Lista de Poemas

Sophia I


Procuro-te no sol da manhã, 
Procuro-te no luar inconsolado, 
Procuro uma réstia de ti 
Que habita agora no passado 
Penso e relembro 
Deste-me tudo menos tempo 
 
Regaste a nossa semente com o teu amor 
Que crescia numa bela flor, 
Cortada pelo caule num golpe de letargia 
É agora ornamento defeituoso 
Destinado ao lamento da terra fria. 
 
Encontro-me aqui 
Meio perdido, 
Meio de um todo partido 
Assente na ambição do teu ser  
Silhueta escondida no vulto do teu viver. 
256

Sophia II



Observo-te agora, no barulho das ondas do mar 
Na sombra dos meus dias de sol,
Na lagoa que reflete o luar 
E no navio perdido, em busca do seu farol. 
243

Sociedade sem dicionário


Prazer de curta duração desprovido de sentido, 
Num breve momento de fantasia 
Que aumenta o vazio, por o querer em demasia. 
 
Visão reduzida à superficialidade do juiz sem formação,  
Que sentencia a moralidade por falta de razão, 
Condenando quem da jaula do pensamento influenciado escapa, 
Ilibando o leitor que lê o livro pela capa. 
 
Assemelhando-se à pintura rupestre da cultura passada, 
Evidencia-se o humano de saber primário, 
Que se serve da linha de pensamento estagnada, 
Na esperança de encontrar o vocábulo correto 
Numa sociedade sem dicionário. 
255

2020


Do toque reza a lenda 
Que se desenvolve no pensamento incompleto 
Da ilusão do amor esperado, 
Substituído pela ausência de afeto 
 
Domínio carnal, 
No labirinto da memória perdido, 
Reside no presente fugaz 
E remonta ao passado do beijo esquecido. 
 
Condenado ao pedaço de pano, 
Que divide o ser do humano, 
Agarra-se à esperança esquiva do brilho intermitente, 
Pedindo que este não brilhe só quando o sol consente. 
256

Em terra de cegos quem tem olho é rei



Há quem ouse comentar: 
Em terra de cegos quem tem olho é rei. 
 
Sinceramente, gostaria de saber  
De que serve observar tal funesta paisagem, 
Fomentada pelo olhar pretensioso  
De quem nunca olhou para dentro.  
Prefiro a acalmia da cegueira, 
Onde vejo o que sinto, 
E não sinto o que vejo. 
Onde procuro enaltecer a verdade no meu íntimo, 
E reconhecer-me na faceta mais fiel de mim,  
Resguardando-me dessa escuridão avassaladora, 
Que, apesar de tudo, 
Forma a minha identidade.  
 
Em terra de cegos quem tem olho é rei. 
Noutra realidade 
(que não a minha) 
Talvez... 
273

Transeunte


Dizem que não sei cumprir horários, 
Que me atraso sempre sem aparente razão, 
Como se houvesse um conluio divino 
Organizado para tornar irrealizável os meus planos. 
 
Todas as manhãs 
Sou vítima desse defeito intrínseco, 
Quando, insistentemente, faço questão  
De perder o primeiro comboio da manhã. 
Não é que eu o queira evitar,  
Ele é que teima em estar sempre um passo à minha frente. 
 
Por isso decido ficar aqui, 
Meio desamparado, 
No banco da paragem,  
Já sujo e desgastado 
(Parece que não sou o único) 
A vê-lo partir implacavelmente pelos carris, 
Levando com ele, 
Todos os dias, 
Um pequeno pedaço de mim. 
 
Resta-me então a inevitável esperança, 
De que, amanhã,  
Os deuses decidam brindar em meu nome 
E me devolvam os segmentos de “ser”, 
Que involuntariamente se perdem 
Nas cinzas e no fumo 
Expelidos pela locomotiva. 
 
Nessa altura, 
Pode ser que a apanhe. 
Se não me atrasar... 
242

Escadaria


Encontro-me plantado 
Na base enraizada da longa escadaria de minha casa. 
Penso em subir, 
Hesito. 
Decido que não quero subir. 
 
Apercebo-me do movimento intrínseco e involuntário, 
Um nervosismo incontrolável, 
Que me toma e me doma. 
 
Já não sou dono de mim. 
Encontro-me no segundo degrau. 
 
Olho, por cima do ombro, 
Para o desgraçado que para trás ficou e me abandonou. 
Pedi-lhe que voltasse. 
Disse-me que já não tinha mais nada a oferecer 
Exceto a melancólica lembrança de um excerto já lido, 
Um sentimento gasto, meio esquecido, 
Que o comum mortal denomina por... 
Saudade. 
 
Aqui de cima 
Parece loucura dizê-lo, 
Mas ainda bem que subi essa escadaria.
247

Se um dia a saudade te achar


Coração desfigurado 
Que incentiva o meu pensar 
Numa luta desigual 
Porque não me deixas sonhar? 
  
Diz-me ó coração apressado, 
Que minha razão tende a não acompanhar, 
Porque foges nesse frenesim? 
  
Se um dia a saudade te achar, 
Não te equivoques! 
Coloca a tua calejada mão no seu ombro, 
E, olhando-a nos olhos, 
Pede-lhe que parta de mim.  
 
Já lhe dei tudo o que tinha. 
246

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments