Lista de Poemas

Noturno Op 9 Nº1

Soturno

Sutil

Chega

Sequestra a dor

Sequencia

Notada

Noitada



Deitado

Entorpecido

Noturno

Tocado

Levado

Ponta de dedos

ébanos

Marfins

Noturnos

Sem fins
502

O homem atrás do bigode

um verso do "Poema de sete faces"(Carlos Drummond de Andrade)

O verso

Que desejo de posse.
Que verso esse?
Brilhante sonoro
Um gozo sentido
Que tanto o adoro?

Tanto o verso
Tanto o gozo
Só não quero
Ser esse homem
Sério, forte e simples
Que tem bigode
E quatro olhos

Se fossem...
Ele eu,
O verso meu,
Seria é esconder
De si
De mim
De todos

Verso este
Queria-o meu,
Não posso
Gosto dele
Onde está
Muito dele,
Quem o escreveu.

Graças a Deus
Bigode e óculos e verso
Não são meus

O verso...
Que pena.
Mas rendeu
Esse dedicado poema.

O bigode

Detesto bigode
Não tenho um
Para não ter que ficar atrás dele
Penso eu que esse homem
Não tem bigode nenhum
É o bigode que o tem
De tão enorme que é.
E o coitado nem sabe
Que lá está
E nem que não é de si mesmo

Ele é do bigode!
Pode?

O bigode e os óculos

Vou fugir do tema proposto
Fazer tudo ao meu gosto
Sabe quem esta história me lembra?
O homem de bigode e óculos
Agora tem nariz e sobrancelhas.
Lembraram-me do Groucho
Que de rir me deixa frouxo
Como este verso
Que nem se quer me deixou ler o poema inteiro...

1 338

Pedreiro ou poeta?

Não sou um pedreiro

Construindo um muro



Meu labor não tem hora

Nem resulta em obra

Não me sinto artista

Nem construtor ou poeta

Ajeitando palavras e rimas

Uma em cima da outra

Como se fossem tijolos

Unidos por argamassa

Produzindo um muro

Duro

Em pé!



Sou um reles engenheiro

Que inspira poesia

Respira sentimento

Inspira ar

Respira ar

Lê o que gosta

Escreve o que não gosta



Recuso-me ser

Recuso-me agir

Recuso-me não sentir



Ajeito sentimentos

Por entre as palavras

Deito pela boca o excremento verbal

Mas o desenho em letras e

Fodam-se métrica e rima

Estrofes e versos

Chuto tudo e arrebento

Esta estúpida poesia

Construída como muro.
562

No trem

Num vago vazio

Vazio vagão

Do trem

Do trilho

Que trilha



Ao lado um vago

Assento vazio

Ao lado do lago

O trilho, o fio



Ao lado do vago

Vasto e fundo

Profundo e abismo

Do lado do trilho

Do trem que vem

Vagando

Vagando

Vagando

Caindo

Caindo

Caindo

Do lado

No lago

Fundo

Do fundo

Do abismo



Dum trem desgovernado

Descarrilado

De vida

Sofrida vivida

Dividida



No trilho da trilha

Que fica do lado

Do lago profundo

Do abismo do mundo
594

Nosso olhar

"Quando a luz dos olhos teus e a luz dos olhos meus resolvem se encontrar..." (Vinícius de Moraes)



torno-me cego

não sou, não tenho ,não vejo



neste encontro, que dum olhar cruzado

de corpo deixado, tudo de lado



toca leve, contigo me leve

me lava e larga a alma

me alarga a vontade

do beijo que dissolve

meu ego, minha dor

de saudade de ver

ser ou ter, querer sentir ou tocar



quando teus olhos me vêm

não sei se os vejo, pois meu desejo

não se come com olhos

não se engole com boca

não digere no estômago



quando estas luzes

convergem ou divergem

este prisma chamado

encanto, que os espalha

por todos os cantos



o que nos olhos vêm

quando só nossos olhares

se encontram e é só deles

o amor que nos emprestam ao corpo
464

Heteronímia

A ideia de heterônimos seduz-me até a alma.
Mas não é minha,
Nem a alma e nem a ideia,
E não tenho inteligência para isso.

Quero ser eu mesmo
E imitar quem leio
Talvez nem queira ser nem ler
E muito não imitar.
Gostar apenas,
Intransitivamente.

Não vou repartir-me
Nem comigo mesmo
Não quero reinventar-me,
Vai que dê errado
E resulte num assombro.

Isto é um assombro,
Ser eu mesmo comigo mesmo
Aguentando-me sozinho.

Um pseudônimo,
Talvez necessário.
Um disfarce de mim
Só com um nome
Para esconder meu nome,
Mas não quem sou.

Só de pensar nisso
Já me esqueci do meu.
Do pseudônimo ou do nome próprio?
Já nem sei mais,
Confundi-me completamente.

às vezes quero ser o outro
E não outro de dentro de mim mesmo
Com outro nome
Ou com um nome
Que não é meu
E nem é de ninguém.
Melhor se anônimo!

Socorro!

Não sei quem sou
Nem meu nome
Nem se sou heterônimo
Nem se homônimo de alguém
Ou se o pseudônimo será meu próprio nome
E meu heterônimo eu mesmo do avesso
Contradizendo-me o tempo todo
Sem mudar nome, sem mudar pessoa.
594

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Martiniano
Martiniano

Este (desejo primeiro) é um texto do poeta Victor Hugo.

Minha biografia

Será um livro de capa dura,
Dura de abrir.
Para que ninguém tenha vontade de ler
As folhas todas em branco
As páginas numeradas
De acordo com os anos de vida
Nelas escrito nada
Quem quiser saber-me
Leia-me!
E não minha vida contada.
Não terá utilidade,
Só matar curiosidade.

Não sou santo de ninguém
Não faço bem a todo o mundo
Não quero bem a quem me quer mal
Vivo insatisfeito com o exterior
Plenamente confuso em olhar
Inconformado com os valores alheios

Imperfeito sujeito
Predicando sem verbo
Transitando na indecisão
De ser ou não ser
Seja lá o que quer que seja.

Umas dúvidas não tenho.
Eu sou eu e pretendo ser mesmo,
E não sou Deus!

Melhor!
Minha biografia terá um nome
“Sinto muito”
Sem páginas em branco
Uma única escrita
Dito isto:

“Vivi por que não quis existir.
Quem existe é Deus
O que fiz de bom não fui eu
O amor que dei não era meu
O que falei de bom não era meu
Fiz o que quis sempre (escrever)
Tive o que me dei
Quando fui eu mesmo
Deixando de lado o querer entender
O significado ou sentido da vida.
Nada disso existe.
Não me entreguei à sorte
Do desejo, do saber, do conhecer.
Senti muito, demais, coisas ruins e boas.
E tive vida em meu ápice.
Entender-me com Deus”

Mas por enquanto sou vivo
E essa é biografia nenhuma.
Sim ficção criada,
Pelo personagem que ainda sou
E só terei vida vivida depois de morrida.