João Batista do Lago

João Batista do Lago

n. 1950 BR BR

n. 1950-06-24, Itapecuru Mirim - MA

Perfil
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OUTROS


os outros me olham de soslaio

e satisfeitos com seus vieses os encaro:

todos são prenhes de virtudes

mas eu não;




os outros se me passam ao largo

e felizes com seus vinténs vão aos shopping:

todos são felizes desesperados

mas eu não;




os outros me julgam um miserável

e estranhos não olham minha mão pedinte:

todos farfalham à míngua de sentido

mas eu não;




os outros com outros e outros

e outros mais que se juntam a outros tantos

e confessos de si deambulam gargalhadas:

mas eu não;




os outros que não são outros nem de longe nem de perto

e não são diferentes do meu outro eu

todos buscam o naco da felicidade na feliz cidade:

mas não eu
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Biografia
BIOGRAFIA João Batista Gomes do Lago, ou simplesmente João Batista do Lago, ou ainda (para pesquisa Google) João Poeta do Brasil, é natural da cidade de Itapecuru Mirim (MA), onde nasceu aos 24 dias do mês de junho do ano da graça de 1950. É filho primogênito de Pedro Uchôa do Lago e de Júlia Martins Gomes do Lago. É jornalista, ator, escritor, poeta, teatrólogo, contista, ensaísta e pesquisador. João Batista do Lago é autor de três livros: 1) Eu Pescador de Ilusões; 2) Cânticos Viscerais; e, 3) Áporo. Dois novos livros: 50 Tons de Palavras e Das Sarjetas da Cidade estão no prelo para serem lançados no próximo ano (2019). Ao mesmo tempo, um livro de contos, uma peça de teatro e um terceiro reunindo vários artigos escritos em diversos jornais estão sendo ela­borados. João Batista do Lago trabalhou nos jornais O Estado do Maranhão, Jornal de Hoje e Secretaria de Comunicação Social (no Maranhão); O Noroeste e A Tribuna do Povo de Umuarama (no Paraná); jornal Folha de Rondônia (em Rondônia). Também atuou como assessor de imprensa para partidos políti­cos, sindicatos e políticos. Em Curitiba (PR) foi o editor de conteúdo do Portal Aqui Brasil. Faz parte, ainda, da Academia Poética Brasileira (APB), como membro efetivo, onde ocupa a cadeira de nº 57, tendo como patrono o poeta maranhense Luis Carlos da Cunha.

Poemas

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OUTROS


os outros me olham de soslaio

e satisfeitos com seus vieses os encaro:

todos são prenhes de virtudes

mas eu não;




os outros se me passam ao largo

e felizes com seus vinténs vão aos shopping:

todos são felizes desesperados

mas eu não;




os outros me julgam um miserável

e estranhos não olham minha mão pedinte:

todos farfalham à míngua de sentido

mas eu não;




os outros com outros e outros

e outros mais que se juntam a outros tantos

e confessos de si deambulam gargalhadas:

mas eu não;




os outros que não são outros nem de longe nem de perto

e não são diferentes do meu outro eu

todos buscam o naco da felicidade na feliz cidade:

mas não eu
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VELEJA(DOR)

sempre sempre

venho volto solto

no fato dos atos

sinto sinto sinto

desacatos velhacos

ser desprendido

rugindo vazio

calafrio

alma alma

nunca calma

depois da calma

gritos dores

silêncio

vazio

velo velo

veleiro

sem leme

sem navegador

carregas dor

só dor

lamento do vento

sustento do ser

que não quer ser

ser ser ser

faca de dois gumes:

direito esquerdo esquerdo direito

mar de estrumes

navego ego

cego cego cego

nau de loucos

mortos dos meus cemitérios

condenados todos

loucos loucos loucos

velejam rezas

procissões desejos

pesco versos inconfessos

diversos dispersos

mares de peixes perdidos

sepulcro do ser

ser não-ser ser

nasceres mal-resolvidos

findo fim enfim

mal-resolvido:

ser não-ser ser não-ser

dizer o quê?

viver morrer:

não-ser ser não-ser ser

ondas sem volume

não-ser ser do lume

topo de águas

volume de mágoas

ser-me não-ser-me

navegante navegador navegado

singrante singrador singrado

mar sujeito desprendido
359

A IDEIA

Um homem é um hominis

que é um homo

nada mais que homem:

Andrógino.

Um homem é um devir

que poderá ser hominis

nada mais será que homo:

Homem.

Um homem é um sentido

que é um homem

nada mais do que é, nada mais do que será:

Homem – apenas uma idéia.
509

ODE A SÃO LUIS

Ó tu, leito-mãe dos Tupinambás
Reina dos mares do Sul, sois vós
Vitoriosa, oh! amada Upaon-açu
Carregas nome e cetro de realeza
N’alma saber e virtude de Atenas
No peito o brasão de viva Natureza

Ó tu, São Luís – Ilha dos Amores!
Amada de francos, lusos e neerlandeses
Sois vós o encanto de Arúspice
Profeta da vossa eterna glória e pureza:
– Vosso destino é conservar em si toda beleza
serás deste teu Orfeu a eterna Eurídice

Ó tu, São Luís – Jamaica brasileira
Sou-vos grato pela vida inteira pois
Sabei-vos de muitos ser uma só pessoa
Jamais vos deixaste vencer. Sois guerreira!
Ainda que vos queira estuprar o monstro da modernice
Haverá sempre um filho teu que não fugirá a luta

Ó tu, São Luís – Cidade dos Azulejos
Perdoai o jugo da desgraçada sorte (e)
Tomai por exemplo o Cristo da hora da morte
Perdoai os filhos que vos sangra em realejos
Todos serão defenestrados, enfim, para que
Possamos amar-vos entre ruas e curvas de azulejos
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ARTRÓPODES

Com a noite vem-me o corvo
- Amigo das minhas noites insones! -
Pousar sobre os meus umbrais…
E conversamos sobre todos nossos cânones

Varamos a noite sem a preocupação da luz
Apenas a arquitetura de nossas almas
São aventadas no ventre que nos produz
E que nos faz sujeitos de águas calmas

E juntos por toda noite densa
Compomos a sinfonia de dionisíacas esferas
Embalados pela mundidade que nos condensa
Em mundos onde todas as paixões são efêmeras:

Corpos, almas e carnes são nossa arquitetura
E assim somos artrópodes inquietados
No átimo dos segundos de noites de ternuras
Nos tornamos flores e rosas no jardim dos amargurados
471

DESENCONTROS

Vão, minh’asas,

E diz a ela, por favor,

Que a esperei pela noite inteira.

Diz a ela, diz a Jaci,

Que as montanhas modernas

A esconderam de mim;

E que o senhor do tempo

Ciumento e carrancudo

Fez do nosso encontro trovões e relâmpagos.

Vão, minh’asas,

Diz a ela, diz a Jaci,

Que amanhã estarei aqui.

Ctba/20180826
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MINHA CASA ERA UM RIO

A minha casa era um rio de imensidão
Tão grande… tão grande… tão imenso
Que todos os rios do mundo
Passavam pelo rio da minha casa


O rio da minha casa tinha algo de humano
Todas as noites ele vinha conversar comigo
Contava-me estórias mágicas… fantásticas
Dessas que a gente nunca mais esquece


Eram tantas as lendas que ele contava
E embalado pelas maravilhas eu navegava em suas águas
E nadava todo o percurso do rio que passava em minha casa
E navegava todos os rios que passam pelo rio da minha casa


A minha casa tinha um rio de águas profundas
Mansas, calmas, perenes e cristalinas
Águas que me abraçavam, que me acariciavam
Que me beijavam e que me amavam afetuosamente


O rio da minha casa quando me via triste
Chamava todos os rios do mundo
E dançavam ciranda ao meu redor
Até que vissem de novo um sorriso no meu rosto


Se por ventura chorasse de fome
O rio da minha casa e todos que passavam por ela
Pescavam o peixe mais belo
E me alimentavam até cessar a fome


Quando em noites escuras e sem luares
Noites que nos infestam de fantasmas
O rio da minha casa murmurava uma canção
E trazia com ela as mais belas princesas


Ah! O rio da minha casa não me deixava em solidão
Brigava com papai… ralhava com mamãe
E enchia suas almas de todos os cuidados
E os transformavam em verdadeiros espíritos de proteção


Assim era o rio daquela minha casa!
Hoje vivo ao léu na minha caverna
A minha casa que era um rio de felicidade
Agora nada mais é que pântano. É cidade


Quantas saudades tenho daquele rio
De um rio que juntava todos os rios imensos do mundo
Do rio que passava na minha casa
Da minha casa que era o barco da felicidade
409

CORPORALIDADE

Este já tão vergastado corpo

Totalidade de toda potência que me sustenta

Tangenciando toda multiplicidade

Fluxo e refluxo na minha total unicidade

Onde nem alma e espírito existem

Mas tão somente a natureza do existir

Roga o devir de toda potência

Na imanente consciência do único ser:

— Essência de toda experiência possível!
468

ANGÚSTIA

calaram-se:

o criador e a criatura!

o verbo não se lhes fora suficiente

para a tripudiagem da carne

que se lhes emanam de almas vagabundas




calaram-se:

o criador e a criatura!

agora tristes e insuficientes

perderam o tino a coragem e a vergonha

– não tenham medo de perder a opinião! –




os deuses são assim: feitos de ilusão absoluta

não tenham medo de perder santos e anjos

aqui no inferno vos dareis abrigos

aqui podereis espiar vossas miseráveis felicidades

e podereis ter a justa angústia de si

e a certeza da remissão de pecados




vinde, pois, criador e criatura

aqui vivereis com seus humanos

aqui sabereis da virtude dos demônios

seres encantados, mas reais profanos

adoradores das imagens sagradas

dos infernos mais profundos do ser




vinde, ó criador… ó criatura…

o vinho da poesia nos confortará

nele dissiparemos todas as dores

dele sairemos embriagados

e depois de torturados pelas ressacas da incompetência

haveremos de bebê-lo

e de novo dele renascer plenos de consciência
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FANTASIA

Vem, minha menina. Vem.
Vem que te quero linda!
Vem dançar comigo a
Marchinha de criança.
Hoje o carnaval é nosso
Vem porque hoje eu posso
Dizer ao meu coração:
Sou teu espírito;
E tu, minha alma…
Minha ilusão.
Neste carnaval alegórico
Quero pular em teus lábios
E no meio da multidão
Ser o teu único folião.
Vem, minha menina. Vem
Que te quero alma no meu espírito
Neste carnaval sou teu amor contrito.
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