Julian Lael

Julian Lael

Graduado em Direito pelo Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC), Especialização em Direito Penal e Processo Penal pelo Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC). Especialização em Inteligência de Segurança Pública pela Universidade Vila Velha (UVV). Graduado em Letras Português pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Atua como Professor na Educação Básica na Secretaria Municipal de Educação de Cabo Frio/RJ (SEME/CF-RJ). Formação docente e educação básica.

Perfil
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O Horizonte: Sou Eu!

J.E. Leal

 

Hoje fomos ao monte Olimpo depois do café da manhã. À bela vista, o oceano Atlântico em toda sua extensão e imponência à nossa frente parecia calmo. Livre de qualquer ondulação em toda a sua superfície, resplandecia ali um sol de brilho aconchegante, convidando-nos à praia. Ao largo, passeava um grande barco de velas coloridas. Lançando-se ao mar azul, parecia seguir seu caminho no sentido ao infinito, rumo às estrelas. Sem destino certo, deixava seu rastro suave entre as espumas brancas das pequenas ondas.

Atrás de nós, passava protuberante a ponte da cidade presépio que, em seu movimento frenético, mostrava-se fortemente pesada. Ela trazia a vontade do caos vivo na geografia do desconforto urbano. A estrutura encontrava-se agitada pela passagem vagarosa de um pesado navio e seus dois filhos rebocadores por debaixo de sua envergadura. Na batida das hélices, espumavam-se histórias de sangue das coisas mortas por baixo da superfície fervilhada de vidas.

Ali no alto estávamos nós, um e outro, no silêncio da observação admirada na deslumbrante paisagem vitoriana, em puro êxtase e contemplação. A olhos vistos e não tão distante, a vitória dos sonhos estava próxima aos homens canela-verde. Do alto daquele monte, observávamos o céu, o mar, o santo graal e a ponte. No comando estavam as aves em seu voo, planando, prontas a replicarem sua linguagem. Elas mergulhavam rumo ao infinito azul na luta pela sua própria sobrevivência.

Foi quando me perguntei se estava sonhando de olhos abertos ou se era uma doce miragem. Naquele dia, tive medo de ser um breve passageiro, pois o meu navio ainda nem desatracou do porto seguro rumo às intrépidas aventuras que todo homem deve ter para contar suas próprias histórias. Infelizmente, fomos colhidos pela tarde, que já prenunciava o anoitecer após a agitação de um dia diferente dentre tantos outros.

Então esse homenzarrão de rosto tisnado, com um aspecto bravo — do tipo daqueles homens que sentimos terem atravessado longínquas memórias em diversos lugares desconhecidos por entre perigos constantes —, e cujo olhar sereno agora parece conter-se lá no fundo de sua alma, queria paz e curtir a paisagem. Não acreditando no que se transformou, superando o engano da palavra e da sensação que experimentou, esse homem enérgico nunca teve medo de nada, mesmo diante do perigo iminente. Ficou emocionado, agitado e, ao mesmo tempo, ansioso. Mas o horizonte é o mesmo, e o homem tornou-se outra coisa.

Contudo, a história do sangue de quem é corajoso não acontece por acaso. Ela se impõe perante um ataque, não importando se o homem está diante da morte inevitável e prestes a conhecer o Deus do submundo, ou perto de todas as formas conhecidas de perigo que acontecem em certas circunstâncias anormais e sob certas influências misteriosas, nessa trajetória dos riscos iminentes. O verdadeiro ser descobre-se ante o medo, que é algo instável como um acontecimento ou reminiscência dos horrores de uma guerra injusta, como as de outrora. Esse homem não acredita em lobos ou leões. Imagina enxergar uma silhueta no meio da floresta à noite e sabe que não há como escapar ao próprio medo.

Descobri que eu sou dono do meu próprio destino. Pois se antes me sentia inseguro por medo do escuro, sem conseguir ver nada, compreendi que a escuridão não era só inimiga, mas também minha amiga; ali eu também não era visto. Tornei a senti-la e enxergá-la como aliada do passado, no presente e no futuro, em meio às agruras da vida.

Na trilha da vida, fui covardemente traído e abandonado. Fui entregue aos leões por meus indignos familiares. Eu não sabia que o caos e a destruição estavam infiltrados no mesmo sangue que jorrava em minhas próprias veias, às quais estendi a mão para ajudar, por diversas e repetidas vezes. Conquanto eu buscasse ajudar, a inveja e a ingratidão sempre sobressaiam. Mas tudo isso não passou despercebido frente às agruras de uma vida sofrida e humilhada, em um tempo que remontou duas décadas e passou pelo meu horizonte — o mais alto patamar do sofrimento, em frações de segundos refletidas de uma vida inteira estigmatizada na infância e adolescência.

Foi nesse mesmo local em que fui vítima de uma conspiração armada, julgada e condenada por pura inveja e ganância de um cão ingrato que mordeu a mão daquele que o alimentou. Taxado como suspeito para ser jogado aos leões ou atirado aos lobos do mar, de cima da ponte para a escuridão das profundezas, por uma família de miseráveis — pobres coitados que sempre ajudei em seus pedidos —, isso serviu para que eu me resignasse, sem me entristecer ou ter a menor nostalgia. Mas medo não senti. Diante da alta traição, já a pressentia em casa.

E, no entanto, como esse traidor é o próprio filho da Morte, o seu sol não mais brilha. Sua vida esvai-se e se dissipa em um escuro nevoeiro de maldade em seu coração e mente. Seus dias de uma vida lenta e dolorosa estão contados. Preparem-se bem, sorriam e acenem, senhoras e senhores. Pois aos chacais a vida não serve para nada; espalham o seu melhor horror no dia a dia, noite adentro, semeando a discórdia e a desunião. Tenho pena da sua forma de parasitar no mundo. Resignem-se imediatamente.

Pois as noites já não são tão claras e não estão mais a seu favor nessas suas vidas vazias, de almas igualmente negras e comezinhas, refletindo inquietações mais sombrias que encharcam os seus cérebros. Se o seu mau-caratismo e a sua maldade são como altas montanhas, vagas e desiguais, diferentemente vemos a lei do retorno, que atrelará suas ações a seus resultados. Tudo isso implicará uns aos outros em si mesmo, e tu te afogarás em tua própria arrebentação, alardeada nesse teu reflexo de ódio.

Nessa visão de horizonte, observa-se o mar furioso ficar mudo e sem movimento no seu devido tempo. O sol devorará a face da hipocrisia de norte a sul nessa vida mesquinha, que escorre pela chama implacável da raiva e da ingratidão que corroerá os pilares da ponte de sua existência medíocre. Não adiantará nenhum protesto de seus cavalos, que o enterrarão até os joelhos — homenzinho cuja alma está perdida nas encostas de surpreendentes colinas de seus verdes pastos queimados pela ira. Ao jogar no poço uma época e uma história de vida, ele não considerou os bons tempos de vivência entre dois amigos.

Se já não nos falávamos, por sermos esmagados pelo calor da sua inveja, da ganância e da preguiça que se alastrou em seu lombo, saiba que não me sinto ressentido ou culpado. Meu horizonte é muito maior do que o seu laço de passarinheiro, enquanto tu ficas remoendo-se com essa sede vil que abate todo aquele que caminha nesse deserto perverso da mente.

Eis que, de repente, o meu irmão caiu do cavalo e bateu com a cabeça de frente com a dura realidade da vida, fulminado em sua amarga ilusão. Por quanto tentei em vão salvá-lo, por diversas vezes na trilha da vida, até que aquele dia retumbante e inexplicável que me foi premeditado enchia-me os ouvidos com o seu ruído caótico, intermitente e incompreensível. De inveja hedionda, perpetrada por aquele cadáver mal-amado no interior daquele barraco incendiado pelo ódio, entre quatro paredes de areia e miséria, enquanto o eco da injustiça lançava sobre nós todo o seu veneno, ao amaldiçoado barraco de número cinquenta e seis, rufarão os tambores da morte, da miséria e do sofrimento. Só lamento.

E nesse dia compreenderei o que é ser lenda; e saberei me portar melhor ainda quando essa ocasião chegar… Os boçais serão surpreendidos naquele ruído insólito, atribuído ao eco de lamúria, engrossado por lágrimas sepultadas no silêncio sepulcral multiplicado pelas dunas do vale da sombra da morte. Ao chegarem ao Estige, não terão as duas moedas para Caronte fazer a sua travessia e serão arrastados, numa saraivada de arrependimentos, pelas corredeiras do caudaloso rio. Não mais terão nem as ervas daninhas que plantaram em vida para se agarrarem; e, sempre que o fenômeno do arrependimento acontece, já é tarde demais, estando carimbado em seus pergaminhos. Ouvirão o rufar daquele tambor que os chama e os arrasta rio abaixo até as profundezas, e por ali não passaria nem uma só espécie que não merecesse tal destino. E isso para eles é tudo o que resta. Mas somente mais tarde virei a saber disso.

Segundo minha percepção, as noites deles cairão mais cedo na escuridão de seus próprios sofrimentos, até que seu céu se apague completamente. Apesar de tudo, ainda me lembro de quando íamos cear e dormir em casa, todos juntos como irmãos, companheiros fraternais. Por vezes, eu erguia os olhos e murmurava, verificando a segurança, o conforto e o bem-estar de cada um. Perguntava-me, em silêncio: Será que estão bem?

Mas o pai matara todos os nossos sonhos antes de dormir. Desde então, a noite parecia o fim do mundo, um pesadelo contínuo que nos perseguia em nossas recordações. Hoje, os três filhos estão casados, mas não convivem entre si. As trevas deles são ainda mais profundas. Não vejo nada de bom no passado, nem à minha volta ou no entorno daquela época. Sobrou apenas a ramaria de uma árvore frondosa que plantei no passado e que lá ficou, sem arrimo.

Surgiu-me na memória um velho quadro inesquecível da época de estudante, em preto e branco. Eu era jovem, ainda uma criança, vestindo uma camisa branca de tergal com bolso e botões. Estava sentado a uma mesa, ladeado por uma pilha de livros de um lado e, do outro, por um globo com um mapa-múndi ao fundo. Encontrava-me de braços quase cruzados, sobrepostos um sobre o outro em cima da mesa, testemunha de um bastardo passado inglório. Desse passado que não volta, não quero mais nem as lembranças.

Esta noite também não estou outra vez à espera deles. Por vezes, contudo, volto a lembrar o quão forte e resiliente fui para sobreviver ao caos. Por um instante afligi-me, mas depois tranquilizei-me como pude. Fiquei feliz por ter ido, justamente naquele dia, tirar aquela foto: o retrato de um sobrevivente ante o horror. Ponho-me a refletir e a contar a mim mesmo as histórias do meu horizonte do passado. No presente, vislumbro ainda os passos do futuro; só assim consigo me acalmar e resistir de pé.

Junto à fogueira da vida, vejo hoje um homem velho. É um cão bravo, maldoso e desdentado que reluta contra a morte. Está quase cego, já sem os seus grandes bigodes negros, ostentando um olhar sisudo e uma expressão grave e aguda sendo torrados pelo tempo. Hoje, ele é só mais um daqueles cães sem dono e sem destino, perdido no tempo e no espaço. Um animal que já morreu e só esqueceu de cair — que me perdoem os cães.

Lá no passado, o temporal que insistentemente açoitava e abalava as estruturas do pequeno barraco por lá ficou. Deixou muitas cicatrizes; uma espécie de buraco aberto junto ao peito. Pela fresta da fechadura da porta, via-se acontecer, repetidas vezes, a confusão armada por esse algoz retumbante. Eram panelas batidas e pratos que voavam ao vento sob o clarão da tempestade, em meio a grandes relâmpagos. Apesar de todos os meus esforços, eu mal sentia a beleza da vida diante do profundo terror instalado na alma daquelas pessoas. A cada vez que esse animal parava de falar, todos os ouvidos se punham a escutar ao longe a quebradeira geral dentro do barraco, mantido a duras penas.

Por estar cansado de assistir a essas ações imbecis, tentei fugir por diversas vezes, sem contudo lograr êxito. Então, resolvi me dedicar aos estudos para sair dali. Mas a mulher miseravelmente sempre caía de joelhos nos seus cantos, escondendo o rosto. Ela pedia aos filhos para tornarem a aceitar aquelas agruras, argumentando ser pelas razões do sangue.

Com o passar do tempo, percebi que o horizonte sou eu. Hoje, eu imponho meus limites aos meus próprios ombros e cobro o respeito merecido. Mesmo diante daquela visão assustadora, frente à atuação daquele animal naquele lugar e em meio àquelas pessoas de cabeça dura, eu não sucumbi. Todavia, o cão maldito não dava sossego no barraco. Farejava e urinava até nas paredes, fazendo sempre o bambu gemer para nos ferir. Aquele animal guardava muito rancor e nos deixava atormentados.

Então, recompus-me homem aos dezesseis anos. Enfrentei-o em defesa da mulher que estava sendo enforcada por ele. Ele lançou-se sobre mim numa espécie de paroxismo de terror familiar, praticado por um cão furioso. Abrindo a porta dos fundos que dava para uma pequena área de serviço atrás do barraco, atirei o animal para fora de casa.

O cão dos infernos calou-se naquele instante. Ficamos, porém, mergulhados num silêncio ainda mais aterrador. De repente, todos juntos sentimos um sobressalto: alguém deslizava ao longo da parede exterior em direção à porta da frente. Depois, o vulto passou encostado à lateral com passos pesados, tateando a estrutura com mãos raivosas. Rosnando e roçando na parede, arranhando e batendo fortemente, ele começou a berrar como uma criança má.

O cão bêbado apareceu com a cabeça encostada no vidro da basculante da cozinha. Seus olhos estavam vermelhos de álcool e fúria, como os das bestas-feras. Saindo de sua boca, vinham apenas maldições e pragas mil em um som arrastado e pastoso, para logo depois converter-se em um murmúrio lamentoso. Logo em seguida, um barulho desconfortável estourou na cozinha. O cão velho babava de raiva e começou a chorar, colocando-se na posição de vítima, como sempre fazia após passar o efeito ébrio de suas bebedeiras.

Os filhos se precipitaram e o perdoaram, deixando um grande buraco aberto em seus corações, almas e corpos. Ficaram ali até o alvorecer, incapazes de se moverem ou de pronunciar uma só palavra, espantados e traumatizados. Junto às paredes daquele barraco, restaram apenas traumas, castigos, espancamentos e desilusões.

Hoje, acuada em seu canto, jaz uma vida miserável à espera da morte, que outrora foi tão clamada por ele. Hoje, na certeza dela, o velho cão dos infernos teme morrer. O algoz desdentado, com o focinho estilhaçado pelo decurso dos noventa anos desperdiçados em uma vida inútil, finge esquecer tudo o que de ruim falou e fez.

Por conseguinte, o homem de rosto tisnado calou-se ante o seu horizonte promissor. Ele lembra também das belas histórias vividas na construção de sua própria jornada, estabelecendo uma meta de verdade absoluta: com o tempo tudo passa, o homem não é eterno, mas é livre para desbravar os horizontes que quiser.

E aqui fica o alerta: se você me desrespeitou e eu bati em retirada no meu silêncio, te dou um conselho: não confie mais em mim.

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Biografia
Sou Jorge E. Leal, Graduado em Direito pela Unesc em 2006, Professor de Língua Portuguesa, formado pela UFES em 2016, Pós - Graduado em Direito Penal e Processo Penal, pela UNESC; Pós - Graduado em Inteligência de Segurança Pública, pela UVV em 2010, e dentre muitos outros cursos relacionados a educação, incluindo formação em Neurolinguística, através da plataforma AVAMEC, concluído em fevereiro de 2025. Sou extremamente compromissado com o ser humano, principalmente pelos que estão em período de desenvolvimento, como os nossos alunos, um educador indignado com os rumos atuais da educação em nosso país, e que está sempre em busca de alternativas que tragam uma melhora no pleno desenvolvimento dos alunos e consequentemente na qualidade do trabalho do professor.

Poemas

81

Jovem Fla: via a Pista

[Viagem às raias do significado]

Dodge Leal

 

Flamengo via no coração,

O seu amor por ele, amar.

De tão sublime sua paixão,

Foi bom sentir o seu calar!

 

Na veia corria seu sangue,

Marcante o aroma da glória;

Pulsar sentidos, se zangue,

Nesse vai e vem da vitória.

 

A musa desse jogo encena,

Os amenos sonhos, ilusões,

Assim, a alma entra em cena.

 

A tela resplandece a copa,

E faz de mim o seu comparsa;

Zigue-zague no gol ensopa!

4

Panóplia Literária

Jorge E. Leal


A bandeira municipal
discute com a bandeira estadual
qual delas é capaz de bater
a bandeira nacional.
Enquanto isso a Constituição Federal
tira ouro do lombo do cidadão.

4

Chá das quatro

Dodge Leal

Você já colocou?
Mais café no bule,
Vê fogo na lenha,
e não mais pule.

E você já tirou?
Para que venha,
De jeito sentou,
À mesa resenha.

A xícara espera,
Do leite ao doce,
Da bela donzela.

Se o tempo fosse
Hora que tempera,
Quem senta moce.

9

Diário de bordo

Dodge Leal

 

Um marujo navega nas águas da aventura,

Um romântico flutua nas ondas do amor;

Um corsário navega nos mares da batalha,

Um soldado marcha nos campos do embate;

Um piloto navega nos ares das tormentas,

Um jovem marreia na jornada da vida;

Um homem navega no oceano do destino,

Um velho ancora nas águas da sabedoria;

E todos aportam no cais da memória.

7

Justa Espada

Dodge Leal

Deusa Thêmis do Direito,
Com sua espada afiada,
Faz valer o que é perfeito,
Na verdade consagrada.

A todos impõe ação,
Bate com rigor o malho,
Para dar libertação,
Com a força do cajado.

 

11

É o que é

Dodge Leal

Assim vai te perder a tua cabaça,
No coité não vai
mais se deliciar,
Nos frutos que vem dessa bagaça,
Pois atrás não dá
mais para voltar.

Objeto sagrado que dá vida,
Aflora essa tal
flor da natureza,
Desvenda
no tempo essa ferida,
E mostra toda a
sua grã beleza.

Assim espero a sinhá que sabia
Sentir no vento a
sua liberdade,
E voa alto
tal singela sabiá.

Para a vida seus frutos vir a dar,
Sem sombras de
toda essa vaidade,
Sair desse ca
sulo e caminhar.

 

12

Como Ela

Por Dodge Leal

 

Lá vem ela
Agora é ela
Deve ser ela

 

Lá vai ela
Outrora foi ela
Não é ela

 

Sempre ela
Nunca ela
Amanhã ela

 

Eis que ela
Ainda ela
Quem é ela

 

17

Ninho de Gato

Julian Lael

O mundo começava onde a terra batida do quintal encontrava os pés descalços. O barraco de madeira, com suas janelas baixas que pareciam espiar o terreiro dominado por patos, galinhas e o barulho do chiqueiro, era cercado por ripas simples de madeira. Logo na frente, esticava-se o varal de arame farpado. As farpas, feitas para afastar, ali ganhavam o capricho das mãos de Maria: serviam para prender e secar ao sol os pesados tapetinhos de retalho, cortados em formato oval, que o povo na sua crueza chamava de "tapetinhos de xereca". Era o retrato exato daquela vida: a crueza do arame e o aconchego dos panos.

Lá dentro, quando o frio da madrugada passava de mansinho pelas frestas das tábuas, a iluminação morria no pavio da lamparina. Era a hora do ninho de gato. Na única cama do quarto, dormiam todos embolados os três irmãos: Dodge, o mais velho; Pato, o do meio; e o Cão, o caçula da casa. Braços e pernas se cruzavam na falta de espaço e no excesso de união. Se um se virava, todos se mexiam juntos. O cobertor era curto, mas o calor dos corpos resolvia o que a pobreza não conseguia dar. Mas aquele aperto era mais do que busca por calor; era um refúgio de sobrevivência. Naquela cama, os irmãos se protegiam do verdadeiro perigo que rondava o barraco.

O terror tinha dia e hora para chegar. Todo final de semana, o pai, conhecido por Pepei, retornava para casa bêbado feito uma porca, transformando o lar em um inferno de crueldade. Cruel e cachaceiro, Pepei ameaçava a família o tempo todo: gritava que ia se matar, que mataria a todos ou que iria embora para Minas, deixando os filhos no desamparo.

Os espancamentos contra a esposa, Maria, e os meninos eram rotineiros e violentos. A ignorância e a maldade ganhavam requintes de tortura quando, em meio aos porres, Pepei obrigava os filhos a ficarem completamente pelados, de castigo, ajoelhados em cima de caroços duros de milho por horas a fio. Naquelas noites escuras, o homem clamava e chamava pela morte em seus delírios alcoólicos. Hoje, aos 89 anos de idade, o velho Pepei definha em sua vida miserável lentamente, saracoteando entre as ruas do bairro e sua cama, resistindo com unhas e dentaduras, justamente àquela que ele passou a vida inteira chamando.

O dia amanhecia com o estalar dos gravetos no fogão a lenha, que aquecia a casa e anunciava o café preparado por Maria, a mãe sobrevivente. A água pura, com gosto de frescor, vinha do filtro de barro e da moringa sempre à sombra, abastecidos pela robusta caixa-d'água quadrada de cimento no quintal. Logo se ouvia a buzina da bicicleta do padeiro, equilibrando uma cesta gigante cheia de pão fresco. Quando sobrava um trocado, o destino era a vendinha da esquina. O balcão de vidro era um reino mágico de maria-mole, bala soft, mariola, geleia no saquinho, suspiro, cocada baiana, pé de moleque e quebraqueixo. E quando o bolso estava vazio, a criatividade adoçava a boca: comia-se tomate com açúcar ou colheradas de açúcar misturado com farinha.

A infância também acontecia no grito e na poeira da rua, longe dos olhos do agressor. O céu ficava colorido de pipas e o chão estalava com o pião. A molecada se dividia entre pular corda, queimada, cabo de guerra, bota e garrafão. Tinha o ritmo do bate-begue, o vai-e-vem de plástico, o bilboquê e a velocidade dos carrinhos de rolimã na ladeira ou dos carrinhos feitos de lata de óleo vazia com rodinhas de sandália velha.

As pipas, aliás, exigiam suor e dedicação. Em um domingo bem cedo, por volta das nove da manhã, o céu estava limpo quando o teste começou. A pipa havia sido construída com orgulho na noite anterior por Dodge: papel de seda colorida e uma rabiola longa feita de sacola de lixo. Estava alta, linda no azul. Foi quando surgiu o Netão. Ele estava voltando da missa matinal com a roupa de domingo, mas a pose era a de sempre: branco, forte, gordo, tirado a fortão e extremamente folgado.

Sem pedir licença, Netão agarrou a linha esticada, arrebentou-a da mão do dono e anunciou que ia soltá-la. O aviso foi dado curto e grosso por Dodge: "Não faz isso. Suei muito para comprar a linha e fazer a pipa. Se você soltar, vou te cobrir de porrada". O folgado não acreditou na força de quem já enfrentava monstros muito piores em casa. O resultado foi um céu sem pipa, o Netão com o olho roxo e um silêncio que dura até hoje. Na rua, o respeito se pagava caro.

Mas o verdadeiro refúgio da alma morava na saudade dos avós maternos, os pais de Maria, que traziam o contraponto de amor daquela infância dura. Eles eram o retrato da perfeição na pobreza: ela, uma mulher branca de descendência italiana; ele, um homem negro orgulhoso de sua descendência escrava. Juntos, formavam um casal impecável e os melhores avós que os meninos poderiam ter. À luz difusa da lamparina, o tempo parava para ouvi-los contar causos antigos e histórias arrepiantes de assombração na roça, que faziam a espinha gelar e o corpo procurar o aconchego dos mais velhos.

Daquela convivência na roça, ficavam também as marcas da inocência. Como no dia em que o neto, sem entender nada da vida, viu pela primeira vez dois cachorros cruzando no meio do terreiro. Curioso e puro, correu para perguntar à avó o que era aquilo. Sem jeito e com a severidade típica da época, a italiana cortou o assunto de imediato: "Para de falar besteira, menino! Os cachorros estão apenas amarrados!". Dodge aceitou a resposta, guardando na memória a graça daquela ingenuidade que os avós faziam questão de proteger.

Para a escola pública, a dignidade ia na carcaça. Sem mochilas coloridas, os cadernos sem arame doados pelo governo eram carregados com cuidado dentro de uma sacola de arroz Filé. Nos pés, usava-se o Conga e, mais tarde, o Kichute, com o cadarço longo dando três voltas na canela. O uniforme era de tergal, duro e cheio de botões para fechar na pressa da manhã.

As marcas da violência, porém, seguiam o menino até na escola. No Polivalente da Glória, durante o sexto ano, após uma reprovação, Maria cruzou os portões disposta a descarregar a frustração daquela vida miserável em um espetáculo público. A surra aconteceu ali dentro da escola, sob os olhares de colegas e professores, desferida com o cabo grosso e pesado da tomada do ferro elétrico. Cada pancada trazia o peso de uma vergonha exposta, uma humilhação desnecessária que doeu na alma muito mais do que no corpo, repetindo fora de casa o ciclo de dor que vinha do lar.

Mas o destino daquela história mudou pela força do irmão mais velho. Dodge cresceu determinado a quebrar as correntes daquela miséria e se tornou o exemplo da casa. Moreno, alto e magro, ele tinha apenas 19 anos de idade quando começou a sua verdadeira história de lutas. Em 1989, por meio de um concurso público rigoroso, ele ingressou nas fileiras da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES). O curso de formação de seis meses foi feito inteiramente às escondidas, longe dos olhos e da sabotagem do pai.

O grande dia da virada aconteceu logo após a formatura. Dodge chegou em casa orgulhosamente fardado. Pepei, ao dar de cara com o filho transformado em autoridade, ficou paralisado de surpresa e indignação. Enquanto o jovem soldado tomava o café da manhã à mesa, o velho, tentando manter a pose de valentão, perguntou com desdém se ele tinha virado "samango". A resposta de Dodge veio como um tiro certeiro, desarmando o agressor de uma vez por todas: "Samango é a boucetta da tua mãe, seu filho de uma puta". Pepei arregalou os olhos, engoliu o próprio orgulho e voltou correndo, assustado, para o seu barracão de preguiça e miséria. Aquele foi o marco do fim do império do medo.

“ Não pergunte do que sou capaz, dê-me a missão!”

Com a farda e a honra do trabalho, Dodge assumiu a responsabilidade de arrancar sua família daquele sofrimento. Sob o seu comando, o velho barraco de madeira ficou no passado; ele liderou a mudança de todos para um prédio de alvenaria digno. Foi ele quem garantiu a carne na mesa onde antes faltava mistura, transformando a mesa de Maria em um lugar de fartura.

Mais do que o sustento material, Dodge estendeu a mão para o futuro dos irmãos, incentivando e cobrando que Pato e Cão estudassem para vencer na vida. Porém, o mesmo sangue reage de formas diferentes às feridas do passado.

Enquanto o exemplo frutificou em um lado, encontrou terra seca no caçula. A ganância e a preguiça dominaram os passos do irmão mais novo, alimentando uma inveja corrosiva pelo sucesso do mais velho. De olho grande nas conquistas que Dodge alcançou com o próprio suor, o caçula escolheu o caminho do menor esforço e acabou colhendo o próprio fracasso.

A vida foi uma guerra difícil, cheia de privações, violência extrema e marcas profundas. Mas a história provou que, no fim, a carcaça formada na poeira da terra batida e defendida na honra da farda da PMES foi mais forte. Dodge venceu os monstros de Pepei, protegeu Maria, ergueu os seus e gravou seu nome como o verdadeiro alicerce daquela família.

 

15

Clemência ...Não!

Jorge E. Leal



Nos canhões de Navarone se vai,
Apontar uma infância tão sofrida,
Ou se pela ponte do rio que Kwai,
Regatam uma época perdida.

Inocência de uma era querida,
Telas passadas nesta vida inteira,
Mazelas de uma família afligida,
Cenas de filme que talvez não queira.

Cicatrizes marcadas no coração,
Juventude que foi muito além,
Idiossincrasias dessa impressão.

Modus operandi desse status quo,
Data vênia a disciplina engendrei,
A contragosto de um ser iníquo.

9

Política sindical


Julian Lael

O sindicato municipal
discute com o sindicato estadual
qual deles é mais imbatível
que o sindicato federal.
Enquanto isso, os sindicalizados
tiram meleca do nariz.

Ato contínuo, entre secos e molhados,
plumas e paetês, em embate, Sindipol
e Sinpol, sob o jugo da Assinpol,
em cena digladiam no entrevero,
só pra ver quem manda mais.

Entrementes, a Cobrapol
saracoteia no Planalto,
de um lado para o outro,
feito tal qual um aprendiz.

 

 

12

Livros

1

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