Minha biografia
Será um livro de capa dura,
Dura de abrir.
Para que ninguém tenha vontade de ler
As folhas todas em branco
As páginas numeradas
De acordo com os anos de vida
Nelas escrito nada
Quem quiser saber-me
Leia-me!
E não minha vida contada.
Não terá utilidade,
Só matar curiosidade.
Não sou santo de ninguém
Não faço bem a todo o mundo
Não quero bem a quem me quer mal
Vivo insatisfeito com o exterior
Plenamente confuso em olhar
Inconformado com os valores alheios
Imperfeito sujeito
Predicando sem verbo
Transitando na indecisão
De ser ou não ser
Seja lá o que quer que seja.
Umas dúvidas não tenho.
Eu sou eu e pretendo ser mesmo,
E não sou Deus!
Melhor!
Minha biografia terá um nome
“Sinto muito”
Sem páginas em branco
Uma única escrita
Dito isto:
“Vivi por que não quis existir.
Quem existe é Deus
O que fiz de bom não fui eu
O amor que dei não era meu
O que falei de bom não era meu
Fiz o que quis sempre (escrever)
Tive o que me dei
Quando fui eu mesmo
Deixando de lado o querer entender
O significado ou sentido da vida.
Nada disso existe.
Não me entreguei à sorte
Do desejo, do saber, do conhecer.
Senti muito, demais, coisas ruins e boas.
E tive vida em meu ápice.
Entender-me com Deus”
Mas por enquanto sou vivo
E essa é biografia nenhuma.
Sim ficção criada,
Pelo personagem que ainda sou
E só terei vida vivida depois de morrida.
Lista de Poemas
Noturno Op 9 Nº1
Sutil
Chega
Sequestra a dor
Sequencia
Notada
Noitada
Deitado
Entorpecido
Noturno
Tocado
Levado
Ponta de dedos
ébanos
Marfins
Noturnos
Sem fins
O homem atrás do bigode
um verso do "Poema de sete faces"(Carlos Drummond de Andrade)
O verso
Que desejo de posse.
Que verso esse?
Brilhante sonoro
Um gozo sentido
Que tanto o adoro?
Tanto o verso
Tanto o gozo
Só não quero
Ser esse homem
Sério, forte e simples
Que tem bigode
E quatro olhos
Se fossem...
Ele eu,
O verso meu,
Seria é esconder
De si
De mim
De todos
Verso este
Queria-o meu,
Não posso
Gosto dele
Onde está
Muito dele,
Quem o escreveu.
Graças a Deus
Bigode e óculos e verso
Não são meus
O verso...
Que pena.
Mas rendeu
Esse dedicado poema.
O bigode
Detesto bigode
Não tenho um
Para não ter que ficar atrás dele
Penso eu que esse homem
Não tem bigode nenhum
É o bigode que o tem
De tão enorme que é.
E o coitado nem sabe
Que lá está
E nem que não é de si mesmo
Ele é do bigode!
Pode?
O bigode e os óculos
Vou fugir do tema proposto
Fazer tudo ao meu gosto
Sabe quem esta história me lembra?
O homem de bigode e óculos
Agora tem nariz e sobrancelhas.
Lembraram-me do Groucho
Que de rir me deixa frouxo
Como este verso
Que nem se quer me deixou ler o poema inteiro...
Pedreiro ou poeta?
Construindo um muro
Meu labor não tem hora
Nem resulta em obra
Não me sinto artista
Nem construtor ou poeta
Ajeitando palavras e rimas
Uma em cima da outra
Como se fossem tijolos
Unidos por argamassa
Produzindo um muro
Duro
Em pé!
Sou um reles engenheiro
Que inspira poesia
Respira sentimento
Inspira ar
Respira ar
Lê o que gosta
Escreve o que não gosta
Recuso-me ser
Recuso-me agir
Recuso-me não sentir
Ajeito sentimentos
Por entre as palavras
Deito pela boca o excremento verbal
Mas o desenho em letras e
Fodam-se métrica e rima
Estrofes e versos
Chuto tudo e arrebento
Esta estúpida poesia
Construída como muro.
No trem
Vazio vagão
Do trem
Do trilho
Que trilha
Ao lado um vago
Assento vazio
Ao lado do lago
O trilho, o fio
Ao lado do vago
Vasto e fundo
Profundo e abismo
Do lado do trilho
Do trem que vem
Vagando
Vagando
Vagando
Caindo
Caindo
Caindo
Do lado
No lago
Fundo
Do fundo
Do abismo
Dum trem desgovernado
Descarrilado
De vida
Sofrida vivida
Dividida
No trilho da trilha
Que fica do lado
Do lago profundo
Do abismo do mundo
Nosso olhar
torno-me cego
não sou, não tenho ,não vejo
neste encontro, que dum olhar cruzado
de corpo deixado, tudo de lado
toca leve, contigo me leve
me lava e larga a alma
me alarga a vontade
do beijo que dissolve
meu ego, minha dor
de saudade de ver
ser ou ter, querer sentir ou tocar
quando teus olhos me vêm
não sei se os vejo, pois meu desejo
não se come com olhos
não se engole com boca
não digere no estômago
quando estas luzes
convergem ou divergem
este prisma chamado
encanto, que os espalha
por todos os cantos
o que nos olhos vêm
quando só nossos olhares
se encontram e é só deles
o amor que nos emprestam ao corpo
Heteronímia
Mas não é minha,
Nem a alma e nem a ideia,
E não tenho inteligência para isso.
Quero ser eu mesmo
E imitar quem leio
Talvez nem queira ser nem ler
E muito não imitar.
Gostar apenas,
Intransitivamente.
Não vou repartir-me
Nem comigo mesmo
Não quero reinventar-me,
Vai que dê errado
E resulte num assombro.
Isto é um assombro,
Ser eu mesmo comigo mesmo
Aguentando-me sozinho.
Um pseudônimo,
Talvez necessário.
Um disfarce de mim
Só com um nome
Para esconder meu nome,
Mas não quem sou.
Só de pensar nisso
Já me esqueci do meu.
Do pseudônimo ou do nome próprio?
Já nem sei mais,
Confundi-me completamente.
às vezes quero ser o outro
E não outro de dentro de mim mesmo
Com outro nome
Ou com um nome
Que não é meu
E nem é de ninguém.
Melhor se anônimo!
Socorro!
Não sei quem sou
Nem meu nome
Nem se sou heterônimo
Nem se homônimo de alguém
Ou se o pseudônimo será meu próprio nome
E meu heterônimo eu mesmo do avesso
Contradizendo-me o tempo todo
Sem mudar nome, sem mudar pessoa.
Comentários (1)
Este (desejo primeiro) é um texto do poeta Victor Hugo.