jlsilva

jlsilva

n. 1959 -- --

n. 1959-08-23

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Estrangeiro

e agora
que a vida lá fora
se compõe de palavras longas e vazias
e o tempo é só mais uma estória na estória dos dias
guardo o nada que me diz respeito
estremeço com as manhãs nascendo em meu peito
penhoro o que me restou da vida
o poema fica
fica por inteiro
o poema
o papel
e esta sensação de eu ser em mim um estrangeiro
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Poemas

91

O ritmo do tempo e das estações e das chuvas

o ritmo do tempo e das estações e das chuvas
afligem meu coração
pois,
se é a mim que o tempo pastora e envelhece
se é em mim que as estações doem a falácia de serem
                                  flores, vozes de ventos, lassidão
se é em mim que as chuvas misturam-se à imponderável lágrima
e ao desalento que a existência imprecisa grita em agônica solidão
então,
o tempo, as estações e as chuvas
balbuciam presságios entre afetos e outroras
reavivando rumores arredios e histórias avessas
infiltrando-se por entre os nós vermelhos do madeirame do telhado a vista
enquanto a noite embebeda-se de ventanias lá fora
aqui dentro, ainda, a fumaça preta do lampião a querosene subindo
contorcendo-se conforme a brisa que trouxe a noite e se demora
por entre os sonhos e os pensares
por entre tantas sombras das minhas mãos e as de meus irmãos
e o cheiro do querosene cinzelando a noite
negando o farfalhar do tempo inconteste
subjugando-me
sobrepondo noites e dias
à antigas dores
e já não me compreendo quando a chuva cai das cumeeiras
como lágrimas chorando convulsas pelo chão do quintal
espargindo-se em redondas cismas de cristal
não sei em qual estação
me fiz flor narciso mentira jardim
passarinho em tantas vidas
metal pedra terra por fim
um ser imortal no que mais de mortal há em mim
não sei de qual manhã soluçante
veio a borboleta
          o instante
e pousou na platibanda da janela
                            nos meus olhos
fascinando-se na vidraça onde se debateu
na enganosa transparência de um mundo que não era o seu
132

Chove sobre os lírios

chove sobre os lírios
 
não a chuva que chovia
sobre tudo
sobre os círculos concêntricos
dos mamilos dos teus seios
sobre as ígneas gaiolas
dos pássaros abertos da tua infância
entoando no telhado
um som complacente e ritmado dos pingos
que vazavam sobre as bordas dos telhados
hoje a chuva não escorre em prantos
pelos caminhos incandescentes dos telhados acesos
não deixa no ar o olor ameno e quente
da terra molhada
não molha minhas mãos
enquanto em barro me multiplico
e me repito na angustia de ser a mesma sombra
a mesma mágoa
não  molha os canteiros exauridos
não toca cúmplice flores e seus tempos incertos
nem cria tramas e cores indevassáveis
onde vicejava a eternidade
onde plasmavam-se sonhos
e estrelas
acordando as vozes
com as quais ainda teço e digo teu nome
confessando a ambivalência das madrugadas
116

Vai

vai,
e pé ante pé,
deita-te como a manhã
sobre este tempo leve e quente
que tu és
tempo claro,
maduro,
brando como os pássaros
glauco como a grama do jardim
deita-te sobre este tempo assimétrico
gravado e recluso nas folhas das flores
que em folhas secas em tantos tempos se desfazem
e cobrem o chão
ancoradouro dos meus passos
que renascem minuciosos e breves
em rumores
pequenos atos ocultos
que assim se escrevem
na farsa dos caminhos que me levam
118

Caem as flores

caem as flores,
lentamente,
sobre os caminhos do outono
sobre lembranças e sonhos

lá fora há um sol alegre

digo ternuras
para os teus cabelos
há tanto silêncio nas palavras que lhes digo

o mundo sonhava triste antes de ti
o azul esperava
os versos suspiravam
e esperavam
sementes

dormiam na noite acesa
tempos distantes
solitários barcos
ilhas cansadas
frágeis oceanos
mares sem nome

depois de ti
as ondas quebravam entre as tuas pernas
e era em teu corpo que eu navegava
naufrago insaciável
enquanto as flores caiam
sobre os caminhos do outono
sobre lembranças e sonhos
120

Desabafo

enojei-me
enojei-me de mim mesmo
da minha falsa candura
da minha real covardia
enojei-me da minha fuga
e dos meus medos
da minha sombra escura
pássaro negro nas nesgas claras do ar
flanando como os meus sonhos sem rimas
que nem consigo entrever
que não consigo atinar
um sem sentido me espiando
do sempre mesmo lugar

enojei-me dos pretenciosos
e os encantados com o poder
enojei-me dos homens
enojei-me das gentes
vendilhões de tristes madrugadas
de tantas noites sonhadas
dos laivos de tantas manhãs rasgadas
pelos passos falhos do vento
pelas rimas de um velho e doce poema
deixado para se declamar num junho inundado de azul

o que serei quando esquecer este mundo?
outra vida?
passado em chamas?
vento suave?
tufão?
um anjo à deriva e alado?
desdita?
saudades?
ou o vazio atávico e inominado caindo das minhas mãos?
a vida incompleta
que escorre, ressuma e grita?
pouco importa
não vejo nem a luz nem a porta
que me tire desta cava
onde, inelutavelmente, o tempo cai sobre mim em descompasso
não sou um homem do meu tempo
"meu tempo" nada tem de meu, nada tem de mim
meu tempo é só os momentos que me levam até o meu fim
130

Versos insontes

a tarde faz-se escura...
...chove
e terna e exilada
contempla mares entediados e distantes
limites de terras solitárias
como o pássaro pousado nos meus sonhos
eternos silêncios e cansaços
me chama devagar
tão lentamente
me leva pelos caminhos deslindados da memória
há momentos onde tudo é só saudades
e, então, já não é suficiente o deserto que se estende
diante da tela do computador
onde o nada permanece transparente e intangível
onde as palavras navegam
incertas rumo aos rochedos da infância
e tudo que tenho para dizer são só enganos
miragens
ausências
melancolias
vento triste
versos insontes
sombras invisíveis plasmadas
nas criptas das madrugadas insondáveis
sedes cansadas
saliva e beijos que guardei para ti
não digo amor,
esta palavra e seu fogo inquebrantável
a chuva molhando lembranças de cartas de amor
encharcando o inocente outono
volteando e escalavrando dentro de mim
incendiando o instante cinza do céu imoto
resvalando na tua voz
declamando o poema no tim-tim-tim do telhado
trazendo docemente a noite furtiva
no ventre de uma lua amarela
tecendo os olhos com os quais velarei o teu sono,
solidão
92

Há um silêncio

há um silêncio oculto nas perguntas
e nos gestos dentro das palavras tão sem sentido
enlaçadas ao escuro incendiando os caminhos das noites
há um silêncio oculto nos poemas recitados nas madrugadas
perfumadas pelo sono das estrelas
e acalentadas pela solidão trêmula dos dias redundantes
há em você e há em mim este silêncio
das lágrimas dos sonhos que invento
e este gosto de tardes e ternuras
que trazem a saudade de uma canção antiga
que canto só pra você e para a sua ausência
há um silêncio oculto no choro convulso que a noite traz
há um silêncio oculto nas flores
e nas cores das flores
que já não são as mesmas de ontem para hoje
há um silêncio oculto no tempo
frívola e inútil mentira que invento
para guardar nossos momentos e garatujar o sentimento
meu primeiro esboço de você
há um silêncio oculto neste amor  que é passo a passo
e que me leva até você
há um silêncio oculto no cansaço e na queda
há um silêncio oculto nos rascunhos que escrevo
ilusões cativas e indizíveis
momentos e labirintos
sonhos adormecidos na essência da vida
punhais afiados sibilando no vento que passa
e traz luas tão antigas quanto este canto que canto
só pra você e para a sua ausência
91

O que eu fui dorme nos tempos

o que eu fui dorme nos tempos,
sem respostas,
espera no instante despojado e entristecido que me olha longamente
e tem a minha alma naufragada em sensações
na sucessão de sombras
e gestos
e medos
que os olhos escuros da noite traz
no silêncio incriado dos cansaços
no acalanto e na solidão de tantos braços
na vida sedenta
gritando renúncias
neste momento de ausência e de prenúncios
nestes dias insaciáveis e transitórios
lentamente intermináveis
de intocados silêncios quebradiços
e macerados pelo labirinto do tempo machucado
e pela melancolia devoluta e intocada
que ressuma as memórias dos meus dias
de repente
106

Amor e poesia

sonho contigo
e a vida se faz
amor e poesia
suavemente
inventa as asas brancas do dia
faz-se as ilusões das noites encantadas
por onde caminham os meus passos
silentes
e esquecidos
rumo aos teus braços nus
e indefinidos
sonho contigo
e a vida se faz
amor e poesia
por onde olham os meus olhos
no doído segredo da tua ausência
inacabada e premente
em tempos indevassáveis
em sonhos acordados
momentos inelutáveis
efêmeros
como todo sonho que inventa
e embebeda nas horas das noites
atentas
vígis
trementes
os brandos poemas
reinos sem rei
poemas sem rimas
e que o amor seja só poesia
quando eu estiver só
junto ao mar
amor
junto ao mar
junto à sombra perecível
e vermelha da rosa
na qual me envolvo e me perco
e me pego, assim, encantado
a sonhar contigo
a vida tecendo gritos
coloridos de paixão
nas madrugadas de amor,
eternidades,
teu corpo, poema na minha mão
131

Enternece

enternece ouvir o amanhecer do dia
escorrendo pela janela
a luz devoluta e intocada,
morosa,
levantando-se da noite onividente
rompendo o escuro do mundo inocultável
lançando instantes
sombras nitentes
e gestos concisos
incendiando os ares frios e surdos do inverno

enternece ouvir os pássaros cantando
na manhã que se levanta retentiva
lentamente
inconclusa
intangível
encharcando o ar repleto de perguntas

enternece ouvir o silêncio dormindo junto ao teu corpo
recitando a madrugada
acalentando a solidão que invento
para os teus olhos escuros
como a noite que saciou o nosso amor
morte desfeita no inconsolável gozo
prelúdio da vida nascida entre as tuas coxas
rumor de pele arfante
o beijo aquietado em teus lábios
o desejo derramado
em tuas mãos espalmadas

enternece ver o amor
dormitando em teus braços nus
poemas sem rimas
tecendo eternidades
entrelaçando o cansaço dos amantes
falando sussurros ao teu ouvido
despindo o perfume dos nossos instantes
127

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