jlsilva

jlsilva

n. 1959 -- --

n. 1959-08-23

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Estrangeiro

e agora
que a vida lá fora
se compõe de palavras longas e vazias
e o tempo é só mais uma estória na estória dos dias
guardo o nada que me diz respeito
estremeço com as manhãs nascendo em meu peito
penhoro o que me restou da vida
o poema fica
fica por inteiro
o poema
o papel
e esta sensação de eu ser em mim um estrangeiro
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Poemas

91

Passado

Porque dizer desta distância
Se a distância é só saudade
Se há entre nós tantos céus
E tantos rios e tantos mares
Se a saudade da qual falo
É a mesma em todos os lugares
É a mesma que espera ali adiante
Fazendo do longe o mais distante
Apertando o passo pela vida a fora
Encobrindo as noites com um véu escuro
Fazendo do hoje um tempo antigo
E do passado um tempo que não vai embora
147

Pedido

Amor, eu quero te fazer um pedido
Que o meu coração reclama
Amor, quando eu estiver distraído
Enlaça o meu pescoço
Fala no meu ouvido
Diz que me ama

162

Primeiro beijo

Na primeira vez que te beijei
O amor era longe e o sonho imenso
Aos teus lábios o meu amor eu sussurrei
Aos  meus  lábios  tu  dissestes  amor  intenso
E ao brilho da manhã de um céu despido
A  luz  nos  espiava  pelas  frestas
De um fevereiro enternecido
177

A saudade deita seu corpo

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio 
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
178

A ti, amor

faz frio
chove
a noite dorme
enquanto a madrugada espera o teu riso
o murmúrio da chuva lá fora declama silêncios
o amor fugiu com as estrelas
penso em ti
ainda te amo
ainda amo teus olhos negros como esta noite
negros como a espera do impossível tempo de te amar
e te ter em meus braços
nas noites que dormem pensando em ti
nas noites que doem pensando em ti
nas lembranças mastigando sonhos
e te ter em minha boca
e me escorrer lentamente
no eterno jardim dos teus mamilos
enquanto a madrugada roça o dia
e a corda da noite ainda diz para mim eternidades

tu és a mulher impressentida
a espera semeando esperanças
diz segredos para os meus medos
diz tanta poesia antiga
nos versos dos teus cabelos
e, então,
cantam os pássaros entre o sol e a neblina
escorregam os sonhos nos teus olhos de menina
bebo de ti a língua
entumecem as muralhas doces dos bicos dos teus seios

ah!, amada
para ti fiz o poente
antigo como a consumação da tua ausência
como a miragem de uma lua cheia no deserto
para ti fiz os astros silentes
fiz a luxúria do sol
fiz uma lua nitente
fiz flores das minhas dores
no teu amor fiz-me presente
155

Entre

Entre as palavras não ditas
Há muitas flores formosas
Há orquídeas, lírios e rosas
Há cores que nem acreditas
 
Entre o silêncio que esquece
De dizer as palavras inteiras
Há vozes, sutis brincadeiras
Que a tua razão desconhece
 
Entre o sentimento que fica
Como se fosse a lua e o sol
Como a tarde lilás do arrebol
Há o tempo que purifica

Entre as minhas mãos e as tuas
Ficaram a emoção e o carinho
Que mesmo eu estando sozinho
Há o calor das lembranças suas
 
Entre os meus lábios e os teus
Há a dor da palavra que chora
Que foi dita quando fui embora
A interminável palavra do adeus
178

Nas horas de solidão

O tempo passa por nós
Como as folhas ao vento
Às vezes passa tão lento
Às vezes nos deixa tão sós

Traduz em si as saudades
Momentos que não se vão
Promete outras verdades
Momentos que ainda virão

Vai do passado ao futuro
Realizando o presente
Num gotejar firme e duro
Encobrindo a vida da gente

O tempo se diz exato
Hora, minuto, segundo
Tudo irreal, não é fato
É só um sonho no mundo

No palco a trupe de atores
Onde tudo é tão passageiro
Se nem nasceram as flores
Como é de novo janeiro?

Se o tempo existe, é real
Se o tempo não é ilusão
Por que o tempo não é igual
Nas longas horas de solidão?
133

Vem

vem,
e traz contigo as folhas caídas
traz contigo esta saudade que acabou de acontecer
traz os teus olhos para eu ver
a noite clarear o mundo
as rosas acordarem os passos ledos da madrugada
traz o silêncio
e a quietude das nossas mãos enlaçadas
no instante do amor

vem,
e deixa escorrer tua seiva
em minha boca cativa do teu gosto
amiga, amante, poente
deixa-me beijar o teu rosto
e dizer sempre e tanto que te amo
um te gostar tão contente
pássaro sem destino que sou

vem,
dormir sonhos profundos
depois de misturar os nossos gozos
depois de misturar nossos mundos
depois de repousada a madrugada
vem secar a lágrima que nunca se derrama
posto que a vida é trama
e esta paixão que é tão pura
deita-se conosco na cama
beija teu corpo e jura
carícias e silêncios
soluços cravados em tantos ais
sem nome
em tanta sede sem fim
do que de ti há em mim

vem...
169

Quando tu fores

Eu penso a dor que há de ser quanto tu fores
Quando o momento de partir crescer em mim
E o beijo que nunca foi dado rir-se do seu fim
Enquanto a voz grave do adeus cala as flores
  
As noites hão de ser constantes madrugadas
Caminhantes notívagas num céu adormecido
Por onde anda o vento frio, triste e esquecido
Murmurando passos quiméricos nas estradas
 
Ah! Quando em teus olhos a cor do céu fugir
Quando o mar em densas brumas me encobrir
E o meu olhar imerso em dor não mais te ver
 
Que o vento arraste as cinzas nuas da saudade
Para que o meu coração esqueça de te esquecer
E para que este amor faça-se em mim eternidade
181

Último grito

Ah! Se é de saudade que eu vou morrer
Que a noite me traga o teu perfume
Que a lembrança dos olhos teus
Nos meus olhos eu possa ver
Que a noite seja pra mim o último lume
Do teu beijo a molhar os beijos meus 
 
Ah! Se vou morrer desta saudade
Que vai e volta e diz teu nome sem sentir
Que olha os astros procurando por você
E sem te ter dói e massacra e invade
E na distância eu já não sei como fugir
Do sentimento que te toca e não te vê
 
Ah! Se é na saudade onde mora o meu fim
Se é no teu corpo que meu desejo quer viver
Se o nosso amor tem este gosto de infinito
Se a tua pele e o teu cheiro vivem em mim
Quando a saudade me levar pra eu morrer
É do teu nome que falará meu último grito
219

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