[Habitas-me]
LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler Ed.,2012)
Habitas-me
como a uma casa
de um só quarto
no alto de umafalésia;
Como a ventania
irrompe na floresta, cavando clareiras
ou devagar vaiesculpindo luas
nas areias.
Escreve e divulga Poesia. Selecciona autores e poemas ao organizar colectâneas temáticas e de homenagem a poetas no seu Centenário.Organiza e participa em eventos poéticos. Lília Tavares é casada e mãe de dois filhos adultos. É mestre em Psicologia Clínica e gosta de mar, de árvores e de gatos.
n. 1961-03-09, Sines
LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler Ed.,2012)
Habitas-me
como a uma casa
de um só quarto
no alto de umafalésia;
Como a ventania
irrompe na floresta, cavando clareiras
ou devagar vaiesculpindo luas
nas areias.
LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler Ed.,2012)
Habitas-me
como a uma casa
de um só quarto
no alto de umafalésia;
Como a ventania
irrompe na floresta, cavando clareiras
ou devagar vaiesculpindo luas
nas areias.
LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS, Prefaciadopor Joaquim Pessoa (Coisas de Ler Ed., 2012)
[É DE BRUMAS]
É de brumas
que as manhãs se cobrem
antes que o sol aqueça
este vazio,
o orvalho pousa-me
pesado, no corpo.
Sei que me podias
soprar estas gotas
e desnudar-me no inverno
como em pleno estio.
LÍLIA TAVARES, in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)
Perdi as mãos por tão pouco.
Por uma gota da água dos teus olhos,
pelo rumor na tua boca,
pelo ciciar dos ventos nas muralhas.
perdi as mãos por tão pouco...
Ficou-me a fome na boca,
fome de quem nada deseja
para além da antemanhã.
Acho um a um os meus dedos
delgados, ventos nos cabelos,
as palmas das mãos tão sulcadas,
tão leito onde as águas se demoram.
Com as minhas mãos perdidas
encontro branca
a nudez das tuas.
Com elas brinca
a fragrância da madrugada.
LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS (Coisas deLer Ed., 2012)
Sinto ausente a tua voz,
Despojada de lágrimas,
Silenciada por temores
Ocultos.
Tão vivo este desejo
De correr e acender
Lumes, rubros calores incandescentes,
Nascentes turbulentas, pedras arrastadas do leito,
Do lugar.
Desejo de desarrumar,
De misturar e separar,
De encontrar novo trilho,
Percorrer,
Sem ser percorrida.
E num lampejo acordo
Rouca de gritar, emudecida,
Suada por gestos esquecidos
Não quero e quero
E de novo, a posse e o desejo
Cavo na concavidade das minhas mãos,
A ausência dorida e funda das tuas.
Onde estás?
Até amanhã.
Voo com os pássaros tardios.
LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS, prefaciadopor Joaquim Pessoa (Coisas de Ler, 2012)
[VOLTO]
Volto.
Deixaram a casa, as flores
e está seco o velho tanque
de nenúfares.
Envolvo nos meus braços
um grito cansado que percorre
os lugares onde me sinto mais dentro
de mim.
Pássaros irrequietos
não esqueceram os seus ninhos.
Pelo amor nidificava outra
e outra vez.
Quero partir de mim como um vento
sem retorno.
Mas...
é março e o tempo não explica:
arranho deveras o tronco deste corpo.
De pé, cúmplice com as árvores,
é tempo deficar.
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