Lista de Poemas

Sinto saudade do que não sou








Sinto saudade do que não sou,

O que vês é nada, esqueci
O pensar como fosse palha
Ao vento, como vês deixei

De ser outro pra tornar ao nada
Que sempre fui, esqueci por
Momentos que o nada basta
E sempre fui e serei o quanto

Sinto saudade de quem sou
Normalmente, um nada eu todo
Um todo-nada eu, nem mais
Nem menos que um morto-vivo

Sempre, o plural de nada ou
A definição nítida de um vazio qualquer,
Sem expressão, quanto à minha vista
Lei ou justiça, quem dera não ser

Nem formar sombra na rua
Em redor do rosto banal, estúpido
Embrulho de um insatisfeito,
Sinto saudade da realidade

Construída a brincar, do brilhar
Dos pastos lá fora quando há lua,
Para quê pensar se a forma é humana
Que o espelho tem, vulgar

Quanto a justiça e a lei, importância
Nenhuma pois ainda não sou
Ideia absoluta baseada no que creio
Ser, sou a noção que alguém teve d'mim

Outrora e antes e em mim mora rente,
E eu esse sou, sinto.

Jorge Santos (06/2017)
HTTP://namastibetpoems.blogspot.com
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Sem estar, s’tou …






Sem es'tar es'tou,


Eis quanto e comum
Eu sou, ao ponto de ser
Peculiar em mim o ridículo,

Sem estar estou, apenas
Cansado de estar cansado,
Sorrindo sem estar contente,

Sem estar s'tou noutro lado,
Diferente e igual, sem estar
Me vou sentando entre gente,

Sinto-me pensar sem querer,
Perdido sem me perder, a ideia
De me perder é um desejo,

Um compromisso que assumo,
Tal como sonho o espaço
Sem o ver, sem í'star, sem o ter

Como quem conheço desd'início,
Apenas plo sorriso
Que podia ser d'alegria ou não ser,

Afinal que sorrir'alma tem,
Apenas cansaço eterno,
Minha ilusão terrena, efémera,

Nem outra coisa é preciosa
Mais pra mim qu'esse alguém,
Nesta ausência total de gente,

Eis quanto e comum
Eu sou neste triste circo,
Que tão pouco vida ou fera tem,

Procurando o que não encontro
Sonhando o que não existe,
Sorrindo sem vontade a tud'isto

E a quem está cerca, sem estar,
Apenas um esquivo e disto, pretenso,
Ridículo, "snob".

Eis quanto e comum
Eu sou, tal qual o ar tíbio
Em que, pra sempre me vou ...

Jorge Santos (07/2017)
HTTP://namastibetpoems.blogspot.com
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Te vejo a duas vozes …



Te vejo com duas nozes castanhas
Entre mim e os cabelos e nem mudaria na face
O ciúme que sinto d'entre o nariz e os pelos,
Dizer o contrário não será ou seria sincero,
Te vejo como duas nozes e coro ao dizê-lo,

Mesmo que fique entre mim e o cabelo,
Te beijo eu, sincero te vejo como duas nozes
Entre cento e uma, a outra sou eu, belo
Quanto a figura de Euclides, gloriosa
Que nem o Restelo à partida das caravelas

Em Janeiro, assim eu penetre no que
Penso ser meu íntimo profundo,
Te vejo como duas nozes, oxalá pudessem ser em
Veludo quente, tanto o que sinto e sonho
Sentir ou tento, te revejo a duas vozes,

Oro que seja verdadeiro esse místico sentido
De ver e ao mesmo tempo ouvir, vinda
De outras dimensões a magia espiritual
Que me guia como que por encanto,
Mesmo que fique entre mim e o cabelo pouco,

Te vejo com duas nozes castanhas.

Joel Matos (06/2017)
http://joel-matos.blogspot.com


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Pelo sonho vamos






Pelo sonho vamos


Pelo sonho vamos,
Tal é ter alma, não
Cá dentro, adiante
De mim e segui-la

Sem ela e eu saber,
Pelo sonho vamos,
Se não voltarmos
O rosto ao que foi

-Partiu, me deixou,
Não adianta seguir
O que a alma não
Sente ou não sou

Eu desse mundo,
-Passou, sonhar é
O que quero mas
Só consigo parte,

O resto do tempo,
Existo presente,
É o que sou vivo,
Não sei se daqui

Me perdi, não sei
Se quero ter esta
Alma tão cá dentro,
Em silencio, não sei

Se fui eu, ou serei
Meu maior medo
Ao olhar um mundo,
Que não é mesmo

Nem me reconhece,
Tampouco como seu...

Joel Matos (07/2017)
http://joel-matos.blogspot.com
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voltam não

Quantos adesivos cobrem o nosso silêncio,

Quantos sóis-postos cabem num coração desocupado,

Quanta violência de minha boca já saiu,

Quantos anéis os dedos retiram em segredo,

 

Às vezes estremeço, perante os olhos mudos,

Fúteis, de quem parece vivo sem ser,

Ponho-me a acariciar o que me resta de gente,

Nos momentos a sós com os céus,

 

Conto quantos gestos por doar,

Nos rostos tristes de quem passa sem voltar,

Quantos olhares não se trocam,

Com medo de se dar a noss'alma toda,

 

Parece às vezes, que Deus me deu a outra face,

Pra habitar, por ter ruído o mundo,

Nas faces mudas em minha roda,

Não tendo outra forma de por mim mostrar desprezo,

 

Nem sei quantos passos perdi de dar em volta,

No santuário dos pedintes,

Quantos penitentes passos na realidade dei,

Inconsciente do caminho que tomarei de volta,

 

Às vezes, no escuro, tomo-me por um outro,

Que em minha alma existe, quase extinto,

Do qual esqueci o nome e o resto,

E sonho o sonho que este sonhar me deixa,

 

Somente…

Eu e o meu coração cheio de coisas esquecidas,

Contamos os dias, os passos e os caminhos feitos,

Que não voltam...voltam não.

 

Joel Matos (02/2014)

http://namastibetpoems.blogspot.com

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Quando a morte vier







Quando a morte vier dos céus,
Roubar os sonhos meus,
Quero estar por perto,
Pra apontar o destino certo,
Aos sonhos que nem sonhei.
Céus que nem sonhos têm,
Sonham sonhos, como quem os tem,
Não importa se seus, ou se eu-lhos-dei,
Pois, quando a morte vier,
Impressa em letra d'Imprensa,
Toda a gente poderá ver,
Os nublados véus, da minha pouca clareza.
Os céus, são banhados de tédio,
E as letras mal fixadas,
Morrem cedo d'silêncio,
Com as estrelas a elas pregadas.
Quando a morte vier dos céus,
Quero ser pregado, (eu sim) p' los dedos dos pés,
A uma pergunta capaz,
De ser respondida por um vulgar deus,
Desses...mudos quando pregados na cruz..
Quando a morte vier,
Trocarei os sonhos, por doutros
Sem uso, d'algum simples coveiro,
Não me sentirei de certeza vaidoso,
Mas jamais algum deus,
Hasteará nos céus, meus sonhos, pra seu
Único e exclusivo pouso...
Joel Matos (01/2014)

http://namastibetpoems.blogspot.com

(A minha mãe língua, mora no vento forte e só a sorte a amarra... e a morte... )

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Curtos dedos

Amarro-me eu, pl's beiços
E a mim mesmo, plas cordas que teço,
Não faz mal que sejam pequenas ou finas,
Assim tenho os mesmos lugares
No mundo onde me perder
E o fôlego todo,
Pra tecer coisas mais duráveis,
Qu'estes curtos dedos.

Sei que preciso de Primaveras em meu colar,
E do calor do Verão pra derreter o gelo,
No olhar e no beiços aramados,
Que resistem e me prendem a estas paredes
De cal e gesso, brancas como neve de gelo,
Duras do arame em estuque...


Jorge Santos (01/2014)

1 045

Poeta acerca...

Poeta acerca...

Pra’lém do que há, o mais certo é não haver
Mais nada a juntar ao que já existe…
Ideia absurda - a realidade ser equidistante,
Da visão dum louco, quanto do meu ver.

Em encontros casuais com a realidade,
Parecemos formar um par perfeito,
Funcional, diria até, um casal de respeito,
Que acaba discutindo como qualquer outro.

Coloquemos, entre quatro paredes, sem ar,
O quadro a óleo, de uma pintora morta, praticamente famosa…
Continuará abstrato, na anónima estrutura do pretenso lar,
Como uma peça morta, do que se pensa ser- A NATUREZA-

Assim somos, eu e a realidade, descremo-nos,
Mas procuramo-nos mutuamente, nos pensamentos
Um do outro, ansiosos, como tudo enquanto espera.
Apenas não creio que seja efetivamente verdadeira

Ou quem diz ser, estando eu um passo distante dela.
Pra’lém do que há, haverá sempre, uma versão outra
Do real, escarrapachada nos céus, feita linha ou tela
E um poeta acerca, que no fundo, tudo o resto ignora.


Jorge Santos (01/2013)

http://joel-matos.blogspot.com
1 146

Juro




Ó hora do diabo! Deus do caos,
Entropia, desordem e denúncia,
 -Deixa que me roa nas entranhas,
A inveja e o meu nariz falhado, débil
Pode ser que a purga me alivie

Das fraudes e da raça doutrem
E o meu corpo depois lavrado de ódio
P’la lama p’la imundice, javardo
Armado p’la cobiça, procrie
Coisas belas que estas não, estas não…

Telas falsas que se leem e consomem ocasionais
Como sandes em janelas frias em renúncias
 -Deixa-me fechar nos olhos, o estar bem
E o falso bom agrado de doentias
Falácias crápulas trajadas de besta,

A morrer ao lado desta mesa
Falida do meio dia ás treze...desassossego!
 -Deixa-me na soleira do fundo
Na paragem nua da rocha e da lua
- Deixa-me berrar Confúcio, Alláh…

Ralhar às hostes de Barrabás e nas talas
Do carpinteiro mas atrás do destino justo
 -Juro, confuso… mas juro - hei-de riscar
Os muros das casas, os tramos e estremas
Que separam essas, destas febris entranhas,


JURO...

Joel Matos (02/2014)
http://namastibetpoems.blogspot.com
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Se eu fosse ladrão roubava


Se eu fosse ladrão roubava
O amor a quem não me dá nada
Se eu fosse ladrão roubava
Pão e seria eu que o dava de volta

Se eu fosse ladrão roubava tudo
A quem não dá nem me dá dó
E se fosse pão roubava-o só
Pro dar ao pobre ao lado da porta

Na volta só deixava a tristeza cá
Na beira do mar salgado
Pros tristes deste Condado
Coitados, não morrerem sós.

Morrerem com os olhos
Pregados por pregos ferrugentos
Do sal nas tristezas

Que semearam cá e lá

Jorge Santos
(http://namastibet.blogspot.com
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Comentários (4)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.