Lista de Poemas

AGUARELA

Nesse quadro em que o verde da tinta tem menos cor

E o tempo se entrelaça no misticismo do anoitecer

Colocaste um rio de águas proféticas onde se afoga a dor

E as mágoas se espraiam nas cores rugosas do envelhecer.

 

Nesse quadro em que as margens do rio estão cobertas por açucenas

E o sol do entardecer vai morrendo em clarões de aurora

Colocastes auréolas e asas prematuras nos meus poemas

De tinta húmida e incolor colhida na face de alguém que chora.

 

Nesse quadro de alma pintado em tintas que ninguém consegue ver

Encontram-se caídas palavras de poemas que ninguém pretende ler

Ébrias de cansaço, juntas pelo vento nas paredes de qualquer viela.

 

As cores pardas debotadas e amarelecidas que ensombram a aguarela

É a esperança perdida das coisas que não tive e que no sonho me pintaste

Nesse quadro de tintas e palavras, eu sonhei, tu sonhaste, eu parti e tu ficaste

.João Murty
751

POESIA SEM SUBSTÂNCIA


Prendi o anjo ao elo dos meus desejos,

Que me protege, me eleva e me redime

á luz mortiça da comedida penitência,

cobri – lhe o espaço da alma, com beijos

numa crise de afeto e amor sublime,

desbravei o gosto, absorvendo demência…

Só a minha mão não enlouqueceu.

Neste poema versado na inconstância ,

que perdura nesta réstia amarga do tempo.

É parca e contida minha indulgência

esmaecida na luz de um verso que emudeceu.

É naco de poesia sem substância!

É fímbria do passado no advento,

que se extingue na luz da penitência!

João Murty

470

CICLOS


Cada passo mais afastado do relógio da vida,

rompi com o sonho impercetível e murmurado.

Trepo ao céu, agarrado às letras e ao vento,

flutuando no espaço ao sabor da corrente,

ávido dos silêncios que a noite provida.

Esperança ardente num sonho, sonhado

em louca espiral da pressa! Isole-me no advento

do tempo, que acaba e se estagna à minha frente...

Uma melodia! Uma luz se aproxima! Tudo faz sentido.

Quantas solidões para ver? Quantas vidas para aprender.

Decanta a plenitude cíclica! tudo o que está mal, érepetido!

João Murty

545

POEMAS DAS PALAVRAS RASGADAS - I


A flecha só morre no pássaro, quando a luz

se apaga e o canto se escreve!

É nessa dor que começa o poema

de palavras rasgadas,

como se a alma quisesse libertar

das suas amarras

as frases contidas no sentimento,

que o momento sente e reproduz

injetando nelas o ar para respirar.

Soltas e desenfreadas

fluem livremente à velocidade

que a mente prescreve,

divagando na inspiração!

São como o cântico das cigarras,

livre e selvagem,ressoando

quando o dia perde a luz.

Espontâneo e intemporal, opoema

corre galgando alegrias e dores

ao sabor de uma corrente,

que leva emoções na viagem

do seu sentir! Canta tristeza,

chora no riso, fala deamores,

pulsa na saudade,

reage pragmático à visãoromântica!

Esmaecendo-se nos costumesténues

e tépidos na genéticaperseverança,

ante agoniatelepática de uma imagem

em semelhança com a fraseque ecoa

por dialética semântica.

A poesiaé o lirico idioma do espirito,

grito do inominável, o urro do imprevisto.

Onde respiram pensamentos sequiosos

epalavras que queimam, fortes e sensiveis.

renegandoa vileza do ultraje, da tortura

e dos impropérios obsequiosos,

proferidos em tom mordaz

por alguns cretinos insensíveis,

que vão surfando a onda da desventura.

João Murty

451

POEMA DAS PALAVRAS RASGADAS - II

A poesia das palavras rasgadas,

galga a cancela do medo,

afastando o nevoeiro que impede

a razão de ultrapassar o centro dos conflitos,

recuando até às circunstâncias

injuriosas, onde habita a essência

dos homens grotescos.

Aqueles que se gostam de ouvir,

murmurando em segredo

pérfidas formas de denegrir!

Pedantes na sua formade falar,

julgam-se deuses da razão,

donos de todas as importâncias.

São depravados do verbo

que nos seus gorjeios pitorescos,

estão devorando as palavras

em farta verborragia! Uma a uma,

temperadas na ironia, regadasa copos do ópio

das gramáticas com a sua espuma

letal, transbordando vicio,

deceção e sarcasmo pelochão.

Verso a verso, prosa aprosa,

vão rasgando palavras eletras

que são servidas ao vivo,

aos antropófagos das mil tretas,

em bruta e sádica orgia verbal!

Não fossem eles os doutos da opinião!

Rasgam-se as palavras,

o verso esvai-se, mas não termina

a poesia não falece! Floresce.

O poema não germina! Mina.

Estará sempre presente erguendo os punhos

contra aqueles que na sua falsa verdade,

disfarçam a maledicência,

sob os ornatos da modernidade.

João Murty

414

POESIA SEM SUBSTÂNCIA


Prendi o anjo ao elo dos meus desejos,

Que me protege, me eleva e me redime

á luz mortiça da comedida penitência,

cobri – lhe o espaço da alma, com beijos

numa crise de afeto e amor sublime,

desbravei o gosto, absorvendo demência…

Só a minha mão não enlouqueceu.

Neste poema versado na inconstância ,

que perdura nesta réstia amarga do tempo.

É parca e contida minha indulgência

esmaecida na luzde um verso que emudeceu.

É naco de poesia sem substância!

É fímbria do passado no advento,

que se extingue na luz da penitência!

João Murty

477

EXTINGO UMA PÁGINA DA VIDA - II


No meu Eu! Procuro lucidez, limpando

fantasmas neste caos emocional.

Vagas de tristeza vão-se acantonando,

crepitando na minha mente!

Procuro extinguir essa chama,

matá-la no frio da espera racional.

Mas a dor que esmiuça o sentido,

persiste em queimar-me lentamente

como um beijo possuído, marcado

por bocas indivisíveis do passado.

Entre nós e o diálogo surdo, extingo

meu querer e o sórdido ultraje,

que vive na sombra da dor

e se oculta no seu negrotraje …

Quero esquecer, selar a página

de uma vida que já não sei se gostava.

Quero rir-me do que penei e passei

e de tudo o que eu amei, ou amava!

Do passado, apenas o móvel do papel e tinta

e a minha voz que ecoa no coração vadio.

Esse grito sufocado que na garganta ficou

e permanecerá nas tácitas asas do silêncio.

Legado ácido de uma aventura extinta,

que acabou na penumbra do vazio!

Entre nós e o amanhã, extingo

tudo o que existi-o, tudo o que quiseste

um amor algemado que eu não te dei,

mas que tu me deste!

João Murty

468

CICLOS


Cada passo mais afastado do relógio da vida,

rompi com o sonho impercetível e murmurado.

Trepo ao céu, agarrado às letras e ao vento,

flutuando no espaço ao sabor da corrente,

ávido dos silêncios que a noite provida.

Esperança ardente num sonho, sonhado

em louca espiral da pressa! Isole-me no advento

do tempo, que acaba e se estagna à minha frente...

Uma melodia! Uma luz se aproxima! Tudo faz sentido.

Quantas solidões para ver? Quantas vidas para aprender.

Decanta a plenitude cíclica! tudo o que está mal, é repetido!

João Murty

545

EXTINGO UMA PÁGINA DA VIDA - I


Na poesia, quis abusar

das palavras agressivas,

aquelas que vão engrossar

o vocabulário dos protestos.

Escrevi de raiva, frases vivas,

ditadas, sopradas por figuras

anónimas, fãs dos manifestos e da confusão.

Li, e reli, rasgando as passagens ofensivas

e com elas fui engolindo agruras,

mastigadas no tempo em depuração…

Entre nós e as palavras, extingo

o meu querer e a agrura

exorcizando um destino

omisso de ventura….

Afastei o nevoeiro que a razão impele

que o meu grito sufoque e saia assim

engolido em seco, sufocado na garganta

por cenas vividas, múltiplos repúdios

acantonados à flor da pele.

Metamorfoses aprisionadas em mim,

decantam em crescente, por a dor ser tanta,

virtuais compassos de espera! Autênticos interlúdios

trabalhados, em árias de gemidos dedilhados,

por mãos brancas de músicos amortalhados.

Entre nós e a solidão, extingo

o meu querer e todo o deboche,

que vai marcando o palco da vida

neste teatro de fantoche.

João Murty

447

INTEMPORALIDADE

As minhas palavras, jazem jogadas, rasgadas no chão,

escombros em papel amarrotado, de letras rasuradas

borradas, talvez por lágrimas caídas por desilusão,

tristes e carentes como esta poesia insuficiente,

que não disfarça as frases gastas, desequilibradas,

sem rima, de alguém desinspirado, só e penitente!

O cântico treslouca, quando a dádiva é o pranto

que estaca em paixões envenenadas de maldade.

Dirimindo espanto, enterrei os prazeres por cada canto!

No tempo quepassou, plantei um jardim de visões,

reguei-o com lágrimas de esperança em saudades

suadas pelaesgrima da vida e pelas goradas ilusões!

Foi a poesia que preencheu os meus dias desolados!

Numa química intemporal, petrificada e indiferente

que percorre todos os ditames snobs, perpetuados

em fugazes segredos, sentindo um halo ávido de existir,

que verto na escuridão até o sono chegar e adormecer-me

para acordar no solo escalavrado da monotonia, e partir!

Palavras rasgadas, que rodopiamna magia da alquimia!

Na prematura sonolência intemporal, o halo floresce

entre os bocados de poesiaacorrentados nesta ortografia.

Seguindo os teus passos, lado a lado, de dia e de noite,

singela sombra coreografada, nummarcante sobe e desce,

ao compasso de espera de umabraço que em ti pernoite!

João Murty

480

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José João Murtinheira Branco nasceu em Lagos no ano de 1954. Graduou-se em Direção Hoteleira na Escola do Estoril, tendo concluído a Pós - Graduação em Gestão e Análise de Projetos e a Pós - Graduação em Gestão Integrada pela Universidade Internacional de Lisboa. O lado humano das coisas, a solidariedade e a justiça, levaram a abraçar com coragem e inconformismo, alguns projetos difíceis.

No período de 1993 a 1998, na qualidade de Diretor Geral de Operações, teve intervenção relevante no processo de recuperação e viabilidade do Grupo Torralta – CIF, que veio a ser adquirido pelo Grupo SONAE.

Ao longo da sua atividade profissional integrou o concelho fiscal de várias empresas e exerceu cargos de direção e administração em hotéis e grupos turísticos-hoteleiros. Cumulativamente esteve ligado á área do ensino e formação tendo lecionado no CFA – Pontinha, a disciplina de Planeamento e Controlo. Na área da consultadoria desenvolveu vários trabalhos no âmbito de Estudos, Projetos e Diagnósticos de Investimento e conjuntamente com o prof. Dr. João Carvalho das Neves (prof. Catedrático do ISEG) e com o prof. Dr. Charles Blair (prof. Catedrático da U. Manchester), participou no “Estudo de Desenvolvimento Integrado de Turismo - Ilha Porto Santo.

Em 1997, numa singela manifestação de agradecimento foi agraciado pela Casa do Pessoal do Hospital de Vila Franca de Xira. E, em Março de 2010 foi homenageado pela ADHP (Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal), com o PLACA CARREIRA distinguindo o profissionalismo colocado ao serviço da Indústria Turístico - Hoteleira.

A leitura esteve sempre presente na sua vida Tem como autores de referência Pessoa, Bocage, Florbela, Poe, Quintana, Drummond, Aleixo, Mário de Sá Carneiro.

Gosta de futebol, golfe, mar, e do seu próprio espaço para escrever.

Em relação à vida, entende que é uma caminhada num processo cíclico de evolução. E que tudo é efémero, nada mais prevalece para além da aprendizagem dessa caminhada.