Lista de Poemas

ALUCINAÇÃO

Estou só, inconsolável, neste desejo ardente de devoção

Fechado, silenciado num tempo que passa sem ter hora

Numa transe de conflito, entre a verdade e a alucinação

Sinto no peito o ardor que ateia um fogo que me devora.

 

Lentamente vai ardendo, num desejo louco de me consumir

Minhas mãos são chaga viva que se esforçam por se mover

Afugentando esta alucinação, onde o presente não consegue fugir

De um passado enlouquecido, que a memória teima em trazer.

 

Transpiro, gerando personagens distorcidas numa visão paralela

Nesta alucinação de figuras caídas, que deslizam e vão embora

Levadas nas águas dos meus olhos que em cascata caem fora.

 

Ardente numa última prece, olho por dentro da frincha da janela

Esperando que uma estrela arda num ocaso, num sinal resplandecente

Que suavize o sofrimento, perpetuado nesta alucinação incandescente

João Murty
649

REENCONTROS

Que razões contrárias eu teria

De amar, quem não me amou, nem me queria

Sussurro de mil perdões em memória sentiria

Afagados pela doçura do momento

Que em traços de tinta vou escrevendo

Neste gesto de escrever que vou perdendo.

 

Rasgo as palavras escritas no sentimento

Com olhar perdido no horizonte

Solto o pensamento, prisioneiro do tempo e da saudade

Deixo-o cavalgar na brisa das ondas mornas do vento

Que trazem à memória, lembranças de um passado

Ligando as nuvens rasgadas da minha ponte

Viajo no retrocesso entre o radiante azul imenso.

 

E nesse horizonte, trazido por essa brisa calma

Reencontro o teu olhar, sinto a tua alma.

 

João Murty

476

DEUSA DA APARIÇÃO

No vento da noite o murmúrio do som de um violão

Um som que ecoa, uma voz que canta num tom que balança

À luz da fogueira vozes se juntam num velho refrão

Um corpo frenético, ao ritmo da música pula e avança.

 

Descalça de cabelos ao vento graciosa como uma gazela

Em movimentos ondulantes, num corpo de escultura

De recorte de Deusa Pagã, fresca e jovem, pura e bela

És poesia em movimento num soneto à formosura.

 

Um raio de luar flutua nos seus seios desnudados

Fúlgido e cálido, como um símbolo de liberdade

Suspirado num halo erótico de Deuses apaixonados.

 

Sem uma palavra, partiu num movimento de sensualidade

Sem saber quem és, revive o momento que te vi chegar

Marcante e mágico, nesse verão quente na luz sensual do luar .


João Murty

749

PONTA DA PIEDADE

Cansado por remar tanto naquele dia

Morava a quietude onde cheguei!

Só o ronronar das ondas se ouvia

Esbatendo-se nos rochedos que encontrei.

 

Nesse lugar deslumbrante de íntima natureza

Me enlevei... Libertei... Esmaeci... Sonhei….

Místico e pragmático, flutuei no sonho. Que leveza!

Embriaguei-me de belo... Embeveci …. Chorei!

 

Visão deslumbrante, vesti-me de orgulho e em graça!

Entre o inefável e o amor que me encheu o peito

Interstício da infância, eco de um passado que deleito.

 

É nesta paz que eu sei que Deus me protege e abraça!

Levita meu espírito... Energiza... Aliviando o coração.

Silêncio harmonioso...Se eterniza …. Doce sensação!


João Murty

507

AQUI ESTOU EU

A vida, me deu mundo e o trabalho confiança

Estudei, tracei metas, respeitei, porfiei

Versátil para aprender, ganhei força e lutei

Naveguei nas estrelas, buscando o que o sonho alcança!

 

Sou alma indomável! Que caminha na evolução

 Amo o mar... Os amigos….A música... A poesia!

Sou altivo! Ou humilde! Num mundo de fantasia

Rio e ralho comigo! Introspetivo na lição.

 

Não tenho medo de perder, nem começar de novo

 Busco a justiça e a lealdade e nela enxergo a razão

 Fujo da mentira dos políticos, dos falsos e da opressão!

 

 Não nasci Duque nem Conde, sou um simples filho do Povo

 Pai pintor, Mãe doméstica, humildade por linhagem

 Mas tenho sangue nobre, decantado na coragem!


João Murty

473

FRAGMENTOS - ALQUIMIA DO TEMPO I

  1. Fragmentos - "Alquimia do Tempo" é um poema longo. Encontra-se  fragmentado em 6 partes, por forma a que a leitura do poema, não se perca na sua extensão!


Corro em volta do pensamento,

porfiando um amor

que em mim se fechou.

E nele ecoam as vozes

que o tempo calou,

afogadas na mordaça

do pântano do lamento.

Por águas paradas,

turvas em cinzenta espuma,

um derradeiro olhar

por entre tumultos,

percorro o pântano sem te achar,

na espiral de vultos

que levitam na bruma.

 

Cerre os olhos pelo tempo fora,

sabendo que vou te encontrar,

aqui, ou ali em alguma hora,

hoje, amanhã em qualquer lugar.

João Murty

 

 

 

469

SONHOS DE POETA - II

Poema de sofrimento, um grito alado de dor

que ecoa no vazio, entre as margens do lamento.

Na conjuração das asas, para transpor abismos,

segura nas garras o símbolo do sentimento.

Fragrância latente no estigma da alma em flor,

verbo devoluto que se desfolha nos eufemismos

dos pensamentos trajado no negro da desilusão.

Sem alento, as visões mastigadas, jazem caídas,

 varridas, para esse abismo profundo de solidão.


Epifania, doce ilusão que baila na mente amargurada

num querer que força o desejo, a esperança ardente.

Mas a sorte, profana, esvai-se aos poucos, dilacerada

no vórtice dos silêncios que ressoa pela madrugada,

 aos olhos dos gentios, é mortalha lírica á minha frente.

 

Poeta da poesia maldita deste e do outro mundo

de palavras desertas, perdidas na metáfora do verso.

Dia a dia, hora a hora, na dor que me corrói me afundo,

No casulo do amor pungente, no desejo diferente de ser

Interrogo-me se não serei um ente do outro mundo,

que no sonho ignoto, se esvai em lágrimas a correr.

  João Murty

330

SONHOS DE POETA - I


Filho de um contentamento descontente,

flutuo mo sonho de símbolos e lavras.

Onde enigmático se esconde esse silêncio

de figuras que marcham, entrando nas palavras

cínicas, déspotas, que subjugam rudemente,

esmagando o verbo pelo prestígio da morte.

Escorre-me letras dilaceradas pelas narinas e boca,

cuspo palavras no papel amarrotado.

Encarno o personagem da poesia maldita,

só e penitente, arrasto-me até à hora da morte.

Mastigarei visões, porfiando retalhos de vida louca,

metade de mim é verso, num grito esconjurado.

A outra metade é prosa corrida, mal escrita

lida e relida na mente, no silêncio amargurado.

 

Os poetas perseguem os sonhos e a eternidade

 a utopia da pedra filosofal, decantada na alquimia

uma névoa luminosa dentro da nossa obscuridade

o desejo de transcendência, o delírio da verdade

que envolve a existência, embriaga e nos vicia.

 

Tiram-nos o sonho, a tristeza impera e não resistimos,

tiram-nos os versos o ar acaba e não respiramos,

tiram-nos o amor o coração para e não existimos.

Não seria possível sonhar se os poetas não nascessem

e as lágrimas morressem.

 

João Murty

352

DUETO - SAGRES

DUETO: João Murty/Joana Aguilar


Nesta terra diferente de mar profundo, onde os mitos outrora foram vencidos.

Declamo este poema, a este povo coberto pelo rumor e pelo sal do seu mar.

Circundado por escarpas e ventos fortes, que sopram em todos os sentidos.

Sigo na saga de rumos desconhecidos, inspirado na magia intemporal deste ar.

 

Em baixo. Fome revolta, vagas cruéis lançadas por esses mares da desventura.

Sons alados, ecos de barcos naufragados, sepulturas que jazem no fundo do mar

Em cima. Astrolábios, compassos, cartas, velas, caravelas, mareantes, aventura.

Escola, alquimia, Infante, rosa-dos-ventos, instrumentos rodopiando sem parar.

 

Esta terra diferente tem mais cor, feita de tinta de mil sonhos e de ansiedade.

Que deram visões de novos mundos, construídos na mentira e na verdade.

Em temas líricos, escritos por monges poetas que te honraram e declamaram.

 

Na ponta do Cabo de S. Vicente, nesses rochedos que se erguem ao universo.

Colho na mão a tinta desse misticismo, que se esvai nas letras deste meu verso.

Poema de agora, bebe e sente essa aura de outrora, a quem os poetas sublimaram.


João Murty

 

Sagres onde o vento se faz ouvir, num bruar infernal

Circundado por esse mar fundo, a tua voz buscou

Os mitos foram vencidos pela fé da Virgem maternal

Castrando ecos de vozes que o pensamento criou .

 

Ladeado por escarpas no árido escolho ermo do mar

O Cabo de S. Vicente se ergue, em granito gigante

A sua face intemporal, imóvel austera e dominante

É escola, compasso, rumos, viagens que irão despontar

 

Destas pedras donde o misticismo de Henrique Infante

Traçou sonhos, ganhou mundos, marcou estrelas no ar

Fixou o céu crepuscular e o inferno no espirito de Dante.

 

Lançou caravelas que velejaram nos mares da desventura,

Inspirados na magia intemporal e na arte de bem navegar

Engoliram Adamastor, dando inicio á grande aventura.

 

Joana Aguilar

397

MONOLOGO ANATOMIA DO POEMA

Olha vai tu……..

Vou para aonde? aqui vou escrevendo,

voando no verso…

 

Fraca desculpa, não é razão absoluta!

anda, sai, vai para o teu Universo .

 

Olha vai tu…

Nesta persistência que persiste,

nas frases gastas, o poeta está nu.

 

A final o que procuras?

Alimentar o ego, um amor virtual,

palavras e juras, ilusão e aventuras,

desassossego no espirito que mata a solidão,

palavras escondidas, frases mal escritas,

o eco da própria voz na imensidão

faminta, escura e tenebrosa,

que te alimenta as entranhas do medo,

massacrando com arte vagarosa

a solidez do teu rochedo.

 

Olha vai tu……

Por muito culpado que me julgues,

não me flageles com palavras

o meu corpo sangra e a minha alma

foi engolida pelo esquecimento

Não, quero histórias, nem lavras,

nem piedade, nem sentimento.

 

Será que a Musa da Poesia abandonou-te?

essa força quente perscrutada,

corpo de névoa, de imagem

com sulcos de tatuagem,

voz absoluta escutada .

 

Olha vai tu…….

A Musa habita na minha alma

a poesia não sucumbe, canta a vida e a morte,

congrega a visão do mundo, que em espaços

profundos se miram e se abraçam,

enaltecendo, reacendendo a chama.

Não sou poeta, sou apenas um profano sem sorte,

em demanda do céu da terra e da eternidade,

bebendo na poesia, o elixir da harmonia,

expurgando a inercia , na  vital necessidade,

de perseguir os sonhos , reacendendo a chama.

O  poeta é uma árvore, com frutos de tristeza

e com folhas murchadas de chorar o que ama.

 

Em tão o que fazes aí!

esgotaste o teu tempo. Sai, vai embora!

sai, sai  já daí…

 

Tens razão vou  agora!

 fechei o verso, saí………..

 

João Murty

 

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José João Murtinheira Branco nasceu em Lagos no ano de 1954. Graduou-se em Direção Hoteleira na Escola do Estoril, tendo concluído a Pós - Graduação em Gestão e Análise de Projetos e a Pós - Graduação em Gestão Integrada pela Universidade Internacional de Lisboa. O lado humano das coisas, a solidariedade e a justiça, levaram a abraçar com coragem e inconformismo, alguns projetos difíceis.

No período de 1993 a 1998, na qualidade de Diretor Geral de Operações, teve intervenção relevante no processo de recuperação e viabilidade do Grupo Torralta – CIF, que veio a ser adquirido pelo Grupo SONAE.

Ao longo da sua atividade profissional integrou o concelho fiscal de várias empresas e exerceu cargos de direção e administração em hotéis e grupos turísticos-hoteleiros. Cumulativamente esteve ligado á área do ensino e formação tendo lecionado no CFA – Pontinha, a disciplina de Planeamento e Controlo. Na área da consultadoria desenvolveu vários trabalhos no âmbito de Estudos, Projetos e Diagnósticos de Investimento e conjuntamente com o prof. Dr. João Carvalho das Neves (prof. Catedrático do ISEG) e com o prof. Dr. Charles Blair (prof. Catedrático da U. Manchester), participou no “Estudo de Desenvolvimento Integrado de Turismo - Ilha Porto Santo.

Em 1997, numa singela manifestação de agradecimento foi agraciado pela Casa do Pessoal do Hospital de Vila Franca de Xira. E, em Março de 2010 foi homenageado pela ADHP (Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal), com o PLACA CARREIRA distinguindo o profissionalismo colocado ao serviço da Indústria Turístico - Hoteleira.

A leitura esteve sempre presente na sua vida Tem como autores de referência Pessoa, Bocage, Florbela, Poe, Quintana, Drummond, Aleixo, Mário de Sá Carneiro.

Gosta de futebol, golfe, mar, e do seu próprio espaço para escrever.

Em relação à vida, entende que é uma caminhada num processo cíclico de evolução. E que tudo é efémero, nada mais prevalece para além da aprendizagem dessa caminhada.