José Cassais

José Cassais

n. 1954 BR BR

Nascido em 1954, começou a escrever lá pelos 15 anos, depois de ler alguns livros que sua avó lhe emprestava.

n. 1954-09-07, Pelotas - RS

Perfil
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FOLGADO

O gato da casa,
Estirado no sofá,
Sestica e ronrona,
E tanto se lhe dá:
Está em sua zona.

Só levanta pra comer,
Correr, pular atoa,
Parecente até que voa,
Pássaro sem ser.

Peludo está com tudo:
Esta noite saltar
Ainda espera, sortudo,
Escalando a janela,
Na espreita, trás dela.

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Poemas

84

DE CISÃO

Não pense. 
Compre passagem.
68

ETERNANOVIDADE

As águas deslizam
Num leito regular.
Contudo, 
A cada dia brilham
De forma diferente.
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CONTEMPLAÇÃO 2

A natureza é hora alegre a mais não poder,
Depois torna-se sensual e convida ao prazer.
Às vezes é triste, mas de uma tristeza bela,
O tipo de tristeza que a gente sente 
Quando toca a orla de uma beleza inefável.
Ou, então, ela nos transforma em místicos contemplativos,
Sentados sobre a erva como folhas caídas,
Sendo acariciados pelo mais leve roçar da aragem
Na dança de huris das folhagens.

Cada novo dia a natureza veste sua mais bela roupa,
Veste de chuva ou sol, cada qual melhor costurada.
Deus disse que o encontraríamos na natureza,
Que ela é obra e testemunho perene de suas mãos.
Cada crepúsculo é insuperável como obra de arte
Que ele compõe utilizando nuvens e céu e sol e vento.

Meditando nessas coisas, e sem querer dar o braço a torcer,
Certos sujeitos que chamam a si mesmos de “cientistas”
Inventaram uma tal Hipótese Gaya. Bah!
Como se a própria terra fosse um deus ou deusa,
Ou como se a ideia fosse nova, não tivessem já os gregos 
Pensado nisso há tanto tempo.

É bom ficar aqui sentado, enquanto posso,
Redescobrindo a mim mesmo como parte desta natureza mutável. 
Foi para este fim que Deus me criou.
Amar a natureza e comungar com ela
Não tem nada a ver com flauta de Pã,
Epicurismo ou sei lá mais o quê!
 
Sócrates diria que a natureza sendo bela
E possuindo-a alguém, por estar em comunhão com ela
De nada mais teria necessidade, 
Pois o Bom e o Belo, que afinal são a mesma coisa, 
Não podem desejar o que não lhes falta.

No entanto, não é possível negar 
A beleza suprema da natureza, 
Nem é solução dizer 
Que ela é intermediária entre o Belo e o Feio. 
Ela é bela simplesmente, em si mesma,
Como cada coisa bela é uma beleza em separado.

E a luz nunca se sacia de luz.
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DESEJO

Pensei em escrever um poema que começaria dizendo: 
Eu queria ser uma árvore.

Eu queria ser uma árvore. E estava sendo sincero.

Isso foi pela manhã.
Já não sei mais porque tive um tão incomum desejo.
Desconfio que eu pretendia anunciar, talvez, uma grande verdade, 
Algo que os filósofos deixaram escapar em suas meditações seculares, 
Algo que minha mente captou de maneira fugaz, mas intensa.

Não consigo lembrar o que me levou realmente àquele desejo.
Teria sido alguma coisa assim tão importante?

Pois a única certeza que tenho agora, 
Quando a noite já desce sobre a cidade e eu estou aqui empoleirado
No sexto andar deste edifício-hotel impessoal,
É que não pretendo mais ser árvore.

Nem com todos os passarinhos do mundo!
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ESTRATÉGIA

Poesia não resolve muita coisa.
O coração cultiva a semente da dor
A fim de contemplá-la em flor
Entreaberta.

A semente é indestrutível,
Mas a flor pode ser queimada.
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COSTUME

O ácido do tempo rouba das flores
A seiva e o viço perfumado,
E coloca entre as palavras 
E os meus olhos
A tela do cotidiano,
Contrária ao sentido.
68

PAISAGEM MÁXIMA

Diante de meus olhos estendem-se os céus que o Senhor estabeleceu,
A grande tela esticada na qual a mão do Mestre-Pintor
Executa as mais perfeitas aquarelas e os óleos mais refinados,
A cada manhã, a cada entardecer.

Todos estes quadros, ó Deus, trazem a tua assinatura,
E é também assim que os homens te reconhecem,
Pois os convidas, a cada dia, para um novo “vernissage”
Na galeria da terra inteira,
Onde penduras as tuas obras no próprio firmamento!

Tu utilizas pincéis de nuvens, de atmosfera e de vento,
E corantes de sóis para compor estas obras-primas
Que se renovam perpetuamente, a cada novo dia.

Os pobres não precisam frequentar as galerias de arte,
Basta-lhes abrir a janela e contemplar a pintura restaurada
Da natureza celestial, estendida na amplidão
E emoldurada pela terra verde e castanha.

De repente, os pássaros irrompem no teu quadro,
A ele acrescentando o seu voo
Com círculos precisamente desprovidos de sentido;
Ao teu chamado passam a fazer parte da tela celestial.

Contemplamos, ó Deus eterno, tua mutável criação,
A renovada beleza da obra de tuas mãos,
Com nossos corações pulsando em júbilo sob o céu;
Louvamos a ti que de tal plenitude nos fizeste participantes!
Diante de nossos olhos maravilhados, de uma vez e para sempre 
Realizaste a tua obra máxima.
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ENTREATO

Por um ar de granizos
Entre o meu e o teu olhar
Dardejavam puros sorrisos
De um lento, cruel afagar.

A brisa era tépida e como
Um mar que nos envolvesse,
Sempre a indicar o rumo
Da ternura posta em messe

Madura... Mas o tempo breve
Diluiu numa lágrima muito leve
O que nascia ridente.

E já que a semente era posta,
Viagem segui, tendo às costas
A esperança contente.
59

ORAÇÃO 2

Oh guia-me, Senhor,
Pois não sei como andar
Nesta escura floresta!

Se pretender conduzir-me
Sem a tua ajuda meus pés,
Certamente, me levarão por
Falsos caminhos,
Caminhos que conduzem
A lugar nenhum.

Porém, entrego a ti a direção,
Clamo a ti, estendo-te a mão,
Aspiro tua doce presença.

E a caminhada que ora inicia
Já chegou ao fim.
77

ARMADILHA

À noite, o mal.


As epeiras
Tecem teias
No quintal.
69

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