Suspiro de realidade Conto-me em paixão Plena fico Em cada contradição. Essa é a minha hora: Tema sem exatidão, Esse é o meu título: Tempo sem previsão. Tic-tac soam meus passos No chão: Donos do compasso eles são. Tic-tac: ouço dos meus pés A estação Com a minha noção de tempo: Caminho eles são.
Eu vou reconstruir minha morada natural A partir dos destroços do infortuno círculo De substâncias falsas que tenta me encadear. Eu vou fazer da mais nítida transparência Da alma concebida serena E acalmar as conturbadas águas Dos sete mares de minha mente, Para que a ânsia dos meus pensamentos Possa assim não ser mera loucura. Vou despertar os deuses para que possam Ordenar os elementos da nossa existência E transformar em ouro o nosso amanhã Fazer de minha idade um dia doce. Fazer do que parece comum e banal A extraordinária fantasia De chuva de luzes sublimes Se atirando sobre nossos sonhos, Cobrindo de um espetáculo possuidor Da mais maravilhosa excentricidade. Eu vou fazer os planetas se alinharem, um a um, Apenas para que a nossa visão Tenha o inconstante privilégio da absurda beleza Que nasce do infinito. Eu vou abrir os mais enferrujados portões Dos destinos mais inesperados Para que em nossos caminhos Sempre estejam as inquietas estrelas A nos iluminar diante da infindável Sustentação mais fina que se mostra aos nossos olhos. Eu vou fazer do desconhecido, Um símbolo de nossas vidas, A vida de nossos delírios. Eu vou plantar nos jardins escondidos De nossos espíritos A flor de mais pura paz e de mais vívidas cores, Que será a cura indiscutível de toda intimidação. Eu vou me dispersar na terra de valor único E espantar a multidão tediosa E não convidada para meu banquete. Celebrar as lágrimas que derramam o tempo Nos vales da solitude amena em meu espaço. Eu vou gritar e ouvir o som nostálgico da minha voz Se espalhando sem rumo definido Pelas ruas onde o vento rodeia. Eu vou encher do sorriso mais expressivo Da vitória mais dificilmente alcançada Os rostos daqueles por quem, De alguma forma, tenho amor. Salvar a infeliz pronúncia de ódio Cantar a música da imaginação Na união de súplicas pela alegria.
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Pintura de Família, em Perspectiva
Eles não cresceram e se esconderam entre cercas de si, acerca dum sonho que não sonharam, em formas de não completude. E pelas casas que um dia minhas foram eu os vi, não havia mais as casas nossas, e nem vinha a mim as coisas que nos eram partilhadas, partidos são agora, sãos em seus chãos, salvos de suas enchentes, recorrentes de suas paredes, correndo não mais além de pra longe de rirem-se, rindo-me do meu tornar-me criança de amar a vida e rir-me deles. Eles não cresceram e eu fiquei jovem, e eu não os conheço senão do que passado nos foi, os anos e lições passaram-se e eles passaram a guiar com mãos de ferro seus destinos em dias de gravatas e tanto outros nós, casaram-se com dias que nunca conheci nas minhas demasiado frouxas mãos que não seguram o concreto. De casa em casa as noites suas são obrigações que peso em não carregar, cargas distantes de energia que antes compartilhamos, acarretam a si dos seus brilhos o oscilar, preservam sua constantes de salas daqui e dacolá. Eles não cresceram e são quadros, e eu não configuro mais deles, reuni-me em sala de celebração alguma, longe de seus portões e entradas, fecharam-se os nossos acessos, e eles caminham bem sucedidos, e eu sucedo a eles nas coisas todas que eles não continuaram. Eu tenho assombro e êxtase, sem amor não amo, e minha mão não consigo mais fazer a eles chegar, nem por culpa ou apreço, falta-me a vontade de lhes ser, os acompanhar, falta-me elos que ultrapassem o das nossas veias. Eles não cresceram e se esqueceram de si, lembram-se de mim como quem se esqueceu deles, verdade eu quis que fôssemos, mas borrou-se a maquiagem, não sonharam comigo o que sonhei que não houvesse a nos faltar. Eles caem tão certo ao chão, e não sangram senão em silêncio, nem confundem suas tão estabelecidas sílabas, eu grito de tudo o que me chega, e tudo me arrebata, e eles estão depositados em todos os seus bancos, os de render e os de adorar, com igual cegueira, pregando dum e doutro o mesmo teor. Eles não cresceram, e fiquei livre do nosso acordo, todos dormem e eu acordo comigo em meus próprios termos, sem laços de obrigação, em seus casulos eles se privam de me amar, privo-me eu de afeição na amplidão do meu céu escancarado, eles diminuem em seus não-espaços e congelam-se em seus nãocalores, eu me estico em minhas aberturas e me deles distingo na intensidade de meus fulgores.
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Entre Nós
Mas eu fico, disse ela, não em conformidade, mas firme de aceitação. Fico entre nós, e sou entre nós, mas entre nós não me quebrem nos espaços, não façam seus pés entre os meus colocar, para que eu caia tão somente antes de dançar. Eu fico, mas não reinem sobre mim, sobre mim não me façam saber em ausência de si, ausência de nós. Eu fico, mas deixem que eu me ensine das coisas que sei e respire não os sonhos seus de mim, deixem-me do ar sentir uma falta que de angústia seja minha. Eu fico entre nós, mas caibam-me entre vós, saibam que somos nós, atados, apoio de laços, movimentos inteiros de ser um, de agregarnos. Eu fico, mas não me dissolvam como a um nó, que por entre nós fiquem os laços que nos cabem. Mas eu fico, disse ela em conformidade com o que aceitara. Fico entre os nós que somos e os espaços que nos quebramos, faço dos nossos pés os meus a colocar para que dancemos antes de cairmos. Eu fico, mas não quero reinar sobre nós, sobre mim não haverá ausência do que somos nós. Eu fico e deixo que me ensinem das coisas que sabemos, e respiro o que de nós são os sonhos, deixo que na falta do ar respiremos em conjunto. Eu fico entre nós, e faço que caibam em mim, sei de mim como nós, atada ao apoio de nossos laços, um ser que se movimenta inteiro a agregar-nos. Voltando-me aos nossos laços, eu fico e não me dissolvo entre nós.
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Nós e Eles [A Partir da Fome]
Diz-se deles a se devorarem, pelo que conta a história, pelo que se lê sobre a fome que lhes é própria. Como que leões a cercarem de comentários sobre sua ferocidade os tigres, falamos nós e eles de si, cercando-nos de nós mesmo, deles a nos defenderem. Pelo que do mundo os quatro cantos sabe-se deles estão em constância a se classificarem como presas e caçadores, mesmo que de mesma genética e concentração, espremem-se aos sucos em suas substâncias venenosas e nas massas fermentam tão somente o quanto são obrigados, sem toque de avó, sem segredo de afeto. Reconhecem o recheio uns dos outros, nós e eles, pela cor da cobertura. Deles é extrapolado que se observe raro demais partir aquele que parta o bolo na busca de conhecer novas nuances, novos sabores de ser humano. Sabe-se ainda daqueles que repetem tipicamente os mesmos pratos de seus antepassados sem que conheçam a cozinha mundial, sem que se visitem em caldeirões de fervilhar não a ponto de engoli-los, mas a ponto de temperá-los, misturá-los, decorá-los como iguarias contemporâneas. Parece que ouviu-se falar daqueles que matam sua fome a agregar alimento ao alheio, diz-se desses, de nós e eles, como estranha tribo que projeta-se a caminhar faminta há séculos e mais séculos, buscando do alimentar a troca, diz-se ainda deles ser lamentável que estejam pelo globo espalhados, são eles diferentes continentes prontos a culminar numa esfera de maior harmonia, que põe-se a nutrir-se de seus próprios elementos, no que em um se perde o outro aparece a outra vez instituir-lhe. Dos que não encontram alimento conhece-se muito aqueles que desabam em se consumir, por daí distinguem-se em dois grupos: dos tão sedentos por repartirem o que neles sobra como de vida mantimento que partem-se em si em dos órgãos os mais vitais, tais consomem-se portanto em cabeça e coração, com elevada carga de fogo e luz, implodem-se na procura por dos desertos os outros sedentos, de suas forças extremas nasce-lhes o cansaço letal. Do outro grupo dizse daqueles que consomem-se no que extraem do alheio e num acúmulo do que não lhes é próprio explodem junto ao ambiente, comumente levando vidas outras já usurpadas em seus alimentos consigo. Diagnóstico é que de todos os tais grupos não se pode dizer que vivam em escassez de recursos pra que suas vidas sejam mantidas, bem como nutridas, espalhadas, desenvolvidas, largas e resistentes, porém pede-se mais campos pra que se replantem e se contemplem a crescer, pede-se que brotem um a um e um aos demais e todos os outros juntamente pra que a terra faça-se um tracejado uniforme, que sejam então os próprios indivíduos, nós e eles, nós somente carga e descarga, transporte e possibilidade, chão, chuva e colheita.
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Sujeito Simples, Sujeito Composto
Um sujeito simples, composto de muitas tantas vozes, verbos ocultos, desejos intransitivos, objetos diretos de figuras com linguagens desclassificadas, descategorizadas, figurativas de sentido, substantivos concretos de sua imaginação. Sujeito simples, composto ainda de determinado e indeterminado, mesmo que por vezes elíptico é constante que se verifique seu núcleo, embora de muitos tantos elementos, sempre singular. Sujeito simples, composto de nome próprio, maiúsculo e de reticências, não pontua sem inventar, complemento que dá nome aos verbos, nunca só adjunto, mas ativo de voz. Sujeito simples, composto de muitos tantos predicados, por vezes de núcleo descritivo, vezes outras de ação. Sujeito não à técnica ou ao formalismo, conhece mais variações de pretérito, ainda que honre sua conjugação do presente, está sempre com as terminações no futuro.
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A Juventude
Eu sou cheia de sonhos antigos. Como para o meu corpo está o sangue, Para o meu coração, os sonhos. E antigos são como o que me fez Mover pela primeira vez, E antigos como o ar em meus pulmões. Eu sou cheia de sonhos antigos. Sonhos que eu nasci sonhando, Suntuosos como os passos que me Levaram longe deles, Cintilantes como a luz que os reacendeu. Santos e serpentes, signos e sóis, Simples como os mares navegados, Antigos são os sonhos que me preenchem, Secretos como a essência do silêncio pronunciado. Em todas as minhas idades, Eu, cheia de sonhos antigos. Fossem sonhos em meu esquecimento guardados, Sonhando serem por mim sonhados, Sejam sonhos despertos no meu realizar, São todos os sonhos os mesmos, Os mais antigos que a minha consciência de sonhar. Eu sou cheia de sonhos antigos, O sangue do meu coração, O primeiro mover do meu corpo. Sonhos de antes de nascer o ar, Passeando suntuosos dentro de mim, Quando longe de cintilar na luz Do meu reascender em sonhar. Sonhos mais antigos que o segredo do silêncio, Que a essência dos sóis sobre os mares, Simples no que me preenchem. Antigos são os sonhos que fizeram a idade em mim, Eu sou a idade dos meus sonhos, E no meu corpo, santos são os signos Da idade dos meus sonhos. Eu sou cheia de sonhos antigos, Sonhos nascidos antes da minha consciência sonhar, E sou cheia, no corpo e no coração, Da idade dos sonhos, Como o primeiro respirar, É a juventude sempre em mim a suspirar.
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A Casa
A minha casa eu construí com o brilho de querer brilhar...não é longe nem distinto de si o brilho quando em si já se faz toda intenção de brilhar...mas que na espécie rara da minha voz ao minha casa fitar, o tom absorto dos olhos a todas as portas abrir e em cada chave a vida num novo patamar. A minha casa veio de longe nos meus caminhos primeiros a me soprar o brilho da noite de sonhar em brilhar, minha casa se fez apresentar em mim a estrela da manhã de em brilho ver meu coração se contornar. A minha casa respira no Amor que construí no brilho de querer amar, e em cada respirar da minha casa em mim se constrói o brilho de com Amor tudo nela cercar... A minha casa não é lugar de descanso, mas eis que certo dia hei eu de chegar ao cansaço, e no fôlego último pedir pro fogo me fazer nele respirar... Seja como for, na minha casa tem a própria essência de amar em todos os opostos de si e do mundo que se fazem conhecer pra que o Amor possa se sustentar. E eu respiro no fogo de ver brilhar o sonho da minha casa os alicerces de construir o sempre querer, e eis que me retomo em mim minha morada de levantar acerca do Amor o sempre perto brilho de ver o sonho da minha casa brilhar. E eis que construo minha casa e minha casa me constrói e porque, no voo incessante de querer o brilho fazer em fogo o construir e o respirar da minha casa em Amor, estou eu pra além da minha casa ver o meu sonho de a partir dela fazer o brilho voar.
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A Ação
Não, não há pressa nessa minha velocidade. Quando eu me ponho a correr aqui dentro do coração, Mesmo que em vida a explodir, É só uma brisa o que se estende ao meu passar. Sem pressa, que é pra chegar mais rápido Que eu vou assim, no andar que sou devagar, Que o meu divagar está no que dos meus sonhos é ação, E que vigorosa eu sou na corrida que ninguém vê, Mas vagarosos são os meus passos de fora, No ritmo que o mundo se encontra com o meu correr. E ainda que eu vague entre mim e o mundo, É com vigor que eu paro e me ponho a observar. É sem pressa que me ponho a andar. Mas não há pressa, eu paro sim nas fronteiras, Mas não daqui, de dentro do meu coração. Eu paro sim, mas meu parar é para movimento insinuar, É numa brisa que eu chego mais rápido. Devagar passando pelo mundo, Divagando em ritmo a ação dos sonhos meus, Ainda que nos passos pro lado de fora, A falta de vigor, aqui de dentro em nada sou vagarosa, E que no que o mundo se põe a me observar, Parada, vigorosa em mim no meu andar, Sem pressa, uma brisa eu, de explodir e de andar.
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Da Ilha e do Farol
Eu não sou escrava de ninguém e não me ponho a escravizar a vida em mim, Um século de vida no batimento, o fazer meu não é um esforço. Uma orquestra em cada passo, o caminhar meu não é uma marcha. Escrava de ninguém, de ninguém espero a escravidão, Da ilha e do farol, o batimento é do coração meu E a luz se irradia do compasso dos pés meus. Sem acorrentar uma mão à outra, são as cores minhas Que retoco sobre tudo o que há. Não sou escrava de nada e a escravidão de nada venho em minha liberdade projetar, Meus pés não arrastam as correntes que de minhas mãos tirei, E no retoque colorido de cada compasso, nasce a luz da minha ilha E o farol se vê estender o chamado das ilhas outras. Onde não há escravidão, o ritmo da luz, a música do caminhar. Onde não há escravos, há as cores, a ilha, o farol O passo e o batimento fazem da união o chamado. Eu não sou escrava de mim e à minha sombra não me acorrento, De mim só quero nos batimentos ver a luz retocar, De mim só quero na ilha morar, e das cores compassadas do farol O chamado e chamar me fazer ver. O ritmo, a música, as mãos e os pés, a ilha que eu venho a iluminar O meu não escravizar, o batimento, o compasso, as cores e a visão, O farol que me traz e me devolve a liberdade junto a todos, chamar
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A Desconstrução
Eu vou a chão, e que nada me sustente. É face a face não no espelho de mim, Mas no que sou sem imagem. Eu vou ao chão nas minhas construções Ora ver ruir os cuidados e as bases, E que nada me sustente nas cinzas indistintas, E que nada me decifre no caos e no queimar dos olhos: Que do pó e da lágrima, Depois que vento é do tempo ação, Há de ser água a emprestar à vida condição, Num instante do que é prestes a se fazer, O nada se figura em ponte, E eu vou ao chão, em água deitar, Não me sustento, E há de ser o fogo a vida a começar, Se espalhar eu, pela água, em meu elemento. E eu vou ao chão, sem laços de sustento na base, Lapsos da construção, amando o ruir dos espelhos: Meus reinos sem capitais. Não mais reflexo, eu sou imagem. Eu vou ao chão sem cuidados, Mesmo que indistinta nas cinzas, O caos se decifra no queimar das águas nos olhos: Na lágrima o tempo em ação que com o vento vem o depois. E dos meus olhos me fiz de vida condição e do nada um instante: Criação, eu em meu elemento. E eu vou ao chão, porque sou ponte, E no fogo a vida pela água, do começo ao se espalhar, Eu em meu sustento. Eu vou ao chão, para chão ser.