Minha biografia
Será um livro de capa dura,
Dura de abrir.
Para que ninguém tenha vontade de ler
As folhas todas em branco
As páginas numeradas
De acordo com os anos de vida
Nelas escrito nada
Quem quiser saber-me
Leia-me!
E não minha vida contada.
Não terá utilidade,
Só matar curiosidade.
Não sou santo de ninguém
Não faço bem a todo o mundo
Não quero bem a quem me quer mal
Vivo insatisfeito com o exterior
Plenamente confuso em olhar
Inconformado com os valores alheios
Imperfeito sujeito
Predicando sem verbo
Transitando na indecisão
De ser ou não ser
Seja lá o que quer que seja.
Umas dúvidas não tenho.
Eu sou eu e pretendo ser mesmo,
E não sou Deus!
Melhor!
Minha biografia terá um nome
“Sinto muito”
Sem páginas em branco
Uma única escrita
Dito isto:
“Vivi por que não quis existir.
Quem existe é Deus
O que fiz de bom não fui eu
O amor que dei não era meu
O que falei de bom não era meu
Fiz o que quis sempre (escrever)
Tive o que me dei
Quando fui eu mesmo
Deixando de lado o querer entender
O significado ou sentido da vida.
Nada disso existe.
Não me entreguei à sorte
Do desejo, do saber, do conhecer.
Senti muito, demais, coisas ruins e boas.
E tive vida em meu ápice.
Entender-me com Deus”
Mas por enquanto sou vivo
E essa é biografia nenhuma.
Sim ficção criada,
Pelo personagem que ainda sou
E só terei vida vivida depois de morrida.
Lista de Poemas
Completamente livre
Vivo preso num hospício
Chamado 'meu corpo'
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas
Vivo preso num manicômio
Que se chama 'minha mente'
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas
Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas idéias
Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre
Chamado 'meu corpo'
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas
Vivo preso num manicômio
Que se chama 'minha mente'
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas
Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas idéias
Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre
519
Senha
Abram-se todas as portas
Com palavras retas
E poemas tortos
E ouvidos bestas
Abram-se todas janelas
Que as feias
De calcinhas e meias,
Calçolas e camisolas
Querem dançar
Fechem todas as bocas
Que a poesia quer
Que a prosa cale
Façam da língua faca
Afiada no pescoço,
Da moça, do moço
Língua escrita
Vontade bonita
Calem-se todos e não digam
Senha nenhuma!
Sua senha para me ouvir
Sou eu quem fala:
--Cala a boca!
284
Beijo verso
Parece-me estranho escrever o verso profundo
Que em ti chegue tão forte quanto o toque de teus lábios
Despertando em mim o silêncio do verso perfeito.
Que em ti chegue tão forte quanto o toque de teus lábios
Despertando em mim o silêncio do verso perfeito.
341
Eu resto
Neste envelope sem selo
Contendo um apelo
Anexo ao pedido
Meus restos, sobras e raspas
Uns versos não meus
Conservo entre aspas
Dos meus cacos afiados
No esmeril chamado vida
Que arde e queima a ferida
Entrego meus restos de versos
Sentimentos reversos de apreço
Sem preço te vendo
Sem posse te dou-me
Me junta
Reconstrói
Cata-me, eu que sou resto
De tudo que sobrou
E que presto
Presto, veloz me faço teu
Querendo ser eu resto todo inteiro
Do que sou te me dou
Resto que sou
Contendo um apelo
Anexo ao pedido
Meus restos, sobras e raspas
Uns versos não meus
Conservo entre aspas
Dos meus cacos afiados
No esmeril chamado vida
Que arde e queima a ferida
Entrego meus restos de versos
Sentimentos reversos de apreço
Sem preço te vendo
Sem posse te dou-me
Me junta
Reconstrói
Cata-me, eu que sou resto
De tudo que sobrou
E que presto
Presto, veloz me faço teu
Querendo ser eu resto todo inteiro
Do que sou te me dou
Resto que sou
353
Ophelia, a orquídea de Antonia
Nunca escrevi um texto a pedido de alguém, sempre há uma primeira
vez!
Coitada das duas, da Antonia e da Ophelia, a Antonia que pensa que é
a dona da Ophelia e da Ophelia que vive presa num vaso dentro de um
apartamento, nunca experimentou a liberdade de estar na natureza, é
cria de cativeiro... Na floricultura pelo menos tinha a companhia das
outras orquideas sem donos e sem nomes. Coitado mesmo sou eu, que
nunca leu Sheakspear e nem sabe da história da Ophelia, e mais
coitado ainda se Caeiro me visse falar isso de uma planta. Meu Deus!
Falar que uma planta é uma coitada. Eu não sei nada a respeito da
morte dele, mas se foi enterrado está se revirando no túmulo!
Coitado do Caeiro se pudesse ler esta bobagem que escrevo...
Eu estou aqui, olhando para uma foto da Ophelia florida, tentando
imaginar o que ela sente ou pensa. Ela não sente ou pensa é nada.
Ela é que é feliz! Não tem cérebro, essa porcaria que só me enche
a cabeça...
É...
Viva a Ophelia que não tem cérebro, que não sabe que exite mas
existe, que não sabe que é orquídea e sabe florir, que não fala
e nem escreve. Se é feliz? Provavelmente não, plantas não lêem e
nem escrevem dicionários pra definir, não criam conceitos de
nada, só fazem o que interessa : existir. Mas se sentisse alguma coisa com certeza seria felicidade, por
deixar a Antonia de bem, feliz por cuidar de uma planta pela primeira
vez na vida e eu feliz em descobrir que sou um idiota tentando fazer
de conta que é uma planta pra sentir e escrever como uma delas...
É Ophelia, você sabe florir, alegrar, perfumar... e eu... só te
olhar numa foto porque a Antonia pediu uma historinha...
774
Espuma do mar
Um homem robusto
Que a acompanha,
Ao sair desta água que parte
E parte dela salgada
Por meu desgosto
Em vê-la acompanhada
Antes fosse saída como Afrodite
Dos colhões de outro deus arrancados
Jogados ao mar, e de espumado
Saiu-lhe A deusa.
Vil desejo...
Sei que passa
Tanto ele; desejo, quanto ela
Onda que vejo, quero e desisto.
E este encanto foi como
A própria de onde saiu
Bateu a beira e voltou atrás
Espumou intensa e dissolveu-se
E eu,
Como "o tolo do Orfeu"...
Dane-se ela, pseudo-Afrodite
Afogo-me mesmo
No encanto da minha Eurídce
Que é o rio que passa constante
De infinitas curvas
Que tanto faz se insinuantes ou não . . .
"o tolo do Orfeu" é uma citação de um poema de Flá Perez :"Sem Lenda"
Que tanto faz se insinuantes ou não . . .
"o tolo do Orfeu" é uma citação de um poema de Flá Perez :
956
A novidade
A grande novidade
Trajada de deusa Afrodite
Ou mortal Psique.
Quero a novidade de novo
Que a velha do ontem
é antiguidade de hoje
A novidade de tudo novo
Nova mente
De tudo de novo
Novo de ovo
Botado, chocado
A grande novidade
é velha de novo
é nova de velha
E ideal de ser inédita
A novidade,
Nada mais!
Querer tudo
Velho novo.
Trajada de deusa Afrodite
Ou mortal Psique.
Quero a novidade de novo
Que a velha do ontem
é antiguidade de hoje
A novidade de tudo novo
Nova mente
De tudo de novo
Novo de ovo
Botado, chocado
A grande novidade
é velha de novo
é nova de velha
E ideal de ser inédita
A novidade,
Nada mais!
Querer tudo
Velho novo.
633
Abaporu
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Abaporu vem dos termos em tupi aba(homem), pora(gente) e ú (comer), significando "homem que come gente". (de acordo com o artigo : |
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Abaporu |
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Tarsila do Amaral,1928 - Óleo sobre tela - 85 x 73 cm |
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Coleção particular |
Escrito talvez em um fim de semana de junho de 2011
Dentro e fora
Sou eu, aquele que te devora
A troco de saciar minha fome
De te saber, conhecer não só como quem come
Uma prato barato da esquina
Me mata
Quem me impede
Ou fecha-me a boca
Sim, me maltrata
Sou eu aquele que está dentro
E está fora, que te corrói e assusta
Quem te devora e incorpora
Sua fome que tem sede
Que não cede tão cedo
Não quer vencer o medo
Do novo, sempre um segredo
Te devoro pela cabeça
Sem ter a pressa
Te devoro para que te conheça
E comunguemos não só pão e vinho sagrados
Nosso saber ou conhecer
Querer ver ou ter
Enquanto te degusto
Espero não ter mais a ânsia
De conhecer
Por que outros que tentei
Vomitei
1 004
Não saia voando
Tenho medo de dizer-te
Qualquer coisa que seja,
Mas digo.
Tenho medo de olhar-te
Nos olhos diretamente,
Mas olho.
Tenho medo de abraçar-te
Com o carinho que sinto,
Mas abraço.
Sabes o que não temo?
A tua cor de pele
Que é a da mais rara flor.
A tulipa negra.
E sabes de que mais não tenho medo?
São duas asas brancas
Enormes que vejo em tuas costas.
Sei que não és anjo nenhum
Mas não entendo
Porque as vejo.
Sei que o medo
Não é de ti.
É de mim mesmo.
Ver-te sair voando
Em direção ao céu
E nunca mais voltar.
511
Feudo novo
Servos dedicados
Cavalariça zelada
Ferreiro com tonel de brasa
A moldar coisa qualquer
Sobre a bigorna malhar
Uma a ser de pata eqüina
Outra a ser da mão que mata
Em nome do senhor
A quem servem
Ao qual devem
A vida que deveria
A eles mesmos pertencer
Casamento de servo
Ao noivo a noiva não serve
Ao nobre senhor é a quem deve
Ele será o primeiro.
Nobre um
Outro pobre.
Robin Hood.
Wilhelm Tell
Lendas para conforto
Incitaram um feudo revolto
Desordem interna
Também entre senhores
Descontentes querendo mais
Acordada uma solução
Um nobre acordo
Um novo feudo.
Tudo unificado
Maior e enriquecido
Com um nome novo:
Nação.
E tudo diferentemente igual.
Cavalariça zelada
Ferreiro com tonel de brasa
A moldar coisa qualquer
Sobre a bigorna malhar
Uma a ser de pata eqüina
Outra a ser da mão que mata
Em nome do senhor
A quem servem
Ao qual devem
A vida que deveria
A eles mesmos pertencer
Casamento de servo
Ao noivo a noiva não serve
Ao nobre senhor é a quem deve
Ele será o primeiro.
Nobre um
Outro pobre.
Robin Hood.
Wilhelm Tell
Lendas para conforto
Incitaram um feudo revolto
Desordem interna
Também entre senhores
Descontentes querendo mais
Acordada uma solução
Um nobre acordo
Um novo feudo.
Tudo unificado
Maior e enriquecido
Com um nome novo:
Nação.
E tudo diferentemente igual.
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Martiniano
Este (desejo primeiro) é um texto do poeta Victor Hugo.
