Falo do tempo
falo do tempo
e do engodo do tempo
e da posse do tempo
e dos gestos do tempo
como se soubesse do momento do abandono
do minuto sedento
bebendo os dias vazios de canções
espiando as horas nas noites inúteis
devolutas
falo do tempo
como os homens falam de si
como os sussurros falam dos ventos nas madrugadas
como o cicio pensa músicas em minha boca
e a noite fala de tudo
falo do engodo do tempo
e do desespero incessante do tempo
agoniando a incontornável existência
enchendo de ânsia e mistério
os fragmentos esparsos da vida
falo da posse do tempo
e da distância esquecida nos caminhos
sinuosamente cansados
estertorantes e tristes caminhos
longos como os longos dias perfumados de solidão
e o lamento da vida passando incontida como os pensamentos
falo dos gestos do tempo
e aqui as flores nascem
a estrela cintila
a lua dança nos ventos
o amor semeia mundos
a ausência faz suspirar
o outono quer germinar
e o sentimento balança
como as ondas do mar
Passado
sopram os ventos
a aurora acorda sobre as flores
[sobre as cores
a canção encontra lembranças
a alma suspira e recorda
tantos momentos da infância
todas aquelas crianças
que fui
em meio ao perfume doce de terra molhada
que sou
em meio ao inverno silencioso andando na madrugada
o amor...
quem sabe um dia
se derramará no deserto
[decerto
do meu coração
e ouvirá o silêncio
se desmanchando em perdão
e os sonhos abandonados
por tanto tempo guardados
em tantos lugares incertos
em meio à solidão
virão de lugares tão longe
e se deixarão ficar
níveas flores de algodão
a noite compassadamente fecha os olhos
[e dança
seus passos ritmados de escuro
a madrugada é a derreada lembrança
de um tempo infrangível e maduro
Pássaros negros
agora que se vão
suavemente
os pássaros negros
levando na alma a essência da árvore
e a solidão de arcanos invernos
agora que os sonhos adormecidos
querem despertar
enchendo o ventre da noite de signos
sobem aos céus os perfumes
e a promessa de uma primavera
translúcida
em flores ressumando cores
com a brisa a soluçar pelos caminhos
a soluçar saudades inacessíveis
à espera de um sol
e de um poente entreaberto
vermelho e estilicidado
vertendo sobre a primavera
a ternura tranquila
e insonte de uma borboleta
ao longe sinos dobram no contorno
da noite que nos falseia a nos chamar pela alma
e retrocedendo nos mata de saudades e de ausências
entre o adormecer e os sonhos da derradeira loucura
e outras comiserações que a noite
subitamente
conta ao nos fazer chorar
a lágrima salgada dos anjos dolentes
a lágrima sagrada dos anjos silentes
terna e longa como o teu nome
e a lágrima dos rochedos quedos
e debruçados sobre o mar
de onde partem inumeráveis e exiladas velas
levando nos velames enfunados os rudimentos adocicados
de uma nova madrugada infrangível
por onde a luz se derrama
fazendo da noite a manhã macerada
onde a lua se desprende
afetuosa e branda
da essência do silencioso escuro se entreabrindo
e repousa
junto a última estrela
aninhada no céu
e imersa no momento das águas
molhando o gesto e o contorno dos portos
fazendo mover-se o raio de sol e o instante
que faz pulsar o coração embriagado do dia
acordando os barcos antes da tempestade
e os girassóis encharcados
do orvalho desatento
e dos segredos magoados pelo desleixo do vento
Nada detêm a fera
nada detêm a fera
nem o grito estrondoso
nem o soco vigoroso
nem a tocaia da espera
nem o latejar da veia
nem o rosnar dos cães
nem a litania das mães
nem a nossa cara feia
nem a luta cotidiana
nem os muros que erguemos
nem toda a força que temos
nem o fio da durindana
nada detêm a fera
nem mesmo o asco do povo
nem mesmo a Verdade e o Novo
nem mesmo o fogo e a Quimera
nada detêm a fera
nada detêm a trapaça
do golpe no sonho da massa
ignorando o sol nas flores da praça
nada desata a mordaça
da estória e seu patrão
oprimindo os que não tem pão
com a verborragia e a farsa
nada detêm a fera
e a sua malta vadia
apagando a luz do dia
enquanto a manada espera
nada,
nada como esta lei do cão
que anda de traição em traição
neste mambembe país
onde tudo está por um triz
Nascentes
vesti de ausências as noites
o avesso da lua
a lágrima derradeira
adormeci
sem nome que me acalentasse
sem palavra que me embalasse
apenas o escuro infatigável
é urgente
apenas o engano do tempo
mata-me
apenas o segredo e o silêncio dos nascentes
reverberam a ternura do orvalho nos lagos de cinzas magoadas
apenas o teu nome pergunta por mim
no meu poema
enquanto na folha de papel
misturo letras indecifráveis
garatujas doloridas
ajuntadas com as mãos trêmulas da madrugada
enquanto as velas dos barcos
dentro da névoa das manhãs
são sombras brancas
gravando de saudades o infinito
A tolice dos medos
desnudo
caminho estradas de cinzas
com passos de ilusão
em noites de ausência e de solidão
o vento incerto traz o passado
põe nossos instantes ao meu lado
estremeço
espero a noite percorrer-me
dizendo teu nome
recordando teus gestos
dizendo do teu toque na minha pele
onde ainda habita os teus dedos
entre lembranças
segredos
sob insones sentidos
sob a tolice dos medos
Quando o amor se vai
duas ou três palavras
e tudo foi dito
dentre tantas lembranças esquecidas
na voz que fica inaudível e nua
quando o amor se vai
e o desconsolo já não é suficiente
para carregar os dias pela ausência
pela fuga pausada e lenta
ou pelo medo
do tempo que acorda como um degredo
cada dia mais cedo
cada dia mais um nada
constante como um infinito e indizível segredo
que ficou nos olhos olhando a saudade
e a distância espessa e infrangível
repleta de cantigas extenuadas
e de abraços tatuados pelo corpo
até que a noite caia junto com a estrela cadente
e a escuridão diga nostalgias
que inquietam os silêncios
intrínsecos crepúsculos dentro da gente
cingidos de inelutáveis eternamente
Quando a palavra chegar
a janela começa ali
onde o horizonte junta-se ao mar
trazendo lágrimas salgadas
pra dentro do meu olhar
trazendo tanta promessa
e noites todas sem pressa
abrindo-se bem devagar
o sonho começa ali
onde o eterno ilumina os mundos
e o sonho tem os saberes
dos teus desejos profundos
a vida começa ali
onde o amor junta-se ao amar
e o sentimento parece
água que vai me afogar
trazendo a flor partilhada
entre o espinho e o nada
entre o escuro e o luar
a poesia começa ali
onde o tempo junta-se aos mundos
onde o eterno junta-se ao mar
onde os barcos deixam as velas
como inefáveis telas
abertas e soltas pra navegar
quando a palavra chegar
Estrangeiro
e agora
que a vida lá fora
se compõe de palavras longas e vazias
e o tempo é só mais uma estória na estória dos dias
guardo o nada que me diz respeito
estremeço com as manhãs nascendo em meu peito
penhoro o que me restou da vida
o poema fica
fica por inteiro
o poema
o papel
e esta sensação de eu ser em mim um estrangeiro
Sonhos de Mara
o céu de um domingo claro de junho
derrama os seus azuis derradeiros
nas águas regressivas do mar
o dia traz memórias e canções de infância
segredos e lembranças adjetivando momentos
momentos recitando os poemas que um dia fiz para você
declamando teu corpo
misturado ao meu mundo insondável
profundas águas de um mar
penumbra sombra escura
da solidão bipolar
olho, através da janela,
o inverno passando no perfume de uma flor temporã
pelas frestas das janelas entra a brisa úmida de ilusões,
fria e muito triste,
e, no entanto, olorosa
o vento ondula suas vestes de cetim e infinitude
o silêncio esconde de si o que de si dizia
e não responde o que tinha para dizer ao dia
o silêncio era um poema garatujado pelas folhas
que caíram e secaram no chão pisado pelo outono sem flores
que virão na primavera?
quem dera!!!
se tudo embaixo do céu é só este aguardar,
esta espera
se tudo embaixo do céu é somente este sonho vígil
nos olhos vetustos de Mara
se tudo embaixo do céu é tudo ilusão e quimera
olho, através da janela,
o enigma do fim do dia que já vem engastado na manhã
o dia esbate-se nos arabescos dourados da tarde
a tarde sacoleja no ar as primeiras sombras
e demora-se
e esmera-se esboçando a noite ascensional
ascendendo da vertigem dos morros
ao longe, ao longe...
ou derramando-se no quintal
longa e solitária
levantando-se sobre os sonhos que trará
incendiando as vidas com os escuros estilhaços
de um crepúsculo fundindo-se à terra
derrubando com ternura o mesmo sol sob o qual eu te amava
folhas amarelas e ocres ainda caem nos lentos caminhos efêmeros
caminhos sem voz
calando palavras que não são mais
enquanto a noite incognoscível volteia acesa
lentamente
negra mão
fazendo acalanto aos quintais