Lista de Poemas

PRESENÇA

Lendo o Salmo noventa tive um vislumbre da glória do Senhor.
Ele habita em luz inacessível, no âmago da escuridão silenciosa;
Para ele o universo entoa sua canção e toda a vastidão do cosmos vibra,
Pulsa em cadências de fantásticas energias.
Há um ritmo de estrelas que se dissolvem num alento final de luz
E emudecem, encerrando em seu ventre um poder tão grandioso
Que não podemos sequer imaginar.
Todas estas harmonias compõem a música na qual ele se deleita;
O universo inteiro é o trono da Sua presença.
O Senhor santifica a imensidão,
Sua doce respiração percorre as alamedas vazias do universo.
Há uma palpitação de amor sustentando a morada das constelações.

Bom seria, ó Deus, navegar em ti,
Sobre as tuas asas mergulhar na escuridão,
Acompanhar um raio de luz prateada no seu périplo em teu reino.
Porém, tu nos contemplas — a obra de tuas mãos!
Observas as nossas imperfeições, e não te agradas do que vês.
Então envias o teu filho, teu único e precioso filho,
Para que habite conosco, em nosso próprio espírito.
E assim, santificados nesta presença, podemos, enfim, ser um contigo.

Posso sentir em meu espírito a palpitação das tuas grandezas;
Posso habitar em teu universo.
Senhor, tu tens suportado a iniquidade dos homens,
Todavia o ruído da transgressão cessará, e a eternidade
E o júbilo infindo permanecerão.
Veremos face a face a tua maravilha. Ó perfeito gozo!
Para sempre o esposo e a esposa na eterna vibração do amor.
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PERSEVERANÇA

A verdade tem de ser tão simples
Como as estações que vem e vão,
Sem desapontar-nos nem uma vez —
No devido tempo, aqui elas estão.

A verdade tem de ser como a flor
Que se atira na terra ainda semente,
E, contendo em si a futura cor,
No seu tempo desabrocha, não mente.

Não deixemos nunca de buscá-la!
No coração a pedir e com as mãos a bater
Em sua porta, haveremos de encontrá-la.
 
Pois mais fiel e verdadeiro não há
Do que aquele que já nos fez saber:
Pedi, e recebereis; batei, e abrir-se-vos-á.
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LAODICÉIA

Ó Deus! Tua rádio, agora, toca músicas banais,
Celebrando o amor de homem e mulher.

(A oferta se adapta à demanda ou cria a demanda?)

Onde estão os hinos, os hinos de louvor?

Deus, não estás cansado
De tanta música ruim?
Tua igreja enriqueceu,
Nada lhe falta dos prazeres mundanos;
Vestiu as roupagens do Século nos teus hinos,
E agora os levitas cantam com voz esganiçada,
Existencialista, enquanto
Um pianinho pop faz o fundo.
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PAISAGEM MÁXIMA

Diante de meus olhos estendem-se os céus que o Senhor estabeleceu,
A grande tela esticada na qual a mão do Mestre-Pintor
Executa as mais perfeitas aquarelas e os óleos mais refinados,
A cada manhã, a cada entardecer.

Todos estes quadros, ó Deus, trazem a tua assinatura,
E é também assim que os homens te reconhecem,
Pois os convidas, a cada dia, para um novo “vernissage”
Na galeria da terra inteira,
Onde penduras as tuas obras no próprio firmamento!

Tu utilizas pincéis de nuvens, de atmosfera e de vento,
E corantes de sóis para compor estas obras-primas
Que se renovam perpetuamente, a cada novo dia.
 
Os pobres não precisam frequentar as galerias de arte,
Basta-lhes abrir a janela e contemplar a pintura restaurada
Da natureza celestial, estendida na amplidão
E emoldurada pela terra verde e castanha.

De repente, os pássaros irrompem no teu quadro,
A ele acrescentando o seu voo
Com círculos precisamente desprovidos de sentido;
Ao teu chamado passam a fazer parte da tela celestial.

Contemplamos, ó Deus eterno, tua mutável criação,
A renovada beleza da obra de tuas mãos;
Com nossos corações pulsando em júbilo sob o céu,
Louvamos a ti que de tal plenitude nos fizeste participantes!
Diante de nossos olhos maravilhados, de uma vez e para sempre 
Realizaste a tua obra máxima.
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ENTREATO

Por um ar de granizos
Entre o meu e o teu olhar
Dardejavam puros sorrisos
De um lento, cruel afagar.

A brisa era tépida e como
Um mar que nos envolvesse,
Sempre a indicar o rumo
Da ternura posta em messe

Madura... Mas o tempo breve
Diluiu numa lágrima muito leve
O que nascia ridente.

E já que a semente era posta,
Viagem segui, tendo às costas
A esperança contente.
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ESPERANÇA 1

Penso, às vezes, que estás próximo de mim,
Que poderias responder-me. Mas, ah!
Por que não escuto a tua voz?
Por que, Senhor, este silêncio indevassável,
Minhas palavras chocando-se contra um alto muro,
E nem ao menos tenho a certeza que me ouves?
Eu sei que tu és um Deus justo, que és único,
E tudo criaste com perfeição.
Acaso haveria algo que não poderias realizar?
Algum obstáculo intransponível para ti,
Uma muralha alta demais, 
Uma pedra demasiadamente pesada,
Ou alguma situação excessivamente complicada,
Que não a tornasses simples e resolvida?

Quem entrará no teu santo templo, Senhor?
Quem habitará com as chamas?
Na grande congregação há júbilo e deleite,
Na comunhão dos teus ungidos.
Fora há trevas, ranger de dentes, choro.
 
Ó Deus, abre para mim esta porta!
Não me recuses o teu Santo Espírito,
Senhor, como me amedrontam os meus pensamentos!
Tal como uma manada de búfalos que não se podem deter
Eles avançam contra a minha consciência, cercam-me,
E só de vê-los aproximando-se eu desfaleço
E perco a esperança.

Perdão, oh Deus,
Pois abandonei o meu Éden.
Não foi apenas uma vez
Que comi do fruto da árvore proibida.
 
(tal conhecimento afasta-nos de ti)

E agora, Senhor, como retornar à pureza original?
Não tenho como voltar, e nem ao menos sei como ir em frente.
Cego, só posso caminhar conduzido pela tua mão.
 
Que bom, então, seria, ó Deus, se repentinamente
Aliviasses o fardo da minha tribulação,
Se enviasses socorro inesperado.
Seria como acordar, saindo das densas trevas de um pesadelo,
Seria tal como foi para Pedro quando,
Liberto da prisão e da morte certa, um anjo conduziu-o,
Sonolento, por entre as portas do cárcere que se abriam
Sem que ninguém as tivesse tocado.
Logo, ele pôde sentir a brisa fria da noite em seu rosto,
E, num instante, a vida invadiu-lhe os sentidos.
 
Eu sei, Senhor, que contigo está a chave para a minha libertação.
Só tu podes abrir as pesadas cadeias
E anular as consequências dos meus erros.
Pois observas cada minuto da minha luta;
Alimentas o transgressor na sua prisão.
 
Repentinamente, uma luz brilhou sobre Pedro,
Quando tudo ao seu redor eram trevas,
E ele caminhou na ruazinha, sob o manto da noite,
E alegrou sobremaneira o coração dos discípulos.
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PAISAGEM MÁXIMA

Diante de meus olhos estendem-se os céus que o Senhor estabeleceu,
A grande tela esticada na qual a mão do Mestre-Pintor
Executa as mais perfeitas aquarelas e os óleos mais refinados,
A cada manhã, a cada entardecer.

Todos estes quadros, ó Deus, trazem a tua assinatura,
E é também assim que os homens te reconhecem,
Pois os convidas, a cada dia, para um novo “vernissage”
Na galeria da terra inteira,
Onde penduras as tuas obras no próprio firmamento!

Tu utilizas pincéis de nuvens, de atmosfera e de vento,
E corantes de sóis para compor estas obras-primas
Que se renovam perpetuamente, a cada novo dia.

Os pobres não precisam frequentar as galerias de arte,
Basta-lhes abrir a janela e contemplar a pintura restaurada
Da natureza celestial, estendida na amplidão
E emoldurada pela terra verde e castanha.

De repente, os pássaros irrompem no teu quadro,
A ele acrescentando o seu voo
Com círculos precisamente desprovidos de sentido;
Ao teu chamado passam a fazer parte da tela celestial.

Contemplamos, ó Deus eterno, tua mutável criação,
A renovada beleza da obra de tuas mãos,
Com nossos corações pulsando em júbilo sob o céu;
Louvamos a ti que de tal plenitude nos fizeste participantes!
Diante de nossos olhos maravilhados, de uma vez e para sempre 
Realizaste a tua obra máxima.
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DESEJO

Pensei em escrever um poema que começaria dizendo: 
Eu queria ser uma árvore.

Eu queria ser uma árvore. E estava sendo sincero.

Isso foi pela manhã.
Já não sei mais porque tive um tão incomum desejo.
Desconfio que eu pretendia anunciar, talvez, uma grande verdade, 
Algo que os filósofos deixaram escapar em suas meditações seculares, 
Algo que minha mente captou de maneira fugaz, mas intensa.

Não consigo lembrar o que me levou realmente àquele desejo.
Teria sido alguma coisa assim tão importante?

Pois a única certeza que tenho agora, 
Quando a noite já desce sobre a cidade e eu estou aqui empoleirado
No sexto andar deste edifício-hotel impessoal,
É que não pretendo mais ser árvore.

Nem com todos os passarinhos do mundo!
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ESPERANÇA 2

A roseira, no presente ano, cobriu-se de muitas flores,
Flores que exalam um aroma delicado, detectável
Quando se aproxima o rosto das pétalas;
Alguns botões mal começaram a se abrir.

É preciso investigar este exemplo, interrogar a terra: 
-Terra, qual foi o adubo com o qual alimentaste a roseira
Neste ano para que gerasse tantas flores,
Tão perfeitas em cor, tão plenas de aroma e amor?
Qual o alimento que me darás, terra, 
Para que atinja a perfeição em flor e fruto?
Ou esconderás ainda, no teu escuro odre o segredo 
Da composição de meu destino?
Conhecê-lo-ei somente naquele dia no qual, totalmente em ti,
Já não tiveres mistérios para mim?
Serei, então, o alimento para outras rosas
E a tua resposta não me servirá jamais!
Pois que estas minhas mãos, então inermes e descarnadas,
Não a poderão brandir contra o muro
Que à minha frente agora se levanta.
Não! Não é assim que eu quero a tua resposta.
Basta de interrogar-te, terra, e contemplar abismos!
 
Porém a resposta já foi concedida,
Pois a terra brotou cobrindo-se de ervas e de flores,
Perfumou os quintais e alimentou os pássaros.
Todas as árvores, segundo as suas próprias sementes,
Já estão crescendo; tudo aquilo que conforme as imutáveis leis 
Foi plantado agora viceja, para sempre.
 
Ainda estou revolvendo meu solo.
Logo chegará a primavera.
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COSTUME

O ácido do tempo rouba das flores
A seiva e o viço perfumado,
E coloca entre as palavras 
E os meus olhos
A tela do cotidiano,
Contrária ao sentido.
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