dia quinze
vivendo nesse alcoolismo de pensamentos
quando penso A, falo B;
falo B, e escrevo C;
mas continuo me imaginando em D.
e mesmo assim eu sigo a vida
meio nada com nada
meio blasé
Escravo
Não acredito mais em solidão
Ninguém nunca nasceu sozinho
E jamais morrerá; mesmo que há de morrer consigo mesmo
A verdade é que somos
Escravos de sensações, iludidos pela máquina
E pelo fim do mundo, a corrupção humana
A memória imaculada e irrestrita criando realidades,
Todos são artífices e peões da consciência
Continuo andando
Pensando em tudo, não olho para o caminho que segue
Meus olhos fitam o chão, procurando degraus
Para eu não tropeçar
Pois eu Sou O Senhor
O qual ajoelham perante tamanho poder
De transformar palavras em sensações
Irreais azul
Eu Sou O Senhor Azul
Que formas euclidianas te limitam a entender
Acorde, e não perpetue o sonho
Pois o sonho, em algum, momento tornar-se-á real
A face do homem
Fico calado
Reservo-me o direito de ficar quieto, pois o mundo percebeu
Que tomei por invisível a face humana
A falta de compaixão, as ruas desertas, refletem
Noites barulhentas, extermínio de cães na sarjeta
Tabaco reutilizado, aguardente destilada em um intestino grosso
A marca que ainda está na segunda geração
A eterna marcha de Roma
O sangue derramado que salgou a terra
A amarga água da chuva, o pó desse chão
O Juiz, entre o céu e o mar, que com o cajado em sua mão direita e a espada na esquerda, ordena que os mortos voltem a andar.
E os homens, em sua mais plena consciência
Ainda querem me punir
Por tomar como invisível
A sagrada face humana
A face humana
Quando a face humana torna-se invisível para ti
Percebes que humano não és
És uma coisa singular, completamente nova
E terrivelmente macabra
Pois és incapaz de ver as cores do mundo
És mau em sua natureza
Provedor do sal jogado na terra
Tornam-se ainda mais terríveis suas ações
Quando admites o que faz- e repete, perpetua
Sua maldita ação no mundo
Perceba então, que se te julgo, é porque sou o artífice da justiça
O flagelo e a vingança, torno-me a cruz
E você que toma as faces por invisíveis
Percebe que humano não és
E ajoelha pedindo perdão
jeito de chuva
chove chove chove chove chove chove chove
e chove chove e chove
chove chove chove
e
chove chuva sem parar
chove até o dia que o sol raiar
novamente
e mostre o céu azul
novamente
chove até molhar
essa terra
e esse povo
igualmente
seco chove chove e chove
Caim
Nessa cidade de anjos;
Voando raivosos no meio
De prédios, antenas e asfalto
Não param nos semáforos flamejantes.
Desligando nosso sono em prol do veneno
Tremem de dor, perdendo a esperança.
Os anjos que desprezam pão e vinho
São aqueles mesmos
Que parvos e incautos
Olham para o Céu e gritam:
"Meu Deus!"
animal qualquer
que agir de maneira misteriosa
representa um alívio imediato à minha obra
disso eu sei
pois dou-lhes o abono da dúvida
não sabes quem é, e me julgas responsável
por essa sua falha, por essa sua incoerência
essa sua maldita inquietação que lhe foi imposta
e desafiam, incrédulos, acreditam na misericórdia
e matam e roubam e violam
todas as horas gastas nesse meu primeiro ato
e como velas que se apagam, questionam, por fim
porque eu os rejeito
Artes da semana
I
Aconteceu na época em que eu andava
Pelas ruas tentando esquecer meu nome
Tudo ainda está meio nebuloso
E as ideias parecem desconexas
Lembro-me de estarmos sentados
E eu, não consigo enxergar direito o que está escrito;
E ele, liga a lâmpada, ta aí do seu lado;
Então eu liguei o interruptor que estava ao meu lado
E houve luz, assim disseram.
II
Que solidão, exclamei, era meio dia
A luz iluminava o palco
As portas de uma civilização, era o que me parecia
Mas não havia ninguém no mundo
E eu, ninguém para gozar de minha obra,
os palcos vazios, as ruas vazias, os prédios vazios;
Eu e ele sentados com os papéis em mãos
E eles, vimos que acenderam a luz, viemos até aqui;
Deixei-os entrar e apresentei-lhes o primeiro ato
Mas como eu sou uma sombra ambulante
Fui embora e não disse o porquê.
III
E o fogo continuou se apagando.
E as chamas, enfim, tornaram-se brasas frias.
E o pó levantou-se da terra,
Cobrindo os edifícios.
É o fim, gritou o povo,
É o fim, gritei-lhes,
Apontando o caminho;
Asfaltando as ruas para que povo
Pudesse caminhar.
E abri pedágios
Para aqueles que enxergassem pudessem atravessar
E, também, para que os cegos ficassem em seu devido lugar.
Sozinhos e perdidos e
Desesperados,
Como era no princípio
Agora
E sempre
Amém!
Visões de sal
Nessa folha em branco me parece estar escrito
Qualquer coisa que eu estivesse a fim de ler
Mas no momento quando eu olho pela janela
Infelizmente tudo que vejo
É o fim do mundo- olhem para a China!
Eu sou o vetor da destruição
O velho, o novo, o passado, o futuro
Não
O futuro não me pertence, pois lá não chegarei
olhem para MIM!
Castrados e marcados na cara com ferro quente
O escravo ocidental chora a perda do nome e da propriamente dita
ação
Eu vi...
Garotas suecas correndo histéricas nuas pelas ruas de Estocolmo tremendo de medo
pois sabem que estão prestes a serem violentadas- olhem para a América
Lá está o rei inglês implorando perdão para Deus
Uma cidade contaminada com dengue, malária e febre amarela
Meu Deus, enquanto eu ando por essas ruas,
Ando como se fossem minhas, as ruas que eu ando,
O Sol bate nas minhas costas
E minha sombra ilumina meu caminho
Ando questionando essa minha pontualidade
A chuva sempre começa
No instante que eu ponho os pés em casa
Me sinto insignificante
Indigno até
De me molhar