Vontade danada de mandar flores ao delegado
Hoje acordei assim
E não me recordo qual foi a última vez
Que tive as vontades que o Zeca Baleiro canta
Talvez, com a idade, os pensamentos aumentam
Tal como as dívidas
O acúmulo de ambos é absolutamente aborrecível
Mas, nos breves e raros momentos em que não penso
É como se eu tivesse lido o Telegrama
Dou-me o luxo até de fazer poesia sem rima
Ou seja: pensar, planejar, mirabolar
São mais que responsabilidades
São verbos adultos
Por que sapiens sapiens? Só saber não é o bastante?
Sabendo que sei, vou atrás de mais pensamentos
Acumulando dívidas mentais que nunca serão quitadas
Termino o poema muito mais triste do que comecei
(Tive que pensar para escrevê-lo)
Pra que vou mandar flores pr’um delegado? Logo eu?
O trem descarrilou do trilho
Mama quero ser seu
Quero ser seu
Quero ser seu
Filho
Meu partido (com Fabio Brazza)
Sambei em mil rodas
Assim como Pelé fez mil gols
Eu nunca toquei samba
O samba que sempre me tocou
Há muito mais educação no terreiro que no plenário
Por isso, eu sou partideiro… não partidário
Aprendi a respeitar primeiro quem chegou primeiro
E não quem tem o maior salário
Não sou partidário, sou partideiro
Aos fariseus não deixarei dinheiro
Meu testamento foi escrito por Candeia
Houve um tempo em que o samba dava cadeia
Oficial batia em quem batia pandeiro
E a cela vivia cheia
Mas o colarinho branco não era presidiário
Não colaria um branco pra mudar esse cenário?
O colarinho branco do copo do pagodeiro
Afogando as mágoas de um passado hereditário
O samba carrega a força do que é ser brasileiro
União, democracia num espaço igualitário
Valores que nosso país só enxerga fevereiro
Mas que deviam existir em todo calendário
Em toda sala, em todo solo, por esse Brasil inteiro
No ministério, no magistério de um sonho mais solidário
Mas, infelizmente o que se vê é o contrário
Exclusão, desigualdade e um líder reacionário
Fiz samba pro Sol nascer
Fiz samba quando ele se pôs
Fiz samba pras moças, pros moços
E pra quem não se identifica com nenhum dos dois
No contratempo desse pensamento quadrado
Se o Brasil fosse uma roda, sem lado
Sem ser partido pelo planalto
Curando o peito partido num partido alto
Teria muito mais alegria, respeito e comunhão
Não seria um descobrimento, seria uma invenção
Só tocaria o instrumento quem soubesse o fundamento
Mas, no fim, todos cantando a mesma canção
No ritmo da percussão bateria o coração
E o povo, em volta, levando o Brasil na palma da mão
Sem a fantasia do noticiário, esse é o Brasil verdadeiro
Dessa parte sou inteiro, é meu jeito de ser revolucionário
Por isso, não sou partidário… sou partideiro
Malmequer
A falta do teu amor me vulnerabilizou
Até a fé, que não tenho, rondou à minha escolta
Ateu, cético, racional…
Eu já sabia que nada traria a sua volta
Joguei búzios, pois sorte não existe
Fiz simpatia, pois superstição é besteira
Firmei ponto, crendice
Comprei, por curiosidade, arruda na feira
Soltei sal grosso para temperar a relação
Agarrei-me às guias das mais diferentes cores
Mergulhei o Santo Antônio na água, em comunhão
De ponta cabeça, pra afogar as minhas dores
Enlacei muiraquitã no pescoço
Convoquei toda a legião de Jorge
Bati cabeça pra saudar
Comigo-ninguém-pode!
Tentei comunicação pelo córtex, como um chorão
Busquei explicação nas borras de café
Li feitiço, banhei-me em alecrim
Aos Juremeiros e atabaques, fiz Axé
Rezei Pai Nosso, Ave Maria
Fiz mandinga como quem mendiga
Se não for por um milagre, me largue
Só você que me abençoa ou me castiga
Apelei a todos os Santos, Lulu
Que seja fraqueza… não garanto sobreviver
E se amanhã não for nada disso
Caberá só ao bem-me-querer
Politécnico
Nosso triângulo, cosseno
Nosso amor, consenso
Compenso
Alguns juros simples
Outros compostos
Algumas juras dyamor
Outras opostas
...Progressões aritméticas
...Regressões terapêuticas
Tudo isso
És tudo
Estudo politécnico
Artigo Definido
Quanta indefinição…
Assuma seu par
Nunca foi Uma
Sempre foi A
Brincadeira de criança
I
Fui à Lua e levei um amigo
Fui à Lua e levei um amigo e um celular
Fui à Lua e levei um amigo, um celular e um relógio
Fui à Lua e levei um amigo, um celular, um relógio e um espelho
Fui à Lua e levei um amigo, um celular, um relógio, um espelho e uma bandeira norte-americana
Fui à Lua e levei um amigo, um celular, um relógio, um espelho, uma bandeira norte-americana e um pequeno passo para o homem
II
Fui ao mercado e levei 1kg de arroz
Fui ao mercado e levei 1kg de arroz e ½ dúzia de ovos
O acorde mais triste
Qual o acorde mais triste que lhe toca?
Quando o Sol maior brilha em sua janela
Com mais revés que sorte
E, o seu sonho, sem gentileza
Pede para que você acorde?
Fá Sol Lá Si
Faço Leci
Entoar aquela lá: “Café com pão”
A quem lê, sim
Se identifica com a canção
Em verso brando
Camões com as mãos
N’um papel, antes branco
Revela que, o que arde se vendo, é paixão
Amor não
E pros que violam a voz em vão
(A sóis e a sós)
Transformam antes confusão
(Vão e violoz)
Em voz e violão
Desafinam-se os dós
Ô dó...
A rosa do nome
Quando circula o vespertino
E se provam os factoides
Vês de pertinho que não há herói
Não tem Niterói
Nem São José
Dos campos, só queremos as flores
Os diegos
São josé
As carolinas
São maria
Era tudo pangeia
É tudo Adão
Tudo Eva
Confiar-me-ia às folhinhas
Se já não tivessem esvaecido os nomes meus
O que se pode, o que se deve, o que se quer
Não se pode parar os trens
Não se pode tirar o adoçante depois de pingá-lo no café
Não se pode voltar os ponteiros do relógio
Mas, não se deve?
Mas, não se quer?
Tomar um café amargo em um trem parado entre as estações pretérito e pretérito imperfeito
Gramática, política e colonização
Onde canta o Sabiá
Sem problema na garganta?
A madeira enozada
Não-catequizada
Apregoa
Cabrais e suas manias
Os dez mandamentos
Os desmatamentos
A literatura, o literal e o litoral
Ficam à gamboa
Soldados que não fazem sentido
Com passaporte liberado
Armas não fazem sentido
Passa porte no senado
Um porre à posse do burguês!
Fazer da Amazônia um substantivo concreto
É um erro de português