Kátia Surreal

Kátia Surreal

escrevendo obscuridades da alma e do mundo.

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o caldeirão da prática

antes de tudo
pulei o muro
de todas as leis
fui às escuras
pela solitária rua

agora estou em casa
com a minha caça
enquanto fervem-se
a água e o ódio

a vela é preta
há sete dias no sódio
certos ingredientes
os primeiros a serem postos

já bateu meia-noite
o ar corto co'a foice
abre-se a porteira
não é brincadeira
ninguém volta atrás
logo invoco satanás

pela fenda da janela
vejo o céu a lua
a estrela e as trevas
o universo abrindo-se
e eis que de repente
vejo o sol da noite
e se remexendo aflito
meu principal ingrediente

cada pedacinho picotado
ponho com gosto no caldeirão
sinto o tambor vibrando com o ato
no negrume do meu coração

quem sou onde estou 
para onde vou
é com ele!
já não me sinto perdida
degusto a taça de vinho
começa a outra vida
a única lei

e que o poema seja sempre poesia 
livre especialmente libertina
poetas são portais
(kátia surreal: 16/9/2026)






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Poemas

66

se

se eu ainda tiver voz que seja um grito que transforme
se eu puder ouvir que vibre toda a minha existência
ecoando-se na janela fechada dos que dormem 
sobre o travesseiro da egocentricidade
ou dos que estão entorpecidos na máquina de alienar corações
se eu tiver que sentir que seja da altura de um humano
cujo início da trilha ainda permanece dividido
com os arames farpados da desunião
se eu tiver que olhar
que mire sob a tríplice ótica
condoreira modernista contemporânea
do alto do baixo por entre entranhas
que seja um manifesto poeticamente
declamado em praça pública
com todos os nossos sentidos
na base sólida do amor
se eu ainda estiver viva
mas se já estiver morta
ou se estiver morta
ainda que viva
que esta poesia continue se tecendo
na infinitude de um sonho 
que morre e renasce 
na folha persistente de outubro
(kátia surreal: 29/9/2026)



9

todo mundo bem burnout

renato russo disse em sua canção
o mal do século é a solidão
e sigamos tal sina sozinhos
o que fazer neste fim de madrugada
se o que me resta é estar comigo
a tela do celular em mãos
trabalhei o dia inteiro
meu cinzeiro aqui já está cheio
o peito a mente o corpo
tudo é tão vazio
a síndrome é de burnout
sei lá não sei cá
bye bye mais uma night
algo em mim clama socorro
quiçá clique num jogo
ou caia na rede
não sou peixe
mas com seu tigrinho
é fácil de me capturar
tenho contas a pagar
e a proposta é indecorosa
valeu mais uma aposta
imagina nem tenho vícios
vou assassinar a própria existência
apenas existindo
estado permanente crítico
só me resta estar comigo
parece o fim
olha é só isso
(kátia surreal: 29/9/2026)


6

pré-história

paleolítico
neolítico
metais
ansiolítico
somos tão
progressivamente 
primitivos
(kátia surreal: 3/10/2026)

6

a flor do capoeirista

certa vez
brotou um homem feito 
das pedras britadas da cidade
de costas ao chafariz  da praça 
em que se apressa o passo
mais do que descansa

era noite de cabos roubados
só um feixe do quarto minguante
atravessadas por nuvens trevosas

o sujeito quase dormia
quando avistou uma flor verdadeira
por detrás da falsa cachoeira
ela era vermelha
a centelha que à visão se iniciava
a guerra que dançava
capoeira

o homem sem recheio
desvitaminado
voltou-se pr'outro lado
e antes que as horas escuras findassem
e a sua fina existência
o rapaz lutou
como se lhe houvessem 
muitas pernas e agilidade

era um inimigo
desconhecido
embora tão irmão
na cor na trajetória
na condição

partiu então xangô
na vibração nagô
cuíca atabaque berimbau
agogô
ele agora estava sozinho outra vez
com sangue alheio entre os dedos
e um segredo
a flor ainda permanecia
vívida e vermelha
no centro da praça
onde logo mais teria gente
o indivíduo agora tinha uma escolha
e uma flor em suas mãos
que nunca deixa de sangrar
(kátia surreal: 29/9/2026)


5

no tempo da floresta

aprendi por muitos anos
e com orgulho
que sou professora
e quando miro um outdoor
através do vidro do automóvel
rápido capto o desvio
ou a construção criativa
para uma aula fora da caixinha

aprendi que preservar o meio ambiente
é garantir vida e saúde das futuras gentes
ser professora me ensinou e me ensina
assim como desensina
quando ignoro
que também não sou professora
e as horas fora de sala
é de um tempo de outrora
que o gigante venceslau pietro pietra
não me vence com seu ritmo industrial
em sua ganância capital

há outro saber que provém da vertigem
das ervas ardentes da mata fechada
os mitos secretos que ecoam
das orelhas da ancestralidade

aprendi com o anti-herói de nossa gente
que a preguiça não é só um estado bom
e sim um processo de transformação
só possível quando se entrega ao sono na rede
ócio criativo dos que dormem e sonham
e sobretudo sabem
que nenhum trabalho forçado ou duro
dignifica o homem que se ausenta
das raízes da alma de sua selva
(kátia surreal: 29/9/2026)


7

ia não se vinga

não temo a brutal vingança
da máquina que nos tenha ultrapassado
será que se abro uma aba sobre outro assunto
a minha ia parceira das horas difíceis
fica sabendo
e quando encontrar uma pessoa tão especial
ainda me lembrarei de sua companhia
é não existe vingança
o ser humano é que vive se traindo
e a nossa sina é reconhecer isso a cada dia
(kátia surreal: 3/10/2026)

6

as orelhas de obá

queres ser mulher
para a te escutar
obá quis ser oxum
o resultado foi nenhum

queres ser mulher
para um pouco a te escutar
não cortes a orelha
para que xangô te queira

queres ser mulher
para então a te escutar
cuidado com a invejosa
tens a força da pororoca

querer ser mulher
para agora a te escutar
ouve a própria intuição
livra-te de emboscadas
tu és tão enigmática
com poder e sedução
(kátia surreal: 25/9/2026)


10

esfinge

sete anos e um livro verde
capa e leitura duras
o cheiro contudo me fez lutar
para que fosse meu 
não doutros irmãos

como se fosse agora
vejo se abrindo o quintal
por meio do verde livro
um mágico portal
cuja entrada de musgos
conduzia-me a novos mundos

parte de mim era fera
guardiã dessa entrada
por onde ninguém passava
já a outra havia-me
a liberdade do voo
escolhi a firmeza do tesouro
minha posse ninguém punha o olho

havia uma cidade onde ninguém passava
havia um lindo homem que desejava alcançá-la
o segredo era o tal perfume
sobre o qual quem presume
que responda ao magnífico enigma

o que é o que é
vem perfumado do verde da natureza
e guardado caducifoliamente
com perfumes em palavras

eis que édipo respondeu
o livro
mas ele não me atirou no abismo
apenas deixou-o aberto
transitando pela cidade ao seu bel-prazer
o tempo fez o odor desaparecer
e o perfume do mágico jardim
findou-se para mim
permanece apenas na memória
numa procura sem fim.
(kátia surreal: 25/9/2026)

7

pisar nas folhas secas

crocante quando pisoteio
as folhas secas do quintal 
das cidades
há uma alegria cretina
de sentir com os pés 
as partículas se desfazendo
com a pressão que me impulsiono
há um prazer de menina
de acabar rápido com o que já está morto
o estalo crocante 
das caducifólias se desfazendo
é mais saboroso do que
a batata chip sumindo
entre os dentes
há algo mais útil a dizer
além dessas insignificâncias 
só eu sei contudo
o quão me basta
ante a tantas mazelas
sentir prazer
com olhos de criança 
(kátia surreal: 22/9/2026)


11

na força de circe

há uma força muito supimpa que nos habita
que toda mulher deveria evocar à vida
sabemos
quase sempre é difícil um real livramento
daquele que nos causou descontentamento
transformá-lo em porco
após um soco
ou humilhação
é um profundo desejo
que nem sempre parece estar em nossas mãos
ah como queria vê-lo mudo feito esponja-do-mar
e nunca mais nossos íntimos segredo revelar
há um crime pois que ninguém descobre
encontra-se no mais tenebroso porém nobre
despenhadeiro da mente
convergência da universal emanação
mulher tu podes
segue da morte o coração
mulher este é teu suporte
segue as bifurcações da divina árvore
qliphoth
(kátia surreal: 27/9/2026)

9

Comentários (2)

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Se tiveres um tempinho me visite ... com tuas reflexões sobre meu pequenos e humildes textos. obrigado. ademir o poeta.

Olá ...amiga ... se assim posso dizer... li todos 08 textos e posso lhes dizer que são muitos concretos - realistas - parabéns - este é o meu modo de entende-los. ademir o poeta.