Lista de Poemas

HAI-KAI 2000

Ai... Caí!

Ou:

Aí... Cai!
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GRAY

Um velho atravessando a rua.

Um velho de boné,
Com uma pequena bolsa de couro, preta, na mão.

Um velho parecido com Neruda.

Um velho pisando nos para lele pípedos,

Carregando a manhã cinzenta para casa,
Onde o espera uma mulher velha.

Quando todos os dias serão cinza.

E o vento agita as árvores malvestidas.
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LAODICÉIA

Ó Deus! Tua rádio, agora, toca músicas banais,
Celebrando o amor de homem e mulher.

(A oferta se adapta à demanda ou cria a demanda?)

Onde estão os hinos, os hinos de louvor?

Deus, não estás cansado
De tanta música ruim?
Tua igreja enriqueceu,
Nada lhe falta dos prazeres mundanos;
Vestiu as roupagens do Século nos teus hinos,
E agora os levitas cantam com voz esganiçada,
Existencialista, enquanto
Um pianinho pop faz o fundo.
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ETERNANOVIDADE

As águas deslizam
Num leito regular.
Contudo, 
A cada dia brilham
De forma diferente.
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ESTRATÉGIA

Poesia não resolve muita coisa.
O coração cultiva a semente da dor
A fim de contemplá-la em flor
Entreaberta.

A semente é indestrutível,
Mas a flor pode ser queimada.
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CONTEMPLAÇÃO 2

A natureza é hora alegre a mais não poder,
Depois torna-se sensual e convida ao prazer.
Às vezes é triste, mas de uma tristeza bela,
O tipo de tristeza que a gente sente 
Quando toca a orla de uma beleza inefável.
Ou, então, ela nos transforma em místicos contemplativos,
Sentados sobre a erva como folhas caídas,
Sendo acariciados pelo mais leve roçar da aragem
Na dança de huris das folhagens.

Cada novo dia a natureza veste sua mais bela roupa,
Veste de chuva ou sol, cada qual melhor costurada.
Deus disse que o encontraríamos na natureza,
Que ela é obra e testemunho perene de suas mãos.
Cada crepúsculo é insuperável como obra de arte
Que ele compõe utilizando nuvens e céu e sol e vento.

Meditando nessas coisas, e sem querer dar o braço a torcer,
Certos sujeitos que chamam a si mesmos de “cientistas”
Inventaram uma tal Hipótese Gaya. Bah!
Como se a própria terra fosse um deus ou deusa,
Ou como se a ideia fosse nova, não tivessem já os gregos 
Pensado nisso há tanto tempo.

É bom ficar aqui sentado, enquanto posso,
Redescobrindo a mim mesmo como parte desta natureza mutável. 
Foi para este fim que Deus me criou.
Amar a natureza e comungar com ela
Não tem nada a ver com flauta de Pã,
Epicurismo ou sei lá mais o quê!
 
Sócrates diria que a natureza sendo bela
E possuindo-a alguém, por estar em comunhão com ela
De nada mais teria necessidade, 
Pois o Bom e o Belo, que afinal são a mesma coisa, 
Não podem desejar o que não lhes falta.

No entanto, não é possível negar 
A beleza suprema da natureza, 
Nem é solução dizer 
Que ela é intermediária entre o Belo e o Feio. 
Ela é bela simplesmente, em si mesma,
Como cada coisa bela é uma beleza em separado.

E a luz nunca se sacia de luz.
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HORIZONTE

Ali onde o horizonte se mostra ao olhar
A estrada se contorce. 
Amanhã, onde estaremos? 
Certamente haverá sol ou chuva.
Seja como for, estarei contente 
E tocarei minha flauta.

E quando o aguilhão do tempo se fizer sentir
Na carne murcha, a morte virá
Com pés precípites buscar a roupa velha
Que lhe pertence.

A morte e o verme estão a serviço da terra
Que deseja construir cristais e montanhas de calcário,
Sobre as quais The Roaring Winds passeiem 
E um sol nasça ou se ponha.
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ORAÇÃO 2

Oh guia-me, Senhor,
Pois não sei como andar
Nesta escura floresta!

Se pretender conduzir-me
Sem a tua ajuda meus pés,
Certamente, me levarão por
Falsos caminhos,
Caminhos que conduzem
A lugar nenhum.

Porém, entrego a ti a direção,
Clamo a ti, estendo-te a mão,
Aspiro tua doce presença.

E a caminhada que ora inicia
Já chegou ao fim.
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ARMADILHA

À noite, o mal.


As epeiras
Tecem teias
No quintal.
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CONSISTÊNCIAS

O leve pássaro
Conduz a si mesmo.

A pluma é leve,
Mas vai a esmo.
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