José Cassais

José Cassais

n. 1954 BR BR

Nascido em 1954, começou a escrever lá pelos 15 anos, depois de ler alguns livros que sua avó lhe emprestava.

n. 1954-09-07, Pelotas - RS

Perfil
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FOLGADO

O gato da casa,
Estirado no sofá,
Sestica e ronrona,
E tanto se lhe dá:
Está em sua zona.

Só levanta pra comer,
Correr, pular atoa,
Parecente até que voa,
Pássaro sem ser.

Peludo está com tudo:
Esta noite saltar
Ainda espera, sortudo,
Escalando a janela,
Na espreita, trás dela.

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Poemas

84

IMPRESSÃO

Nada mais que duas sombras
Somos.

Duas sombras que se encontram 
No mesmo ponto para formarem
Ali uma impressão mais funda.

Mas, por fim, o que resta?

Só uma lembrança vaga
Nas paredes que nos guardaram.
55

PRESENÇA

Lendo o Salmo noventa tive um vislumbre da glória do Senhor.
Ele habita em luz inacessível, no âmago da escuridão silenciosa;
Para ele o universo entoa sua canção e toda a vastidão do cosmos vibra,
Pulsa em cadências de fantásticas energias.
Há um ritmo de estrelas que se dissolvem num alento final de luz
E emudecem, encerrando em seu ventre um poder tão grandioso
Que não podemos sequer imaginar.
Todas estas harmonias compõem a música na qual ele se deleita;
O universo inteiro é o trono da Sua presença.
O Senhor santifica a imensidão,
Sua doce respiração percorre as alamedas vazias do universo.
Há uma palpitação de amor sustentando a morada das constelações.

Bom seria, ó Deus, navegar em ti,
Sobre as tuas asas mergulhar na escuridão,
Acompanhar um raio de luz prateada no seu périplo em teu reino.
Porém, tu nos contemplas — a obra de tuas mãos!
Observas as nossas imperfeições, e não te agradas do que vês.
Então envias o teu filho, teu único e precioso filho,
Para que habite conosco, em nosso próprio espírito.
E assim, santificados nesta presença, podemos, enfim, ser um contigo.

Posso sentir em meu espírito a palpitação das tuas grandezas;
Posso habitar em teu universo.
Senhor, tu tens suportado a iniquidade dos homens,
Todavia o ruído da transgressão cessará, e a eternidade
E o júbilo infindo permanecerão.
Veremos face a face a tua maravilha. Ó perfeito gozo!
Para sempre o esposo e a esposa na eterna vibração do amor.
59

PERSEVERANÇA

A verdade tem de ser tão simples
Como as estações que vem e vão,
Sem desapontar-nos nem uma vez —
No devido tempo, aqui elas estão.

A verdade tem de ser como a flor
Que se atira na terra ainda semente,
E, contendo em si a futura cor,
No seu tempo desabrocha, não mente.

Não deixemos nunca de buscá-la!
No coração a pedir e com as mãos a bater
Em sua porta, haveremos de encontrá-la.
 
Pois mais fiel e verdadeiro não há
Do que aquele que já nos fez saber:
Pedi, e recebereis; batei, e abrir-se-vos-á.
62

ESPERANÇA 1

Penso, às vezes, que estás próximo de mim,
Que poderias responder-me. Mas, ah!
Por que não escuto a tua voz?
Por que, Senhor, este silêncio indevassável,
Minhas palavras chocando-se contra um alto muro,
E nem ao menos tenho a certeza que me ouves?
Eu sei que tu és um Deus justo, que és único,
E tudo criaste com perfeição.
Acaso haveria algo que não poderias realizar?
Algum obstáculo intransponível para ti,
Uma muralha alta demais, 
Uma pedra demasiadamente pesada,
Ou alguma situação excessivamente complicada,
Que não a tornasses simples e resolvida?

Quem entrará no teu santo templo, Senhor?
Quem habitará com as chamas?
Na grande congregação há júbilo e deleite,
Na comunhão dos teus ungidos.
Fora há trevas, ranger de dentes, choro.
 
Ó Deus, abre para mim esta porta!
Não me recuses o teu Santo Espírito,
Senhor, como me amedrontam os meus pensamentos!
Tal como uma manada de búfalos que não se podem deter
Eles avançam contra a minha consciência, cercam-me,
E só de vê-los aproximando-se eu desfaleço
E perco a esperança.

Perdão, oh Deus,
Pois abandonei o meu Éden.
Não foi apenas uma vez
Que comi do fruto da árvore proibida.
 
(tal conhecimento afasta-nos de ti)

E agora, Senhor, como retornar à pureza original?
Não tenho como voltar, e nem ao menos sei como ir em frente.
Cego, só posso caminhar conduzido pela tua mão.
 
Que bom, então, seria, ó Deus, se repentinamente
Aliviasses o fardo da minha tribulação,
Se enviasses socorro inesperado.
Seria como acordar, saindo das densas trevas de um pesadelo,
Seria tal como foi para Pedro quando,
Liberto da prisão e da morte certa, um anjo conduziu-o,
Sonolento, por entre as portas do cárcere que se abriam
Sem que ninguém as tivesse tocado.
Logo, ele pôde sentir a brisa fria da noite em seu rosto,
E, num instante, a vida invadiu-lhe os sentidos.
 
Eu sei, Senhor, que contigo está a chave para a minha libertação.
Só tu podes abrir as pesadas cadeias
E anular as consequências dos meus erros.
Pois observas cada minuto da minha luta;
Alimentas o transgressor na sua prisão.
 
Repentinamente, uma luz brilhou sobre Pedro,
Quando tudo ao seu redor eram trevas,
E ele caminhou na ruazinha, sob o manto da noite,
E alegrou sobremaneira o coração dos discípulos.
64

CONTEMPLAÇÃO 2

A natureza é hora alegre a mais não poder,
Depois torna-se sensual e convida ao prazer.
Às vezes é triste, mas de uma tristeza bela,
O tipo de tristeza que a gente sente 
Quando toca a orla de uma beleza inefável.
Ou, então, ela nos transforma em místicos contemplativos,
Sentados sobre a erva como folhas caídas,
Sendo acariciados pelo mais leve roçar da aragem
Na dança de huris das folhagens.

Cada novo dia a natureza veste sua mais bela roupa,
Veste de chuva ou sol, cada qual melhor costurada.
Deus disse que o encontraríamos na natureza,
Que ela é obra e testemunho perene de suas mãos.
Cada crepúsculo é insuperável como obra de arte
Que ele compõe utilizando nuvens e céu e sol e vento.

Meditando nessas coisas, e sem querer dar o braço a torcer,
Certos sujeitos que chamam a si mesmos de “cientistas”
Inventaram uma tal Hipótese Gaya. Bah!
Como se a própria terra fosse um deus ou deusa,
Ou como se a ideia fosse nova, não tivessem já os gregos 
Pensado nisso há tanto tempo.

É bom ficar aqui sentado, enquanto posso,
Redescobrindo a mim mesmo como parte desta natureza mutável. 
Foi para este fim que Deus me criou.
Amar a natureza e comungar com ela
Não tem nada a ver com flauta de Pã,
Epicurismo ou sei lá mais o quê!
 
Sócrates diria que a natureza sendo bela
E possuindo-a alguém, por estar em comunhão com ela
De nada mais teria necessidade, 
Pois o Bom e o Belo, que afinal são a mesma coisa, 
Não podem desejar o que não lhes falta.

No entanto, não é possível negar 
A beleza suprema da natureza, 
Nem é solução dizer 
Que ela é intermediária entre o Belo e o Feio. 
Ela é bela simplesmente, em si mesma,
Como cada coisa bela é uma beleza em separado.

E a luz nunca se sacia de luz.
84

ESTRATÉGIA

Poesia não resolve muita coisa.
O coração cultiva a semente da dor
A fim de contemplá-la em flor
Entreaberta.

A semente é indestrutível,
Mas a flor pode ser queimada.
72

LAODICÉIA

Ó Deus! Tua rádio, agora, toca músicas banais,
Celebrando o amor de homem e mulher.

(A oferta se adapta à demanda ou cria a demanda?)

Onde estão os hinos, os hinos de louvor?

Deus, não estás cansado
De tanta música ruim?
Tua igreja enriqueceu,
Nada lhe falta dos prazeres mundanos;
Vestiu as roupagens do Século nos teus hinos,
E agora os levitas cantam com voz esganiçada,
Existencialista, enquanto
Um pianinho pop faz o fundo.
53

DE CISÃO

Não pense. 
Compre passagem.
73

DESEJO

Pensei em escrever um poema que começaria dizendo: 
Eu queria ser uma árvore.

Eu queria ser uma árvore. E estava sendo sincero.

Isso foi pela manhã.
Já não sei mais porque tive um tão incomum desejo.
Desconfio que eu pretendia anunciar, talvez, uma grande verdade, 
Algo que os filósofos deixaram escapar em suas meditações seculares, 
Algo que minha mente captou de maneira fugaz, mas intensa.

Não consigo lembrar o que me levou realmente àquele desejo.
Teria sido alguma coisa assim tão importante?

Pois a única certeza que tenho agora, 
Quando a noite já desce sobre a cidade e eu estou aqui empoleirado
No sexto andar deste edifício-hotel impessoal,
É que não pretendo mais ser árvore.

Nem com todos os passarinhos do mundo!
66

ESPERANÇA 2

A roseira, no presente ano, cobriu-se de muitas flores,
Flores que exalam um aroma delicado, detectável
Quando se aproxima o rosto das pétalas;
Alguns botões mal começaram a se abrir.

É preciso investigar este exemplo, interrogar a terra: 
-Terra, qual foi o adubo com o qual alimentaste a roseira
Neste ano para que gerasse tantas flores,
Tão perfeitas em cor, tão plenas de aroma e amor?
Qual o alimento que me darás, terra, 
Para que atinja a perfeição em flor e fruto?
Ou esconderás ainda, no teu escuro odre o segredo 
Da composição de meu destino?
Conhecê-lo-ei somente naquele dia no qual, totalmente em ti,
Já não tiveres mistérios para mim?
Serei, então, o alimento para outras rosas
E a tua resposta não me servirá jamais!
Pois que estas minhas mãos, então inermes e descarnadas,
Não a poderão brandir contra o muro
Que à minha frente agora se levanta.
Não! Não é assim que eu quero a tua resposta.
Basta de interrogar-te, terra, e contemplar abismos!
 
Porém a resposta já foi concedida,
Pois a terra brotou cobrindo-se de ervas e de flores,
Perfumou os quintais e alimentou os pássaros.
Todas as árvores, segundo as suas próprias sementes,
Já estão crescendo; tudo aquilo que conforme as imutáveis leis 
Foi plantado agora viceja, para sempre.
 
Ainda estou revolvendo meu solo.
Logo chegará a primavera.
57

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