Lista de Poemas

O HORIZONTE DOS NOSSOS DIAS É VERMELHO

Frente à absoluta indiferença do capital
marcham
ainda perdidos e sem direção
aqueles
a quem chamo de irmãos e camaradas,
e que pela sua força de trabalho,
enquanto classe social,
produzem
a ferro, fogo e sangue
toda possibilidade
real e concreta
de igualdade, liberdade
e poesia.
O horizonte dos nossos dias
é vermelho.
E na boca daqueles que sustentam,
apesar de todas as barbáries cotidianas,
o valor imensurável das utopias,
o medo não é outra coisa
senão
palavra maldita.

Kennedy Araújo
394

DO FOGO ÉS O AZUL

Na alta lua cheia de junho
tua pele preta resplandece 
por toda extensão da natureza. 

És por inteira,
e comungas, em silêncio,
do mistério da terra.

Do fogo és o azul.

És a sede do mundo,
a transparência da água. 

Tens nos olhos a luz
que decanta a eternidade,
e nas mãos 
a leveza que sustenta o infinito.

 

650

Poema para a mulher que agora espero

A mulher que agora espero,
É a mulher por quem sempre esperei...
E essa espera tão doída,
E ao mesmo tempo tão bonita,
É a espera que me quebra 
E me fascina.
É a espera que me sufoca,
Me liberta, me alucina...
É a espera que me invade,
Me conquista, me edifica...
Por ela espero a espera que for.
E mesmo que essa espera 
Faça meu peito transbordar em dor:
Eu espero, eu espero, eu espero...


Kennedy Araújo
486

Deixaste-me na boca o delicado sabor da pitaia

Deixaste-me na boca o delicado sabor da pitaia,
e nos olhos
a luz bonita daquela manhã de dezembro.
Nada pude contra teus feitiços de mulher
que tu me lançaste com teu choro de menina.
De ti quero apenas a certeza (sempre improvável) do amor
acariciando 
o duro cotidiano da minha tácita agonia.


Kennedy Araújo
615

Na vastidão convexa do teu olhar

Mesmo em manhãs de abandono,
borboletas 
voarão ao teu encontro,
caso entendas, minha pequena,
que cada manhã 
é um jardim suspenso no tempo 
à espera 
do nosso impreterível encontro.

E mesmo nas tardes de vazios imensos 
e de tristezas infindas,
uma nuvem
cairá 
sobre a planície abstrata do teu dia,
e te revelará, minha amiga,
o perplexo horizonte 
da minha indelével poesia.

E mesmo nas noites mais turvas,
quando o amor se deixa exasperar,
ainda
há de haver estrelas,
amada minha,
e a perspectiva implícita do amanhã
despontando a claridade 
na vastidão convexa do teu olhar.


Kennedy Araújo
605

CABEÇA DE POETA

Cabeça de poeta é um troço complicado:
horas a fio 
nessa delirante busca pela palavra;
palavra pela qual 
imagina-se
que tudo que dói
será um dia perdoado.

Poeta 
é aquele que, no mundo, 
segue desmareado de urgências.
Abstrai, aqui e acolá, 
o rendimento da palavra,  
não como escolha, 
mas como uma delicada fatalidade.

Acomodado no seu trono de silêncio,
O poeta precipita 
a sintaxe precisa
do disparate dos seus versos.

                                               

89

UTOPIA

Suportei todo o peso do dia
e sua inútil burocracia:
dos papéis,
dos protocolos,
e das enfadonhas filas paralíticas.

Suportei toda imponderável mentira, 
dissimulada em riso mecânico,
em gentileza vazia,
dessa gente triste,
de olhar triste, 
que sonha apenas
com o fim do dia.

Suportei a tudo, quem diria,
com dignidade 
e com modesta alegria.

E se suportei, 
foi somente por saber 
que a vida, 
apesar da amargura emanada
dos que existem miseráveis de utopia, 
sempre me valerá a pena,   
mesmo que por um átimo de poesia.   

51

FENOMENOLOGIA

Enquanto requento este café de ontem 
com promessa de amor vindouro,
a tênue poeira que paira na amplitude da luz matinal, 
reincide translúcida sobre o branco do azulejo.

Efemeridades incandescem diante de meus olhos,
colapsam antigas certezas, 
põem em xeque meu corpo, 
minhas lembranças, 
meu ego, 
minhas tolas pretensões de poeta,
meus doces delírios com o futuro.

Agora, a xícara de café 
mais uma vez fria sobre a mesa 
me faz lembrar do mito da linearidade do tempo,
e que toda tessitura lógica do pensamento 
nunca refletiu do mundo
o que não fosse apenas aparência.                                                                               

89

CANSAÇO

Da pétrea indiferença deste século – 
a suma afetação.

A racionalidade técnica, enfim, 
resumiu-nos os sonhos.

A rarefeita e multidimensional comunicação,
via satélite,   
permutou-nos os sentidos, 
obliterou-nos a palavra. 

O homem, 
escamoteado em algoritmos,
constantemente enfadado de si, perdeu-se 
através do esquizofrênico espelho desta interface vazia.

Em meio a tanto desperdício de humanidade, 
poderia ainda haver lugar, em nossos distantes olhos,
para o pasmo essencial de Pessoa?
Ou será que das insígnias do cansaço, 
preencher-se-ão, para sempre, nossos dias? 

                                                                                   

78

VICINAIS DO VERBO

Por entre os velados vicinais do verbo 
a pupila da noite 
encara-me, tão imensamente dilatada.

Escrevo a eternidade em meus versos,
mas é sempre no fio da navalha.

Será disparate dos meus olhos,
ou a lua, do azul, a lançar-se, 
me ameaça?

 

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Comentários (3)

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muito linda a poesia ! parabens!!!

lagazaz

Parabéns poeta... é um prazer conhecer os escritos que tem vida

Kaio Gabriel
Kaio Gabriel

Parabéns professor, belos poemas

Poeta, Filósofo, Professor e Mestre em Educação.