Julian Lael

Julian Lael

Graduado em Direito pelo Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC), Especialização em Direito Penal e Processo Penal pelo Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC). Especialização em Inteligência de Segurança Pública pela Universidade Vila Velha (UVV). Graduado em Letras Português pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Atua como Professor na Educação Básica na Secretaria Municipal de Educação de Cabo Frio/RJ (SEME/CF-RJ). Formação docente e educação básica.

Perfil
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O Horizonte: Sou Eu!

J.E. Leal

 

Hoje fomos ao monte Olimpo depois do café da manhã. À bela vista, o oceano Atlântico em toda sua extensão e imponência à nossa frente parecia calmo. Livre de qualquer ondulação em toda a sua superfície, resplandecia ali um sol de brilho aconchegante, convidando-nos à praia. Ao largo, passeava um grande barco de velas coloridas. Lançando-se ao mar azul, parecia seguir seu caminho no sentido ao infinito, rumo às estrelas. Sem destino certo, deixava seu rastro suave entre as espumas brancas das pequenas ondas.

Atrás de nós, passava protuberante a ponte da cidade presépio que, em seu movimento frenético, mostrava-se fortemente pesada. Ela trazia a vontade do caos vivo na geografia do desconforto urbano. A estrutura encontrava-se agitada pela passagem vagarosa de um pesado navio e seus dois filhos rebocadores por debaixo de sua envergadura. Na batida das hélices, espumavam-se histórias de sangue das coisas mortas por baixo da superfície fervilhada de vidas.

Ali no alto estávamos nós, um e outro, no silêncio da observação admirada na deslumbrante paisagem vitoriana, em puro êxtase e contemplação. A olhos vistos e não tão distante, a vitória dos sonhos estava próxima aos homens canela-verde. Do alto daquele monte, observávamos o céu, o mar, o santo graal e a ponte. No comando estavam as aves em seu voo, planando, prontas a replicarem sua linguagem. Elas mergulhavam rumo ao infinito azul na luta pela sua própria sobrevivência.

Foi quando me perguntei se estava sonhando de olhos abertos ou se era uma doce miragem. Naquele dia, tive medo de ser um breve passageiro, pois o meu navio ainda nem desatracou do porto seguro rumo às intrépidas aventuras que todo homem deve ter para contar suas próprias histórias. Infelizmente, fomos colhidos pela tarde, que já prenunciava o anoitecer após a agitação de um dia diferente dentre tantos outros.

Então esse homenzarrão de rosto tisnado, com um aspecto bravo — do tipo daqueles homens que sentimos terem atravessado longínquas memórias em diversos lugares desconhecidos por entre perigos constantes —, e cujo olhar sereno agora parece conter-se lá no fundo de sua alma, queria paz e curtir a paisagem. Não acreditando no que se transformou, superando o engano da palavra e da sensação que experimentou, esse homem enérgico nunca teve medo de nada, mesmo diante do perigo iminente. Ficou emocionado, agitado e, ao mesmo tempo, ansioso. Mas o horizonte é o mesmo, e o homem tornou-se outra coisa.

Contudo, a história do sangue de quem é corajoso não acontece por acaso. Ela se impõe perante um ataque, não importando se o homem está diante da morte inevitável e prestes a conhecer o Deus do submundo, ou perto de todas as formas conhecidas de perigo que acontecem em certas circunstâncias anormais e sob certas influências misteriosas, nessa trajetória dos riscos iminentes. O verdadeiro ser descobre-se ante o medo, que é algo instável como um acontecimento ou reminiscência dos horrores de uma guerra injusta, como as de outrora. Esse homem não acredita em lobos ou leões. Imagina enxergar uma silhueta no meio da floresta à noite e sabe que não há como escapar ao próprio medo.

Descobri que eu sou dono do meu próprio destino. Pois se antes me sentia inseguro por medo do escuro, sem conseguir ver nada, compreendi que a escuridão não era só inimiga, mas também minha amiga; ali eu também não era visto. Tornei a senti-la e enxergá-la como aliada do passado, no presente e no futuro, em meio às agruras da vida.

Na trilha da vida, fui covardemente traído e abandonado. Fui entregue aos leões por meus indignos familiares. Eu não sabia que o caos e a destruição estavam infiltrados no mesmo sangue que jorrava em minhas próprias veias, às quais estendi a mão para ajudar, por diversas e repetidas vezes. Conquanto eu buscasse ajudar, a inveja e a ingratidão sempre sobressaiam. Mas tudo isso não passou despercebido frente às agruras de uma vida sofrida e humilhada, em um tempo que remontou duas décadas e passou pelo meu horizonte — o mais alto patamar do sofrimento, em frações de segundos refletidas de uma vida inteira estigmatizada na infância e adolescência.

Foi nesse mesmo local em que fui vítima de uma conspiração armada, julgada e condenada por pura inveja e ganância de um cão ingrato que mordeu a mão daquele que o alimentou. Taxado como suspeito para ser jogado aos leões ou atirado aos lobos do mar, de cima da ponte para a escuridão das profundezas, por uma família de miseráveis — pobres coitados que sempre ajudei em seus pedidos —, isso serviu para que eu me resignasse, sem me entristecer ou ter a menor nostalgia. Mas medo não senti. Diante da alta traição, já a pressentia em casa.

E, no entanto, como esse traidor é o próprio filho da Morte, o seu sol não mais brilha. Sua vida esvai-se e se dissipa em um escuro nevoeiro de maldade em seu coração e mente. Seus dias de uma vida lenta e dolorosa estão contados. Preparem-se bem, sorriam e acenem, senhoras e senhores. Pois aos chacais a vida não serve para nada; espalham o seu melhor horror no dia a dia, noite adentro, semeando a discórdia e a desunião. Tenho pena da sua forma de parasitar no mundo. Resignem-se imediatamente.

Pois as noites já não são tão claras e não estão mais a seu favor nessas suas vidas vazias, de almas igualmente negras e comezinhas, refletindo inquietações mais sombrias que encharcam os seus cérebros. Se o seu mau-caratismo e a sua maldade são como altas montanhas, vagas e desiguais, diferentemente vemos a lei do retorno, que atrelará suas ações a seus resultados. Tudo isso implicará uns aos outros em si mesmo, e tu te afogarás em tua própria arrebentação, alardeada nesse teu reflexo de ódio.

Nessa visão de horizonte, observa-se o mar furioso ficar mudo e sem movimento no seu devido tempo. O sol devorará a face da hipocrisia de norte a sul nessa vida mesquinha, que escorre pela chama implacável da raiva e da ingratidão que corroerá os pilares da ponte de sua existência medíocre. Não adiantará nenhum protesto de seus cavalos, que o enterrarão até os joelhos — homenzinho cuja alma está perdida nas encostas de surpreendentes colinas de seus verdes pastos queimados pela ira. Ao jogar no poço uma época e uma história de vida, ele não considerou os bons tempos de vivência entre dois amigos.

Se já não nos falávamos, por sermos esmagados pelo calor da sua inveja, da ganância e da preguiça que se alastrou em seu lombo, saiba que não me sinto ressentido ou culpado. Meu horizonte é muito maior do que o seu laço de passarinheiro, enquanto tu ficas remoendo-se com essa sede vil que abate todo aquele que caminha nesse deserto perverso da mente.

Eis que, de repente, o meu irmão caiu do cavalo e bateu com a cabeça de frente com a dura realidade da vida, fulminado em sua amarga ilusão. Por quanto tentei em vão salvá-lo, por diversas vezes na trilha da vida, até que aquele dia retumbante e inexplicável que me foi premeditado enchia-me os ouvidos com o seu ruído caótico, intermitente e incompreensível. De inveja hedionda, perpetrada por aquele cadáver mal-amado no interior daquele barraco incendiado pelo ódio, entre quatro paredes de areia e miséria, enquanto o eco da injustiça lançava sobre nós todo o seu veneno, ao amaldiçoado barraco de número cinquenta e seis, rufarão os tambores da morte, da miséria e do sofrimento. Só lamento.

E nesse dia compreenderei o que é ser lenda; e saberei me portar melhor ainda quando essa ocasião chegar… Os boçais serão surpreendidos naquele ruído insólito, atribuído ao eco de lamúria, engrossado por lágrimas sepultadas no silêncio sepulcral multiplicado pelas dunas do vale da sombra da morte. Ao chegarem ao Estige, não terão as duas moedas para Caronte fazer a sua travessia e serão arrastados, numa saraivada de arrependimentos, pelas corredeiras do caudaloso rio. Não mais terão nem as ervas daninhas que plantaram em vida para se agarrarem; e, sempre que o fenômeno do arrependimento acontece, já é tarde demais, estando carimbado em seus pergaminhos. Ouvirão o rufar daquele tambor que os chama e os arrasta rio abaixo até as profundezas, e por ali não passaria nem uma só espécie que não merecesse tal destino. E isso para eles é tudo o que resta. Mas somente mais tarde virei a saber disso.

Segundo minha percepção, as noites deles cairão mais cedo na escuridão de seus próprios sofrimentos, até que seu céu se apague completamente. Apesar de tudo, ainda me lembro de quando íamos cear e dormir em casa, todos juntos como irmãos, companheiros fraternais. Por vezes, eu erguia os olhos e murmurava, verificando a segurança, o conforto e o bem-estar de cada um. Perguntava-me, em silêncio: Será que estão bem?

Mas o pai matara todos os nossos sonhos antes de dormir. Desde então, a noite parecia o fim do mundo, um pesadelo contínuo que nos perseguia em nossas recordações. Hoje, os três filhos estão casados, mas não convivem entre si. As trevas deles são ainda mais profundas. Não vejo nada de bom no passado, nem à minha volta ou no entorno daquela época. Sobrou apenas a ramaria de uma árvore frondosa que plantei no passado e que lá ficou, sem arrimo.

Surgiu-me na memória um velho quadro inesquecível da época de estudante, em preto e branco. Eu era jovem, ainda uma criança, vestindo uma camisa branca de tergal com bolso e botões. Estava sentado a uma mesa, ladeado por uma pilha de livros de um lado e, do outro, por um globo com um mapa-múndi ao fundo. Encontrava-me de braços quase cruzados, sobrepostos um sobre o outro em cima da mesa, testemunha de um bastardo passado inglório. Desse passado que não volta, não quero mais nem as lembranças.

Esta noite também não estou outra vez à espera deles. Por vezes, contudo, volto a lembrar o quão forte e resiliente fui para sobreviver ao caos. Por um instante afligi-me, mas depois tranquilizei-me como pude. Fiquei feliz por ter ido, justamente naquele dia, tirar aquela foto: o retrato de um sobrevivente ante o horror. Ponho-me a refletir e a contar a mim mesmo as histórias do meu horizonte do passado. No presente, vislumbro ainda os passos do futuro; só assim consigo me acalmar e resistir de pé.

Junto à fogueira da vida, vejo hoje um homem velho. É um cão bravo, maldoso e desdentado que reluta contra a morte. Está quase cego, já sem os seus grandes bigodes negros, ostentando um olhar sisudo e uma expressão grave e aguda sendo torrados pelo tempo. Hoje, ele é só mais um daqueles cães sem dono e sem destino, perdido no tempo e no espaço. Um animal que já morreu e só esqueceu de cair — que me perdoem os cães.

Lá no passado, o temporal que insistentemente açoitava e abalava as estruturas do pequeno barraco por lá ficou. Deixou muitas cicatrizes; uma espécie de buraco aberto junto ao peito. Pela fresta da fechadura da porta, via-se acontecer, repetidas vezes, a confusão armada por esse algoz retumbante. Eram panelas batidas e pratos que voavam ao vento sob o clarão da tempestade, em meio a grandes relâmpagos. Apesar de todos os meus esforços, eu mal sentia a beleza da vida diante do profundo terror instalado na alma daquelas pessoas. A cada vez que esse animal parava de falar, todos os ouvidos se punham a escutar ao longe a quebradeira geral dentro do barraco, mantido a duras penas.

Por estar cansado de assistir a essas ações imbecis, tentei fugir por diversas vezes, sem contudo lograr êxito. Então, resolvi me dedicar aos estudos para sair dali. Mas a mulher miseravelmente sempre caía de joelhos nos seus cantos, escondendo o rosto. Ela pedia aos filhos para tornarem a aceitar aquelas agruras, argumentando ser pelas razões do sangue.

Com o passar do tempo, percebi que o horizonte sou eu. Hoje, eu imponho meus limites aos meus próprios ombros e cobro o respeito merecido. Mesmo diante daquela visão assustadora, frente à atuação daquele animal naquele lugar e em meio àquelas pessoas de cabeça dura, eu não sucumbi. Todavia, o cão maldito não dava sossego no barraco. Farejava e urinava até nas paredes, fazendo sempre o bambu gemer para nos ferir. Aquele animal guardava muito rancor e nos deixava atormentados.

Então, recompus-me homem aos dezesseis anos. Enfrentei-o em defesa da mulher que estava sendo enforcada por ele. Ele lançou-se sobre mim numa espécie de paroxismo de terror familiar, praticado por um cão furioso. Abrindo a porta dos fundos que dava para uma pequena área de serviço atrás do barraco, atirei o animal para fora de casa.

O cão dos infernos calou-se naquele instante. Ficamos, porém, mergulhados num silêncio ainda mais aterrador. De repente, todos juntos sentimos um sobressalto: alguém deslizava ao longo da parede exterior em direção à porta da frente. Depois, o vulto passou encostado à lateral com passos pesados, tateando a estrutura com mãos raivosas. Rosnando e roçando na parede, arranhando e batendo fortemente, ele começou a berrar como uma criança má.

O cão bêbado apareceu com a cabeça encostada no vidro da basculante da cozinha. Seus olhos estavam vermelhos de álcool e fúria, como os das bestas-feras. Saindo de sua boca, vinham apenas maldições e pragas mil em um som arrastado e pastoso, para logo depois converter-se em um murmúrio lamentoso. Logo em seguida, um barulho desconfortável estourou na cozinha. O cão velho babava de raiva e começou a chorar, colocando-se na posição de vítima, como sempre fazia após passar o efeito ébrio de suas bebedeiras.

Os filhos se precipitaram e o perdoaram, deixando um grande buraco aberto em seus corações, almas e corpos. Ficaram ali até o alvorecer, incapazes de se moverem ou de pronunciar uma só palavra, espantados e traumatizados. Junto às paredes daquele barraco, restaram apenas traumas, castigos, espancamentos e desilusões.

Hoje, acuada em seu canto, jaz uma vida miserável à espera da morte, que outrora foi tão clamada por ele. Hoje, na certeza dela, o velho cão dos infernos teme morrer. O algoz desdentado, com o focinho estilhaçado pelo decurso dos noventa anos desperdiçados em uma vida inútil, finge esquecer tudo o que de ruim falou e fez.

Por conseguinte, o homem de rosto tisnado calou-se ante o seu horizonte promissor. Ele lembra também das belas histórias vividas na construção de sua própria jornada, estabelecendo uma meta de verdade absoluta: com o tempo tudo passa, o homem não é eterno, mas é livre para desbravar os horizontes que quiser.

E aqui fica o alerta: se você me desrespeitou e eu bati em retirada no meu silêncio, te dou um conselho: não confie mais em mim.

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Biografia
Sou Jorge E. Leal, Graduado em Direito pela Unesc em 2006, Professor de Língua Portuguesa, formado pela UFES em 2016, Pós - Graduado em Direito Penal e Processo Penal, pela UNESC; Pós - Graduado em Inteligência de Segurança Pública, pela UVV em 2010, e dentre muitos outros cursos relacionados a educação, incluindo formação em Neurolinguística, através da plataforma AVAMEC, concluído em fevereiro de 2025. Sou extremamente compromissado com o ser humano, principalmente pelos que estão em período de desenvolvimento, como os nossos alunos, um educador indignado com os rumos atuais da educação em nosso país, e que está sempre em busca de alternativas que tragam uma melhora no pleno desenvolvimento dos alunos e consequentemente na qualidade do trabalho do professor.

Poemas

81

Amálgama

Jorge E. Leal

Se tu colares em mim,
Ou se eu te pegar por aí,
Se pra eu grudar em ti,
Então tu encosta aqui.

O que te une agrega,
De surpresa fascina,
No que me liga acolhe,
E com carinho ensina.

As sombras misturam,
Pois em ti aglutino,
Ares, odores mudam,
Sob o calor divino.

Aproximando emoções,
Desse calor humano,
Pois o frio e as razões,
Recolhem nosso plano.

38

Fênix Nau

Jorge E. Leal

A liberdade é uma leda ilusão e triste,
Prende-nos neste mundo imensa dor,
Pois em verdade revela que não existe,
Em cabos tensos se preso o corpo for.


Mantenho resiliência sempre a postos,
Se no caminho muitas dores enfrentei,
Olhar firme aos temporais antepostos,
E nas aventuras possíveis que triunfei.


Enquanto o vento a minha vela soprar,
Singrarei o mar revolto sem algum temor,
Pois sei que após a noite o dia vai chegar,
E na fonte da alma beberei qualquer dor.


E das frescas cinzas eu me reerguerei,
Para um glorioso voo de eterna vitória,
Mesmo se sangrar, com força continuarei,
A fincar meu respeito ao longo da história.


Ao final desta rota frente à última fronteira,
E findar seu curso a valente nau, a jornada,
O barqueiro espera à margem derradeira,
Darei as caras duas moedas pela entrada.



 

35

Déjà vu


Jorge E. Leal


Nesta batalha de grande vontade,
Voam os planos da mente ao céu,
Mergulham em profunda bondade,
Buscam lealdade da vida ao léu.

Olho no olho e todo carma inspira,
No íntimo de uma alma iluminada,
Espírito de
tênue tempo se aspira,
Ao sentir sua frágil carne libertada.

Viver o passado à leitura de outrora,
Em harmonia que não se confunda,
O sol e a lua se beijaram na aurora.

Norte e sul abraçam a eterna calma,
E caminham juntos todo esse tempo,
Doce presente que cura a minh’alma.


 

37

Entropia

Jorge E. Leal

O mundo é caótico e traumático,
em que me parecia confortável
acordar desse sonho reles e vil.

Vi-me numa realidade nua e crua,
de desejo e sedução inebriante,
relação fantasiosa em tênue tez.

Que nos permita viver o melhor,
uma vida digna, às vezes obscura;
então faça o seu pior, se puder.

O tempo todo é de intensa guerra,
e quase sempre de pura tristeza,
em crônicas de lutas perdidas.

Legado importante dessa história,
para uma morte doce e sombria,
mas lenta e dolorosa o bastante.

Nos arrefece e encerra o destino...
ou em algum lugar de minha alma,
ainda me resta uma esperança.

37

Ode ao Caos

Jorge E. Leal


Brilha estrela vermelha da ganância,
Queima sementes nos campus elísis.
O ódio enterra a raiz da intolerância,
Ceifa-se o que é bom da terra brasilis.

Rouba-se a construção dessa história,
Apagando-nos ainda o que nos resta.
Não ficando nada em nossa memória,
Só há ressignificação que não presta.

Então acaba o povo sem tua aliança,
Falsas promessas e suas glórias anãs,
Abatem nossa espirituosa esperança.

Enforcam vossa entorpecida liberdade,
Alardeiam um melhor futuro no tempo,
E tudo volta ao normal no céu da cidade.

 

 

 

 

 

 

 

39

Zum-zum-zum

Jorge E. Leal


Riu a vizinha ao armar esse quiprocó,
Que envolveu o povo em pleno tralalá.
A paz que reinava foi pro beleléu sem dó,
E o samba-lelê embalou aqui e acolá.

O barraco armado acabou em fuzuê,
Gente e confusão virou um salseiro lá.
E nesse sanhaço escalonou o bunda-lelê,
Mas ninguém quis saber desse bafafá.

Pode até esquecer a dor dessa pindaíba,
Sabendo que a vida não é só lero-lero.
Não fica feito uma songa-monga caída,
E correu livre o menino serelepe, espero.

Quem colocou esse bode na sala viu,
Que linda é a mulher brasileira enfim.
Dona do balaco-baco me olhou e riu,
E com orgulho me disse: aqui é assim!

 

46

Colapsando

Jorge E. Leal

Amaram ar aram e...
Apagaram a luz,
Roubaram a verdade.

Analisaram a situação,
Cantaram a vitória e...
Espalharam crueldade.

Chegaram ansiosos e...
Formaram exemplares,
Disseminaram mentiras.

Anestesiaram a mente...
Endureceram corações,
E corromperam vidas.

Aniquilaram multidões,
Destruíram o mundo,
E fecharam a porta.

38

Oia Helena

Jorge E. Leal


O eu ou dessa poesia que sou,
Ora uma flor bela és meu porvir.
Sei não se hoje nem eu me vou,
Para talvez o amanhã dessa partir.

Do ontem o refém me revela,
Imagens ou sons de um sim.
Pintados a mão tua aquarela,
Ânsia que contém o meu jardim.

Cenário de um quadro tão – Oia,
Santo em doces lembranças vãs,
E nos olhos de Helena uma Joia.

Um sapo em ato de rebeldia espraia,
Gritou alto e o choro de velhas anciãs,
No tempo em que a voz valia a vaia.

40

PanDemônio

Jorge E. Leal

 

O escuro do quarto me abrânda,
No silêncio do sono se corrompe,
E um eco do mundo te comanda.

Não há mais o sopro do vento,
Ou se sobrou mentira alguma,
Sem carne, nem corpo ou alento.

Sinuosa esteira do caminho,
O largo da vida nos consome,
Essa ladeira que trilho sozinho.

O sonho na poeira se assentou,
Sobram doces detalhes da vida,
E uma crua verdade que restou.

Para a porta do mundo se abrir,
Além dessa disputa nada sobrou,
No fim a vida sedenta caminhou.



 

29

Aos 59

Jorge E. Leal


Cheguei ao palco do ápice,
Apesar dos atropelos antes.
Tudo exposto nesse acápice,
E dos desvios inconstantes.

Sem medos e ou zelos,
Um brinde a uma vida.
Que não seja de apelos,
Prazeres sem medida.

O que se tem de melhor,
Mesmo sem qualquer platéia,
E não mais importa se pior.

Comemorar mais um decênio,
Desculpas já não importam,
Diante do esquisito proscênio.

 

51

Livros

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