PASSAGEM
- E a vida, como vai?
- É só uma fase. Vai passar.
ATREVIMENTO
O mosquito é bem pequeno e pode ser destruído com facilidade; mas também sabe que a sua picada causa muito incômodo, e por esse motivo torna-se atrevido.
NOÉ
Todas as tardes eu libero pombas e corvos
Da minha janela sobre as águas.
Há muita carniça para os corvos,
Contudo, as oliveiras ainda estão submersas.
NOTURNO EM SI
A unha da lua
Arranha a rua.
Uma aranha, nua,
Urina na teia.
WELCOME TO MART
Meteoro remoto,
Calmo calor tem o atol.
A tela era como a mola
A meta e o alto
Ramo;
O malte ocre, o olmo mole.
Ela tem tal
Mero e alto eco
A coar
O alto o ereto, remoto
Cometa.
Realce em certo maremoto
Ramo e cetro a amolecer
O cereal
Claro calor era
O motor
A tecer a torta tela
A orla e o teto
Em ralo cloro certo.
Mar remoto,
O meteoro corta
Em Creta
A clara coroa
A lotear o corte
A lotar o teatro
A comer o cereal,
Alerta, o rato
Ar calmo, claro
Mar alto.
NO BANQUETE
Platão aprisionou com dura corrente o amor ao desejo,
Escondendo a chave por mil anos ou mais,
Enquanto Sócrates, bebendo a seu bel-prazer,
Decretou aos que viriam pelos séculos
Que o Amor não conquistaria jamais a Beleza,
Objeto de seu desejo, pois, se o fizesse
Não seria mais aquele Amor em falta.
Mas o contrário é o que, justamente, entre os homens se vê:
Os mais belos aproveitando esta sua qualidade
Para conquistarem os mais belos.
Toda Beleza quer ampliar-se e acrescentar mais,
Pois, quanto seja, é apenas uma pequenina parte da Beleza
E aspira ao todo.
MEIO-VERÃO
Milhares de mãozinhas acenam
Agitadas pela brisa mansa:
As folhas das árvores.
Um imenso e verde animal
Parece espreguiçar-se ao sol do meio-dia,
Entorpecido pela mornidão do ar:
A natureza.
TUA VOZ
Onde se houve a tua voz, tua voz que eu não mais escuto?
Que paredes, que ouvidos percebem o som desta tua voz
Que a mim não chega mais?
Mas o que dizem as tuas palavras que eu não compreendo
Nesta distância?
Teus lábios movem-se, jorrando uma cascata de frases;
Teus lábios fecham-se quando escutas, abrem-se
Quando cantas... mas eu não posso ouvir.
Sei que falas. A tua boca transborda com tantos tesouros,
Uma a uma libertas as tuas pombas,
Todas brancas de neve, todas de asas rutilantes.
Tua voz transforma o mundo,
Faz com que ele seja habitável, cria um remanso,
Penetra fundo no desconhecido
Extraindo dele objetos familiares;
Tua voz é cotidiano pão do sentido mais comum,
Abre sulcos na terra de cada dia
Onde as palavras se depositam como grãos
De dourado milho germinando
Ao calor do sol que sempre te ilumina.
Sei que paredes acolhem a tua voz,
Sei que ouvidos estão atentos à tua voz,
Quando falas, quando silencias, quando cantas.
Todavia, eu nada escuto.
Aprisionado nesta distância,
Separado de ti por prédios e quintais, nada ouço,
Embora saiba que a tua voz está soando o dia inteiro.
O Criador colocou no mundo este grão de alegria: a tua voz.
Nós o louvamos, agradecemos a ele por isso;
Pois embora meus ouvidos estejam longe da fonte do canto,
A certeza da tua voz que soa me alimenta
Com um pão de alegria e coragem.
Pela eternidade soará a tua voz.
Porque os braços do Pai te acolhem
Descerrando-te as portas do mistério,
Eu posso repousar e amar,
Ainda que tu não estejas nesta encruzilhada de tempo e espaço.
Porque cantas, eu posso caminhar.
INCONCEBÍVEL

Depois de fechar a porta eu me vi a sós
No quarto que tinha o tamanho do universo.
Todas as coisas que importavam
Haviam ficado do outro lado da porta.
Do lado de dentro eu não podia mais abrir,
E, do lado de fora, somente a princesa dos sonhos
Recônditos poderia, se quisesse, abrir para mim.
Cometas riscavam o firmamento do meu quarto.
Colei o ouvido à porta para escutar os teus passos
Do outro lado, nas tuas ocupações singelas,
Na tua azáfama doméstica. Lentamente,
O som das sandálias diluiu-se no vazio inconcebível.
ESPERANÇA 1
Penso, às vezes, que estás próximo de mim,
Que poderias responder-me. Mas, ah!
Por que não escuto a tua voz?
Por que, Senhor, este silêncio indevassável,
Minhas palavras chocando-se contra um alto muro,
E nem ao menos tenho a certeza que me ouves?
Eu sei que tu és um Deus justo, que és único,
E tudo criaste com perfeição.
Acaso haveria algo que não poderias realizar?
Algum obstáculo intransponível para ti,
Uma muralha alta demais,
Uma pedra demasiadamente pesada,
Ou alguma situação excessivamente complicada,
Que não a tornasses simples e resolvida?
Quem entrará no teu santo templo, Senhor?
Quem habitará com as chamas?
Na grande congregação há júbilo e deleite,
Na comunhão dos teus ungidos.
Fora há trevas, ranger de dentes, choro.
Ó Deus, abre para mim esta porta!
Não me recuses o teu Santo Espírito,
Senhor, como me amedrontam os meus pensamentos!
Tal como uma manada de búfalos que não se podem deter
Eles avançam contra a minha consciência, cercam-me,
E só de vê-los aproximando-se eu desfaleço
E perco a esperança.
Perdão, oh Deus,
Pois abandonei o meu Éden.
Não foi apenas uma vez
Que comi do fruto da árvore proibida.
(tal conhecimento afasta-nos de ti)
E agora, Senhor, como retornar à pureza original?
Não tenho como voltar, e nem ao menos sei como ir em frente.
Cego, só posso caminhar conduzido pela tua mão.
Que bom, então, seria, ó Deus, se repentinamente
Aliviasses o fardo da minha tribulação,
Se enviasses socorro inesperado.
Seria como acordar, saindo das densas trevas de um pesadelo,
Seria tal como foi para Pedro quando,
Liberto da prisão e da morte certa, um anjo conduziu-o,
Sonolento, por entre as portas do cárcere que se abriam
Sem que ninguém as tivesse tocado.
Logo, ele pôde sentir a brisa fria da noite em seu rosto,
E, num instante, a vida invadiu-lhe os sentidos.
Eu sei, Senhor, que contigo está a chave para a minha libertação.
Só tu podes abrir as pesadas cadeias
E anular as consequências dos meus erros.
Pois observas cada minuto da minha luta;
Alimentas o transgressor na sua prisão.
Repentinamente, uma luz brilhou sobre Pedro,
Quando tudo ao seu redor eram trevas,
E ele caminhou na ruazinha, sob o manto da noite,
E alegrou sobremaneira o coração dos discípulos.