kennedy Araújo

kennedy Araújo

n. 1987 BR BR

Um poeta de beira de rio

n. 1987-01-14, Santarém, Pará, Amazônia

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Os olhos cegos da noite

A tristeza rompida em lágrimas 
desvanece-se
na morna luz desse luar...

Na porosidade dos instantes,
o edifício caiado da paixão 
ruína-se
em si e para sempre...

Encarei os olhos cegos da noite
e no silêncio abismal desse momento 
tornei-me inteiro com minha dor.

 

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Biografia

Poeta, Filósofo, Professor e Mestre em Educação.

Poemas

11

CANSAÇO

Da pétrea indiferença deste século – 
a suma afetação.

A racionalidade técnica, enfim, 
resumiu-nos os sonhos.

A rarefeita e multidimensional comunicação,
via satélite,   
permutou-nos os sentidos, 
obliterou-nos a palavra. 

O homem, 
escamoteado em algoritmos,
constantemente enfadado de si, perdeu-se 
através do esquizofrênico espelho desta interface vazia.

Em meio a tanto desperdício de humanidade, 
poderia ainda haver lugar, em nossos distantes olhos,
para o pasmo essencial de Pessoa?
Ou será que das insígnias do cansaço, 
preencher-se-ão, para sempre, nossos dias? 

                                                                                   

89

VICINAIS DO VERBO

Por entre os velados vicinais do verbo 
a pupila da noite 
encara-me, tão imensamente dilatada.

Escrevo a eternidade em meus versos,
mas é sempre no fio da navalha.

Será disparate dos meus olhos,
ou a lua, do azul, a lançar-se, 
me ameaça?

 

106

O VERDE DO RIO

Em todo lugar, em qualquer tempo,
o constante objeto da minha percepção
é o imanente mistério do teu ser.

A trigueira forma do teu corpo
resplandece através das minhas retinas, 
como a claridade dessas manhãs de setembro.

Estás no voo das andorinhas,
roçando o verde do rio;
como estás na branda força do vento 
que verga o cimo das árvores 
e desvanece, por um momento,   
as insaturáveis dores do mundo,
tão profundamente exasperadas em mim.

81

DOS PEQUENOS ENCANTOS COTIDIANOS

Por volta das dez horas 
d’uma cálida manhã de sexta-feira, 
erguida dos olhos etéreos do poeta,
uma mulher de cabelo negro e vestido vermelho
estampa, na mestiça e esguia panturrilha, 
a desvanecida tatuagem de uma rosa, 
ao que parece, também vermelha.

Sua postura, resignada e altiva, 
frente o perigo da iminente travessia 
daquela tórrida e indiferente avenida, 
contrastava com o desatino 
d’uma pequena vira-lata caramelo,
que desafiava com doçura e soberba,
o incomensurável ímpeto 
dos homens enclausurados 
em seus próprios automóveis.

E, naquele prosaico e insigne instante, 
o estardalhaço das buzinas nada pôde 
perante o brilho do sol sobre a terra,
e nem o assombro da guerra nuclear
foi capaz de reprimir a esperança
que resplandeceu no verde dos canteiros.

Nem mesmo o agorento desamor, 
sublimado no triste e inválido coração 
dos que vivem naufragados em si mesmos,
foi capaz de macular a delicadeza revelada 
à atônita sensibilidade do poeta.

 

78

SOB A PALPEBRAL SOMBRA DO HORIZONTE

Ao azul sabor do vento,
sob a palpebral sombra do horizonte,
sigo desatinado por entre sendas do silêncio. 

Devaneando reminiscências, 
desanuvio-me.

De repente, a noite me acontece, 
perpetuamente grávida de mistérios,  
debruçando-se, imensamente negra, 
ante o abstrato tempo da espera do verso.

E assim, amalgamado a este sereno,
desvencilho-me por inteiro 
da seta cinza do ocaso, 
através das asas enluaradas 
da palavra que tanto me abisma.   

 

93

APRESSA-TE O PASSO, POETA

Apressa-te o passo, poeta.
Apressa-te e vá adiante.
Nunca temas a morte certa,
nem tampouco a vida errante.

Apressa-te o passo e enceta
tua cidade
de ruinas radiantes.

Apressa-te o passo e enxerga
tua sombra
entre outros transeuntes.

Apressa-te o passo, poeta.
Apressa-te e não vacila.
Lembra-te do caminho de Rimbaud.
Não te esqueças do teu encontro com Sibila...     

 

108

MELANCOLIA

Fiz-me poeta numa cidade que já não existe mais.
Por isso atravesso a oblíqua madrugada 
verso adentro,
e traço na espiral do silêncio
diferentes caminhos de volta...

Por isso ignoro as luzes do poste,
e sinto na dureza mórbida do asfalto
a gélida dimensão do esquecimento.

Por isso acendo as estrelas, 
por isso aqueço as esquinas.

Por isso 
clarifico o instante desprendido do tempo, 
e surjo dum largo ontem
por entre a espectral bruma
desta sempre jovem melancolia.                                                                                                                                                                                                                                               

.                                                        

78

TEU SIGNO

À tua espera, 
espreito o silêncio da casa vazia. 

Teu signo de mulher 
incide claridade e mistério
sobre todas as plantas e objetos,
tal qual a própria manifestação do absoluto.

Nada é indiferente à tua falta:
os livros, 
o chá sobre a mesa, 
o fumo pela metade, 
a porta entreaberta, 
as sombras pelo chão,
tudo é-me, então, tão vago de saudade.

Teu vasto espectro 
transpassa o espaço por inteiro. 

Tens em ti, 
na sublime realidade do teu ser,
a imperativa participação no concreto
que torna o mundo ainda mais perfeito.

Teu nome é exato, 
e tua forma circunscreve-se nua 
na abóbada do tempo,
feito expressão implícita
do meu verbo.                                                        

75

POEMA INDEFINIDO

Da onírica neblina desponta a fria manhã.
Vário é o dia; ainda assim, pipiras no céu 
tecem, nos meus olhos, ninhos de melancolia.

A tarde me exaspera como um rio de fogo imenso,
correndo com sua fúria pelos quatro cantos da terra,
para depois morrer seco no incontornável vazio de mim.

Quando a noite, por fim, vem,
tua negra ausência revela-se sobreposta 
à pálida luz da vazia sala de estar.

De repente, 
transparecem, neste tenro e triste espaço,  
certas formas elusivas, prescindidas lentamente,
do rígido silêncio dos inanimados objetos
e da etérea poeira de que se compõem as estrelas. 

94

O ABSURDO DA SOLIDÃO

Ébrias perspectivas 
precipitam-se através da réstia do luar,
e ressoam na acinzentada porcelana 
deste assombroso silêncio,
deixando-se, sombriamente, revelar, 
nos meus olhos apartados dos teus,
o absurdo maior desta solidão.      

Recomponho, então, um antigo verso, 
enquanto a eterna poesia 
desvela-me, assim, noite adentro,
sobrepujando-me na ponta dos dedos, 
no nó da garganta:
esta impetuosa necessidade
de falar de amor com você.

83

Comentários (3)

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Luciana

muito linda a poesia ! parabens!!!

Lagaz

Parabéns poeta... é um prazer conhecer os escritos que tem vida

Kaio Gabriel
Kaio Gabriel

Parabéns professor, belos poemas