jlsilva

jlsilva

n. 1959 -- --

n. 1959-08-23

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Estrangeiro

e agora
que a vida lá fora
se compõe de palavras longas e vazias
e o tempo é só mais uma estória na estória dos dias
guardo o nada que me diz respeito
estremeço com as manhãs nascendo em meu peito
penhoro o que me restou da vida
o poema fica
fica por inteiro
o poema
o papel
e esta sensação de eu ser em mim um estrangeiro
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Poemas

91

O que eu fiz das minhas dores

O que eu fiz das minhas dores?
Com as lágrimas que derramei
Reguei jardins, cultivei flores
Plantei rosas lindas, cravos singelos
Lírios branquinhos, girassóis belos
Que quando a brisa sopra
É lindo vê-los bailar
Sussurrando ao passar o vento
“Quem não amou, deve amar”
E as pétalas que vão voando
Levadas sem mais porquê
Levadas, entregues ao vento,
Naus sem rumo, barcos sem rotas
Levam consigo as saudades
Que sinto de um bem querer
São flores lindas, singelas
Que antes de ir pro jardim
Brotaram em minha alma
Floresceram só para mim
E quando chega a tardinha
Os girassóis se fechando
Eu colho das flores o sol
Sorvo da luz se apagando
A avistar a noite que vem
No perfume que se exalou
E nas manhãs de sereno
Bebo em cálice pequeno
O orvalho que se formou


 

157

Enquanto aprendo a morrer

ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
pensamento
eterna memória
passado
o grito na margem abandonado
o enredo ou soluço das naus sucumbidas
a luz acendendo o porto na tarde devagar
o silêncio e a sombra amoldável
tudo sufocado
sendo só
 
sendo só
enquanto se aprende a morrer
com o limo verde dos rios
com o gesto noturno da flor desfeita na espera
com a canção doída do mar a solfejar nos rochedos
 
ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
nuanças e sussurros das águas mastigadas
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
o prelúdio do lamento de tudo que não esqueci
a tarde incendiada
pelos perfis amarelos e ardorosos dos girassóis
a lua nova num céu intrínseco e túrgido
o ritmo suave dos meus versos intocados
lembranças de quando eu era criança
as mudas inquietudes das noites tocando em mim
o choro e o soluço sufocante
os seios róseos de Pingo
duas rimas de poesia
me ensinando a morrer
dois versos a cada dia
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
e depois do rumor da noite a morte se fazendo
redimida e arfante
quando eu aprender a morrer
e de tanta melancolia
a morte se faria
nua e vã
como se faz poesia
rascunho escrito no cerne da areia
palavras atravessando o destino
esperando o momento dilatado
do sonho do sonho de ser menino
desenhado no espelho
cubo de vento
caminhos gélidos de fogo
e segredos
estou só
nesta vida emprestada
o tempo passou
e o que é de meu é coisa alguma
é a trapaça do tempo dizendo nada
179

Eu quero um amor

Eu quero um amor que me leve
Por lugares que nunca andei
Que me ame com alma e pele
Que me ensine o que eu não sei
Que traga no beijo o gosto
Da fruta que não provei

Eu quero um amor que chegue
Suave, devagarinho
Trazendo em sua chegada
O toque, o gesto, o carinho
Que saiba brincar com sonhos
Que voe feito passarinho

Eu quero um amor que seja
Desejo, afeto, paixão
Que seja amante da lua
Que já sentiu solidão
Que compreenda que a vida
É feita de luz e escuridão

Eu quero um amor que tenha
Um traço de nostalgia
Que converse com as estrelas
Contando seu dia-a-dia
E que nas noites escuras
Entoe cantos à alegria
 
Eu quero um amor que faça
Morada em meu coração
Que me acenda a saudade
De entrelaçar sua mão
Me recostar em seu ombro
E me esquecer na paixão.

 

173

Te espero

Te espero

Em cada amanhecer
No primeiro raio de sol
No orvalho que cai da folha
Nas luzes do arrebol

Te espero

Em cada final de tarde
Na primeira estrela brilhando
No sol se deitando ao longe
Na brisa do mar soprando

Te espero

Em cada anoitecer
Em cada estrela que brilha
Nos astros do firmamento
Distantes milhas e milhas

Te espero

Nas madrugadas
No silêncio que inquiri a vida
Nas sensações que sufocam
Na tua ausência doída
 
Te espero

Nas entrelinhas
Da tua carta sincera
Nas tuas palavras que falam
De sonho, ilusão e quimera

Te  espero

Em meio às saudades
No lume da solidão
No desejo que vai na alma
Na ânsia do coração
 
Te espero

Sempre esperei
Por ti a cada momento
Meus sonhos falam de ti
É teu o meu sentimento.

 

157

Vai

vai,
e pé ante pé,
deita-te como a manhã
sobre este tempo leve e quente
que tu és
tempo claro,
maduro,
brando como os pássaros
glauco como a grama do jardim
deita-te sobre este tempo assimétrico
gravado e recluso nas folhas das flores
que em folhas secas em tantos tempos se desfazem
e cobrem o chão
ancoradouro dos meus passos
que renascem minuciosos e breves
em rumores
pequenos atos ocultos
que assim se escrevem
na farsa dos caminhos que me levam
177

Por que havia o amor

E por que havia o Amor
Nada era em demasia
Tudo tinha o seu valor
Nada, nada se excedia

A mão estendida ao homem
O abraço dado no amigo
O pão para quem tem fome
O que é joio, o que é trigo

A canção vinda da alma
O óbulo do fariseu
A doce música que acalma
O que é meu, o que é teu

O sonho sonhado só
A vida vivida junto
A estreiteza da mó
A força de um conjunto

O nascimento da flor
A correnteza do rio
O surgimento da dor
As ondas no mar bravio

A estrela a brilhar no céu
O vento em torvelinho
O artista com seu pincel
A singeleza de um carinho
 
A mão que cuida da chaga
A rosa com seu espinho
O doce olhar que afaga
A ave a cuidar do ninho

 O inefável som de um canto
A tarde beijando o dia
O triste ouvir de um pranto
O tempo de uma agonia

A chuva roçando a terra
A ave em migração
A estupidez da guerra
A frieza do canhão

O vigoroso toque do sino
A luz na escuridão
O orvalho matutino
O estrondo do trovão

A semente que cai na terra
A ternura do luar
O vento abraçando a serra
A flor na brisa a bailar

Tudo tinha tempo certo
Tudo tinha sua medida
Quando o amor redescoberto
Regia tudo na vida

147

Longe de ti

Amor, sem ti sou ausente
Sou vida virada do avesso
Sou história sem fim, sem começo
Sou histrião descontente

Sou noite sem luz, sem luar
Sou lua em fase minguante
Sou o inferno de Dante
Sou dançarino sem par

Sou o inverno chegando
Sou um caminho sem fim
Sou máscaras fixas em mim
Sou um errante buscando

Sou a mão gelada da sina
Sou passarinho em gaiola
Sou cativo preso em argola
Sou a música que desafina

Sou folha solta ao vento
Sou a poesia que espera
Sou saudade que dilacera
Sou dia que passa lento

Sou o que guardo de ti
Sou a distância que dói
Sou o tempo sutil que corrói
Sou a sombra do que eu vivi
 
Sou barco cuja vela rasgou
Sou imitação de mim mesmo
Sou meus passos andando a esmo
Amor, longe de ti, nada sou
188

Queria ser teu amor

Queria ser teu amor
Ainda que por um dia
Cantar risos de alegria
Sentindo o teu coração
Sussurrando junto ao meu peito
A nossa doce canção
Ah! Meu amor, como eu queria
Trançar minhas pernas nas tuas
Beijar tuas costas nuas
E com os dedos, sutis
Ir acariciando a tua pele
Com meus sonhos pueris
Beijar-te o ventre e o colo
Fazendo o tempo parar
Te acolher em meus braços
Te dar beijinhos, abraços
Quando o cansaço chegar
Quando o cansaço surgir
Me aninho em teu corpo quente
E entre beijinhos frementes
Me deito em ti pra dormir
182

Você vai ficando em mim

Você vai ficando em mim
Como uma doce lembrança
Como um olhar de criança
Descobrindo a flor no jardim
 
Como a chuva na terra
Como o sol no horizonte
Como a água na fonte
Como o perdão pra quem erra
 
Você vai ficando em mim
Como a onda no mar
Como o perfume no ar
Da linda flor do jasmim
 
Como o orvalho na folha
Como o beijo roubado
Como o desejo guardado
Como imagens numa bolha
 
Você vai ficando em mim
Como o amor revelado
Como o segredo guardado
No teu batom carmesim
 
Como o abraço apertado
Como o arrepio na pele
Como o gostar que desvele
O êxtase de ser amado

Você vai ficando em mim
Como o aroma na rosa
Como na face formosa
Os olhos de um querubim
 
Como os desejos contidos
Como o afã verdadeiro
Como aguardar fevereiro
Para perder os sentidos
 
Você vai ficando em mim
Como as estrelas no céu
Como a nuvem ao léu
Como a cruz no marfim
 
Como o amor que semeia
Como os braços na cruz
Como o som que produz
O sangue em minha veia
 
Você vai ficando em mim
Como a tinta na tela
Como a luz de uma vela
Iluminando o meu fim
  
Como esse imenso sentir
Como esta saudade intensa
Como o amor que compensa
Toda esta dor de existir
160

Noites de chuva

Por entre as chuvas te amar
Sonhando o sonho  do  beijo
Sonho teu corpo ao meu lado
Nas minhas  noites te vejo
 
Nas nossas noites de chuva
Abraço o teu corpo macio
O teu  desejo   crescente
Ronronando,  gata no cio
 
Teus sussurros escorregando
Em  nossos  corpos molhados
Nosso  amor  dançando à luz
Das  velas  nos candelabros
 
Minha  boca  procura a tua
Num  procurar  indecente
Nas noites de chuva caindo
Falando  do  amor da gente
  
Roçando  sua  língua na minha
Nossos  gostos  se misturando
Sabor das frutas de fevereiro
No  céu da minha boca ficando
 
O  nosso amor se embalando
Pela chuva chovendo lá fora
Pela  tua  chuva escorrendo
Pelo tempo que não tem hora
 
Por entre as chuvas te amo
Nas noites de chuva caindo
Depois do nosso amor... Te
beijo em meu colo dormindo
166

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