jlsilva

jlsilva

n. 1959 -- --

n. 1959-08-23

Perfil
12 748 Visualizações

Falo do tempo

falo do tempo
e do engodo do tempo
e da posse do tempo
e dos gestos do tempo
como se soubesse do momento do abandono
do minuto sedento
bebendo os dias vazios de canções
espiando as horas nas noites inúteis
devolutas

falo do tempo
como os homens falam de si
como os sussurros falam dos ventos nas madrugadas
como o cicio pensa músicas em minha boca
e a noite fala de tudo

falo do engodo do tempo
e do desespero incessante do tempo
agoniando a incontornável existência
enchendo de ânsia e mistério
os fragmentos esparsos da vida

falo da posse do tempo
e da distância esquecida nos caminhos
sinuosamente cansados
estertorantes e tristes caminhos
longos como os longos dias perfumados de solidão
e o lamento da vida passando incontida como os pensamentos

falo dos gestos do tempo
e aqui as flores nascem
a estrela cintila
a lua dança nos ventos
o amor semeia mundos
a ausência faz suspirar
o outono quer germinar
e o sentimento balança
como as ondas do mar
Ler poema completo

Poemas

91

Minha dor ainda espera

o outono veio outra vez...
agora sem ti
trazendo as frágeis horas aguilhoadas
articulando as longas noites e os acres dias
 
o perfume do vento palpita
o desamparo do tempo passando
soa lembranças na folhagem
esbatida sob um inconsútil sol de abril
no silêncio que perpassa a fulva manhã
os dentes-de-leão, levados pela aragem,
emprestam ao ar uma leveza tátil e friável
as folhas secas se debruçam
sob os níveos véus do nevoeiro ofegante
ante a beleza da manhã
e caem
 
ressumam os versos que a manhã decanta
nos jardins onde pululam os pardais
nos quintais onde o vento cantarola
tocantes cantigas de infância
 
correm descalças as lembranças
pela praia melancólica da tua ausência,
dos nossos mares,
agora exaustos,
das nossas ilhas,
agora tão doridas
dos fragmentos absolutos do nada
agora tão permanentes
 
a agonia das espumas
tecendo rendas nas ondas
querendo ser elegia
no prelúdio do verso
no momento infinito e rumoroso dos oceanos
acorda, suavemente, o silêncio
das praias entreabertas sob um sol latente
esculpido pela lassidão da solidão
 
minha dor ainda espera
o vento passar
e trazer as palavras que eu não te disse
palavras encobertas pelo silêncio envolto em ausência
palavras tão ternas como o cansaço dos corpos
depois do amor
tão leves
como a brisa que derruba a flor dócil sobre o teu nome
inesgotável como as madrugadas sem ti
 
a poesia que arrulha em minha alma,
em minha vida,
não acontece
a palavra se esconde
entre o outono branco da página
as veredas inacessíveis da melodia insonora
e dos ideogramas de um haicai
escrito como a chuva que cai
e bebe a sede dos versos molhados pelas cores das flores
 
um vento absorto e distraído
se equilibra sobre a página
               [ainda em branco
minhas mãos, timoratas,
flutuam sobre sofismas
no fim das premissas
há algo vago
como uma saudade vígil
como uma noite incriada
como a tua presença
dentro da minha solidão consistente
como a angústia de estrelas sem céu
ou algo assim,
enigmático e intrigante,
tão imperecível em mim
como você
124

Longe, longe, longe...

palavras...
as palavras de repente doem
carrego-as por que é noite
longe, longe, longe...
é noite
carrego-as por que o pranto é insuficiente
e as horas caminham acordadas
sem descanso
lentamente
e o tempo vem sangrar a minha alma

já não escuto teu nome quando olho para o silêncio e para a lua
já não me alcança o punhal pungente das tuas palavras
longe, longe, longe...
ainda é noite
já não carrego o engano das palavras
e a voz cega que os teus lábios diziam aos meus

longe, longe, longe..
no horizonte onde a tarde morreu sob o frêmito da luz
amadurece o pulsar circular do tempo
para nascer um outro dia
sem você
127

O ritmo do tempo e das estações e das chuvas

o ritmo do tempo e das estações e das chuvas
afligem meu coração
pois,
se é a mim que o tempo pastora e envelhece
se é em mim que as estações doem a falácia de serem
                                  flores, vozes de ventos, lassidão
se é em mim que as chuvas misturam-se à imponderável lágrima
e ao desalento que a existência imprecisa grita em agônica solidão
então,
o tempo, as estações e as chuvas
balbuciam presságios entre afetos e outroras
reavivando rumores arredios e histórias avessas
infiltrando-se por entre os nós vermelhos do madeirame do telhado a vista
enquanto a noite embebeda-se de ventanias lá fora
aqui dentro, ainda, a fumaça preta do lampião a querosene subindo
contorcendo-se conforme a brisa que trouxe a noite e se demora
por entre os sonhos e os pensares
por entre tantas sombras das minhas mãos e as de meus irmãos
e o cheiro do querosene cinzelando a noite
negando o farfalhar do tempo inconteste
subjugando-me
sobrepondo noites e dias
à antigas dores
e já não me compreendo quando a chuva cai das cumeeiras
como lágrimas chorando convulsas pelo chão do quintal
espargindo-se em redondas cismas de cristal
não sei em qual estação
me fiz flor narciso mentira jardim
passarinho em tantas vidas
metal pedra terra por fim
um ser imortal no que mais de mortal há em mim
não sei de qual manhã soluçante
veio a borboleta
          o instante
e pousou na platibanda da janela
                            nos meus olhos
fascinando-se na vidraça onde se debateu
na enganosa transparência de um mundo que não era o seu
136

Final de outono

final de outono
final de tarde de outono
as tardes são estes afetos irredutíveis de poesia
que podes ver por entre a pétala e o orvalho
mudos
silenciosos
insofismáveis
são o inefável momento onde os rios e os mares se encontram lentamente
e o azul do céu tinge a saudade
e a chuva cai dos meus olhos

ao longe o pássaro canta em algum jardim
à fogueira do sol
às folhas amareladas
e ao inextinguível outono impregnado de transparências
dorme nos mares o vento
e teu nome
úmida ausência
esquecimento
sombra de um passado
e de uma canção insinuada pela memória
pela noite falaz
pelas tardes de intermináveis vermelhos e violetas
de aromas de jasmins levados pela brisa
e pelos suaves passos dos teus pés em meu corpo,
em minha alma
e no nume que a alimenta

os ventos derrubam as folhas que balançam no ar dourado
esbatido pelas sombras dos galhos vergados pela espera dos séculos
e pelas palavras que agonizam escondidas nos gestos
e na fragrância fugaz da lembrança do teu corpo

o ar se enche de cegos sussurros
tépidos segredos
nada aconteceu
o amor foi tão frágil
tão frágil como pode ser frágil o carinho desolado
como uma efêmera tarde
onde rosas brancas florescem por te recordar

quando tu te fostes andei caminhos incertos
vi teus olhos negros em cada céu que emoldurou as noites
ouvi teu riso
tão diferente das minhas emoções
que nestes dias de outono esperam
as cores plasmarem flores nos jardins
o vôo do pássaro despertando a praia
e a solidão sem destino
e tudo não foi mais que um amor sem nome
escrito todos os dias
pela ternura dos dedos afogados em teus cabelos
pela essência dos sentidos
pelo soluço que ficou
sem explicação na poesia

e tudo vivi como o menino sozinho
que ama o outono e seus sortilégios
e seus soluços evolados nos sonhos
ama
ama a noite e o bálsamo destas noites
silenciosas e frias
onde a minha alma ainda acaricia a liberdade dos versos
que ouço
sem princípio e sem fim
nas antigas vozes
que por entre as brumas
falam de amores
e cantam
como cantam os rios
como cantam as folhas que o vento derruba no rio
e levam consigo cores de um dia resvalante
suave
amo a noite
em cujas margens em sonho me deito
e me imolo com o punhal azul do teu nome
e recito a dor do punhal azul do teu nome
como quem diz para o mar
das terras perdidas
e dos antigos poemas riscados
letra após letra no abandono das noites passadas
e nas estrelas imaginárias
onde a dor tinha morrido
enquanto na madrugada já se ouvia
o amanhecer por trás da neblina de outono
e o som das folhas secas que suavemente
enchiam o ar de nostalgia
e de manhãs com cheiro de terra recém molhada
pelo orvalho que os anjos espargiam
no mistério
nas palavras
e nas pétalas entreabertas
dos poemas
136

Minudências

as lembranças afloram dos sonhos solitários
da chuva caindo sobre a primavera mansa e terna
sobre o silêncio dos versos que só falavam de ti
sobre um rio imperecível que só me levava a ti
sobre esta névoa que encanta os meus sentidos
embriagando-me antes que eu possa ver a luz
e o vôo soberbo dos pássaros rumo ao dia aberto
pelo aroma das rosas e pelo fogo estóico do sol

nada havia nas sombras densas e escusas que devoravam a tarde
nada havia no vento onde se escondia o ermo silêncio
não havia nada senão o teu nome no meu sonho
embaraçado na ilusão ignara
teu nome que vivia no murmúrio dos meus lábios
na minha saliva e na minha sede perene de ti
teu nome que nominava os entardeceres do meu mundo

virão inúmeras primaveras e verões antes
do impressentido crepúsculo
e da tristeza e do pranto das palavras não ditas
dos gestos guardados
do carinho escondido entre as mãos que já não te tocam
antes que a memória de setembro
traga novamente a chuva fina e inconstante
molhando as folhas e as terras que não dormem
molhando a argila,
prisão e desespero das almas,
molhando o vento vacilante

nada havia no grito por vezes muito longe,
por vezes muito furtivo
como o orvalho que começa a manhã
e comovido promete quimeras ao dia
nada havia na música das flores
quando a bruma encobria o leito avesso do rio
e suas águas confundiam-se com o ar
e na vida talvez já fosse tarde e cansaço
e no mar talvez já fosse hora de se afogar

no amanhecer,
trazendo o dia lasso e nu,
enquanto ardia o nada no frio do quarto,
vindas de ti seis sílabas cuspiram o cuspe
do descaso e do desprezo
punhais atravessando o ar
lancinantes
o frio fio das palavras ferindo,
pungentes
a dor que em mim causavas não te comovia
nem te apercebias
eras contente em tua acritude

a tristeza consumia este final de primavera
que ainda sendo flores, já era tanta solidão
frágil sépala inclinada a se esboroar
quando será dia novamente se neste momento
a noite tocou-me a pele e os sentidos tornando-me escuridão?

os segundos riscaram as horas
com cacos de vítrea solidão
as sombras arrostaram a primavera
colheram o gorjeio dos últimos pássaros nas árvores
emudeceram ninhos onde faminto de ti eu clamava pelo teu amor

uma a uma em uma outra manhã será primavera
e o estrídulo silêncio falará das cintilações das tardes
e de girassóis tão antigos quanto os versos que te fiz
todos tão inquietos e faiscantes de sussurros e carinhos
pousando,
refletidos na flor fugaz dos nossos quiméricos instantes
e nos olhos teus olhos de papel couche

escuta
a tarde que ardeu entre nós
e as nossas solidões infrangíveis e mitigadas pela luz cinza
e calcinada que entrava pela janela
deixando o gosto fechado e amargo de um novembro
que caminhou irresoluto
para o precário e tangível adeus
deixando versos escritos na insônia de cada poema
deixando os fragmentos da vida
tão lenta por terminar
110

Murmúrio lento

murmúrio lento
a noite é a impenetrabilidade do muro
a noite é o gemer infatigável do vento
a noite é uma fogueira de ébano e prata
me chamando
nesta noite posso ouvir o mar
e me embalar no mar
                                   precário mar
e me embebedar de mar
                                       anacrônico mar
e sentir a candura gélida das espumas das ondas
e morrer-me o pouquinho que se morre a cada dia
ouvindo o mar que murmura em infrangíveis rochedos
a água e o sal escorrendo pela pedra,
escorrendo pela noite silenciosa e plena
escorrendo dentro de mim
o som das ondas clareiam
a noite fulminada pelo escuro
e o imenso cansaço irremissível dos meus olhos
no silêncio sem fuga da tua ausência as palavras inventam perguntas
quem é esta que ficou subsistente no retrato inútil?
                                                                                 fútil?
quem é esta cujo nome ondula como miragem no calor do deserto?
de quem são estes olhos que vejo quando fecho os meus olhos?
quem é esta que ficou como uma anotação,
esboço para poemas impossíveis?
já não sei
já não sei de quem são os passos tristes que andam em mim
já não sei da inquietação dos meus caminhos invioláveis
já não sei
se tudo foi ilusão
já não sei se eram mentiras
ou jardins famélicos e delirantes do coração
e suas flores fictícias
recendendo no ar este perfume dos gestos
deserdados
                   tocando de leve
                                             o passado lambendo a  minha mão
 
agora ficam as entrelinhas
fica esta saudade mendiga
ficam, latentes, os poemas a escrever
e esta tristeza que regressa
                                            tão quieta
pressentindo o momento de te esquecer
121

Fiz os meus dias

fiz os meus dias
como quem bebe
ainda e sempre
o beijo
daqueles primeiros anos
daqueles primeiros sonhos
daquele primeiro amor

fiz os meus dias
de amores partindo
deixando o som dos passos nas calçadas
e o meu coração
em tantas vozes caladas
em tantas caladas vozes chorava

fiz os meus dias
como quem arde
imponderavelmente
nas infinitas imagens
que as memórias trazem
na forja inelutável dos dias

fiz os meus dias
o tempo passando
misterioso e mudo
enigma de tantas dores
o solene grito agudo
entre sussurros
de insondáveis amores

fiz os meus dias
o tempo passando...
passando...
passa
imerso e invisível
em sentimentos
enganos

fiz os meus dias
o tempo passando...
passa
aos poucos
ou passa em bando
passando de quando em quando
como pássaro invencível

fiz os meus dias
de um sonho que assoma
qual alvissareira fantasia
o sonho que me toma
a flor do tempo e o silêncio
farfalhando no dia a dia
sussurrando a canção
e a brisa bebe afogueada a poesia
158

Eu tenho medo

eu não gosto de bicho
eu tenho medo de bicho
eu tenho medo da forma do bicho
eu tenho medo dos olhos do bicho
eu tenho medo dos passos do bicho
eu tenho medo das garras do bicho
eu tenho medo da sombra negra do bicho
eu tenho medo
eu tenho medo do ganido e dos urros do bicho
eu tenho medo da irascibilidade do bicho
eu tenho medo do bicho...
...que mora dentro de mim
158

Teus olhos

sei que teus olhos
não me vêem
mesmo  quando me olham
assim
como a noite
escutando o soluço dos trigais
e as estrelas que chegavam
para banharem os mares
ávidos do teu olhar
que não nos vê
 
o silêncio das lágrimas
cai sobre o momento
teus olhos desenham arabescos
contornos de nostalgia
palavras intransponíveis
 
sei que teus olhos
não me vêem
mesmo quando me olham
assim
com a crueldade do tempo
e da distância contida
nos fragmentos dos ventos
perpassando teus cabelos
e o perfume de flores da tua pele
 
teus olhos são este cântico
consecutivo e indissolúvel
de espera presa ao gesto
preso a um nome
que não é o meu
155

Pedaço de solidão

padeço de tanta solidão
sofro da vida
pedaço de tanta solidão
desconheço jardins
aguardo as cores
das flores levadas
em pervagantes nevoeiros
caminhando em silêncio
e embargando a vida,
tolhendo a vida,
entalhando a vida,
quimérica
ilusória
morrente
e irremissivelmente
incognoscível
104

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.