Isabel Pires

Isabel Pires

n. 1964 PT PT

Amar o abismo da descoberta. Sem cair.

n. 1964-01-30, Lisboa

Perfil
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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


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Poemas

139

Uma carta para a Sophia

A Sophia faz hoje anos. Noventa e oito anos.
Até há três dias não tinha reparado que ela era de agora, do início de Novembro. Foi uma coincidência bonita e feliz, pelo menos para mim, no sábado ter pedido 'para ficar' com a Sophia aqui.

Não sei se isto que vou dizer acontece com toda a gente ou com muita gente... Comigo acontece muito.
Fixar mais alguém, conhecido ou não, ou uma coisa ou um lugar, ou até decidir uma viagem, por causa de um ou dois pormenores. Nem sei se deva chamar pormenores porque, afinal, acabam por ser as peças que me empurram para a frente e que fazem com que agarre o interesse e não desista de ir procurar mais. Muitas vezes sem dar por isso, mas está lá.

Também me aconteceu com a Sophia.
Até aí há uns quinze anos conhecia a obra dela muito superficialmente, um conhecimento quase restrito ao que tinha aprendido na escola primária. E o meu interesse pela Sophia voltou há década e meia por um apontamento que li em "Sul", um livro de viagens do filho Miguel. A certa altura o Miguel conta que viajaram uma única vez juntos, a Roma, e que a mãe ao notar-lhe alguma pressa e impaciência quando estavam sentados na Piazza Navona, a contemplar, disse-lhe: "Miguel, viajar é olhar."
Como também eu gosto de conhecer novos lugares e sei o que significa a vertigem das viagens toldar-nos essa aprendizagem maior que vem da contemplação, senti que aquela frase era um murro bom no meu estômago. Preciso de ler mais desta mulher, disse naquela altura. E assim foi, embora de forma avulsa, lia o que ia aparecendo e sem pensar muito em cumprir.

Há cerca de dois anos e meio reservei pela primeira vez um quarto numa unidade de turismo social do Estoril. Este espaço tem alguns quartos temáticos, também inspirados em poetas, o que eu desconhecia na altura e também só tive a preocupação de dizer a categoria que pretendia.
Aquando do check-in, e sem que ninguém me tivesse visto antes ou falado comigo de voz, a senhora disse-me que tinha guardado para mim o quarto com decoração inspirada na poesia da Sophia e no mar, que havia qualquer coisa que a tinha feito pressentir que me assentava bem. Sim, era verdade, ao mesmo tempo que achava aquela coincidência divertida e deliciosa. Recordo-me ainda da sensação de, ao abrir a porta, dar com a frase "Metade da minha alma é feita de maresia..." De vez em quando sinto que esta memória se embrulha com a vontade de ler e reler mais da Sophia.

Provavelmente, se não tivessem sido estes dois pequenos acidentes - o Sul, do Miguel; o meu quarto de férias cheio da Sophia - eu não estaria aqui, verdadeiramente deslumbrada, posso dizê-lo, com tanta 'coisa' boa que tenho encontrado sobre a vida e a obra desta mulher.

Nalguns autores é mais significativa e mais recorrente a associação entre memórias das suas vidas reais e palavras ou expressões que aparecem nos escritos.
Mar, praia e jardim, são 'elementos físicos' muito presentes na poesia de Sophia e é delicioso entender como tal se entrosava com os sítios em que viveu, com as memórias de infância, com as suas pessoas.
E agora estou aqui a pensar que não sei se os poemas são sempre histórias... Histórias reais ou baseadas no real, é o que quero dizer. Na Sophia aconteceu muito, como a própria confessou. Por exemplo, no poema As Rosas, que diz: "Quando à noite desfolho e trinco as rosas", sobre o qual Sophia esclarece: "Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semi-abandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as. No fundo era a tentativa de captar qualquer coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce."

Se eu só pudesse eleger duas palavras para dizer o significado da poesia da Sophia, hoje seriam: doçura e determinação.


Isabel Pires
6 Nov. 2017


Quarto 22 da unidade de turismo de "O Século" (Estoril, Lisboa, Portugal), com decoração inspirada no poema "Mar" da Sophia | Decoradora: Sofia Novais | Estadia em Julho 2015
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há sempre o querer-te

a história
às vezes é sobre uma pedra ou flor igual a tantas outras, mas em que vejo sem ver, detalhes espectaculares
outras vezes é sobre os desenhos que descubro nas nuvens e imagino um cenário de brincar a habitar os céus
ou ainda sobre os lugares quentes por dentro que revisito nas dobras do mar
ou então, não é nada de preciso; são apenas atropelos titubeantes entre os recortes do mundo e uma insinuação de perfume ou do sabor a ti a escorrer na garganta

qualquer rasto ou tremura atiça a vontade de fazer histórias para te contar
e há sempre o querer dizer-te
ainda que não saiba das palavras e precise do pulsar das tuas veias para erguê-las

116

dias de sal

mordemos poemas que ardem no fundo do mar
no encontro de duas bocas com a mesma sede 

143

os poemas também ardem na boca

deus ainda não sabia 
que dizeres és tão bonita
com olhos de luz e mãos ardentes
é seiva de poemas a bocas entrelaçadas
136

das histórias com borboletas

escrevo as histórias com borboletas que trazes aos meus dias
e descubro que não sei com que palavras se diz o desejo em misturas de inquietação e aconchego
como um murmúrio de mar de águas lisas debruadas a ondas       umas à procura das outras
corpos que se escrevem em desassossego de ternura
 
 
marta bevacqua
195

o amor dá outra vida às palavras

o amor dá outra vida às palavras. a certas palavras.
há palavras ou conjuntos delas que têm uma nova respiração
a nossa      minha e tua
ao ponto de se tornarem referências ou códigos, colagens até 
a funcionarem assim: ouço ou digo aquela conjugação que se fez senha por acaso, sem esforço, e como um passo de magia, vou até ti, apareces-me. 
é o que acontece com casa
uma palavra que engordou de significado, engrandeceu 
libertou-se da arquitectura do mundo para se transformar em eixo-símbolo do quente
o nosso      meu e teu
tal como o sol já tinha conquistado esse poder de transmutação
em chuva-luz a descer-te pelos ombros
143

nisto do amor

nisto do amor
talvez não me aconteça nada de especial ou extraordinário, se comparado com as outras pessoas.
talvez sejamos muito parecidos naquela parte de nos apaixonarmos por pequenas coisas, muitas pequenas coisas sem importância que incitam ao amor; pequenos nadas que fazem o amor e ao mesmo tempo desfazem a possibilidade de responder ao porquê de o amor recair em ti.
às vezes penso que devia usar conjugações menos mundanas para dizer como num qualquer momento em que me julgo distraída, sinto estas miudezas a imporem-se e a ocuparem a vida. às vezes é o teu tronco em céu que vejo no ufanar das velas do barco que passa na minha frente. outras vezes é o brilho do vento embrulhado a sol que faz reaparecer o sorriso dos teus olhos. às vezes acontece muito rápido, um intrincado de sensações que fazem o meu mundo ter a medida de ti.
isto do amor
talvez seja sempre especial e extraordinário. assim do nada, o amor é capaz de fazer com que uma partícula minúscula, um corpúsculo, um acidente dos dias, me leve a ti.



211

mais um pouco de eternidade

um corpo a cair sobre outro corpo
a memória da respiração sobre a pele
uma mistura de quente      um lastro de almíscar      um sopro ou vento bom 
versos livres    a poesia
funde-se no fica assim um bocadinho
um convite escrito a formas do corpo
a escorregar suavemente na sobreposição do nós
e mais um pouco de eternidade

139

coração

o teu olhar de estranheza pousado no altar não melhorou quando te disse que ainda faltava o coração. 
viria juntar-se ao mar, aos pássaros, aos sapatos-carne e ao mundo dos poemas desenhados a luz e sombra. disse-te assim. 
e veio. o coração foi o último a chegar ao altar das inutilidades pela dificuldade em encontrar um coração verdadeiro, que a norma são os corações estilizados, desenhados a recorte do rebordo exterior. expliquei-te tal e qual.
a tua estranheza no olhar parecia estar ligada à memória de uma história infantil que ias ouvindo sem acreditar - como as fadas de que te falo na epifania - ao mesmo tempo que desembaraçavas uma linha de possibilidades de verdade a coserem-se aos corações à séria.
uma estranheza decalcada ao olhar que acompanha o movimento de baixo para cima vagamente alinhado com o fio de luz.
127

vamos para ali

deve existir um alfabeto ou código para dizer
da camada indefinível que me leva a ti
do espanto
do conjunto em busca da harmonia que não quer chegar a ser
para se manter vontade
uma qualquer mistura dos silêncios em luz      entrecortados a bocas
e o corpo em desejo desenhado a mar e céu

vamos para ali
dito assim      meio lei meio convite

podia bem ser o era uma vez 
das histórias com corações apressados 
o murmúrio do grito de guerra      em amor
que desperta e incita

vamos
dito assim      sem som      a fazer caminhos


marcel pommer
117

Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...