Lília_Tavares

Lília_Tavares

n. 1961 PT PT

Escreve e divulga Poesia. Selecciona autores e poemas ao organizar colectâneas temáticas e de homenagem a poetas no seu Centenário.Organiza e participa em eventos poéticos. Lília Tavares é casada e mãe de dois filhos adultos. É mestre em Psicologia Clínica e gosta de mar, de árvores e de gatos.

n. 1961-03-09, Sines

Perfil
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[Habitas-me]

LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler Ed., 2012)

 

Habitas-me

 como a  uma casa

 de um só quarto

 no alto de uma falésia;

 Como a ventania 

irrompe na floresta, cavando clareiras

 ou devagar vai esculpindo luas

 nas areias.

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Biografia
Lília Tavares, nascida em Sines, traz consigo o marulhar das águas nas areias da costa alentejana. Começou a escrever textos poéticos aos treze anos enquanto estudante, inserida num contexto académico em que fervilhavam ideais e de onde saíram vários intelectuais do Baixo Alentejo, como António Guerreiro e José António Falcão. Influenciada por este último, começou a divulgar a sua poesia no então Jornal de Setúbal e a colaborar nos primeiros números do Jornal dos Poetas & Trovadores. Foi na livraria Tanto Mar, propriedade do poeta Al Berto, que comprou os primeiros livros de poesia. Em 1979 editou em Santiago do Cacém, Fusão Crepuscular e outros poemas com proémio de José António Falcão. Volta a publicar a solo em 2013: Parto com os Ventos (Kreamus), seguido de Evocação das Águas (Seda Publ., 2015), Sem Luar |haicais| (Temas Originais, 2015), Nomes Da Noite (Col. A Água e a Sede, #2, Modocromia, 2019) e Bailarinas de Corda (Poética Ed, 2019). A Timidez das Árvores (Nov., 2020) é o seu 7º livro de poesia a solo, prefaciado por António Vilhena. Este título inaugura uma colecção própria, Mãos de Semear, de cariz regular, na Editora ModoCromia. A autora alcançou prémios literários desde 1987 e tem a sua poesia em colectâneas e revistas em Portugal, Espanha (Galiza e Extremadura), Luxemburgo, Suíça, Roménia e Brasil, algumas de âmbito solidário. A sua poesia é referenciada em publicações temáticas e homenagens a outros poetas. A pedido de artistas plásticos, colabora com poesia em catálogos de exposições. Em Abril de 2010 cria no Facebook, a Página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen, de divulgação diária de Poesia, da qual é co-autora com Carlos Campos. Organiza e participa em eventos poéticos. Lília Tavares é casada e mãe de dois filhos adultos. É mestre em Psicologia Clínica e gosta de mar, de árvores e de gatos.

Poemas

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[Todas as mulheres merecem]

LÍLIA TAVARES, in BAILARINAS DE CORDA (Poética Ed, 2019)

Todas as mulheres merecem calçar sapatos de princesas
no dia das mães.
Desejam caminhar elegantes com os filhos de mão dada.
Não querem limpar demoradas águas nos olhos.
As lágrimas podem trazer diamantes de memórias,
mas tornam baço o olhar das mães.
Todas as mães merecem que os seus corações abarquem
apenas alegrias e sorrisos, carinhos e abraços,
como rebuçados de mel.
Pela noite são dignas de adormecer num colchão de nuvens e
acordar frescas sobre suaves pétalas de rosas.
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PÉROLAS DE UM TEMPO

LÍLIA TAVARES, in CASA DE CONCHAS (Col. Mãos de Semear- 2; ModoCromia, 2022)

As fotografias que nunca emoldurei,
pérolas de um tempo próximo das pedras,
deixam-se ficar entre jornais, amores e poeira.

 
Arde comigo a memória do papel dado ao vento.
Da nossa passagem permanecerá
a penumbra das noites seguidas de silêncio.

Incendeia-me na nudez das tuas mãos,
barco sem remos arrancado às areias.
Enlouqueço à sombra de diamantes e ferrugem.
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Há mulheres como herbários.

LÍLIA TAVARES, in BAILARINAS DE CORDA (Poética Ed, 2019)

Há mulheres como herbários. Arriscam revelar-se desde a raiz, porção mais íntima e funda de si. Outras oferecem flores e rebentos como abraços. Das águas bebem sofregamente pela pele quando pálidas e desidratadas.
Não desprezam a função que a haste e as folhas tiveram no crescimento e nas danças impulsionadas por ventos. Permitem que a seu tempo se apartam das sementes e as espalhem noutros lugares.
Esvaziadas sorriem nos espelhos com a alegria apenas justificada pela intuição da sobrevivência. A beleza e a vida, em embrião, podem desenlaçar-se com uma lágrima de chuva. Não carecem de louvores, pois é o eco das seivas que lhes restitui a serenidade para prosseguir.
As ervas são o leito de todas as madrugadas.


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SE [poema de coragem à Douglas Malloch]

LÍLIA TAVARES, in A TIMIDEZ DAS ÁRVORES (Col. Mãos de Semear- 1; Modocromia, 2020; 2ª ed, 2021)

Se não puderes ser um oceano, sê aquele rio 
onde numa manhã deixei pródigo o olhar,
sê um riacho magro mas obstinado,
sê o mais amado e mais doce fio de chuva 
percorrido à sombra dos álamos.

Se o teu apego está nas alturas,
rasga o teu coração com mãos de água
e dá-o a beber às aves sacudidas dos cabelos
das brisas que riem.

Agita no ar a alegria,
ousa a tua firmeza pura de arbusto.
A luz espera o impulso irrequieto
do teu perfil inteiro, do teu gesto.

Ao areal chegarão para descansar as rendas
das ondas sossegadas e nuas.
Terminada a tarefa onde deixaste o sangue,
um silêncio vem beijar-te agora os pés da caminhada.
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