Lista de Poemas

MÁGOAS - I

 P odes sair, fugir, correr,

mas não te podes esconder,

por entre a minha sombra,

sempre difusa

Rasgas o tempo onde te guardas,

nos silêncios do teu querer,

fazes pequenas construções no meu afeto,

prendes nos meus, os teus olhos de musa

 

Por entre a aleivosia do momento,

posso fingir, que não quero ver,

injurias, cânticos, lamurias, feitiços de lua,

onde no rio do além, danças nua

Tenho na mão fechada, palavras

lançadas numa hora sem tempo.

Tenho a pele ferrada, por símbolos e juras que fizeste,

marcas de falácias e agruras no sentimento

 

Tenho o meu olhar, fixo nos teus olhos negros,

belos e inquietos de ansiedade,

profundos, unisses num olhar permanente

acorrentado ao meu coração,

por tanto querer um sim,

e eles dizerem que não

 

Podes sair, fugir, correr,

mas não te podes esconder

Na aparência que brincas e jogas,

no acaso, sem saber

envolta na interrogação tenebrosa

Se amanhã a manhã vier,

rompendo o dia sem que eu sinta

que a mereça.....

Então que o sol brilhe

e tudo me aconteça

 

Neste coração ardente,

em fogueira acesa,

de chama bruxuleante viva,

a crepitar.....


Procurando os teus olhos,

sem os encontrar

Incandescentes de angústia,

na chama da incerteza.

 

E esses teus olhos negros

ainda choram,

por entre dúvidas etéreas

desta paixão

Se um dia esses olhos

disserem sim....

Nunca mais por mim,

dizem que não.


João Murty

509

SONHOS DE ABRIL

25 DE ABRIL "40 ANOS"

 Sendo um facto que nada é eterno e que as mutações temporais, aliada á sabedoria e endurance de uma sociedade, deveriam evoluir, caminhando para um processo mais justo e mais solidário. Por isso, era ensejo, de grande maioria dos portugueses, que o 25 de Abril fosse liberdade e afirmação de dignidade humana e, de democracia vivida e instituída.

  Infelizmente, nos últimos tempos, assiste-se paulatinamente à degradação dos valores mais elementares, emergindo a incúria, o erro torpe, a ausência de culpa e responsabilidade.

  Em memória, de um passado recente, querendo que o mesmo seja mais que uma quimera, mais que uma memória, que seja o concretizar dos valores que geram a evolução da sociedade de forma criativa, participada e pacífica. Fica o poema, brotado do peito em palavras, de desencanto, de desilusão, mas ao mesmo tempo de esperança.

 

 SONHOS DE ABRIL

 

 Tristeza que corrói a alma e me enche de rugas o rosto,

 profundas, vincadas pela ansiedade, pelo desejo de gritar,

 de dizer não quero, por lutar e sentir desgosto.

 Por chorar por um Abril que não vejo, que tarda a chegar,

 por um Portugal diferente. Que não seja adulterado

 por governantes políticos, sem alma e sem soluções.

 Por um País de promessas, corrompido, queimado,

 conspurcado por ganâncias, manietado por obsessões.

 

 Sinto neste silêncio podre, místico como a morte

 o vento do descontentamento e o som da agonia,

 gélido, cortante, permanente, rodopiando sem norte,

 sugando a identidade, matando a alma da harmonia.

 Comendo nas entranhas a nobreza e a memória

 de um povo que tem garra, que tem raça.

 Apagando a herança dos sinais fortes da história,

 de quem foi forte de quem tem credo de quem tem casta.

 

 Agora, um grito de revolta na minha alma ardente,

 escorrido como água, por entre o rochedo da razão,

 num doce eco fluido, que se prolonga permanente,

 neste corpo curvado cansado da espera e de solidão.

 Sinto o meu coração elanguescido, fundir-se na saudade,

 daqueles momentos vividos no prelúdio da incerteza,

 resgatados na coragem dos capitães, que fizeram a liberdade,

 de armas e cravos na mão, honraram e cantaram a Portuguesa.

 

 Quero afastar esta tristeza, que me invade a alma,

 quero dormir embriagado, pelo doce sabor da ilusão,

 daquela noite diferente, inquieta, livre e calma,

 deram cores aos sonhos, deram corpos e almas à razão.

 Abril dos cravos, de cores mais vivas nessa primavera,

 sofreste, crescestes por entre estertores moribundos,

 ergue-te e sai de novo à rua e grita pela voz do povo,

 para que o sonho não seja turvo e a esperança, uma quimera.

 

 João Murty

 

582

MEU AMOR QUEM SOU EU - I

Meu amor quem sou eu?

 se a morte predomina na bravura

 sou um corpo que a alma esqueceu

 nos anais da minha desventura.

 

  Meu amor, minha suave agonia

 caminho sem ver, nesta dor que tanto dói

 tenho por companhia, o breu, na noite e no dia

 em negra tinta de ansiedade em névoa que corrói.

 

Meu amor quem sou eu?

 apenas minhas lágrimas marcam o passado

 meu sangue errou de veia e se perdeu

 apenas minhas lagrimas indicam o meu sofrer

 Afinal quem sou eu?

 nem o espelho reflete o meu ser!

 minha alma alcança quando, transportada,

 sente, alongando os olhos deste mundo

 o tédio jucundo desta verdade amortalhada

 por ti é tão pura a paixão de que me inundo.

 

Meu amor quem sou eu?

 sinto-me perdido, não posso ficar sem ti,

 projeto-me num grito,

prefiro eu, antes a morte,

 para que quero eu a vida,

sem esse enlaço tão forte...

 deixo-me morrer então,

às mãos desta minha dor,

 já que não posso te ter em vida,

que morra eu de amor


João Murty

 

573

AMOR NAUFRAGADO

Nunca perto, sempre longe, sem domínio e sem cadência

Navego na noite escura, sem estrelas, à luz das velas

Sem rumo nem orientação, sou um náufrago da tua demência

Perdido neste mar de sentimentos, sem portas e sem janelas.

 

Deste amor navegante que se perdeu no mar e naufragou

Por não encontrar um porto de abrigo, farol ou uma luz acesa

Flutuando há deriva não resistiu a tanto rombo e se afundou

Nos vis baixios do ciúme contra os rochedos da incerteza.

 

Onde estavas quando precisei de ti? Perto, longe, distante do meu chamar

Náufrago de ti, não escuto os passos, não sinto os teus braços, não te ouço falar

Já não sinto, nem vejo esse teu gesto sem jeito de te enroscares no meu peito.

 

Nunca perto, sempre longe e distante, naufrago neste mar de amor imperfeito

Onde os poemas morrem e as musas cantam os sentimentos que já senti

Guardo em mim um desejo, recordar o primeiro beijo e a última vez que te vi

J oão Murty
563

TEMPOS DE ALMA

Ai! Se eu pudesse parar o tempo e esculpir

Esculpia esse teu sorriso de lábios rosados

Emoldurado nesse olhar afogueado de fugir

De cabelos soltos de tons ruivos acobreados.

 

Ai! O porquê de tanta incerteza se o tempo voa e não para

Mas se chegar e não partir, é porque o prendi nos meus braços

Então eu vou rir, rir, porque o riso todos os males sara

Teria de novo os teus beijos e o calor dos teus abraços.

 

E na memória uma história esvoaçando na ilusão

Teria vida e fantasia, nos gemidos das noites quentes

Dos clamores e desalentos de um amor de perdição.

 

Ai! Quero reter o tempo e cerrar os olhos de desejo

Ouvir o murmúrio da tua boca sobre a minha boca

Num prazer e ensejo transportado nas asas de um beijo. 


João Murty

577

REMORSO

Remorso filho da culpa que no tempo perdura

Vives lado a lado no silêncio soberbo da minha dor

Gerado no passado tão presente que me tortura

Nesta vida tão sentida, descontente e sem sabor.

 

Em horas passadas profundas caladas e lentas

De rezas e preces erguidas em relicários de cipreste

De quem precisa do perdão e vive na tormenta

De quem clama e já não ouve o que me disseste.

 

De ombros caídos vergado por este peso que já não posso

Escrevo este poema arcaico, de inquietude na noite amena

De versos que brilham molhado nas lágrimas do remorso

De alma triste sem inspiração segregados por avara pena.

 

Escritos cantados em dor por entre o rouco soluçar da harmónica

Nesta culpa que me angustia a alma e me fustiga a cada passo

Remorsos perfilados persistentes num som de voz afónica

Sem espaço penetram e envolvem a mente num abraço.

 

De braços erguidos na minha cruz grito a Deus e ao universo

Até que a garganta fique fria e ceda a este mal que não espanto

Correndo nesta humilde e triste voz a estrofe deste verso

Nesta balada de remorso a quem aos meus mortos canto .

João Murty

518

LAGOS

Zavaia, Lacóbrica, Lagos, terra de lendas e de mar

De vizires, príncipes, boémios, poetas, vagabundos

Onde o litoral palpitante manda o Atlântico beijar

Num beijo com história da demanda de novos mundos.

 

Fortes, muralhas, igrejas, descobertas, Eanes, Infante

Pedaços de história cantados num poema que me conforta

Feitos por filhos de hoje e de outro tempo mais distante

Forjados na raça e orgulho de um passado que nos importa.

 

Nesse azul de luz cálido de hálito brilhante que te torna mais diferente

A mansidão do mar espraia-se num suave ronronar de um beijo permanente

Molhado em odes que Afrodite cantou na magia do tempo que não passou.

 

Saltaste no tempo, cidade de agora e do antigamente

Cresceste exorcizada nos hábitos de apatia da tua gente    

Moderna e sempre deslumbrante, pela natureza que Deus criou.

João Murty
527

DEMAGOGIA

Neste mundo de caos, de que vale rezar, pedir, implorar

Se as mentes são duras e os corações empedernidos

Destes líderes sem sentimentos, precoces no enganar.

Tudo promete. Sórdidos, sem ideias mas convencidos.

Promessas, feitas de palavras de fé e esperança

Proferidas num querer que nos toma e arrebata

Amenizam a tempestade, prevalecendo a bonança

Onde vegetando se vive, num sofrimento que s e arrasta.

 

Promessas, somente palavras saídas de boca em boca.

Repetidas por gente oca, atiradas e caídas por diante.

Palavras levadas e trazidas no vento bailam na mente louca

Hipócritas e disfarçadas zunem num silêncio asfixiante.

Palavras sem gramática, discursadas velozmente sem pausas

Nascidas e criadas na utopia, lançadas sem tino, sem substancia.

Palavras de outrora, filhas do vazio de num destino sem causas

Veem agora escamotear a verdade, bebendo na ignorância.

 

Palavras que escuto, que me roem o peito e me consomem

Ressuscitadas na demagogia, na desgraça e na perdição

Chafurdam o sofrimento, enaltecendo a dor dos que não comem

Indiferentes, sem cor, são como o fel, amargas frias e sem coração

Palavras sem sentimento filhas do escuro, perdidas no tempo

Zunindo como moscas nos excrementos da desilusão

Pairam no ar, lançando a semente nos ventos da utopia

Falácias de gentios, filhos do erro torpe e pais da demagogia.

 

Um dia talvez o sol fogueie as entranhas do tempo endeusado

Castrando as amarras de um prenúncio ignóbil e amortalhado

E o céu se rasgue rompendo a justiça, marcando nova vontade

Selando de negro as palavras em caixões de cedro, jasmim e jade

Numa aura que aquece o ar frio destes tempos vestidos de luto

Nascido nas asas de um prenúncio estranho e devoluto

Pena a pena irão caindo, queimada na tumba branca da verdade

João Murty
718

MEU AMOR QUEM SOU EU - II

   Meu amor quem sou eu?

Como expressar nas palavras o meu delírio ardente

as coisas que gostaria de dizer.

Por essas doces noites de amor ser amado por ti,

fluindo na tua boca incandescente,  

em teus olhos desnudar o meu pensamento.

Mas no meu corpo, a alma foi e veio a dor,

rompendo o sonho, gerando o pranto.

Agonizante e branco como a bruma

o beijo ternurento se desfez em espuma,

um espasmo do sonho fez-se em espanto. 

 

Meu amor quem sou eu?

Quero por ultima vez,

beijar teus lábios em delírio insano

Navegando pelo teu corpo ondulante,

de sabor de cravo e canela,

apagando o mar de fogo,

mas profundezas do oceano

Chegarei a parte incerta,

rasgando a bruma rompendo o véu.

Não sei quem sou! Nem para onde vou!

Quiçá  para o inferno? Ou talvez para o céu

Neste preludio de cinzas e meditação!

Caminho ao sabor da minha sorte,

Mesta vida transitória, deste triste coração

Só sei que te amarei, mesmo depois da morte!


João Murty

649

SAGA DE LUZ NAUFRAGADA

Emerjo da tua luz naufragada

 Ainda que espero no paraíso

 Por ti minha mulher amada

 Farei tudo o que é preciso.

 Ladeado por cavalos brancos alados

 Dobro os Ceus de azul celeste

 Esvoaço ao lado de meteoros cinzelados

 Galgando os sinais que me deste.

 

 Astrolábio de fé, azimutes cintilantes marca mais longe

 Buraco negro, sítios ermos para além da crista

 Demanda incandescente nesta alma monge

 Persistindo num querer que não te avista.

 Grito por ti! E encontro apenas sobre o mundo

 O percurso que me deste sem ver nada

 A tua ausência trágica! E no fundo

 Minha vida é a tua luz naufragada

 

 João Murty

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José João Murtinheira Branco nasceu em Lagos no ano de 1954. Graduou-se em Direção Hoteleira na Escola do Estoril, tendo concluído a Pós - Graduação em Gestão e Análise de Projetos e a Pós - Graduação em Gestão Integrada pela Universidade Internacional de Lisboa. O lado humano das coisas, a solidariedade e a justiça, levaram a abraçar com coragem e inconformismo, alguns projetos difíceis.

No período de 1993 a 1998, na qualidade de Diretor Geral de Operações, teve intervenção relevante no processo de recuperação e viabilidade do Grupo Torralta – CIF, que veio a ser adquirido pelo Grupo SONAE.

Ao longo da sua atividade profissional integrou o concelho fiscal de várias empresas e exerceu cargos de direção e administração em hotéis e grupos turísticos-hoteleiros. Cumulativamente esteve ligado á área do ensino e formação tendo lecionado no CFA – Pontinha, a disciplina de Planeamento e Controlo. Na área da consultadoria desenvolveu vários trabalhos no âmbito de Estudos, Projetos e Diagnósticos de Investimento e conjuntamente com o prof. Dr. João Carvalho das Neves (prof. Catedrático do ISEG) e com o prof. Dr. Charles Blair (prof. Catedrático da U. Manchester), participou no “Estudo de Desenvolvimento Integrado de Turismo - Ilha Porto Santo.

Em 1997, numa singela manifestação de agradecimento foi agraciado pela Casa do Pessoal do Hospital de Vila Franca de Xira. E, em Março de 2010 foi homenageado pela ADHP (Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal), com o PLACA CARREIRA distinguindo o profissionalismo colocado ao serviço da Indústria Turístico - Hoteleira.

A leitura esteve sempre presente na sua vida Tem como autores de referência Pessoa, Bocage, Florbela, Poe, Quintana, Drummond, Aleixo, Mário de Sá Carneiro.

Gosta de futebol, golfe, mar, e do seu próprio espaço para escrever.

Em relação à vida, entende que é uma caminhada num processo cíclico de evolução. E que tudo é efémero, nada mais prevalece para além da aprendizagem dessa caminhada.