João Coelho

João Coelho

n. 2000 PT PT

"Partir! Nunca voltarei, Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, A gare a que se volta é outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia." Álvaro de Campos

n. 2000-09-23, Porto

Perfil
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Nascemos para vivermos

Recordo-me de um dia,
Que me encontrava a beber tranquilamente o meu café,
Sentado numa mesa de esplanada
Junto à janela,
Onde sentia o sol de Verão
A massajar a minha face,
Quando ouvi um cliente ao balcão
Afirmar, convicto, o seguinte:

"Meu amigo, nascemos para morrermos."

Discordo totalmente.
Acredito que nascemos para vivermos.
A morte deve ser apenas considerada
Como uma consequência inevitável
Deste processo químico que é a vida.

Tal como a morte,
A vida é só uma.
Não permitam que a vossa vivência
Seja confundida com existência.
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Poemas

18

Autobiografia



Sou quem sou, 
E, por vezes, também quem acham que sou. 
De tanto ser  
Não sou nada,  
Ou talvez pensem que não seja. 
Olho para dentro, sinto-me completo, 
Existo na minha inexistência. 
Felizmente. 
272

Resido alegremente no futuro


Resido alegremente no futuro, 
Numa realidade esperançosa que me acalma, 
Onde o calor da luz, pinta a tela da minha face,  
E desenha um sorriso desde a superfície dos lábios  
Até ao profundo da minha alma. 
 
Esta, que já de corpo carece, 
Enaltece o meu íntimo no exterior, 
Onde revivo a felicidade de criança que o “agora” amadurece 
Esquecendo-me, deliberadamente, que o presente, 
Representa a ideia de um futuro anterior. 
 
Abruptamente, cai o pano sem aparente razão 
E ouço desmedidos aplausos para esta interpretação atrevida. 
Com uma vénia agradeço a ovação, que pensava ser ausente, 
E percebo que a vivacidade das linhas, traçadas no guião,  
Já não representa o monólogo da minha vida,  
Mas o epílogo do meu presente. 
266

Sophia II



Observo-te agora, no barulho das ondas do mar 
Na sombra dos meus dias de sol,
Na lagoa que reflete o luar 
E no navio perdido, em busca do seu farol. 
257

A casa ao fundo da rua


Ao fundo da rua 
Surge uma casa sem teto 
Tendo no passado sido casulo da inocente larva 
Que, vítima do processo evolutivo, virou borboleta, 
Realizando o ciclo de vida completo 
 
Vislumbrando as consequências 
Que a nova realidade acarreta, 
Desvanecem-se as vivências gravadas 
Nas paredes agora rasas 
Pois o corpo virou borboleta 
E a alma mudou de casa 
 
Nessa casa ao fundo da rua 
Onde o Sol se pôs  
Para dar lugar à Lua 
Que, ao amanhecer, 
transita novamente  
Para o mesmo Sol,  
Num dia diferente. 
277

Sociedade sem dicionário


Prazer de curta duração desprovido de sentido, 
Num breve momento de fantasia 
Que aumenta o vazio, por o querer em demasia. 
 
Visão reduzida à superficialidade do juiz sem formação,  
Que sentencia a moralidade por falta de razão, 
Condenando quem da jaula do pensamento influenciado escapa, 
Ilibando o leitor que lê o livro pela capa. 
 
Assemelhando-se à pintura rupestre da cultura passada, 
Evidencia-se o humano de saber primário, 
Que se serve da linha de pensamento estagnada, 
Na esperança de encontrar o vocábulo correto 
Numa sociedade sem dicionário. 
267

Se um dia a saudade te achar


Coração desfigurado 
Que incentiva o meu pensar 
Numa luta desigual 
Porque não me deixas sonhar? 
  
Diz-me ó coração apressado, 
Que minha razão tende a não acompanhar, 
Porque foges nesse frenesim? 
  
Se um dia a saudade te achar, 
Não te equivoques! 
Coloca a tua calejada mão no seu ombro, 
E, olhando-a nos olhos, 
Pede-lhe que parta de mim.  
 
Já lhe dei tudo o que tinha. 
257

Amanhã, serei


Amanhã já não serei quem sou hoje. 
Nem eu o quero ser, 
Nem os tempos vindouros o desejam. 
 
Amanhã leio um livro novo, 
Ouço uma música que ontem desconhecia, 
Observo de maneira diferente, 
Desejo de maneira diferente, 
(Porque a vontade não é a mesma) 
Apaixono-me e desapaixono-me novamente. 
 
No fundo, 
Vivo. 
263

Escadaria


Encontro-me plantado 
Na base enraizada da longa escadaria de minha casa. 
Penso em subir, 
Hesito. 
Decido que não quero subir. 
 
Apercebo-me do movimento intrínseco e involuntário, 
Um nervosismo incontrolável, 
Que me toma e me doma. 
 
Já não sou dono de mim. 
Encontro-me no segundo degrau. 
 
Olho, por cima do ombro, 
Para o desgraçado que para trás ficou e me abandonou. 
Pedi-lhe que voltasse. 
Disse-me que já não tinha mais nada a oferecer 
Exceto a melancólica lembrança de um excerto já lido, 
Um sentimento gasto, meio esquecido, 
Que o comum mortal denomina por... 
Saudade. 
 
Aqui de cima 
Parece loucura dizê-lo, 
Mas ainda bem que subi essa escadaria.
260

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