Lista de Poemas
Nascemos para vivermos
Recordo-me de um dia,
Que me encontrava a beber tranquilamente o meu café,
Sentado numa mesa de esplanada
Junto à janela,
Onde sentia o sol de Verão
A massajar a minha face,
Quando ouvi um cliente ao balcão
Afirmar, convicto, o seguinte:
"Meu amigo, nascemos para morrermos."
Discordo totalmente.
Acredito que nascemos para vivermos.
A morte deve ser apenas considerada
Como uma consequência inevitável
Deste processo químico que é a vida.
Tal como a morte,
A vida é só uma.
Não permitam que a vossa vivência
Seja confundida com existência.
191
Insónia
Recordo esse teu ensurdecedor pensar,
Que invadiu o meu silêncio.
Desde então,
Não mais pude discernir
Sonho de realidade.
263
Alinhei o meu olhar com o teu
Alinhei o meu olhar com o teu
Ligação direta à tua alma onde, no reflexo do teu olhar,
Vi o amor que já foi meu
Reparei no teu cabelo dançando sozinho
Nos teus lábios de beijo de azevinho
Relembro a viagem da nossa vida
Em que o comboio se perdeu,
Relembro as tuas mãos românticas
E o toque que já foi meu.
Dissolve-se o meu pensamento que um dia em ti habitou,
Vivendo agora na silhueta que o tempo apagou
De senhor feudal a plebeu
Perdi tudo o que um dia foi meu.
Sobra uma réstia de lembrança passada
Que guardo desesperadamente
Agarrando o futuro com uma mão cheia de nada.
273
Querer, que de ti espero
Reconheço teu ser,
Em mim querer austero,
Causa de tua vontade a adolescer.
Queda-se-me o querer, que de ti espero,
Na farsa de meu ser em ti sincero.
226
Pedaços de ser
Somos pedaços de ser,
De ser que é e que foi,
Somos Filho-avô
Somos Filho-pai
Somos Filho-mãe
Somos quem somos e quem por nós passou.
Somos um todo incompleto,
Que se unifica em alguém.
Como universo complexo,
Num país de ninguém.
253
Esquisso de calçada
Sigo cauteloso,
Sem qualquer pretensiosismo no meu andar,
Por esta estrada que vou alongando,
Passo a passo,
Desde o primeiro suspiro.
Perdendo-me em mim,
Não mais sei por onde vou.
E como poderia saber,
Se a filosofia da estrada que percorro nunca é a mesma?
Contento-me em revisitar o meu diário de bolso,
Como personificação da vida,
E folheá-lo até à ínfima página,
Perscrutando-a até ao derradeiro ponto final.
Rege-se a sinopse da minha existência,
Pelo abraçar desta frágil certeza
De que a estrada por onde vou,
Não mais é que um esquisso de calçada
Que nem é esquisso nem é nada,
É uma moldura sem quadro
Que Deus a mim me confiou.
227
Autobiografia
Sou quem sou,
E, por vezes, também quem acham que sou.
De tanto ser
Não sou nada,
Ou talvez pensem que não seja.
Olho para dentro, sinto-me completo,
Existo na minha inexistência.
Felizmente.
262
Resido alegremente no futuro
Resido alegremente no futuro,
Numa realidade esperançosa que me acalma,
Onde o calor da luz, pinta a tela da minha face,
E desenha um sorriso desde a superfície dos lábios
Até ao profundo da minha alma.
Esta, que já de corpo carece,
Enaltece o meu íntimo no exterior,
Onde revivo a felicidade de criança que o “agora” amadurece
Esquecendo-me, deliberadamente, que o presente,
Representa a ideia de um futuro anterior.
Abruptamente, cai o pano sem aparente razão
E ouço desmedidos aplausos para esta interpretação atrevida.
Com uma vénia agradeço a ovação, que pensava ser ausente,
E percebo que a vivacidade das linhas, traçadas no guião,
Já não representa o monólogo da minha vida,
Mas o epílogo do meu presente.
253
Amanhã, serei
Amanhã já não serei quem sou hoje.
Nem eu o quero ser,
Nem os tempos vindouros o desejam.
Amanhã leio um livro novo,
Ouço uma música que ontem desconhecia,
Observo de maneira diferente,
Desejo de maneira diferente,
(Porque a vontade não é a mesma)
Apaixono-me e desapaixono-me novamente.
No fundo,
Vivo.
252
A casa ao fundo da rua
Ao fundo da rua
Surge uma casa sem teto
Tendo no passado sido casulo da inocente larva
Que, vítima do processo evolutivo, virou borboleta,
Realizando o ciclo de vida completo
Vislumbrando as consequências
Que a nova realidade acarreta,
Desvanecem-se as vivências gravadas
Nas paredes agora rasas
Pois o corpo virou borboleta
E a alma mudou de casa
Nessa casa ao fundo da rua
Onde o Sol se pôs
Para dar lugar à Lua
Que, ao amanhecer,
transita novamente
Para o mesmo Sol,
Num dia diferente.
264
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