Ideia
comove ouvir o rumor da brisa a soluçar nas flores
em tantos caminhos efêmeros,
em tantos amores pulsando,
a suspirar
inundando palavras que se compõem
em tantos traços
e com as quais se escrevem
e se denotam a vida e a morte
contrai-se o sonho na noite sem nome,
a opacidade do amor nos dias sem fim
dedilhados sílaba a sílaba
extasia o fim de tarde a beliscar as cores
que ressumam de um sol poente
vermelho cúprico
laranja
lilás
quilha e fronteira entre o dia e a noite
na surdez branda do vento
arrancando ao ventre túrgido da terra,
prenhe das noites,
a ideia,
onde se alarga o momento de ir embora
e nunca mais,
nunca mais voltar
Versos insontes
a tarde faz-se escura...
...chove
e terna e exilada
contempla mares entediados e distantes
limites de terras solitárias
como o pássaro pousado nos meus sonhos
eternos silêncios e cansaços
me chama devagar
tão lentamente
me leva pelos caminhos deslindados da memória
há momentos onde tudo é só saudades
e, então, já não é suficiente o deserto que se estende
diante da tela do computador
onde o nada permanece transparente e intangível
onde as palavras navegam
incertas rumo aos rochedos da infância
e tudo que tenho para dizer são só enganos
miragens
ausências
melancolias
vento triste
versos insontes
sombras invisíveis plasmadas
nas criptas das madrugadas insondáveis
sedes cansadas
saliva e beijos que guardei para ti
não digo amor,
esta palavra e seu fogo inquebrantável
a chuva molhando lembranças de cartas de amor
encharcando o inocente outono
volteando e escalavrando dentro de mim
incendiando o instante cinza do céu imoto
resvalando na tua voz
declamando o poema no tim-tim-tim do telhado
trazendo docemente a noite furtiva
no ventre de uma lua amarela
tecendo os olhos com os quais velarei o teu sono,
solidão
O poema se diz sozinho
as minhas mãos espalmadas esperam outras mãos
que venham acariciando o silêncio que se levanta
da noite imensa e imprecisa
ecoando recordações
reminiscências deslindadas no tempo
espero outros olhos
que fitos no abismo que habita em mim
expressem peremptórios
a evidência inconteste de nada sermos
para além do pensamento e do tormento desta existência
onde a minha alma eterna espelha e reverbera os sentidos
a procurar pela liberdade dentre poemas inacabados
que já não sei escrever
dentre os sóis flutuando sobre tardes derradeiras
dentre o alarido da vida clamando vida e vida e vida
poemas que nascem como sílabas recusadas
de emoções ancoradas a um verso e a um tempo
onde as palavras e gestos incontidos e sem nome
dizem das distâncias e das solidões caindo
como tristezas sobre os meus olhos cansados de não te ver
caindo sobre o meu corpo cansado de não te ter
calando a minha voz numa incognoscível saudade
a poesia, tão tímida quanto os sentimentos pueris, silencia
e em silêncio condena de amores a minha alma
e faz voar borboletas num céu de elude tessitura
e de saudades insinuadas por tanta ilusão
decompondo sonhos
espreitando a tarde
que se demorava inextinguível nos teus peitinhos pequenos
colhidos pelas minhas mãos
hoje, com as mãos sobre o rosto, balbucio o teu nome
lentamente
enquanto as lembranças inventam carinhos que não te fiz
e que me dizem da inquietação que era te amar
hoje, balbucio o teu nome
como o dia balbucia a manhã e se despe do escuro
vestindo-se da nua luz ainda adormecida da aurora
e na manhã leitosa e insonte
voam pássaros em direção ao passado
para além da tua ausência
e do meu medo
o poema, então, se diz sozinho
como uma voz no deserto
que a vastidão perpetua
em te querer, mas és lua
recitada na ficção das noites inomináveis e cambiantes
que, deste nascer sem morrer,
não me deixam te esquecer
Caem as flores
caem as flores,
lentamente,
sobre os caminhos do outono
sobre lembranças e sonhos
lá fora há um sol alegre
digo ternuras
para os teus cabelos
há tanto silêncio nas palavras que lhes digo
o mundo sonhava triste antes de ti
o azul esperava
os versos suspiravam
e esperavam
sementes
dormiam na noite acesa
tempos distantes
solitários barcos
ilhas cansadas
frágeis oceanos
mares sem nome
depois de ti
as ondas quebravam entre as tuas pernas
e era em teu corpo que eu navegava
naufrago insaciável
enquanto as flores caiam
sobre os caminhos do outono
sobre lembranças e sonhos
Chove sobre os lírios
chove sobre os lírios
não a chuva que chovia
sobre tudo
sobre os círculos concêntricos
dos mamilos dos teus seios
sobre as ígneas gaiolas
dos pássaros abertos da tua infância
entoando no telhado
um som complacente e ritmado dos pingos
que vazavam sobre as bordas dos telhados
hoje a chuva não escorre em prantos
pelos caminhos incandescentes dos telhados acesos
não deixa no ar o olor ameno e quente
da terra molhada
não molha minhas mãos
enquanto em barro me multiplico
e me repito na angustia de ser a mesma sombra
a mesma mágoa
não molha os canteiros exauridos
não toca cúmplice flores e seus tempos incertos
nem cria tramas e cores indevassáveis
onde vicejava a eternidade
onde plasmavam-se sonhos
e estrelas
acordando as vozes
com as quais ainda teço e digo teu nome
confessando a ambivalência das madrugadas
Há um silêncio
há um silêncio oculto nas perguntas
e nos gestos dentro das palavras tão sem sentido
enlaçadas ao escuro incendiando os caminhos das noites
há um silêncio oculto nos poemas recitados nas madrugadas
perfumadas pelo sono das estrelas
e acalentadas pela solidão trêmula dos dias redundantes
há em você e há em mim este silêncio
das lágrimas dos sonhos que invento
e este gosto de tardes e ternuras
que trazem a saudade de uma canção antiga
que canto só pra você e para a sua ausência
há um silêncio oculto no choro convulso que a noite traz
há um silêncio oculto nas flores
e nas cores das flores
que já não são as mesmas de ontem para hoje
há um silêncio oculto no tempo
frívola e inútil mentira que invento
para guardar nossos momentos e garatujar o sentimento
meu primeiro esboço de você
há um silêncio oculto neste amor que é passo a passo
e que me leva até você
há um silêncio oculto no cansaço e na queda
há um silêncio oculto nos rascunhos que escrevo
ilusões cativas e indizíveis
momentos e labirintos
sonhos adormecidos na essência da vida
punhais afiados sibilando no vento que passa
e traz luas tão antigas quanto este canto que canto
só pra você e para a sua ausência
Miséria e fome
Senhor,
Viestes nos procurar
a mim e a este cão que atende pelo nome de Fome
trouxestes alento para as nossas lágrimas
trouxestes o cântaro cheio da Tua Verdade
e da Tua comiseração
da latência das Tuas palavras
inventa-se a paciência e/ou o desespero
escorrem os momentos para o fim
e o fim é a catedral onde a neblina apagará os círios
que consomem os dias e as noites
inelutavelmente
o homem deglutindo a fome
o cão salivando a fome
a criança aprendendo a fome
subsistem por imposição da vida
crianças faminta arrostando a vida
crianças no lixão mimetizando-se com os urubus
crianças carcomidas pela estultice dos discursos vãos
crianças apedrejadas pelo egoísmo inaudito
crianças pedindo nos semáforos
crianças na prostituição
Dizei, Oh! Senhores,
chefes das nações que sendo várias deveriam ser uma
que almoçam e que jantam e arrotam e jogam o sobejo fora
o campo semeado e a colheita são insuficientes?
a semente, se mente e não vinga e se vinga e se morre?
a miséria é algo tão distante, insólito e obscuro
sem direito sequer a um osso para o cão,
a um pão duro para o dono?
um dia, sentados diante da emoção incomensurável da mansidão de uma aurora
molhada pelo sereno que o vento traz e acordados pelo sussurro dos deuses,
olhando para o que acumulamos,
um dia pressentiremos (será)
que morrer de fome, na miséria é a quinta-essência da indiferença
açodando os círios acesos para que se apaguem mais celeremente todos os dias
sem atentar que tudo que é é eternidade
Desabafo
enojei-me
enojei-me de mim mesmo
da minha falsa candura
da minha real covardia
enojei-me da minha fuga
e dos meus medos
da minha sombra escura
pássaro negro nas nesgas claras do ar
flanando como os meus sonhos sem rimas
que nem consigo entrever
que não consigo atinar
um sem sentido me espiando
do sempre mesmo lugar
enojei-me dos pretenciosos
e os encantados com o poder
enojei-me dos homens
enojei-me das gentes
vendilhões de tristes madrugadas
de tantas noites sonhadas
dos laivos de tantas manhãs rasgadas
pelos passos falhos do vento
pelas rimas de um velho e doce poema
deixado para se declamar num junho inundado de azul
o que serei quando esquecer este mundo?
outra vida?
passado em chamas?
vento suave?
tufão?
um anjo à deriva e alado?
desdita?
saudades?
ou o vazio atávico e inominado caindo das minhas mãos?
a vida incompleta
que escorre, ressuma e grita?
pouco importa
não vejo nem a luz nem a porta
que me tire desta cava
onde, inelutavelmente, o tempo cai sobre mim em descompasso
não sou um homem do meu tempo
"meu tempo" nada tem de meu, nada tem de mim
meu tempo é só os momentos que me levam até o meu fim
Outro tempo
mais um agosto
desmedido em dias e noites
ilusões e atalhos irreais
que me trouxeram até aqui
na batida surda de um tempo antigo
e que já pressentem-se
como amantes
ao início próximo da primavera
a alma despe-se dos enganos da vida
ainda traz na tessitura do ser a brisa inebriante
e o perfume das flores noturnas
e o plangente repicar dos sinos
meditando a imprecisão das horas
e a pulsação da vida
o campo florido do verde dos pirilampos
que se estende e ilumina a noite ditosa
vem da candeia
de um céu cintilante
rendilhado de flamantes
estrelinhas mergulhadas no ocaso
a lua traça no céu
um arco de linha nacarada
sobre o fundo negro que se
ergue dos montes adormecidos
na noite diáfana
-demora-se a chamar-me
fica no ar o som palpitante das palavras
e suas ausências doridas
se escondem
e tanto de melodia
se esvai
na armadilha derramada do dia
a poesia dorme, concisa,
no colo nu das folhas úmidas,
nos braços enrodilhados dos pingos da chuva,
que desenhavam arabescos nas janelas
e levavam a minha e a tua vida
como o incansável dizer adeus
uma ave adeja na noite sem nome
solitária, atravessando os fios finos dos rios
chove
e o pássaro traça a hora carmim de um momento sem fim
chove
não a chuva que chovia dolorosa
nas ígneas gaiolas abertas da infância
entoando nas paredes do sonho
o som molhado e ritmado dos pingos
hoje a chuva não cai sobre os telhados
e não junta seu som
ao som bom do barro das telhas
hoje a chuva não escorre
pelas ruas de terra
nem pela sombra negra,
indefinível,
áspera e sibilante do crepúsculo vermelho
não deixa no ar o olor quente
de terra molhada
e dos passos embriagados que caminham
sobre as águas inexequíveis
não há canteiros
nem flores
nem cores
onde vicejava a eternidade dos sonhos
e da vida
que a chuva, então, avivava
hoje a chuva é o instante
sem a cor do sonho
sem as memórias e as histórias
e as fábulas
interminavelmente azuis
da imaginação
que pasce num mundo
onde a semente espera latente
e longe dos segredos dos meninos
reprisados noite após noite
o momento passou
trazendo a obscura noite dos sóis
sobre os quintais
busco em mim
o que eu fui
o que eu era
esta não é a primeira primavera
nem a última lenta agonia
que os meus olhos soluçantes
vêem passar
busco-me entre as flores do passado
lá onde a vida nunca deixou de ser jardim
onde as flores balouçam, suaves,
aos pingos da chuva
e que balouçam, também, os labirintos do meu mundo
oh, doce flor do jasmineiro,
a tarde chora outra primavera
espargindo aromas voláteis,
derramando folhas e flores
levadas pelo vento
para além das palavras e dos signos
e do encantamento
outro mar
caminhando para as areias
outro tempo
desapegado e incomensurável
entre as mãos
molhadas de ventos e de cores
outra solidão
com a qual finda-se o dia
e começa outra poesia
Caminhos sem faces
e tudo era o escuro ardente e místico
na casa enlaçada ao entardecer
onde as sombras caminhavam silentes
trazendo pela mão o marulho do anoitecer
momentos de melancolia
ou de enleado e manso desencanto
úmidos de lenta monotonia seminua
talvez de um inconsútil pranto
retalhos de lágrimas
ondas de enganos e medos
escalavrando o véu de um céu imoto
como espinhos cintilantes
costurando alegóricas estrelas
antes era o sonho
onde meus olhos envelheciam
como as flores num vaso
raso
como os dias da vida
envelheciam nus,
ao acaso
antes era o sonho
não mais as noites inquebrantáveis
inesperadas e densas
espiando o sono indefensável
feito de saudades trincadas
feito de lembranças retentivas
hoje quando a vida se ausenta
e me contempla de repente
com os seus olhos de flor
perco-me em rios dissolutos
ando caminhos sem faces
procuro em madrugadas o amor
sou versos impingidos
peroração
sou um homem inconcluso
alheio aos passos da sorte
espero,
em silêncio,
na porta atemporal
o que me trama a morte
gesto e pretexto final