Impossível
impossível
não abrir a noite
com os barcos tocando as areias das praias
e interrogando a tessitura das águas enlaçadas
aos ventos embriagados e inconsentidos
repetindo nas velas o escuro dos sons que incendeiam a noite
impossível
não abrir a noite
com o silêncio branco dos copos dos lírios
desabrochados para o momento
do luar perfumando os caminhos
e o sono das estrelas
impossível
não abrir a noite
com o balançar do céu refletido nas águas do mar
brandamente encanecido pela espuma das ondas
desenhadas lentamente do sal das lágrimas
de quem se pôs a chorar
impossível
não abrir a noite
com a inquietação da solidão do tempo
transido de trêmulas lembranças gesticulando
e caindo docemente sobre as horas azuladas
pela penumbra da lua que dança no quarto
impossível
não abrir a noite
com as folhas sem nome
que o outono derrubou mansamente
em inescrutáveis quintais
encobertos pela pervagante neblina
impossível
não abrir a noite
sem a imponderável serenidade dos teus olhos
sem o pássaro da noite que canta com a tua voz
e adormece em meu corpo
a saudade intrínseca dos teu abraços
impossível
não abrir a noite
sem o cansaço do fogo nu
do depois
e do suor faminto e perene
dos nossos corpos
e da canção compassada da tua ausência
Talvez hoje... talvez amanhã...
o tempo cisma e medita a manhã
que apagará a madrugada inconclusa,
as palavras interditas,
cheias de areia e de mar...
o ventre túrgido da noite ainda por se acabar
eu sinto a ausência doendo como uma seta em meu peito,
o coração pulsando antigas memórias
procurando na ânsia das distâncias
momentos do indeciso choro deste medo de ser só
nesta sempre imanente solidão humana e nestes ignaros destinos
que eram névoa flanando no vagaroso horizonte
que eram o canto dolente do vento
soprando silêncios na folhagem dos bosques
que eram tantas dúvidas
tantas vozes cativas
memórias sem rostos
tantos gestos a dizerem adeus
tantos abraços a dizerem saudades
todavia, ainda era amor
ainda a mesma insonte cantiga reverberando o passado
só esta mesma lembrança que dói ao me olhar em vão no espelho insolúvel
um só exilio me arrastando escondido,
envolto em si
há nesta vida a dor inerme dos desencontros
talvez a mão coerciva e inelutável do destino
trançada ao torvelinho do incomensurável lago do tempo
há na ausência e no desencontro esta nostalgia murmurante
enquanto o reencontro e as mãos enlaçadas mitigam saudades
há palavras e promessas e gestos esperando as mãos cheias de vertigens
mãos que embalam os sonhos e trazem folguedos, segredos e meiguices
trazem o momento no qual alguém dentro de mim depõe as armas
despe-se da sombra, e, desnudo,
sem nome,
chama-me qual um silêncio inocente
num tom murmurante e suave
e calado, soluço, mas não respondo
o longo suspiro indagando o denso medo
indagando o tempo agonizando na cicuta das horas
que apascenta o volátil aroma das madrugadas
o tempo ignoto das horas solitárias espera o reencontro
ressumando irremissíveis amores
nostálgicas amizades
talvez hoje...
talvez amanhã...
talvez nunca,
o amigo venha
e venha o amor
que a solidão burilou nesta morte inerte que é a ausência
e venham os olhos adornados pela lágrima
que teima em não se derramar nos brandos braços da melancolia
da eternidade impotente do exausto adeus
da imponderável volta
e na insofismável percepção de se estar vivo
engastado em tantas outras vidas
na vida do outro
e no sorriso de quem chega,
passos cansados,
molhados pelas chuvas cheias de sombras
colorindo as tardes com mentiras cinzentas
onde incriados poemas
fazem-se de inelutáveis esperas
e do oposto nu e dos cacos impiedosos da solidão
o mistério do encontro e a meiga alegria dos dialetos
esquecem-se em rondéis,
nos dias e nas noites em que se esteve só
e tudo se recria na inefável alegria,
na inaudita alegria
que soluça apaniguando a solidão e o sonho humano
e espera-me
entre/tantos des/encontros
Passado
sopram os ventos
a aurora acorda sobre as flores
[sobre as cores
a canção encontra lembranças
a alma suspira e recorda
tantos momentos da infância
todas aquelas crianças
que fui
em meio ao perfume doce de terra molhada
que sou
em meio ao inverno silencioso andando na madrugada
o amor...
quem sabe um dia
se derramará no deserto
[decerto
do meu coração
e ouvirá o silêncio
se desmanchando em perdão
e os sonhos abandonados
por tanto tempo guardados
em tantos lugares incertos
em meio à solidão
virão de lugares tão longe
e se deixarão ficar
níveas flores de algodão
a noite compassadamente fecha os olhos
[e dança
seus passos ritmados de escuro
a madrugada é a derreada lembrança
de um tempo infrangível e maduro
Praias anoitecidas
acordo,
penso em você
e sinto a solidão das palavras que para ti guardei
e com as quais espero pelas tímidas noites sem cores
penso aonde eu estaria
neste dia e nesta hora
se meus braços não tivessem
enlaçado a tua cintura e os teus gestos?
aonde eu estaria se meus olhos ainda soluçassem
a tua ausência e o teu silêncio
e a minha boca passasse as estações
sorvendo o mel que era a tua primavera?
ainda é abril na clausura das rosas
nos regatos consumidos pela mudez das tardes
pela solitude dos ventos
ainda é segredos na inexorabilidade do outono
que dorme sob a bruma da paisagem
aonde cantarão os pássaros afogueados que entram em mim
e a vida se aquece cheia de encanto
ainda é demora a palavra que te conhece
e que ainda vibra em minha pele
e diz teu nome junto ao instante imperceptível
que entra pela minha janela
vagarosamente
acendendo sombras irreveladas
penso...
aonde eu estaria
neste dia e nesta hora
se o amor é vasto e louco
e basta apenas um pouco
destas águas afogadas em palpitações
e entrega
e esquecimento
para transbordar como um rio que cansado acha o mar
levando o choro das faces
e trazendo o afago na volta
do marulho do tempo a passar
aonde eu estaria
neste dia e nesta hora
barco sem vela
mares demorados
areias ancoradas ao destino
olhos cansados
as mão presas ao passado inexato
que envelhece interminavelmente
não me procures
esquece-me dentro dos espelhos
dentro dos porta-retratos
lança-me ao exílio dentro de garrafas
nas praias anoitecidas
nos silêncios
fugidios das perguntas
ocultando sílabas dolorosas
cortando o ar
não diga adeus
não faça loucuras
esquece-me
que escolhi para morrer com os versos condolentes
recitados por uma imprecisa madrugada
eivada de ternura
Quando a palavra chegar
a janela começa ali
onde o horizonte junta-se ao mar
trazendo lágrimas salgadas
pra dentro do meu olhar
trazendo tanta promessa
e noites todas sem pressa
abrindo-se bem devagar
o sonho começa ali
onde o eterno ilumina os mundos
e o sonho tem os saberes
dos teus desejos profundos
a vida começa ali
onde o amor junta-se ao amar
e o sentimento parece
água que vai me afogar
trazendo a flor partilhada
entre o espinho e o nada
entre o escuro e o luar
a poesia começa ali
onde o tempo junta-se aos mundos
onde o eterno junta-se ao mar
onde os barcos deixam as velas
como inefáveis telas
abertas e soltas pra navegar
quando a palavra chegar
Nada detêm a fera
nada detêm a fera
nem o grito estrondoso
nem o soco vigoroso
nem a tocaia da espera
nem o latejar da veia
nem o rosnar dos cães
nem a litania das mães
nem a nossa cara feia
nem a luta cotidiana
nem os muros que erguemos
nem toda a força que temos
nem o fio da durindana
nada detêm a fera
nem mesmo o asco do povo
nem mesmo a Verdade e o Novo
nem mesmo o fogo e a Quimera
nada detêm a fera
nada detêm a trapaça
do golpe no sonho da massa
ignorando o sol nas flores da praça
nada desata a mordaça
da estória e seu patrão
oprimindo os que não tem pão
com a verborragia e a farsa
nada detêm a fera
e a sua malta vadia
apagando a luz do dia
enquanto a manada espera
nada,
nada como esta lei do cão
que anda de traição em traição
neste mambembe país
onde tudo está por um triz
Teus olhos
sei que teus olhos
não me vêem
mesmo quando me olham
assim
como a noite
escutando o soluço dos trigais
e as estrelas que chegavam
para banharem os mares
ávidos do teu olhar
que não nos vê
o silêncio das lágrimas
cai sobre o momento
teus olhos desenham arabescos
contornos de nostalgia
palavras intransponíveis
sei que teus olhos
não me vêem
mesmo quando me olham
assim
com a crueldade do tempo
e da distância contida
nos fragmentos dos ventos
perpassando teus cabelos
e o perfume de flores da tua pele
teus olhos são este cântico
consecutivo e indissolúvel
de espera presa ao gesto
preso a um nome
que não é o meu
A tolice dos medos
desnudo
caminho estradas de cinzas
com passos de ilusão
em noites de ausência e de solidão
o vento incerto traz o passado
põe nossos instantes ao meu lado
estremeço
espero a noite percorrer-me
dizendo teu nome
recordando teus gestos
dizendo do teu toque na minha pele
onde ainda habita os teus dedos
entre lembranças
segredos
sob insones sentidos
sob a tolice dos medos
Fiz os meus dias
fiz os meus dias
como quem bebe
ainda e sempre
o beijo
daqueles primeiros anos
daqueles primeiros sonhos
daquele primeiro amor
fiz os meus dias
de amores partindo
deixando o som dos passos nas calçadas
e o meu coração
em tantas vozes caladas
em tantas caladas vozes chorava
fiz os meus dias
como quem arde
imponderavelmente
nas infinitas imagens
que as memórias trazem
na forja inelutável dos dias
fiz os meus dias
o tempo passando
misterioso e mudo
enigma de tantas dores
o solene grito agudo
entre sussurros
de insondáveis amores
fiz os meus dias
o tempo passando...
passando...
passa
imerso e invisível
em sentimentos
enganos
fiz os meus dias
o tempo passando...
passa
aos poucos
ou passa em bando
passando de quando em quando
como pássaro invencível
fiz os meus dias
de um sonho que assoma
qual alvissareira fantasia
o sonho que me toma
a flor do tempo e o silêncio
farfalhando no dia a dia
sussurrando a canção
e a brisa bebe afogueada a poesia
Eu tenho medo
eu não gosto de bicho
eu tenho medo de bicho
eu tenho medo da forma do bicho
eu tenho medo dos olhos do bicho
eu tenho medo dos passos do bicho
eu tenho medo das garras do bicho
eu tenho medo da sombra negra do bicho
eu tenho medo
eu tenho medo do ganido e dos urros do bicho
eu tenho medo da irascibilidade do bicho
eu tenho medo do bicho...
...que mora dentro de mim