Vôute nocturne
Amor e Morte são minhas fraquezas.
Vícios inertes, que um dia vieram
À minha alma, das mais perversas profundezas
Entregues ao véu da noite, à quem esperam.
Pois é o Amor, aquele céu noturno
Eternamente culpado pelo que fez:
Nas curvas de vosso corpo taciturno,
Encontro o amor em vossa tez!
Mas é na Morte, a sedutora da gente,
Que eu encontro minha tristeza derrocada!
Pois nem tudo há de ser o que a vida sente,
E a minha morte jamais será amargurada!
A Mulher
Uma mulher tão branca assim
És uma jóia de marfim
Aquela que é cheia de segredos
Nos anéis que enfeitam vossos dedos
E é este colar em vossa garganta
O adereço que mais me encanta
Tal qual o amor: Uma diáspora
Essa mulher é uma metáfora!
O Deserto
Em dias de tempestade,
Eu imagino o deserto.
E vislumbro-o, de certo:
Meu devaneio da verdade!
Encanto-me com as dunas..
Este céu, tão limpo! Ó calor!
Há de chover neste seco torpor!
Mares de areia, imensas colunas!
Nessas noites tão frias...
Que passo neste deserto infiel
As tristezas que canto às damas de um bordel
De nada adianta se a tempestade esquecias,
E se agora só resta um deserto a quem te ama
Depois da chuva nada sobra, somente a lama!
Ilustração
Um corpo que cai
E a terra não traga:
Poucas palavras amargas
Saíram da boca dela...
Vida vida... vida bela;
Que vida é essa
Meu Deus?
Meu corpo cai
A terra traga
Vida vida... triste vida;
Poucas palavras amargas
Já não me atingem mais
Foi-se o tempo de paz
Vida vida... que vida é essa?
Palavras da vida não voltam atrás
A priori
Arte só se for para mim,
para na arte ser findado.
E uns poemas fracassados também
me disseram que, no fim, foram para lá
Lá atrás daquele morro
nunca bate Sol, todo dia, toda noite
faz sombra naquele lado do morro.
O Sol não chega lá onde eu moro.
Viver para a arte não traz a significância:
Quando volto para casa, atrás daquele morro,
a cachorrada passa latindo para mim
como se eu fosse outro alguém.
Cachorros demais, são muitos cachorros-
que não vale o lixo que comem!
Aquela cachorra não diz uma palavra;
Não consigo chegar em casa-
o Sol não ilumina meu caminho.
Que arte egoísta:
Nem para mim, nem para ninguém,
quem quiser, que faça por onde
e cale a boca da cachorrada,
porque eu cansei de usar palavras!
Garrafas de veneno
Sozinho apenas, de novo, eu...
Quem sabe não fico sozinho.
Mais uma noite; só, quem sabe?
Bebendo de novo, às vezes, agora
Estou sozinho em casa, de novo,
Só, eu sopro a poeira da mesa
Para colocar a taça de vinho
Que eu vou beber sozinho.
De novo, nessa casa não tem
Ninguém para beber comigo!
Se eu grito ninguém ouve!
Se eu choro ninguém pergunta
Por quê; eu estou sozinho!
Bebendo mais uma garrafa...
De vinho seco que nem
Mais um daqueles perdidos
Que não têm ninguém
E nem onde cair morto
Já que estão sozinhos... no
Mundo ninguém te quer
Ver bem, ele te quer sozinho
Bebendo várias garrafas
De veneno: Desfaça o gosto
Do vinho, aqui estou eu
Em casa com ninguém, talvez
Eu fique de novo bebendo, mais,
Uma garrafa de vinho, sozinho.
Senhor do ser
O ser não é sabedoria infinita
O castigo da alma não é saber
Se sou ou se não sou o ser
Senhor de pouca hora, pouca vida
Não sou aquele que está ali
Sendo sempre cego ao acaso
Ser ambíguo, tédio e ódio não atraso
Ser aquilo que não fui, ser aí
No lastro daquilo que é, ser, não fui
Já não sei mais como acaba
As tantas vezes que não fui como desejava
Naquilo que toca a vida, o ser eu fui
Sendo a arte, do ser amado, fui o adeus
Fui a sombra dos verso que foram meus
Morte e vida não se explica
Morte e vida nunca escolhi
Me deram três dias, mas vivi
Três décadas de morte
Tinha na vida alguma e pouca sorte
Morte e vida me disseram
Meu triste fim não mais esperam
Quem me mata a vida diz
Ressucita-me, porque a morte não condiz
Morte e vida não me aconteceu
Mas se largo tudo para viver
Passa logo, logo morro, penso eu
Morte! Logo chega, e vejo minha linda
Vida! Vai passando, e choro porque sei
Que a minha hora não chegou ainda
Nas chuvas de abril
Em verdade agora direi
Em versos maldosos
Contarei meus remorsos
De dias além
O passado? Enganei
Para trás, foste embora
Embora eu diga que outrora
Sinto saudades também
Pergunto para que sonhar
Se tudo que estou a ver
Em minha alma há de esvaecer
Findado em triste devaneio
Respondo que tudo vai acabar:
Nas chuvas tristes de abril;
Em teu peito quieto e febril;
Nos alvos campos de centeio
Ledo engano meu
Ora, que futuro espero?
Um curto e cheio de esmero
Eis,vida, meu clamor!
Dirão que sozinho morreu!
Encontrarão contigo penúrias:
As tristezas, amores, fúrias
E intrinsecamente a dor!
Memórias de um jovem boêmio
Céus! Não sei se sou capaz
De cantar agonias severas
Para as mais belas megeras
Que a vida boêmia me traz
Deixai-me, ó fogo incessante
E leve contigo o calor
Da quieta chama do pudor
Não sou mais um néscio amante
Amar? Para que, se hei de sofrer
E ser tragado, no fim, pela pujança
De sonhar?! Talvez, acordar com esperança
De novamente um dia viver
Vou largar aquele passado
De noites em boemia
Pálido da embriaguez doentia
Doente do calor de ser amado
Os prazeres que a vida me traz
Vou largar nessas sujas ruelas
Acontece que essas putas megeras
Não me deixam em paz