José Cassais

José Cassais

n. 1954 BR BR

Nascido em 1954, começou a escrever lá pelos 15 anos, depois de ler alguns livros que sua avó lhe emprestava.

n. 1954-09-07, Pelotas - RS

Perfil
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FOLGADO

O gato da casa,
Estirado no sofá,
Sestica e ronrona,
E tanto se lhe dá:
Está em sua zona.

Só levanta pra comer,
Correr, pular atoa,
Parecente até que voa,
Pássaro sem ser.

Peludo está com tudo:
Esta noite saltar
Ainda espera, sortudo,
Escalando a janela,
Na espreita, trás dela.

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Poemas

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DESEJO

Pensei em escrever um poema que começaria dizendo: 
Eu queria ser uma árvore.

Eu queria ser uma árvore. E estava sendo sincero.

Isso foi pela manhã.
Já não sei mais porque tive um tão incomum desejo.
Desconfio que eu pretendia anunciar, talvez, uma grande verdade, 
Algo que os filósofos deixaram escapar em suas meditações seculares, 
Algo que minha mente captou de maneira fugaz, mas intensa.

Não consigo lembrar o que me levou realmente àquele desejo.
Teria sido alguma coisa assim tão importante?

Pois a única certeza que tenho agora, 
Quando a noite já desce sobre a cidade e eu estou aqui empoleirado
No sexto andar deste edifício-hotel impessoal,
É que não pretendo mais ser árvore.

Nem com todos os passarinhos do mundo!
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ARMADILHA

À noite, o mal.


As epeiras
Tecem teias
No quintal.
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COSTUME

O ácido do tempo rouba das flores
A seiva e o viço perfumado,
E coloca entre as palavras 
E os meus olhos
A tela do cotidiano,
Contrária ao sentido.
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HORIZONTE

Ali onde o horizonte se mostra ao olhar
A estrada se contorce. 
Amanhã, onde estaremos? 
Certamente haverá sol ou chuva.
Seja como for, estarei contente 
E tocarei minha flauta.

E quando o aguilhão do tempo se fizer sentir
Na carne murcha, a morte virá
Com pés precípites buscar a roupa velha
Que lhe pertence.

A morte e o verme estão a serviço da terra
Que deseja construir cristais e montanhas de calcário,
Sobre as quais The Roaring Winds passeiem 
E um sol nasça ou se ponha.
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ORAÇÃO 2

Oh guia-me, Senhor,
Pois não sei como andar
Nesta escura floresta!

Se pretender conduzir-me
Sem a tua ajuda meus pés,
Certamente, me levarão por
Falsos caminhos,
Caminhos que conduzem
A lugar nenhum.

Porém, entrego a ti a direção,
Clamo a ti, estendo-te a mão,
Aspiro tua doce presença.

E a caminhada que ora inicia
Já chegou ao fim.
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ETERNANOVIDADE

As águas deslizam
Num leito regular.
Contudo, 
A cada dia brilham
De forma diferente.
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PERSEVERANÇA

A verdade tem de ser tão simples
Como as estações que vem e vão,
Sem desapontar-nos nem uma vez —
No devido tempo, aqui elas estão.

A verdade tem de ser como a flor
Que se atira na terra ainda semente,
E, contendo em si a futura cor,
No seu tempo desabrocha, não mente.

Não deixemos nunca de buscá-la!
No coração a pedir e com as mãos a bater
Em sua porta, haveremos de encontrá-la.
 
Pois mais fiel e verdadeiro não há
Do que aquele que já nos fez saber:
Pedi, e recebereis; batei, e abrir-se-vos-á.
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CONTEMPLAÇÃO 2

A natureza é hora alegre a mais não poder,
Depois torna-se sensual e convida ao prazer.
Às vezes é triste, mas de uma tristeza bela,
O tipo de tristeza que a gente sente 
Quando toca a orla de uma beleza inefável.
Ou, então, ela nos transforma em místicos contemplativos,
Sentados sobre a erva como folhas caídas,
Sendo acariciados pelo mais leve roçar da aragem
Na dança de huris das folhagens.

Cada novo dia a natureza veste sua mais bela roupa,
Veste de chuva ou sol, cada qual melhor costurada.
Deus disse que o encontraríamos na natureza,
Que ela é obra e testemunho perene de suas mãos.
Cada crepúsculo é insuperável como obra de arte
Que ele compõe utilizando nuvens e céu e sol e vento.

Meditando nessas coisas, e sem querer dar o braço a torcer,
Certos sujeitos que chamam a si mesmos de “cientistas”
Inventaram uma tal Hipótese Gaya. Bah!
Como se a própria terra fosse um deus ou deusa,
Ou como se a ideia fosse nova, não tivessem já os gregos 
Pensado nisso há tanto tempo.

É bom ficar aqui sentado, enquanto posso,
Redescobrindo a mim mesmo como parte desta natureza mutável. 
Foi para este fim que Deus me criou.
Amar a natureza e comungar com ela
Não tem nada a ver com flauta de Pã,
Epicurismo ou sei lá mais o quê!
 
Sócrates diria que a natureza sendo bela
E possuindo-a alguém, por estar em comunhão com ela
De nada mais teria necessidade, 
Pois o Bom e o Belo, que afinal são a mesma coisa, 
Não podem desejar o que não lhes falta.

No entanto, não é possível negar 
A beleza suprema da natureza, 
Nem é solução dizer 
Que ela é intermediária entre o Belo e o Feio. 
Ela é bela simplesmente, em si mesma,
Como cada coisa bela é uma beleza em separado.

E a luz nunca se sacia de luz.
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ESTRATÉGIA

Poesia não resolve muita coisa.
O coração cultiva a semente da dor
A fim de contemplá-la em flor
Entreaberta.

A semente é indestrutível,
Mas a flor pode ser queimada.
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ENTREATO

Por um ar de granizos
Entre o meu e o teu olhar
Dardejavam puros sorrisos
De um lento, cruel afagar.

A brisa era tépida e como
Um mar que nos envolvesse,
Sempre a indicar o rumo
Da ternura posta em messe

Madura... Mas o tempo breve
Diluiu numa lágrima muito leve
O que nascia ridente.

E já que a semente era posta,
Viagem segui, tendo às costas
A esperança contente.
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