ESPERANÇA 2
A roseira, no presente ano, cobriu-se de muitas flores,
Flores que exalam um aroma delicado, detectável
Quando se aproxima o rosto das pétalas;
Alguns botões mal começaram a se abrir.
É preciso investigar este exemplo, interrogar a terra:
-Terra, qual foi o adubo com o qual alimentaste a roseira
Neste ano para que gerasse tantas flores,
Tão perfeitas em cor, tão plenas de aroma e amor?
Qual o alimento que me darás, terra,
Para que atinja a perfeição em flor e fruto?
Ou esconderás ainda, no teu escuro odre o segredo
Da composição de meu destino?
Conhecê-lo-ei somente naquele dia no qual, totalmente em ti,
Já não tiveres mistérios para mim?
Serei, então, o alimento para outras rosas
E a tua resposta não me servirá jamais!
Pois que estas minhas mãos, então inermes e descarnadas,
Não a poderão brandir contra o muro
Que à minha frente agora se levanta.
Não! Não é assim que eu quero a tua resposta.
Basta de interrogar-te, terra, e contemplar abismos!
Porém a resposta já foi concedida,
Pois a terra brotou cobrindo-se de ervas e de flores,
Perfumou os quintais e alimentou os pássaros.
Todas as árvores, segundo as suas próprias sementes,
Já estão crescendo; tudo aquilo que conforme as imutáveis leis
Foi plantado agora viceja, para sempre.
Ainda estou revolvendo meu solo.
Logo chegará a primavera.
SÚPLICA
Deus meu, que conheces as respostas,
Tu, Senhor, que avalias os caminhos dos homens
E consideras as razões dos seus corações;
Deus meu, a ti estendo, em súplica, as minhas mãos,
Imploro o teu perdão e a tua luz
Para os meus caminhos tão obscurecidos.
Parado estou à beira desta estrada,
Na encruzilhada da vida,
Sem saber para onde dirigir os meus passos.
Meu coração está pesado, minhas costas vergam,
Os meus joelhos vacilam — eu arquejo
Sob esta carga ingente!
Se, no entanto, pretender depô-la,
E por um segundo respirar aliviado,
E por um instante repousar meus olhos na paisagem...
Não consigo, Senhor!
Pois este fardo tão pesado tornou-se parte de mim,
Está firmemente atado às minhas costas.
Como o mosquito que prendeu a si mesmo na teia da aranha,
Da mesma forma fiquei eu preso nas consequências de meus erros.
Desmancha esta teia, meu Deus, com um sopro
Da tua boca, com um simples olhar!
Tira de meus pulsos as algemas e as pesadas correntes,
Pois sou por elas conduzido para onde não quero ir.
Restaura, Senhor, a minha vida
E faz-me andar na plenitude da tua bondade.
Pois tu, ó Deus, permitiste que nas minhas tribulações
Eu pudesse, ainda, aprender valiosas lições.
Que eu tome alento, então, antes que passe como a sombra.
Leva-me para junto das águas de descanso,
Para os verdes prados onde o alimento é abundante.
PAISAGEM MÁXIMA
Diante de meus olhos estendem-se os céus que o Senhor estabeleceu,
A grande tela esticada na qual a mão do Mestre-Pintor
Executa as mais perfeitas aquarelas e os óleos mais refinados,
A cada manhã, a cada entardecer.
Todos estes quadros, ó Deus, trazem a tua assinatura,
E é também assim que os homens te reconhecem,
Pois os convidas, a cada dia, para um novo “vernissage”
Na galeria da terra inteira,
Onde penduras as tuas obras no próprio firmamento!
Tu utilizas pincéis de nuvens, de atmosfera e de vento,
E corantes de sóis para compor estas obras-primas
Que se renovam perpetuamente, a cada novo dia.
Os pobres não precisam frequentar as galerias de arte,
Basta-lhes abrir a janela e contemplar a pintura restaurada
Da natureza celestial, estendida na amplidão
E emoldurada pela terra verde e castanha.
De repente, os pássaros irrompem no teu quadro,
A ele acrescentando o seu voo
Com círculos precisamente desprovidos de sentido;
Ao teu chamado passam a fazer parte da tela celestial.
Contemplamos, ó Deus eterno, tua mutável criação,
A renovada beleza da obra de tuas mãos;
Com nossos corações pulsando em júbilo sob o céu,
Louvamos a ti que de tal plenitude nos fizeste participantes!
Diante de nossos olhos maravilhados, de uma vez e para sempre
Realizaste a tua obra máxima.
PRESENÇA
Lendo o Salmo noventa tive um vislumbre da glória do Senhor.
Ele habita em luz inacessível, no âmago da escuridão silenciosa;
Para ele o universo entoa sua canção e toda a vastidão do cosmos vibra,
Pulsa em cadências de fantásticas energias.
Há um ritmo de estrelas que se dissolvem num alento final de luz
E emudecem, encerrando em seu ventre um poder tão grandioso
Que não podemos sequer imaginar.
Todas estas harmonias compõem a música na qual ele se deleita;
O universo inteiro é o trono da Sua presença.
O Senhor santifica a imensidão,
Sua doce respiração percorre as alamedas vazias do universo.
Há uma palpitação de amor sustentando a morada das constelações.
Bom seria, ó Deus, navegar em ti,
Sobre as tuas asas mergulhar na escuridão,
Acompanhar um raio de luz prateada no seu périplo em teu reino.
Porém, tu nos contemplas — a obra de tuas mãos!
Observas as nossas imperfeições, e não te agradas do que vês.
Então envias o teu filho, teu único e precioso filho,
Para que habite conosco, em nosso próprio espírito.
E assim, santificados nesta presença, podemos, enfim, ser um contigo.
Posso sentir em meu espírito a palpitação das tuas grandezas;
Posso habitar em teu universo.
Senhor, tu tens suportado a iniquidade dos homens,
Todavia o ruído da transgressão cessará, e a eternidade
E o júbilo infindo permanecerão.
Veremos face a face a tua maravilha. Ó perfeito gozo!
Para sempre o esposo e a esposa na eterna vibração do amor.
GRAY
Um velho atravessando a rua.
Um velho de boné,
Com uma pequena bolsa de couro, preta, na mão.
Um velho parecido com Neruda.
Um velho pisando nos para lele pípedos,
Carregando a manhã cinzenta para casa,
Onde o espera uma mulher velha.
Quando todos os dias serão cinza.
E o vento agita as árvores malvestidas.
HAI-KAI 2000
Ai... Caí!
Ou:
Aí... Cai!
ESPERANÇA 1
Penso, às vezes, que estás próximo de mim,
Que poderias responder-me. Mas, ah!
Por que não escuto a tua voz?
Por que, Senhor, este silêncio indevassável,
Minhas palavras chocando-se contra um alto muro,
E nem ao menos tenho a certeza que me ouves?
Eu sei que tu és um Deus justo, que és único,
E tudo criaste com perfeição.
Acaso haveria algo que não poderias realizar?
Algum obstáculo intransponível para ti,
Uma muralha alta demais,
Uma pedra demasiadamente pesada,
Ou alguma situação excessivamente complicada,
Que não a tornasses simples e resolvida?
Quem entrará no teu santo templo, Senhor?
Quem habitará com as chamas?
Na grande congregação há júbilo e deleite,
Na comunhão dos teus ungidos.
Fora há trevas, ranger de dentes, choro.
Ó Deus, abre para mim esta porta!
Não me recuses o teu Santo Espírito,
Senhor, como me amedrontam os meus pensamentos!
Tal como uma manada de búfalos que não se podem deter
Eles avançam contra a minha consciência, cercam-me,
E só de vê-los aproximando-se eu desfaleço
E perco a esperança.
Perdão, oh Deus,
Pois abandonei o meu Éden.
Não foi apenas uma vez
Que comi do fruto da árvore proibida.
(tal conhecimento afasta-nos de ti)
E agora, Senhor, como retornar à pureza original?
Não tenho como voltar, e nem ao menos sei como ir em frente.
Cego, só posso caminhar conduzido pela tua mão.
Que bom, então, seria, ó Deus, se repentinamente
Aliviasses o fardo da minha tribulação,
Se enviasses socorro inesperado.
Seria como acordar, saindo das densas trevas de um pesadelo,
Seria tal como foi para Pedro quando,
Liberto da prisão e da morte certa, um anjo conduziu-o,
Sonolento, por entre as portas do cárcere que se abriam
Sem que ninguém as tivesse tocado.
Logo, ele pôde sentir a brisa fria da noite em seu rosto,
E, num instante, a vida invadiu-lhe os sentidos.
Eu sei, Senhor, que contigo está a chave para a minha libertação.
Só tu podes abrir as pesadas cadeias
E anular as consequências dos meus erros.
Pois observas cada minuto da minha luta;
Alimentas o transgressor na sua prisão.
Repentinamente, uma luz brilhou sobre Pedro,
Quando tudo ao seu redor eram trevas,
E ele caminhou na ruazinha, sob o manto da noite,
E alegrou sobremaneira o coração dos discípulos.
IMPRESSÃO
Nada mais que duas sombras
Somos.
Duas sombras que se encontram
No mesmo ponto para formarem
Ali uma impressão mais funda.
Mas, por fim, o que resta?
Só uma lembrança vaga
Nas paredes que nos guardaram.
HORIZONTE
Ali onde o horizonte se mostra ao olhar
A estrada se contorce.
Amanhã, onde estaremos?
Certamente haverá sol ou chuva.
Seja como for, estarei contente
E tocarei minha flauta.
E quando o aguilhão do tempo se fizer sentir
Na carne murcha, a morte virá
Com pés precípites buscar a roupa velha
Que lhe pertence.
A morte e o verme estão a serviço da terra
Que deseja construir cristais e montanhas de calcário,
Sobre as quais The Roaring Winds passeiem
E um sol nasça ou se ponha.
PERSEVERANÇA
A verdade tem de ser tão simples
Como as estações que vem e vão,
Sem desapontar-nos nem uma vez —
No devido tempo, aqui elas estão.
A verdade tem de ser como a flor
Que se atira na terra ainda semente,
E, contendo em si a futura cor,
No seu tempo desabrocha, não mente.
Não deixemos nunca de buscá-la!
No coração a pedir e com as mãos a bater
Em sua porta, haveremos de encontrá-la.
Pois mais fiel e verdadeiro não há
Do que aquele que já nos fez saber:
Pedi, e recebereis; batei, e abrir-se-vos-á.