Quem é esse que com tinta barata e palavras esdrúxulas rudemente macula o papel? Esse sou eu.
Sua grosseria só não excede sua total inaptidão de se tomar por poeta Pois, pranteias sem classe e sonhas com o que ninguém mais se inclina a sonhar e, Esse sou eu.
Mas, de tudo, não lhe tiremos o mérito de tentar, de ousar, Pois todo poeta é um tolo, ousando crer ser possível, através de seus pesares, arrancar suspiros, aplausos e morada em uma distinta biblioteca, mas… Esse não sou eu.
Eu andei entre os sonâmbulos apostadores Sonhei com os corredores do castelo Vi meu sepulcro em sua mente
Você se vendeu a um pequeno momento
Eterno sofrimento.
Meu coração se consome em sua própria chama e eu juro que não te detesto por isso Queria de volta a frágil menina, mas... Rosto de mulher, cães, feridas, noites e noites perdidas, verdade pintada.
Minha parte mais dócil, minha parte mais cínica, qual delas é verdade? Qual delas é mentira? Coma! Meus sentimentos estão em coma Mas uma sinfonia faz meu corpo mexer, por quê?
Correntes, correntes Eu não vejo, ninguém vê Mas eu sinto
Só os supostos cegos são capazes de ver Acredita nos loucos? eles conhecem você Onde acordo? Fogo! não queira saber
Não tente invadir o meu ser Não aposte com quem não se importa em perder Não peça socorro, não é possível evitar
Não há mais real Ginásio, eu me lembro das rebeliões meu choro, meu primeiro contato
Soneto A velha menina Uma caixa, um retrato Uma alcoólatra vida Um mundo pequeno… e... Corações mergulhados em suas próprias mentiras.
Por: Israel Vitorino outubro 1999
371
Novo Campos Elísios
Bebi seu corpo vinho Num cálice sagrado Decifrei o pergaminho No seu corpo tatuado
Suas letras foram escritas Pelas mãos de antigos sábios Cada linha que profano Meu corpo é transportado
Para um jardim secreto De tamanho infinito, quando venta pétalas de rosas Chove vinho tinto
Aqui plantei meu coração Aqui escrevi nossos destinos Os animais estão brincando As crianças estão sorrindo
Aqui não existem guerras Eu superei a Dionísio Nem Zeus pensou em algo tão lindo
Afrodite veio nos saudar Enquanto estávamos dormindo Dormindo.
Israel vitorino - dezembro 1999
312
Vidas gasta em ilusão
Vida vai, vidas vêm E o quê que tem? Rios secam, folhas caem E o que eu era, não é mais ninguém!
E o que eu sou, não serei mais Vidas vêm, amigos vão E o que levamos? Se eu levaria, hoje eu abro mão.
Duvidar é sábio Acreditar é um grande dom Quem deveras mora no palácio da razão? Chuvas ressuscitam os rios, Flores desabrocham em nova estação Quem trará de volta vida gasta em ilusão?
319
Sapere Aude
O amor pelo oculto é uma doença e Eu terrivelmente infectado, aguardo impacientemente pelo belo não revelado.
Recuso-me a tomar remédios, a qualquer elixir que me torne acomodado com as pequenas doses, de quando em quando de algo extraordinário.
Minha sede insaciável, por vezes me deixa fraco compelindo-me a seguir sem rumo, debruçando-me no acaso delirando em febre alta.
Mostra-me, oh Deus! o que ainda não me foi revelado.
Por Israel Vitorino - agosto de 2005
283
Vênus
A noite estava mais escura que de costume O mar negro e aterrorizante Amedrontados, marinheiros experientes Se punham a orar.
Depois de algum momento retido em silêncio Um sorriso pueril se apodera do meu rosto Nuvens se abrem e, me deparo com a mais bela e tímida lua acompanhada de uma clara estrela (Vênus).
Então te pergunto: é possível te esquecer? Pois, enquanto todos oravam por suas vidas Eu lembrava de nossos momentos e apenas agradecia ao bondoso Deus pela dádiva de ter conhecido você.
Por Israel Vitorino - março 2002
282
Um
Um eu despido sob um teto esburacado Pés doídos de um caminho viciado Um, ser um, dentre muitos (um) inacabados
Ventar suas emoções é flertar com acaso É buscar carinho nas chamas, negligenciar o fato de que há limite em aproximar-se e invadir, entre um riso e um deboche
Não se pode correr nas nuvens, nadar na areia ou tornar fértil uma mente cheia de concreto Não há homem que parta rochas com as mãos, como não há montanhas que não rachem com a persistência de águas calmas e ventos Tudo cai, tudo perece, tudo se finda - nada permance!
O fim sempre esteve no começo, pois sabendo que toda existência termina tudo que temos são experiências, sensações, escolhas, caminhos desejos e, eu... escolho vivê-los.
Por Israel Vitorino agosto de 2001
354
São Lourenço do Sul
Um rio que apascenta a alma e sussurra segredos no ouvido Pássaros discursam em ruas tranquilas
O vento afaga o pescoço O sol bronzeia sorrisos Agradeço ao criador por esta obra
A Santa de braços abertos abençoa quem passa, devoto ou não pobre ou rico.
São Lourenço não é o Éden, mas acho que poderia ter sido.