Sistema Solar
Amar-te juro que eu irei para sempre
Abjugarei de toda desordem da Terra
Que vive num eterno mundo de guerra
Para viver em teus sonhos impudentes
Palejarei deveras bem menos à luz da lua
P’ra ruborescer ao mártir de teu coração
E do satélite minguante não quero ilusão
Que a doce mentira de uma paixão mútua
Quem sabe amando em outra gravidade
Os sentimentos não ajeitam um eclipse
Que amar tenha menos responsabilidade
À Marte, juro, está na hora da decolagem
No fim, todos os astronautas carminados
Constataram que amar é a melhor viagem
Poema tirado de um poema tirado de uma notícia de jornal
Joãozinho Gostoso era morador do morro Chapéu Mangueira
Cresceu sem pai e fazia vapor de segunda à sexta-feira
Ouvia “Um homem na estrada recomeça sua vida”
Sem nunca ter visto asfalto, não encontrou uma saída
Era conhecido no morro como JotaGê
Tinha o sonho de ser soldado na CDD
Dizem que seu pai se suicidou afogado
Mas, na lagoa Rodrigues de Freitas, o corpo nunca foi encontrado
De sábado ia no baile com o amigo aviãozinho
E de domingo jogava bola sem chuteira no campinho
Sua vida era rotina igual a Construção de Chico
Quando faltava alguém de olheiro pedia “deixa que eu fico”
Uma noite, ele quis impressionar o dono do morro
Vendeu daquela vez como se fosse o único
Roubou daquela vez como se fosse a útlima
Matou um homem fardado como se fosse mágico
E morreu na própria mão atrapalhando o tráfico
Precipitação
Meus olhos se precipitaram achando que era você
Precipitaram-se fazendo pelo meu rosto chover
Já de saída, não basta fechar, mas tranca a porta
Tu não percebes que mesmo trancada ela transborda
Meus olhos, numa corrente de lágrimas, apagam nossa vela
Quem não arrisca molhar o próprio lar deixa fechada a janela
E de que adianta tê-la fechada se lá fora está sua faixa amarela
Encharcada e desbotada, sem mais bordado o nome dela
Tamanha arrogância achar que essa pessoa era o Mundo
Tamanho egoísmo crer que nessa garoa eu inundo
Tamanha precipitação que mal escoa e eu afundo
Você reta e eu curva
Você nítida e eu turva
Você guarda e eu chuva
Rei de Roma
Nunca vou decifrar os enigmas do universo
Tudo pode ser uma falácia
Nunca vou saber os motivos que unem versos
Por rimar em apenas uma galáxia
Se o mundo é redondo
O ultimo já está na frente do primeiro
E se o mundo dá voltas
A posição não importa
E não muda o roteiro
Sou a tempestade em copo d’água
Por ser um fenômeno intenso
Em um recipiente pequeno
Sou a hipérbole das minhas mágoas
Por escrever o que penso
E destilar meu veneno
Desconfie de tudo
Até a palavra “oxítona” é proparoxítona
Desconfio de todos
Mesmo que a reverência soe uníssona
“Em cima do muro” já não é mais o termo
Pois não sabem se constroem ou se destroem
Indeciso, sem partido e sem governo
Vendo reinos em ruínas de ratos que se roem
É preciso choro para ter vela
É preciso ter muita boca para ser o rei de Roma
O rei do morro tem todas e não saiu da favela
E o rato roendo a roupa de quem não tem diploma
A carne tem papelão
Mas não é o mesmo do morador de rua
Pois ele dorme no chão
E a verdade nunca foi tão carne crua
Falsos ativistas atravancando caminhos
São cordeiros em pele de lobo
Mostrando ser o que não são para a mídia
Mais falso que carta arrependida de ator da Globo
Passo por passo, marcha a opressão
Eles andarão, nós Andorinha
Adoraria que a minoria fizesse verão
Só para o inverno sair de linha
Entre tópicos e trópicos
Garota carioca, o seu rosto é Laranjeiras
Sua pele que me toca, o teu corpo é Mangueira
Curva
Da Urca, gira enfeitiçada da Tijuca
Que girou
Me sinuca, me truca
Pede 6
E desce do Troncal 3
Eu quero 12
Você na areia fazendo pose
Outro close, escolhe qual foto que você quer
Não quero um romance igual o do Buscapé
Quero jongo à luz do luar, sal e o sol que me consome
Quero escola de samba, mas sem Beija-Flor de codinome
É por mim, por você, por Ogum e Iansã
É pela terra, pela carne, pelo samba no morro
Vou guardar o seu amor toda manhã
Com senha e corrente num cofre boca de lobo
Do topo da favela numa varanda
Penso em uma sacada pra te impressionar
Uma que te deixe mais contente
Do que qualquer uma de frente pro mar
Entre caminhos e passeios pela orla
Ela é prata como a areia que pisamos
Dois pássaros soltos da gaiola
Presos na liberdade que criamos
Somos todos um bando de perdidos
Nos encontrando nos desencontros
Procurando, em lojas 24 horas, livros já lidos
Com finais de frases sem três pontos
Entre tópicos e trópicos, quero andar aí
Estar aí, de Cosme Velho até o Andaraí
Ver o Pôr do sol tingido de laranja, resfriando o calor
No asfalto de Ipanema, indo pras pedras do Arpoador
Ela é tão preto e branco, mas cheia de cor do lado
Um amor panóptico de cima do Corcovado
E a cidade não estava mais cinza
O Cristo rasgou as nuvens do céu nublado
Vou fugir de Pasárgada
De Pasárgada eu nada gostei
No começo um pouco, mas já enjoei
Deram-me uma mulher que não quero
Mandaram eu ser amigo de um rei
Tentei deleitar o tal monarca
Mas aqui nem ele eu agradei
A existência aqui de aventura
Seria quase menor que nula
Se Mãe-d’água não me narrasse
A história de Rosa tão pura
Porque aqui não sou instruído?
Porque nada aqui é empírico?
Tudo já fora bem construído
Sob a ótica do mundo onírico
Aqui em Pasárgada tem tudo
E este é o maior problema
Procuro neste jardim do Éden
O fruto proibido carnudo
Que me livre deste sistema
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Farei da vontade uma ordem
E do paraíso vou me libertar
Mariana
Quando eu vi Mariana
Na sua forma mais linda
Não percebi que ainda
Estava cercada em liberdade
Eu, que bebia na sua fonte
Carrego escombros túrbidos
E os meus ombros úmidos
Se enfraquecem de saudade
O Sol que arde dentro de nós
Justifica essa sobrecarga
A foz, a voz, avós a sós
Inundam essa vida amarga
Se, no seu passo tímido, eu encontrei paixão
É porque seu ritmo me engana
Rio doce que me afoga de sal, hipertensão
A vida insiste em continuar, Mariana
No seu vestido terracota escuro
Eu escorri como dois rios inteiros
Sem direção, contramão
Ação de um empreiteiro
Você virou minha obra mais bela, Mariana
Construída pelo Pai, pela Mãe
Pelo Espírito Santo
Amém e amem
Destruiu hectares de acalanto
O que restou da nossa vida leve
Vida louca, vida breve?
Leva uma vida bela
Como uma chuva que escreve
Eu sem você, Mariana
É uma família sem casa
É uma cidade sem água
É uma nódoa sem mágoa
É um pescador sem o peixe
Agricultor sem o feixe
Um Índio sem tribo
Farinha sem trigo
Mariana foi um rio que passou em minha vida
Assim, efêmera, líquida
Não mais insípida, tampouco incolor
Inodora, e agora?
Mariana, você roubou o meu amor
Harmonia em acrasia
Éramos Portela e Mangueira
Passarela e bandeira
Mestre sala, quarto, porta e banheira
Eu, súdito como as nuvens para o céu
Ela, Independente como Padre Miguel
O Tom foi menor do que eu esperava
Mas, bastou
O olhar X9 me dedurou
E, se chove no sambódromo,
Deus quem regou
O jardim de minha escola é só amor
Desde Nenê que eu sou assim (e quem sofre é o tamborim)
Gosto do sereno, da roda a cantar
Planta do pé no asfalto, Partido Alto
Então, aproveite o recuo da bateria e Vai-Vai Vadiar
Quem ama, seus males espanta
Na Flor da Mocidade, bem Jovelina
A ladra que guarda a minha quadra
Minha Pérola Negra, minha sina
Foi um rio que passou na avenida
O “quaiscalingudum” de um coração partido faz cavaco chorar
É a comissão de frente com missão urgente
De concentrar e dispersar
Quando as platinelas do pandeiro entortarem
E o gorgurão da cuíca secar
Ela talvez perceba
Que eu era pimenta demais pro seu vatapá
Sonho de bamba, pesadelo de valsa
Brisa boa, ar lindo, cruz, luz e vela
Colore meu pavilhão
Mancha a minha faixa amarela
Somos Portela e Mangueira
Alegria na quarta-feira
Mas, não a faço carnaval
Pois carnaval é fevereiro
Faço-a pagode para o ano inteiro
Quando ela diz que essa pulga aí é Sapucaí
Que Samba é o meu único assunto
Respondo quaisquer quais quais, chego junto
E firmo sem medo:
“Você é minha escola, minha fantasia e meu enredo”
Contraste
A mentira seduz a verdade
A paz dança com a guerra
Onde está a minha liberdade
Se eles julgam quem erra?
Vou calar de tanto falar
Meu coração tenta enganar
Mas minha mente não mente
E sente que é diferente
Ele nega que amor rima com dor
Amador
Ele diz que não há ferida que coce
Precoce
Ele não se manifesta no novo ato
Novato
Ele expressa intolerância e eu aturo
Imaturo
A antítese movimenta o mundo, compare
O luxo com o traste, contraste