Lista de Poemas

Flores e rancores

Eu mal te vi e já bem-te-vi
Coisa boa de sentir
Eu mal te vi e já bem-te-vi
Canto pra você me ouvir
 
Um passarinho
Cuja cor eu nem me lembro mais
Me contou que eu fiquei pra trás
De asas cortadas, modo avião
 
Ouça, então, o despropositado desatino
Que despetala em um peteleco
Percorrendo nos seus ecos
A minha canção
 
Onde a encontro, encontro ritmo
Batuque e palma
O lalaia do Arlindo
O lelele do Exalta
 
Até Geraldo Vandré fez música a falar de ti
E eu duvido que ele te viu como eu te vi
Como eu te vejo
Enfeito as borboletas com o efeito
No Sol que raia no riso
E no canto
Cantinho esquerdo do peito
 
É o meu jeito
De não querer ficar plantado igual couve
Pois, no meu vaso, sempre coube flor
Se houve amor, colhe quem regou
 
Tipo pas-sa-ri-nhos do Emicida
O nosso amor só quer passarinhar
Mas, eu não sei o que será da minha vida
Sem o teu peito p’ra pousar

Assim como as mais belas flores
Os mais feios rancores
Também morrem um dia
 
Sendo sincero
Eu só espero,
Confio e esmero
Que, no seu peito, eu perfume alegria
19

Fly Episode

You only pass through the world once
That’s okay
But he passes you every day
 
The beauty of the desert
Breath and count to four
Went to the stadium to see a game
Other than the team I root for
 

The smell of dawn
Sabbatical spring
A magician that lets you choose any card
Except the King
 
A canvas needs to have something
Has to be more interesting than the wall
Mr. Nobody lost in an oasis
Stop wondering all
 
Two–five–one progression of Jazz
John Cage's 4'33" playing on the bus
And we only remember our memory
When it betrays us
 
Anime Filler
Thunder Thriller on the storm
“For sale: baby shoes. Never worn”
 
God and Nietzsche in an old west duel
Oh my god, Dear Friedrich
You failed and died first, that’s fuel
 
Seeing is different from viewing
Easy to say away from led
I'm too afraid to hit the shot in my own head
 
Sand Wishes
Pain Killers
Break Fast
Parnassianism stuck in the past
 
Don't riot for a minute
Let the fly infect your lab
Only when the stage is silent
You listen to the audience’s stab
 
“In order to understand the world one has to turn away from it on occasion”
Albert Camus
21

Limbo Severino

És Severino como todos os outros
És Mato Grosso, Joca, João Grilo e Chicó
És mão inchada, enxada nos ombros
Irmão das almas que lavra só
 
Porque se chamava Homem
Também se chamava “vida sofrida”
Sonhos não envelhecem
Porque morrem antes dos 30
 
Acostumou-se a pouca água e muita sede
Muito nome sem sobrenome
Deus dá o frio conforme o cobertor
Mas não o pão conforme a fome
 
E ela ainda é o melhor tempero
Não estamos famintos só de comida
Queremos diversão, arte
Menos “mortes matadas’’ e mais vida
 
A brasileiragem se confunde
Onde o saneamento nunca foi tão básico
Entre o verde, amarelo, azul
E o branco do marrom latifundiário
 
Antes “Sol” e “Dó” fossem só acordes
Assim, não tocariam juntos no sertão
Mas, o senhorio no pássaro de metal
Admira um gado novo no refrão
 
Nesse Brasil antropofágico
Operário desaba um por um
Entre a morte e a vida seca
O limbo diz “Abaporu”
 
Abaporu é um outro ângulo do Clube da Esquina
Óleo sobre tela, enxada e pinguela
Retrato da rotina
Somos Severinos… iguais em tudo na vida
Sol, cacto, pacto e uma história sofrida
 
Tarsila agraciou Graciliano
Vamos, Jõao Cabral
Mostrar que nossa cultura
Produz mais que trabalho braçal
 
Não queremos ser mais um
Atrapalhando o tráfego na contramão
Não queremos mais construir
Somos a construção
17

Até caixa de fósforo

Eu toco
Tantã
Reco reco
Cavaquinho
Banjo
Violão
Até caixa de fósforo
Mas, o seu coração…
Essa mistura de corda e percussão…
Instrumento tão notório
E não tenho em repertório
17

No meio do meu caminho

No meio do caminho tinha um Drummond
tinha um Pessoa no meio do caminho
tinha um Machado
no meio do caminho tinha um Cartola
 
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas poesias tão inspiradas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha um Neruda
tinha um Bandeira no meio do caminho
no meio do caminho tinha um Amado
13

Em nome do Amor

Como eu me chamo?
Do mesmo jeito que me amo
Ontem Lucas, hoje Dybaile… 
Amanhã nem sei

Amo meus caninos grandes
Meu nariz longo
E as marcas de expressão que expressei

Nasci assim
E aprendi que o amor próprio é como um nome
Que você aceita e cria apelidos
Com o intuito de se qualificar

Eu me amando
Fica mais fácil de você me amar
Ame-se também e verá!
13

Subtração

Se você me odiar por um segundo
Quero que me ame por 59
Se me odiar por uma hora
Me ame por 23
Se você me odiar por um dia
Me ame por 364
Se me odiar por um ano
Me ame por uma vida
 
O amor é questão de subtração
É o valor que completa
É a diferença
É o que nos resta
9

Reticentes





 
E assim ficaram
Um esperando o outro
Quem chama quem?
Transferiram a responsabilidade ao acaso
Transferiram o orgulho ao atraso
14

Morte e propósito

Minhas sinceras condolências ao
Sonâmbulo que morreu dormindo
Soldado que morreu engasgado
Careta que morreu de pneumotórax
Roqueiro que morreu de velho
Rei que morreu n'outro trono
Bombeiro que morreu afogado
Astronauta que morreu na Terra
Ao poeta que morreu de Amor
15

Um jeito de não sentir dor

Já não peço mais nada
Já não peco arrependido
Montado em um cedilha
Pra dar-lhe outro sentido
 
Um sentido que nunca foi seu
Ainda não sei o que vi em você
Na verdade, sei bem
Só finjo não ver
 
Você insiste em “bolacha”
E eu até fico confortável com “biscoito”
É que eu queria ser carioca
Mas, a palavra pouco me importa
Você deve ter votado errado em 2018
 
Nada do que vivemos estava escrito lá no céu
Quando falamos dos tempos de Barão
Você pensa em Café; eu, em Vermelho
E Cartola não é um chapéu
 
Carrão nunca foi um luxo
Sempre será a estação aqui perto de casa
Sei que adora vinho
Mas, imagine o que um rubro-negro pensa quando você diz “taça”
 
Pensando assim
É mais fácil de superar o que você deixou
Talvez essa seja só a minha maneira
De sonhar acordado
Um jeito de não sentir dor
16

Comentários (1)

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thaisftnl

Quem é Lucas menezes? o pouco que li, me deixou em frenesi, poesia branda, estou em êxtase. Abraços!

Redes Sociais: @dybaile

Talvez tenha nascido tarde demais, por não ter levado a antropofagia de seus versos à Semana de Arte Moderna, não ter vivido o folclore e a loucura de Macunaíma, não ter admirado Iracema, ou por não ter escrito um samba com Vinicius de Moraes. Talvez tenha nascido cedo demais, por ser à frente do tempo. Mas, nasceu na época certa. Trouxe a vanguarda de seus versos carregada de uma iconoclastia subversiva e, ao mesmo tempo, romântica.