Vem
vem,
e traz contigo as folhas caídas
traz contigo esta saudade que acabou de acontecer
traz os teus olhos para eu ver
a noite clarear o mundo
as rosas acordarem os passos ledos da madrugada
traz o silêncio
e a quietude das nossas mãos enlaçadas
no instante do amor
vem,
e deixa escorrer tua seiva
em minha boca cativa do teu gosto
amiga, amante, poente
deixa-me beijar o teu rosto
e dizer sempre e tanto que te amo
um te gostar tão contente
pássaro sem destino que sou
vem,
dormir sonhos profundos
depois de misturar os nossos gozos
depois de misturar nossos mundos
depois de repousada a madrugada
vem secar a lágrima que nunca se derrama
posto que a vida é trama
e esta paixão que é tão pura
deita-se conosco na cama
beija teu corpo e jura
carícias e silêncios
soluços cravados em tantos ais
sem nome
em tanta sede sem fim
do que de ti há em mim
vem...
O que eu fiz das minhas dores
O que eu fiz das minhas dores?
Com as lágrimas que derramei
Reguei jardins, cultivei flores
Plantei rosas lindas, cravos singelos
Lírios branquinhos, girassóis belos
Que quando a brisa sopra
É lindo vê-los bailar
Sussurrando ao passar o vento
“Quem não amou, deve amar”
E as pétalas que vão voando
Levadas sem mais porquê
Levadas, entregues ao vento,
Naus sem rumo, barcos sem rotas
Levam consigo as saudades
Que sinto de um bem querer
São flores lindas, singelas
Que antes de ir pro jardim
Brotaram em minha alma
Floresceram só para mim
E quando chega a tardinha
Os girassóis se fechando
Eu colho das flores o sol
Sorvo da luz se apagando
A avistar a noite que vem
No perfume que se exalou
E nas manhãs de sereno
Bebo em cálice pequeno
O orvalho que se formou
Me beija
No teu amor eu hei de mergulhar em vagas ondas onde o mar em prece se descerra
No cheiro bom do teu calor hei de bulir com a vida
Hei de cantar as cantigas que em meu corpo ainda vibram
Canta, amor, canta comigo o calafrio que percorre meu corpo quando o meu corpo desfalece junto ao teu
Canta, amor, canta comigo a cantiga da noite amena onde não sei te dizer não
Canta comigo a canção que este amor entoa desvairado de ilusão
Entre as canções hei de beijar-te enquanto a nuvem passa e nos encobre dos olhos bisbilhoteiros do engodo
Amor, dá-me as tuas mãos enquanto te amo
Beija a minha boca enquanto meu corpo beija o teu e bebe o teu e se desfaz no teu e se recompõe nas nossas palavras de amor
Sente o meu sonho que nasce em ti, que vive em ti e que, por fim, há de morrer em ti
Minhas mãos enlaçam as tuas como se o amor pudesse fugir a qualquer momento
Meu abraço sente a delicadeza da tua cintura e o desenho do teu corpo quando o momento, que começa na lucidez que termina, diz que tu és minha menina
Amor, me beija...
Me beija e deixa o teu gosto em mim
Deixa o teu gosto morando em minhas entranhas
Deixa o teu gosto em mim para eu não morrer deste amor
Deixa o teu gosto em mim para que eu te sinta nas noites que me alucinam quando estou longe de ti
Me beija... amor!
Só me beija!
Me beija...
Me beija...
beija...
beija...
beija...
Tatuagem
O meu amor dormiu tão triste
Na ponta dos meus dedos o teu corpo,
Como tatuagem, ainda persiste
O homem
Se a noite esconder todas as estrelas,
se no céu sobrar somente o breu e a lua,
se a saudade fugir com os nossos sonhos,
se a flor murchar e morrer em plena rua,
se a esperança se desfizer toda em quimera,
se o medo da vida se apodera,
se à amizade a falsidade desvirtua,
Ainda assim, amor,
restará a crença pura no afeto a nos suster enquanto há vida.
Se o vento arrastar nossos momentos,
se as nossas vozes o silêncio apagar,
se parados esperarmos novos tempos,
se a cegueira vier para nos guiar
se as nossas almas chorarem doloridas ,
se a sina vier a reger as nossas vidas,
se o sol ao meio-dia se apagar,
Ainda assim, amor,
restará a fé intacta no amor a nos manter enquanto há vida.
Se o homem a outro homem devorar,
se a guerra for o diálogo dos Senhores,
se a vida de um homem valer pouco,
se o homem para aqui só trouxer dores,
se o homem só evoluir externamente,
se a liberdade for pra um dia lá na frente
se na vida o amor for só rumores
Agora, sim, amor,
nada mais nos restará!
Te espero
Te espero
Em cada amanhecer
No primeiro raio de sol
No orvalho que cai da folha
Nas luzes do arrebol
Te espero
Em cada final de tarde
Na primeira estrela brilhando
No sol se deitando ao longe
Na brisa do mar soprando
Te espero
Em cada anoitecer
Em cada estrela que brilha
Nos astros do firmamento
Distantes milhas e milhas
Te espero
Nas madrugadas
No silêncio que inquiri a vida
Nas sensações que sufocam
Na tua ausência doída
Te espero
Nas entrelinhas
Da tua carta sincera
Nas tuas palavras que falam
De sonho, ilusão e quimera
Te espero
Em meio às saudades
No lume da solidão
No desejo que vai na alma
Na ânsia do coração
Te espero
Sempre esperei
Por ti a cada momento
Meus sonhos falam de ti
É teu o meu sentimento.
A ti, amor
faz frio
chove
a noite dorme
enquanto a madrugada espera o teu riso
o murmúrio da chuva lá fora declama silêncios
o amor fugiu com as estrelas
penso em ti
ainda te amo
ainda amo teus olhos negros como esta noite
negros como a espera do impossível tempo de te amar
e te ter em meus braços
nas noites que dormem pensando em ti
nas noites que doem pensando em ti
nas lembranças mastigando sonhos
e te ter em minha boca
e me escorrer lentamente
no eterno jardim dos teus mamilos
enquanto a madrugada roça o dia
e a corda da noite ainda diz para mim eternidades
tu és a mulher impressentida
a espera semeando esperanças
diz segredos para os meus medos
diz tanta poesia antiga
nos versos dos teus cabelos
e, então,
cantam os pássaros entre o sol e a neblina
escorregam os sonhos nos teus olhos de menina
bebo de ti a língua
entumecem as muralhas doces dos bicos dos teus seios
ah!, amada
para ti fiz o poente
antigo como a consumação da tua ausência
como a miragem de uma lua cheia no deserto
para ti fiz os astros silentes
fiz a luxúria do sol
fiz uma lua nitente
fiz flores das minhas dores
no teu amor fiz-me presente
Passado
Porque dizer desta distância
Se a distância é só saudade
Se há entre nós tantos céus
E tantos rios e tantos mares
Se a saudade da qual falo
É a mesma em todos os lugares
É a mesma que espera ali adiante
Fazendo do longe o mais distante
Apertando o passo pela vida a fora
Encobrindo as noites com um véu escuro
Fazendo do hoje um tempo antigo
E do passado um tempo que não vai embora
Longe de ti
Amor, sem ti sou ausente
Sou vida virada do avesso
Sou história sem fim, sem começo
Sou histrião descontente
Sou noite sem luz, sem luar
Sou lua em fase minguante
Sou o inferno de Dante
Sou dançarino sem par
Sou o inverno chegando
Sou um caminho sem fim
Sou máscaras fixas em mim
Sou um errante buscando
Sou a mão gelada da sina
Sou passarinho em gaiola
Sou cativo preso em argola
Sou a música que desafina
Sou folha solta ao vento
Sou a poesia que espera
Sou saudade que dilacera
Sou dia que passa lento
Sou o que guardo de ti
Sou a distância que dói
Sou o tempo sutil que corrói
Sou a sombra do que eu vivi
Sou barco cuja vela rasgou
Sou imitação de mim mesmo
Sou meus passos andando a esmo
Amor, longe de ti, nada sou
A saudade deita seu corpo
Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio