vida.
Nada disso existe.
Não me entreguei à sorte
Do desejo, do saber, do conhecer.
Senti muito, demais, coisas ruins e boas.
E tive vida em meu ápice.
Entender-me com Deus”

Mas por enquanto sou vivo
E essa é biografia nenhuma.
Sim ficção criada,
Pelo personagem que ainda sou
E só terei vida vivida depois de morrida.