Lista de Poemas
Confesso-me consciente por dentro …
Confesso-me estranha e extremamente consciente da pouca voz e da minha vulgar opinião, rouco profissional, maltalhado na árdua tarefa de mensageiro de vocábulos, placebo sem muita voz, dono duma história simples, gutural de simples existencialismo e banal, sem experiência provada, sem palavras nem alta aptidão vocal, vocabular, pouco nobre no que digo e inexpressivo ao ponto de mesmo adormecer pensando mole, infecundo, sendo eu o meu maior enigma e o inimigo que eu próprio mais temo, tenho e terei para sempre e doravante para me diluir em dois, dividir-me para duvidar melhor, de reinventar-me ao cubo num futuro e instante plausível que pode nem vir a dar-se e a propósito de nada. À falta de imaginação e à sensação insensata de escassez de criatividade, expresso-me por chavões sem fruto e através de impressões fáceis, frágeis, alheias na maior parte das vezes e da minha menor dimensão física de “Zé Ninguém”, encontro-me impresso nas expressões faciais, nos rostos do que sinto no fundo, e em mim dentro, impróprio não só na acção ou no que faça e veja para deprimir a razão oposta ao acto vital, virtual embora até nisso o raciocínio muitas vezes dê erro, um fatal engano em y, ao sentar-me dirimido, de pernas trocadas, cruzadas, tortas, ou quando me sinto irónico e obvio, tenho-me ainda assim como um covarde coercivo, um indigno indígena de Porto-Fino, um valentão de circo, matulão convencido de praça publica, charlatão sentado, sem força embora com vigor para realmente desertar ainda e de mim próprio, fiquei-me pelo que fiz, ainda que me batam, não vou à luta pelo que vejo à primeira vista, no decote das blusas, os seios, o brilho da pele, o cetim e o receio, um aviso sem letras nem letreiro que diz, dirá provavelmente “não tens valia”, ou então, “não és senão esquecimento”, sei que não sou a conjugação perfeita nem a remissão dos pecados do peito dos outros me fará atleta da sensibilidade alheia, monarca ateu dos meus próprios princípios, o meu básico “entediamento” é moral e congénito, não demovo maçónicas lojas meio cheias de apáticos viscerais cavalheiros, nem a emoção me domina raramente menos que a cem por cento, nem determina quem há-de-me ouvir nos fastidiosos auditórios, o custo e a serventia da singularidade não é um dogma pungente, nem a espontaneidade uma acção abstrata, obscura ou bastarda, parada no tempo, cada um tem a sua própria marca ferrada ou ferroada de abelhão, crivada no corpo, somos equivalentes e polivalentes, equidistantes monólitos cerâmicos, herméticos malabaristas por de dentro quanto basta, mistérios e sombras quase sempre em nós dão erro, incompreensão, desconhecimento, nados mortos, iguais a baixos relevos, a razão nas formas das coisas consistentes, o material dos dedos, metais pesados iméritos, inéditos, misteriosos quiçá imperfeitos, quanto o nosso rosto refractado nos gelos, neste silêncio amorfo de deuses, graffitis pintados nas paredes, devoradores de temores, receios infundados, basilares subterfúgios para quem não age após ofendido e dá outra face com vontade de tornar a ser fendido no queixo e no amor próprio, um antisséptico baptizado de contrição, remorso e de culpa inócua, contradições de poeta prosaico, em itálico.
Basta me sente pra que me pense, cansado do tempo de espera, sem ideia alguma, ganhe vida qualquer coisa funda, abstrata, uma lembrança nativa da fadiga, iconoclasta insensatez procedente do cansaço vazio que é não pensar tanto, assim como uma espécie de absurdo arrependimento de que me perco a pensar e do poderia ser pensado, manifestado quando digo de mim para mim sem eco ou objecto, cada um tem do seu esquecimento uma ideia, inquilina de curta memoria, só eu não sei onde estou quando me castigo por caminhos sem saída nem asfalto, nem voo e o que penso ser real é apenas uma fantasia, um espigão, uma mera opinião minha que me achou e que me faz achar senão artesão de minha própria vontade tida, mas não, sou apenas aquele que se pensa a meio, assim como uma porta entreaberta que se acha de par em par aberta, sou eu suponho aquele que se aparenta em si mais ao sonho, que o sonho em si, ele mesmo estranho, se estranha.
Sinto-me pobre, um “ Seu Dirceu” ou um mosquito Ignicio, um certo insecto insectívoro da imaginação, aquele que nem a si próprio ou a si mesmo se inventa ou se explica por gestos, excita-me esse principio lavado e limpo, a indecisão básica de estagiário, inclusive igual ao que creio e reflcito na condição leve, breve que se me cola na língua e o corpo à carne, igual a outros e como eles, único bem que temos, sermos unos com quem nos habita, termos língua olhos e mente doutros, guarida e desterro num único lugar aparente sem que o busquemos, sem sabermos ao certo o limite do nosso território de elite, imenso… ou que ele existe, se eu existo todavia, sendo eu o infinito eternamente sou, serei “invictro” na consciência das coisas vivas e animadas, sermos nós deuses dos que se erguem da terra e os que nos levam nos ares, eles mesmo ilimitadas mutações de nós mesmo, eleitos eleitores dos nosso próprios sentimentos e paixões.
A satisfação que me é dada pelo espirito quando sonho não se compara ao mundo que faculta o sonhar, o que sinto ao sonhar vai mais além que a alegria do corpo ou a letargia do sono em que certos nervos motores se entregam a mitigar na calma o sossego e a alma, o sonho vai mais além a modelar mundos a moldar leis da física e reinos adolescentes, incandescentes e curiosos, viçosos e ao som da mente, reinos onde tudo pode acontecer, sendo eu súbdito e rei, monarca absoluto de mim, eu autentico mestre/Sensei.
A derrota da subtileza será das tristezas mais tristes e vis, mais aguda e estranha em mil e uma formas de fracasso áspero, ácido e agressivo, aquele que mais assusta e se perpetua, desapropria e aprofunda na pele, os gânglios, os cabelos, as meninges do cérebro.
A banalidade é benevolente, uma mentira bondosa tal como como o obelisco a um soldado desconhecido e morto, não deve ser cultivada nem regada de forma a brotarem rebentos jovens, assim como dois noivos em pé, juvenis, virgens de valores, viris, parados, separados, transparentes para todo o sempre, à porta do registo civil, ao sábado, ligados pelo umbigo e no simbolismo do altar vago, sem se aproximarem um do outro, nem pelo significado do sim matrimonial, bondoso, caridoso e monótono como tudo que passa sem passar, e não passa de uma ideia falsa de dualidades e bom nome, linhagem, justos irmãos e gémeos até que a morte os separe da vida, existir só ?, impossível e a possibilidade é ficarmos quietos, parados, banais e impotentes, cansados para mudar de lugar, casados de iguais sensações, feitas de canseiras vulgares e opiniões semelhantes, iguais em tudo e também no formato do sal das lágrimas dos dois, parados à porta do tribunal, sentados como sempre.
O meu futuro pessoal é certamente uma incógnita “Zen”, um lugar, uma história em que xis é menor que y e o menos desconhecido dos vectores será realmente o z-do final, um inútil zero. Sou o mais real dos meus sonhos quando me sonho, embora não tenha direito real a uma vida que suponho ser real, sem realmente a saber verdade ou imaginária, esta que possuo, mesquinha, pequenina de um zéfiro mensageiro, placebo sem voz nem percolo, filtro, protocolo ou alçapão, ainda assim considero-me consciente, por dois e “ao-vivo” por dentro, por fora não sou eu que sinto mas ainda um outro …
Joel Matos ( 18 Fevereiro 2021)
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476
Deixemos descer à vala, o corpo que em vão nos deram

Deixemos descer à vala,
O corpo que nos deram,
Deixai-o ir, com as coisas
Que se quebram, reles, usuais
E os argumentos enterram-se,
Deixai-me sombrio, morrer na terra,
Como é natural, numa concha
Onde a areia se infiltra, na campa
Se entranha, velada estranha,
Igual toda a espécie humana,
Deixem-me descer comum à vala,
Ridículo, mesquinho, profano,
Infra-humano sem futuro,
Falso Profeta, obscuro e cigano
Réu d’minha própria fama,
Como manda a lei e a norma
Nada é nosso, nem o corpo,
Mas tem de haver alma,
O corpo é uma montra,
Fixo-me a ver se o vejo,
Fico-me por tudo isso, cinza
O que não tenho, o que era físico
Grotesco mundano, insignificante
Cor de sangue, excepto
O que não nos deram,
Me revela um absurdo que não sei explicar,
E uma maneira especial, invertida de
Mágoa, mudas criaturas me velam,
Ilógicas janelas estendem-se em silêncio
Sobre campos, enterrados
Órgãos humanos, fálicos olhos, órfãos
De mãe e pai, naturais os sonhos,
A razão e o conhecimento, o instinto
Não morrem, de modo algum se enterram,
Deixem meu corpo descer à vala, comum
Como os simples, donde jamais me erguerei
Em vão, de novo …
Jorge Santos (03 Fevereiro 2021)
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418
A desconstrução

A desconstrução
Deitemos por terra
O que nos fere, a mão
E o que nos ferra nos pulsos
E derrota, a miséria devota,
O singelo e o ignoto,
O endémico desalento,
O tempo é uma goiva, tábua rasa,
Desbasta e cinzela,
A Ingratidão alimenta
Esta sensibilidade hemorrágica, fera
E insana, assim a embriaguez
A insincera fama
É uma fábula e uma redoma
Em vidro, a savana
Do tigre, o perigo do ter e haver
Perdido o horizonte, fauna
O que persigo, me persegue sem eu ver
No mato e “o por matar”,
O predador e a presa,
A respeito da vitória,
Prefiro a derrota, tem mais beleza
Assim como no outono, as flores
Segundo os loucos, não me faz horror
A viúva realidade, suprema
A avidez extrema, a honra
Da arena e o ardor do sacrifício,
A dor, o crucifixo
Inútil, o cinismo cinzento
Da corda, a trama da veste,
O ardor do momento, o suicídio
Da borboleta-monarca no inverno
Quando chove, forte e sério, feio
O arrabalde, mordaz misticismo,
Nos sonhos dos outros,
Abstémios, paranoicos,
Secundários actores,
Partilhando impressões idênticas entre eles,
Tal e qual no parto, a ausência da dor,
Eu sou a frente de combate,
Do tombadilho do contramestre-
-À proa, o guerreiro da antiga Goa,
A má-fama, o infortúnio do escravo,
A essência vassala da Sulamita do Rei Zenão,
O Vândalo das opiniões,
O cego de Bratislava,
Antuérpia e a desconstrução,
O deitar por terra, a existência eterna,
o vogal e vulgar não…
Jorge Santos (04 Fevereiro 2021)
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474
Os Dias Nossos do Isolamento
Os Dias Nossos do Isolamento
Ainda desperto da noite mal dormida a pensar ser engano, um mau sonho ou a encenação brutal e global de uma série de horror da Netflix, “Walking Dead” ou outra bastante pior. Cada dia que acaba é mais e mais difícil, o suportar deste isolamento purgativo, de purgatório e acima de tudo o futuro, a incerteza, a falta de progresso e de promessa no que pode ainda estar para vir e virá a acontecer futuramente, se haverá e há de com certeza haver, um terceiro e quarto recolher obrigatários, aprendemos paulatinamente que tudo pode agravar-se, a ser pior do que já é, do que já foi.
Sou um rebelde por natureza, cultivei e sempre tive uma certeza, algures moldada na revolução de abril, suponho genética a minha rebeldia e insubordinação contra um sistema opressor, que era um facto genérico, teria, a meio da minha incomum vida, um inimigo comum a todos, maligno e contra o qual iria lutar sem tréguas. Para mim, combater o déspota, o fascista, fazia parte dos meus sonhos de criança e adolescente e eu dei, fui dando corpo a esse espírito rebelde e romântico dos Partisans, senti que iria lutar e lutaria pela pátria, pela liberdade se fizesse falta, faria amor barricado atrás das trincheiras, nos tijolos empilhados nas praças, desta ou de outras repúblicas, subiria audaz um estrado improvisado, às costas, nos ombros de outros camaradas e gritaria vitória, vitória ou morte. Sempre me pensei um Hemingway vindouro, nomeado, “pulitzer” do jornalismo de guerra, um revolucionário.
Nada disso ! nas idas ao supermercado sossego e sonego a minha agonia de anarquista triste, não vitorioso, um Trotsky não violento, afeiçoei-me ao rebanho da porta, atrás das grades e aguardo, como que unido a uma manjedoura, respondo à ração diária de alimento ungido por um sacerdote do destino, com uma mão na glande e outra na grade de segurança que me separa do alimento diário, do galinheiro e das galinhas, não penso muito e sujeito-me, que é o que abranda o desconforto do confinamento obrigatório, à comida, à subida do nível de diabetes, o colesterol e a tensão arterial, a falta de vontade de viver, de fazer exercício físico, de correr, à má qualidade da fruta e dos legumes que o meu bolso ainda aguenta, mas logo penso em todos aqueles que vivem nas cidades superpovoadas, em pequenos apartamentos, famílias inteiras, numerosas, partilhando uma sala de estar minimalista, têm de trabalhar “on line”, os dois sem vontade para isso ou para mostrarem algo que não seja indiferença e desamor numa relação tensa, cuidar de uma ou das várias crianças, pequenas e sempre pedindo por atenção ou a estudar e mais o gato e o cão ou cães rosnando, rogando por não sair fora de portas, cansados da voltinha diária, aborrecida e em redor do bairro, da trela presa, do açaime e da máscara de tristeza do dono por muito que ele sonhasse sorrir para a vizinha noutros tempos jeitosa, talvez até a anarquista que faria amor na trincheira, no meio da praça, outrora publica, junto aos fuzis, da revolução armada, aos barris, na barricada dos insurgentes e da granada.
A saturação do ar e das relações familiares, a promiscuidade, faz dos domicílios lugares ainda mais insalubres, tóxicos até, o inverno não atenua esse sofrimento de segunda e possivelmente terceira e quarta vaga, estarmos isolados por meses em moldes de cimento armado, moldados na nossa Augusta angústia, em quadrados e quartos brancos, a pouca luz dos dias propicia a melancolia e a tristeza, um modelo constante, predatório, pausado, sempre igual, de semanas e meses, de horas e minutos, os segundos entrando como farpas na nossa pele, dilacerando a autoestima de quem está impedido, sem poder, sem o deixarem ir ao trabalho e laborar, produzir, ganhar o sustento dele e da família e neste momento, sem conhecer o futuro, o incerto, a incerteza de como pagar as contas do supermercado, a factura da luz, da água, os detergentes, a conta do aquecimento e as propinas da faculdade dos filhos, o arrendamento da casa e de todas as outras primeiras, segundas e terceiras necessidades, para as quais não há, nem jamais haverá perdão nem confinamento, nem volta a dar por mais voltas que à sala eu dê, no dia a dia do nosso constante, severo isolamento profilático.
“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, “livrai-nos das nossas ofensas”, são falácia pré-fabricada, massa mal amassada e o pomo ou a maçã dos nossos pecados, criação versus discórdia, ninguém dá nada a ninguém, nem as mãos, nem a igreja é composta por santos, apenas manhosos pecadores, não assumidos aos sábados e domingos, dias de mercado de gado e até as opiniões são “à vontade do freguês ou a retalho”.
Se bem me lembro, sonhava-me um futuro Hemingway nomeado “pulitzer” do jornalismo de guerra, ou antes ainda, quando me imaginava graduado em revolucionário, tinha opiniões e aspirações tantas e diversas que não me conformo agora, não me ajusto de forma alguma, com a apatia pancreática e recente, talvez sinonimo de alguma velhice, esgotado nesta virulenta, violenta e vexatória forma de recolhimento compulsivo, predatória dos instintos mais básicos de sobrevivência, aliado ao ressurgimento de infames nacionalismos inflamados, movimentos retrógrados, regurgitados dos infernos e que advogam uma politização bastarda, descabida de uma pandemia, ignorando milhares, mesmo milhares de milhões de mortes, apenas para fruírem de algum destaque, de um panfleteiro dogma, semelhante ao “terrapalmismo” que nas redes sociais se espalham, procriam como ratos, espalham-se como a peste, por uma população semianalfabeta, carente de expressão critica, que se vê de um momento para o outro e a si mesma como protagonista e narrador, repentinamente na pele de “influencer” anónima, sem rosto, “you tubers”, alguns ainda imberbes crianças, com todo o terrível ónus desta nova estripe mental numa camada alarmada, deficiente de ideais e cultura, assustada, imbecil, a recita básica, o terreno próspero, fértil para uma temida, concomitante pandemia nacionalista, bera, perigosa que se aproxima.
Os dias do nosso entediamento… (..)
Jorge Santos (31 Janeiro 2021)
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425
Gostar de estar vivo, dói!

Gostar de estar vivo, dói!
Para quem possua crença,
Assim como treze mais dois,
Ser dezasseis, talvez seja,
Penso eu, uma regra a dor,
A real, não a supérflua,
O estar vivo, versus um
Existir fictício, nominal,
Abstrato, o pânico do tísico
Viver sem sofrimento, morte
É distinto de medo, atrás
Da emoção, qualquer certeza
É delas, a fé é imortal mas
Acaba, quando não se sacia
O predador, a perda é plural,
O ideal é viver, de resto a pressa
É apenas ter vivido um xamã,
Revelando enfim um monge,
Embora sem credo, religião,
A questão é alcançar a uva chã,
Do escanção o mérito da prova,
A vindima tem época certa,
E o parto sem dor não jaz,
Perpetua a sensação terna,
Quanto as dores do parto,
Assim a vida, quando não dói,
Não vale a pena, contudo
Tem uma hora a meio, um véu,
Em que o destino é harmónico,
Bastardo em si e a um passo
De assustar o medo, a sevícia,
Evocando, de estar vivo a espera,
O cansaço e o abster da liça, a honra,
O distanciamento do muro, o asfalto,
O salvamento dum outro modo,
Não posso afiançar genuíno,
O louro ou o deslumbre do velho,
Podre o povo, a justiça, o gostar
De estar vivo dói e muitíssimo.
Jorge Santos (29 Janeiro 2021)
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442
Meus sonhos são de acordo ao sonhado,
Meus sonhos são “de acordo”, ao sonhado,
Deixei de ser tudo o que queria vir a ser, sonhando,
Fui sempre o que tentava e acontecia, o que
Fazia, o afoito, o herói para quem tudo é fácil,
Faltou-me apenas aquilo que esperava sonhar,
Fazer e o que não farei, nem está feito, sonhados,
Meus sonhos são rigorosamente de acordo o que o
Sonhado traz consigo, o que conduziu
Aos sonhos que tive, deixei de ter o sonho rico,
Expectável, o apetecível futuro dum monarca
Passado, na actualidade, sincero, real,
Preso a mim como um trunfo, um triunfo,
O objectivo principal da minha vida, foi
Sempre, não é de agora, o de alinhar
Hierarquicamente os acontecimentos,
Ao lado das ambições, foi aí que entendi
Que a dimensão não era a mesma, faltava
Tempo e a demora, a harmonia também
Tem peso, asa, assim como o recordar ter efeito,
Em proporções evangélica, na inclinação da
Cabeça, é um acto de humildade expresso,
Face ao que seria lembrar o que viria a ser
Se fosse feito anteontem manhã, ind’agora
Cedo, assim como o perdurar do que sinto
Face ao que tento vir a sentir faz tempo,
Por mim eu deveria ser, não o acto, mas o desejo,
O actor absoluto e não o contrapeso da emoção,
O palco do que terei de vir a ser, o risco expressivo
Produz em mim um sentimento dúctil, fóssil,
Muito próximo do acontecido que queria
Viesse a acontecer, se tivesse espetado os
Ombros para a frente do corpo e por cima
Do mesmo, fazia-me sentir que queria eu ser
“De acordo” o sonhado, sonhando eu acordo,
Acordado sonho-me dormindo.
Joel Matos (27 Janeiro 2021)
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434
Deixai-vos descer à vala,

Deixai-vos descer à vala,
Deixem descer à vala,
O corpo que vos deram,
Deixai-vos cair, como as coisas
Que se partem, reles, usuais
E os argumentos enterram-se,
Deixai-vos senhorios, morrer na terra,
Como é natural, numa concha
Onde a areia se infiltra, na campa
Se entranha, velada estranha,
Igual toda a espécie humana,
Deixem-se descer comuns à vala,
Ridículos, mesquinhos, profanos,
Infra-humanos sem futuro,
Falsos Profetas, obscuros e ciganos,
Réus d’sua própria fama,
Como manda lei, norma,
Nada é vosso, nem o corpo,
Mas tem de haver alma,
O corpo é uma montra,
Fixo-me a ver se a vejo,
Fico-me por tudo isso, cinza
O que não tenho, o que era físico
Grotesco mundano, insignificante
Cor de sangue, excepto
O que não vos deram,
Revela o absurdo e o que não se explica,
E uma maneira especial, invertida de
Mágoa, mudas criaturas se velam,
Ilógicas janelas estendem-se em silêncio
Sobre campos, enterrados
Órgãos humanos, fálicos olhos, órfãos
De mãe e pai, universais os sonhos,
A razão e o conhecimento, o instinto
Não morrem, de modo algum se enterram,
Deixem descer à vala o corpo, comum
Simples, profano, refugo, peste…
Joel Matos ( 3 Fevereiro 2021)
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448
Apologia das coisas bizarras

Apologia das coisas bizarras
Devo um afável agradecimento a Dali e ao melómano amigo que me ajuda e obriga a repensar esta coisa magnífica, melomaníaca e dramática, que é escrever militantes bizarrices e compor toponímias em mapas gerais e cadastrais já conhecidos e mapeados interiormente por outros, para parecerem agora e doravante paisagens líquidas e diferentes, anómalas das normais apesar de geradas de uma mesma geratriz exponencial, eu mesmo .
Iniciei hoje, agora mesmo às dez da manhã em ponto, depois de ter ingerido o habitual, trivial e frugal pequeno almoço composto apenas de cereais, leite e mel, abri o computador, na internet, um estratégico tutorial de aulas experimentais sobre escrita criativa, privilegiei a inspiração, aliás o capítulo primeiro, o número “uno”, antes do “brainstorming” dos detalhes, da minúcia, a magia do inusitado das situações excêntricas que podem incutir, induzir mudança numa receita tradicional e alterar o gosto do insonso caldo verde comum que é o meu registo formatado, numa tentativa “gourmet” de fazer sorvete de cereja e banana, em vez da habitual e costumeira “Sericaia” conventual do Alentejo com ameixa no topo e doce ou adjetivação em excesso.
Nunca fui um natural arquiteto das palavras, inato como gostaria de ser, ou ter sido, como alguns outros, aspiro e respiro de uma intuição acelerada e de uma maneira bizarra, escrevo aquilo que não se pode comparar em competência e perfeição, a um tocador de harpa celestial, imortal como um Armstrong daqueles que me purificam e inspiram a ser como eles foram, nas palavras que nunca haverei de dizer ou proferir, digo-o por sua justiça e não com justificada justificação.
Geralmente surgem-me deles ideias jovens, equilibradas, sugerem-me muitas vezes coisas novas, ideias extravagantes, como quando estou correndo ou tomando banho, imprevistas e do nada, ocorrem-me por exemplo num fragmento de céu, num movimento de ramos, nalguma qualquer árvore da floresta, devolvendo ao vento a plenitude, nos gestos mais simples que a natureza consegue traduzir e produzir em nós, algo mais que simples sentimentos, um replicar de sinos, no meu caso , na minha pele , transformo-os em falas, flutuo, argumento com a própria consciência das flautas o facto e esqueço, o cansaço é uma forma de substancia benigna que me acompanha quando penso, no meio do esforço, da corrida no final do dia, fala mais forte quando todos os outros sentidos emudecem no corpo, ausentam-se deixando-me apenas algumas qualidades de ser humano funcional, assim como uma extensão da alma, uma antena ao deus pã, que não rejeita a captação dos sons mais estranhos, da plastia mais diversa na copa das arvores, na clareira das fábulas ou na água morna escorrendo pelo corpo quando tomo duche, nas extremidades nervosas do corpo, nos dedos das mãos, na revibração do planeta, quando quase morro de hipoxia e tento pôr em ordem as lembranças do ouvido, os sons da floresta, a plastia dos momentos a sós comigo mesmo.
Um amigo de alguma data, nestas coisa de escrita, afirma num magnífico texto, que adora genuinamente todos aqueles suficientemente pacientes para o lerem ainda, estou eu inda em dívida para com ele e com outros, pois o meu contributo é escasso e todavia mais fraco, frágil e eclipsado por grande parte ou na totalidade por eles mesmos, os que leio e donde retiro os “movimentos” e momentos com que me “saro” aos poucos, de qualquer barulho externo, qualquer “encalho”, de forma a parecer enigmático, geométrico e equilibrado, magnífico ou apenas atraente, diferente e não uma cópia condenada, condensada e apenas, daqueles que alcançam como eles, nas estrelas, o brilho, a subtileza altruísta das coisas belas, etéreas, singulares e plenas neste, “blue marble, dwarf planet Earth ”.
Jamais pretendi ser no que digo, o fidalgo, o debutante embrião, nem a aproximação ao irrepreensível, ao real, mais o abstrato abstracionista, o observacionista grisalho, o absoluto remate de um dos arredores mais sinápticos das artes, uma gargalhada simpática do homem da lua, não ocupa espaço terreno nem oculta totalmente o astro, vibram a zona da língua, os beiços, próximos à minha boca e é assim que me exprimo, quase como um bocejo em conclusão do que digo, um gracejo, um boneco animado o que é suposto eu afirmar, contruir por vocábulos sem encarte, afinco ou volúpia, arte de abolicionista célico, sensível à verdade absoluta do belo e à que importa.
Há a insinuada sensação de não existimos de verdade, nem termos a personalidade que pensamos e com que nascemos, quando decorre o acto ímpio e criativo e é suposto continuarmos a ter, possuir, e é lactente, não sendo esquizofrenia nem febre, é de facto consciência eólica na extensão periférica do espírito, nas pás dos moinhos de vento, nós os “Don Quijotes” investindo das planícies em riste, de lança e espada, o Dali de Fibonacci.
O nosso trono é o mundo, estou sentado no trono do mundo, não há dúvida, quando repensamos a natureza da esfera terrestre, é um universo completo, um ovo multicomplexo, novo e excêntrico que geramos, contruímos a partir deste tão antigo, arcaico à superfície, lugar que a luz toca, renova, quanto internamente, onde os mistérios são tão ocultos da realidade quanto que para quem ouve, os profetas videntes, aqueles que nossa voz roça, passa por farol, a luz do impulso, serve a nossa insurgente alma para guiar ao que importa, o espírito das gentes, ao frémito, ao toque nítido, absoluto, quem sabe à maior aspiração terrena, sermos todos realmente profetas do mundo real, reis de tudo quanto existe e do esforço para obter e ganhar, seja a arte absoluta de que falo, absolutamente arte pura, a que fala de nós para nós outros e o que importa, a apologia das coisas vivas e das bizarras coisas da vida eterna, senão houver outra mais longa que ela, aqui ou na Terra das coisas severas, o tempo.
Jorge Santos (28 Janeiro 2021)
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450
Na terra onde ninguém me cala

Na terra onde ninguém me cala
Na terra onde ninguém se fala,
Difícil saber se adeus é até
Logo, na terra onde ninguém
Se cala, nada é maior, eterno
Quanto a fala e a fama, o “moto”,
A chama, o amanhã e o saldo,
O sal dos sonhos complexos, ou seja,
Poder inspirar quem me inspira,
Livre de ónus ou teias, palas, moreias,
Na terra onde ninguém me cala,
Sou eu, e sou de todos um pouco,
Dos mais feios aos mais loucos,
Dos louros aos listados nas mamas,
Dos analfabetos silábicos, aos sem
Lábios, mas que falam como gigantes,
Falo dos extravagantes eu, dos tolos,
Dos amantes cibernéticos, sou estrábico
Como todos um pouco, e um livro em branco,
Imaculado, pronto a sentir algo em tudo,
O usado como novo, o amarrotado
De maneira diferente, o olhar doutro,
O que não me mente, nem “se rala”, se
É verídico ou verniz de unhas sintético,
Para agradar a um cego dos dedos,
Sendo oficial dos imprudentes, sou
Por dentro, um peixe seco, desses que
Passam a vida de azul a verde celeste,
Sem terem plo meio outras cores,
Cinzento por exemplo, amarelo veneno,
Gema d’ovo, cor de chapéu de palha fofo,
Na sala aonde alguém me “ralha”,
Não me explico pelo comum da fala,
Alastro-me como fogo em palha seca,
“Puxo” pela navalha e viro senhor
Absoluto do que afirmo, conheço-me
Bem, falo o que digo, dom de ofídio,
Iniciático segundo a visão e os crentes.
Consola-me a altura que tenho, mesmo
Que não seja célebre, tenho a alma cheia
De sensações pungentes e diferentes,
Capaz de sentir novas e ter distintas
Opiniões, segundo a hora o dia e o mês,
Não me corrompeu ainda o ind’agora,
Uma febre ligeira, chamemos-lhe
Covardia, um estágio fora da alma,
E os sentimentos que não tememos,
A apologia de um lugar diferente, digo:
-Lá fora as Carpas mais me parecem
Lírios longitudinais, mas presentes,
Legítimos como tudo o mais, Chernes,
Percas da minha rua, rua de quem
Se perdeu algum dia, não eu, pois
Eu sou dos que se não perdem, assim
Sendo, torna-se difícil dizer, – Adeus
E até breve…
Jorge Santos (22 Janeiro 2021)
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Esquema gráfico para não sobreviver à morte …
Esquema gráfico para não sobreviver à morte …
Por mim, e de minha parte, dispenso-me de comparecer perante a morte tão cedo e em tão solitário lugar de culto, de parecer bem no dia a dia, no concavo do espelho enquanto vivo e me vejo e do acontecer matemático, geriátrico-sistémico, cronológico-depurado complexo, pareço-me e comungo do comum entardecer dos Generais da Roma antiga, dos Reis do Egipto, mas sou apenas um comum acontecimento já acontecido, falo do que ocorreu anteriormente e se sobreviver incompleto e segmento, parcialmente, já não necessitarei de levitar e inventar o da voz demasiado grave, de voar levantado ou levantar a fala até mais não, até não poder mais, não precisarei de precisar mesmo, nem mais de mim, sorrio sorridente – sorrirei ao de leve, senhor do isolamento e da distância, da duração esclarecida do meu tempo presente, inebriar-me-ei de poesia, essa poesia inerente, pressentida, valente, densa e à flor da pele, que só dói se estivermos dentro dela e perto, bem perto e em pelo, o quanto baste para ser uno com a minha dolorosa e sentida forma de suicídio terrestre, tal a inverdade que me rege e pratico.
A tentadora validade gestacional do poeta, só é válida, só e apenas se constrói de uma vez em todas as possíveis e somente aos poucos e a poucos se congrega e se consagra, do desassossego na fala, a tantas outras razões nos cabelos no “pão-de-rala”, por tantas outras ocasiões razoáveis, quando nos mostramos nós mesmos falhos, folhas de lógica sem validade, fora de prazo em mil e um ou mais socalcos soalheiros e vitalícios, vinhateiros da ira em época de colheita, não depois, durante as chuvas e os aluviões, perante as secas, nem antes de reapresentar em lugar algum, cestos cientes, cheios de dúvidas, nessa altura sou eu mesmo e um mais, mágicos agnósticos e brilhantes como a geada, ideólogos da cevada, puro malte quanto a agua irradia de bom grado, o brilho de um regato cristalino, a montanha por descobrir, encoberta de um lado, assombrada por um negro lago, profundo, onde não medra nem fogo, nem um fungo nem pasto, nem uma perca do nilo, um rodovalho, um robalo. Por mim, sou o analgésico mirabolante, a miragem de qualquer substância a mais e de mim mesmo antropólogo crédito, amais valia não passa de algo análogo a isso, depois impregno-me de uma mistura mística e pessoal de ilusão estética-profana profunda, falsamente endémica e monogâmica. Pois sim, o destino não dura para sempre, a submissão ao tempo que sobra, é uma inglória lápide negra e não unicamente ou exclusivamente uma prisão sepultada, abducente da lama, da areia, na praia do desconhecimento descontente, gradual e gráfico. Por mim, sinto, que a diáspora do arredondamento dos sentidos, a metáfora do nascimento, foi produzida unicamente para mim, a pensar em mim próprio e feita do mesmo e grave tecido de que eu fui e sou composto, produzido num tear sem linha nem fio apropriado, porque eu nasci descalibrado, desarredondado, arremedando os outros e morri quando encetei, no momento imediato, fatídico, fálico na altura certa em que comecei a copiar-me, iniciei-a transcrição, a imitação gráfica de mim próprio, o liberto e a permissão são de minha única autoria, embora não sejam plenamente, e o conflito frásico, hemorrágico, a antropofagia fraseológica das minhas próprias partes moles, mais discretas e nobres, hemorroidas de escritor condenado por delito comum, à morte por sossego e por sufrágio universal dentro dele mesmo, o análogo, não dos outros como parceria ser normal e servir de exemplo para “o fora de mim” um diferente lugar do quiosque que ocupo dentro de mim próprio e presentemente, fora da atenção do corpo, mais perfeito e prodigo que o “eu” ao cubo, num emergente esmiúdo de mim. Por fim o romance, a novela intensa, essa não teria argumento, caroço ou enredo nem ação, passar-se-ia apenas na minha cabeça de maçã, na mente de broca, ou na de quem a escrevesse melhor que eu e a intriga seria entre o espírito e a consciência, a intuição consistente e o Arsénio, O “LUPIN”, o enigma que liga os personagens como figuras reais com o escritor fictício , o criador figurante, galã de conto de fadas, das fábulas, ele próprio um personagem secundário, operando débeis canelas, entranhas e cabelos disfarçado de outrem, intuitivo na tarefa de fazer cumprir escrupulosamente um guião e o maior sabedor do conteúdo geral e integral da peça e do meio metro de palco, o sábio do labirinto gráfico e ancestral e o que sonhou ou o que conhece a saída para o outro lado do cosmos, da Galáxia, do mundo cabal e global.
A primeira edição da minha vida será por fim escrita, descolorida e desenvolvida com a ideia de não ser entendida nem por um qualquer psicótico ser de vista turva, com a ilegibilidade rara do que me é mais caro, sem cura, remédio fracassado de óxido de mercúrio e reagente mais calado que o silêncio em minhas veias colados sob pele fina, mas de que vale uma biografia, uma vida sem historia de medo em que tudo pode ser dito e ser tido como superficial porque normal é humano, é o senso comum e não de mim só, o labirinto que me habita, sonho é geral e genérico como a febre do sol e o paracetamol ou o fim do ano em centos de diferentes cidades do mundo mas comum e expressivo para quase todos afinal. Por mim, e de minha parte, dispenso-me de parecer bem, carismático ou altruísta, mundano comigo ou com qualquer parte do meu corpo, incluindo as partes moles da barriga e nos gânglios infectos (…)
Joel Matos ( 18 Janeiro 2021)
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Comentários (4)
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É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
obrigado a todos que me leram
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
muito intenso seus poemas, adorei.