Lista de Poemas

Olá à Lua

Olhar a Lua
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Galimatias e discursos verborrágicos

Um amor de rimas fáceis, calafrios
Ininterpretável como “Las Meninas” de Velásquez
Um amor de rios, rios e Rios
Daquelas cantarolagens que espanta os males
(Eu te...)

Você não consegue recitar sem me excitar
Cantar sem me cantar
Rir sem me sorrir
Mirar sem me flechar
(Eu te...)

É Nando e Cássia, no mesmo ritmo, tocando relicário
É antídoto marítimo, no vai e vem que traz curas
É uma tarde em Itapuã sem fuso horário
É Dom Casmurro com o Emplasto Brás Cubas
(Eu te...)

Olhares 43, dias 15, tamanhos 13
Amor ao acaso, 204
Como um encontro inesperado
Em uma impressora de trabalho
(Eu te...)

Amei teus melasmas
Plantei tuas Astromélias
Conheci as imperfeições
Fiz delas perfeições
Transformei meu dicionário em Aurélia
(Eu te...)

Você é um rio de Janeiro
E eu; um rio de Março
Riu de mim quando me queimei no mormaço
O seu rio é mais legal, mas é no meu que faço aniversário
(Eu te...)

Nesta embarcação, eu me encontrava a bombordo
Enquanto tu, a estibordo
Uma tempestade da cor dos seus olhos
Transbordou a caravela de escordo
(Eu te...)

Corri chão e cruzei mar, deixei-me levar pelo ar
Usei de fonemas bilabiais para te deletrear
Essas coincidências semânticas alveolares
São o verdadeiro significado do verbo “amar”
(Eu te...)

Você virou Tu
Tudo ficou íntimo, mas ainda doeu
Queria te conjugar mais uma vez
Para que Tu virasse Eu
(Eu te...)

Todas essas verborreias em desengano
Galimatias inúteis de se ler
Todo esse clichê, démodé e blasé
É para falar que eu amo você
(Eu te amo)
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Ministério da Defesa

Minha ministra
Volte ao confessionário
Saiba, antes de se sentar nesta cátedra
Que o azul e o rosa saíram do mesmo armário

Meu ministro
Não viva no mundo da lua, com enfaro
Saiba, antes de pilotar este impávido colosso
Que na calça da Classe C, ninguém achou o bolso raro

Minha ministra
Cuidado com a boca
Será que é por conta de as relações serem exteriores
Que vocês se importam tanto com a nossa roupa?

Meu ministro
Esqueça os canhões
Se a mentira tem perna curta
Como que o governo dá pedaladas em milhões?

Meu povo
Toma cuidado com o grito dos maus
E, principalmente, com o silêncio dos bons
Somos a teoria prática do caos
Acredita, não queremos furar moletons

Meu povo
Importa-te com Rachel de QUEIROZ
E verás que O Quinze está entre o 13 e o 17
Importa-te com Érico Veríssimo
E verás que a paz lá em Antares é confete
Os parlamentares? Manchete!

Este mundo dá mares
Para além do Bojador
Entre homens sérios, hemisférios, revertérios
Critérios, ministérios, mistérios
Minerais e minérios
Desta igualdade não temos mais penhor
Confundiram um povo heróico com um brado e um tambor
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Capitão

Que você sinta fome
Mas, sempre de bola

Que você faça falta
Mas, nunca na escola

Que você coloque os adversários no bolso
Mas, nunca as coisas dos outros

Que você faça gols de placa
E, nunca desmanche um Gol sem placa

Que você seja o capitão
Nunca, o olheiro

Que a festa na favela acabe em gols
Nunca, em tiroteio

Que você seja quem quiser ser
Buarque com Luiz Gonzaga
Ataque com juíz com zaga

Que você frequente o campo e a concentração
Mas, nunca os dois juntos

Que você seja o primeiro na capital
No Brasil e no mundo

Que você seja o capitão
Nunca, o Nascimento
Tampouco do Mato

Que você fique livre
Da marcação
Da Fundação, da prisão
E do fardado

Que a única coisa que você precise roubar
Seja a bola do adversário

Que o seu esporte predileto
Seja o mesmo do Nazário

Que você molhe a camisa
De suor, nunca de sangue

Que a única coisa organizada que você veja
Seja a torcida

Que você seja artilheiro
Mas, nunca faça parte da artilharia

Que você fure bloqueios
Nunca moletons

Que você use colete
Nunca à prova de balas

Que você seja assunto na mesa redonda
Mas, nunca na quadrada

Que você seja o capitão
Nunca, o tenente

Que você arme jogadas
E, nunca as quebradas

Que você viva com a bola no pé
E, não morra com a bola no pé

Que você arraste as chuteiras no chão
Mas, nunca o grilhão

Que você bata tiros de meta
Mas, não tenha os tiros como meta
Tire-os da reta

A bola perdida...
A bala perdida…

Que você encontre a bola de bico
E, nunca receba a bala na bica
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Mentiras sinceras

Escancaro nosso amor pelo céu
Deixo-o passear por um zepelim
Uso social completo e compro o véu
Pra você acreditar em mim

Invado seus sonhos
Desperto sua madrugada
Pinto seu rosto em óleo sobre tela
Faço todas as curvas da sua estrada
Dou-lhe todas as cores da aquarela

Troco açúcar pelo adoçante
Aprendo a amar seus trejeitos
Vou de apartidário a militante
Esqueço todos os nossos defeitos

Trago um pedaço da lua
Viro lanterna pra sua escuridão
Se estiver incendiada de raiva
Faço chuva
E só deixo queimando o seu coração

O livro que você adora eu leio
Faço o pôr do sol não ter mais fim
Dedico-te o meu melhor devaneio
Pra você acreditar em mim
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Menino de prata

Purpurina, glitter e pó alemão
Todo dia assim, pra chamar atenção
Com os bilhetes de um texto na mão
Pedindo ajuda pro arroz e feijão

Qualquer centavo já é agradecido
Uma moeda, mais que merecido
Tem três irmãos, um desaparecido
Mãe desempregada e o pai falecido

Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar

Pro moço de terno e gravata
Dez centavos a menos não mata
Pois ele tem dinheiro pra catraca
Mas ele não quer se sujar de prata

Ele sabe que nem tem idade
Pra se pintar da cor da cidade
Próxima estação já é Liberdade
Pelo lado direito é o desembarque

Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
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Simbiose

Das coisas que nos separam
Não sei se culpo o tempo ou o vento
Culpo você
Pois eu pelo menos tento

Que tragédia achar culpados no amor
Ao invés de achar uma solução
Que catástrofe natural
Éramos simbiose em evolução

Suas obviedades eram imprevisíveis
Suas futilidades eram necessárias
Ela perguntava quais as minhas intenções
Eu respondia: “várias”

A sua forma era perfeita
Curvas tropicanas
Achei significado
Até nas poesias parnasianas

Ela é a prova real do clichê
O clichê existe por causa dela
Assim como o Sol
Numa folha qualquer de “Aquarela”

Mas o futuro não estava ali
Esperando pela gente
Ele estava ocupado demais
Atrapalhando o presente

E eu ocupado demais
Planejando o futuro... demérito
Agora gasto o meu tempo
Escrevendo o pretérito

Mais-que-perfeito (espero)
Ir ao litoral para olhar as estrelas
Deitado em seu colo
Você respirando
Vendo os planos que eu bolo

Torcer pra não ser mais uma
Das ilusões amorosas
Constelar o céu da sua boca
Lume das estrelas mais brilhosas

Delinear a lua na rota
Embaralhar o céu e mar azul
Criei um novo zodíaco
As pintas do seu rosto indicavam cruzeiro do sul
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Rounds e rendas

Eu vi a desistência de vários
Ouvi cofres, gavetas, salários
E a ignorância que era uma dádiva
Dá devagar a voz ao necessário


Funcionário sem empresa e contrato
Como que pensa em buscar sindicato?
Como compensa a mistura no prato?
E o patrão na ganância morrendo engasgado

               
Motivos de sobra pra jogar a toalha
Motivos que dobram o peso da falha
Mas se desistir, pendurar suas luvas
Aposenta de vez essa luta diária


Rotina que cobra, que mata
Cidade de homens de lata
Vaselina que não estanca o sangue
Lembrando: “Não apanhe antes que cê bata”


Quantos Robson Conceição
Acordam as 4, pegam lotação
Esquivam, batem, apanham, ganham
E a medalha não é nem de latão


Mais um assalto no ringue
Nenhum pouco motivado
Mais um assalto nas ruas
Que podia ser evitado


Jab, cruzado, contagem até 10
Job afastado, cuide de seus pés
Bilhete sem saldo transporte ta caro
Jornada e trabalho de azar ou revés


Surreal igual David Lynch
Apanha sozinho se prende no clinch
Luva pendurada mão já calejada
Floyd Mayweather sem nenhum requinte


Um dia frio um bom lugar pra ter um oficio
Mas aguentar todos os rounds ta difícil
É que a conta que não fecha no fim do mês
Tira de um bolso que não tem benefício


E o bom é que esse vale tudo não vale nada
O boxe diz tudo na metáfora e no trauma
Nocautes que derrubam sua alma
Nem sempre o gongo te salva
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Sonestações

Eu e eu e este Agosto
Meu amor só a sol posto
Você e você meu coração sentiu
Meu amor caído no outono de Abril


Eu Junho por deus que toda noite eu lembro
Do dia em que te vi com Julho naquele Setembro
E agora com meu alanceado coração vermelho rubro
Não posso mais lhe amar na primavera de Outubro


Nas minhas memórias remanescentes todo dia eu caço
A lembrança apagada de um verão sem mormaço
O sol desvanecido à transpor Janeiro, Fevereiro e Março


Metaforicamente, perder você é perder um membro
Amorosamente amputado, no calendário eu desenho
Eu e eu e este solitário Dezembro.
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Romance Analfabeto

Eu sabia seu ponto “G”,
Mas na hora “H” do dia “D”
Um plano “B” que improvisei
Veio a calhar

Apertei a tecla “F”
E num blefe disse “Mova-se
Eu só volto quando eu for seu plano “A”’

Resolvi me despedir, vou por aí
Vou botar o pingo no “I”
E deixar um “Q” de saudade

Assim ela ficando só
Talvez perceba que é o “Ó”
Não ser amado de verdade

Seu corpo era uma curva em “S”
Sua boca, o quociente em fração
Seu coração inconsequente
Bombeava sangue quente
Seu consciente era o “X” da questão

Todo dia ao amanhecer
Ela era vitamina “C”
E aumentava a minha imunidade

Era azeite de dendê
Mas eu quis Vitamina “D”
Sair na rua e tomar sol pela cidade

Dentre “N” opções
Entre bares, corações
Rodas, amigos e canções
Eu te escolhi

Esse B.O não é mais meu
Eu não plantei o que tu deu
Pra tá colhendo o que eu colhi

Seu corpo era uma curva em “S”
Sua boca, o quociente em fração
Seu coração inconsequente
Bombeava sangue quente
Seu consciente era o “X” da questão
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Comentários (1)

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Quem é Lucas menezes? o pouco que li, me deixou em frenesi, poesia branda, estou em êxtase. Abraços!

Redes Sociais: @dybaile

Talvez tenha nascido tarde demais, por não ter levado a antropofagia de seus versos à Semana de Arte Moderna, não ter vivido o folclore e a loucura de Macunaíma, não ter admirado Iracema, ou por não ter escrito um samba com Vinicius de Moraes. Talvez tenha nascido cedo demais, por ser à frente do tempo. Mas, nasceu na época certa. Trouxe a vanguarda de seus versos carregada de uma iconoclastia subversiva e, ao mesmo tempo, romântica.