jlsilva

jlsilva

n. 1959 -- --

n. 1959-08-23

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Quando o amor se vai

duas ou três palavras
e tudo foi dito
dentre tantas lembranças esquecidas
na voz que fica inaudível e nua
quando o amor se vai
e o desconsolo já não é suficiente
para carregar os dias pela ausência
pela fuga pausada e lenta
ou pelo medo
do tempo que acorda como um degredo
cada dia mais cedo
cada dia mais um nada
constante como um infinito e indizível segredo
que ficou nos olhos olhando a saudade
e a distância espessa e infrangível
repleta de cantigas extenuadas
e de abraços tatuados pelo corpo
até que a noite caia junto com a estrela cadente
e a escuridão diga nostalgias
que inquietam os silêncios
intrínsecos crepúsculos dentro da gente
cingidos de inelutáveis eternamente
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Poemas

91

As noites não te esquecem

Vê, amor, que as noites não te esquecem
Falam sozinhas do nosso amor que um dia
Em mil carinhos soprou o sonho e a fantasia,
Deixou sentimentos que em mim ainda crescem
 
E os teus beijos no meu corpo ainda tecem
Esta saudade que embriaga os meus sentidos
Quando a noite silente permeia de gemidos
Os meus sonhos que sem ti não adormecem
 
Entrego-te na noite estrelinhas, a luz da lua
Para cobrir a tua pele alva, tua pele nua
O teu corpo, todo em mim, é a lembrança
 
Dos momentos em que tu, mulher criança
Me enlaçava em teu sorriso de amante
E todo o mundo era pra mim este instante
132

Me beija

No teu amor eu hei de mergulhar em vagas ondas onde o mar em prece se descerra
 
No cheiro bom do teu calor hei de bulir com a vida
 
Hei de cantar as cantigas que em meu corpo ainda vibram
 
Canta, amor, canta comigo o calafrio que percorre meu corpo quando o meu corpo desfalece junto ao teu
 
Canta, amor, canta comigo a cantiga da noite amena onde não sei te dizer não
 
Canta comigo a canção que este amor entoa desvairado de ilusão 
 
Entre as canções hei de beijar-te enquanto a nuvem passa e nos encobre dos olhos bisbilhoteiros do engodo
 
Amor, dá-me as tuas mãos enquanto te amo
 
Beija a minha boca enquanto meu corpo beija o teu e bebe o teu e se desfaz no teu e se recompõe nas nossas palavras de amor
 
Sente o meu sonho que nasce em ti, que vive em ti e que, por fim, há de morrer em ti
 
Minhas mãos enlaçam as tuas como se o amor pudesse fugir a qualquer momento
 
Meu abraço sente a delicadeza da tua cintura e o desenho do teu corpo quando o momento, que começa na lucidez que termina, diz que tu és minha menina
 
Amor, me beija...
 
Me beija e deixa o teu gosto em mim
 
Deixa o teu gosto morando em minhas entranhas
 
Deixa o teu gosto em mim para eu não morrer deste amor
 
Deixa o teu gosto em mim para que eu te sinta nas noites que me alucinam quando estou longe de ti
 
Me beija... amor!

Só me beija!

Me beija...

Me beija...

beija...

beija...

beija...
123

Tatuagem

O meu amor dormiu tão triste
Na ponta dos meus dedos o teu corpo,
Como tatuagem, ainda persiste
136

Dona dos sonhos

Te vejo
quieto como o sol suspenso lá fora
como o tigre que começa em tua boca
como a ave que ainda não te conhece
e se demora
a olhar tua beleza
como a face vermelha ao perguntar o teu nome
como o barco costeando rumo ao farol dos teus seios
 
Como não olhar quando te vejo?
se as palavras com as quais eu te leio
com as quais te falaria
se extraviam
absortas
insondáveis
quando vens caminhando sonhos
Imagino teus olhos
não os vejo
negros olhos?
noites calmas?
onde começam?
onde terminam?
sonhos negros?
imagino teus olhos,
dona dos sonhos,
e espero
você inteira passar
 
Quem é você
morena, ternura e sonho
surgindo
de dentro do silêncio do salão?
quando vens caminhando segredos
caminhando como quem dança
o passo lento do vento
as chuvas bebendo o verão
fazendo de ti
flor de laranjeira
pólen
favos de mel
pela tua morenice açucarados
nos teus lábios onde o beijo pousa
e as abelhas sorvem os dias
para te entregar

Há um mar de ilusão entre mim e ti
mordo o tempo
o dia passa tão lento
esperando o outro dia
para eu te ver outra vez

Dos sonhos quero os sonhos mais maduros
suculentos
quero os sonhos mais maduros
quando te vir outra vez
quero o silêncio que ouço quando chegas
trazendo ritmo e graça
e as respostas
dos sonhos que despertam
em tantas carícias supostas
quero o sonho suculento
escorrendo sumo in natura
quero a candura
inebriante dos versos silentes das tuas costas

O meu encanto fala de nós
ancorado à inocência do mar
o arrepio na pele me diz que eu não devia
te olhar como eu te olho
mas meus olhos olham,
logo que chegas,
para a ausência que deixarás
e, então, meus olhos já são só saudades
por que contigo me esquecerei
dentro deste poema
que nasceu deste silêncio que nos toca
poema que jamais te enviarei
119

Sem teus olhos

Sem teus olhos,

As manhãs demoram-se para acordar

Os dias procuram teus olhos de menina

O sol não encontra motivos para brilhar

O azul que veste o céu desbota e desatina

Escondem-se, sem cores, as águas do mar

Os astros olham de cima e a luz calcina

E quando vê-se que o dia não amanhece

Que os delphiniums azuis não vão brotar

Que a vida envolta em sombras não acontece

Que as nuvens não têm por onde caminhar

E sôfregas esperam pelo destino que as esquece

Tudo fica à espera... à espera do teu olhar

Sem teus olhos só sobram noites sem luar
83

Abandono

Não quero que tu saibas o quanto choro
Nas noites em que vaga em mim a solidão
E os meus olhos trazem de longe tua visão
Para os meus beijos cálidos, onde demoro
 
Beijo tua boca, onírica flor da minha noite
Enlaço o teu corpo no meu corpo desnudado
E as lembranças me vêm como em açoite
Nas dolorosas brumas envoltas ao passado
 
Têm a dolência dos espinhos de uma flor
O abandono inquieto da fria madrugada
Que reflete o meu olhar nos olhos da dor
 
A vasta noite embebe-se de um místico olor
Acalentando o choro na minha face molhada
Sonha minha alma pra eu não morrer de amor
142

Enternece

enternece ouvir o amanhecer do dia
escorrendo pela janela
a luz devoluta e intocada,
morosa,
levantando-se da noite onividente
rompendo o escuro do mundo inocultável
lançando instantes
sombras nitentes
e gestos concisos
incendiando os ares frios e surdos do inverno

enternece ouvir os pássaros cantando
na manhã que se levanta retentiva
lentamente
inconclusa
intangível
encharcando o ar repleto de perguntas

enternece ouvir o silêncio dormindo junto ao teu corpo
recitando a madrugada
acalentando a solidão que invento
para os teus olhos escuros
como a noite que saciou o nosso amor
morte desfeita no inconsolável gozo
prelúdio da vida nascida entre as tuas coxas
rumor de pele arfante
o beijo aquietado em teus lábios
o desejo derramado
em tuas mãos espalmadas

enternece ver o amor
dormitando em teus braços nus
poemas sem rimas
tecendo eternidades
entrelaçando o cansaço dos amantes
falando sussurros ao teu ouvido
despindo o perfume dos nossos instantes
130

Quem é você que me encanta

quem é você
que me encanta?
quando entra
a porta aberta em gesto leve
a tarde te trazendo
como os rios trazem os barcos
repletos de ausências
e de distâncias até o mar
te vejo
infinitamente bela
indizivelmente meiga
meus olhos querendo te dizer poesias
dizer castas ilusões aos teus cabelos
assim como quem fala de amor
com os lábios ressumados de tantos sonhos profundos
não sei seu nome
nem sei se anjos têm nomes
não sei se vens
quando vens
e um instante é tão pouco
dentro dos dias tão sem sentido
que, sem você, fazem-se milênios
cada vez mais sem sentido
cada vez mais este mesmo devanear
não me canso de te olhar
mas, sei que não devo olhar pra você
é o que o silêncio me diz
então escrevo
ausências
e palavras que deveria te dar
palavras que são só tuas
por que meu coração só as diz quando me pego a te olhar
e as palavras não ditas sabem onde moram as saudades
saudades do que não vivi
saudade de não ter te dito
o quanto você me encanta
mas, sei que não devo dizer
o quanto me encanto por você
nada direi, então
apenas olho para a porta
por onde você entrará
como um sol inconsentido
há muito tempo a me aguardar
em tantas tardes
que poderiam ser versos tão antigos
como o sonho e o carinho ciciado da tua voz
em tantas tardes enternecidas de poemas e solidão
tecendo o tempo de te ver
e do querer na minha mão
dizer guardados carinhos à tua mão
nas tardes nas quais não perguntei o seu nome
apenas antevendo a porta que você abrirá
e por onde você sairá
levando o silêncio e o seu nome
deixando na nossa quietude, que é tanta
a pergunta que não te esquece
quem é você
que me encanta?
125

Enquanto aprendo a morrer

ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
pensamento
eterna memória
passado
o grito na margem abandonado
o enredo ou soluço das naus sucumbidas
a luz acendendo o porto na tarde devagar
o silêncio e a sombra amoldável
tudo sufocado
sendo só
 
sendo só
enquanto se aprende a morrer
com o limo verde dos rios
com o gesto noturno da flor desfeita na espera
com a canção doída do mar a solfejar nos rochedos
 
ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
nuanças e sussurros das águas mastigadas
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
o prelúdio do lamento de tudo que não esqueci
a tarde incendiada
pelos perfis amarelos e ardorosos dos girassóis
a lua nova num céu intrínseco e túrgido
o ritmo suave dos meus versos intocados
lembranças de quando eu era criança
as mudas inquietudes das noites tocando em mim
o choro e o soluço sufocante
os seios róseos de Pingo
duas rimas de poesia
me ensinando a morrer
dois versos a cada dia
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
e depois do rumor da noite a morte se fazendo
redimida e arfante
quando eu aprender a morrer
e de tanta melancolia
a morte se faria
nua e vã
como se faz poesia
rascunho escrito no cerne da areia
palavras atravessando o destino
esperando o momento dilatado
do sonho do sonho de ser menino
desenhado no espelho
cubo de vento
caminhos gélidos de fogo
e segredos
estou só
nesta vida emprestada
o tempo passou
e o que é de meu é coisa alguma
é a trapaça do tempo dizendo nada
126

Pra onde vou

Pra onde vou se agora a vida me trouxe você
E nossos momentos são sonhos que em mim se realizam?
Pra onde vou se te esperar tornou-se a inteira poesia
E os meus beijos aninham-se em teu corpo
Como os versos aninham-se nos poemas?
Pra onde vou se agora tua mão tocou a minha
E os teus dedos, trançados aos meus, disseram tanto amor?
Pra onde vou se agora o dia acorda e dorme em você
E nas minhas noites o perfume do teu corpo embebe o ar da minha imaginação?
Pra onde vou agora que os meus lábios tocaram os teus
E a sede molha a lembrança dos nossos dias e das nossas noites?
Pra onde vou se a tua ausência é tudo que tenho depois do amor
E na minha pele o teu gosto fica como o desejo ainda latente?
Pra onde vou se agora quando apago a luz é o seu toque que sinto na penumbra que me encobre?
Pra onde vou se agora quando o silêncio dormita é a tua voz que ouço?
Pra onde vou se agora meus caminhos, tão distantes, esqueceram os próprios passos?
Pra onde vou se agora tudo que sinto é você
Tudo que sonho é você
Tudo que quero é você
Tudo que amo é você
E tudo que tenho é saudade?

Pra onde vou, meu amor, se tudo que sei é te amar?
114

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